08/05/2013

Hipopótamos em Delagoa Bay

por cam

hipopótamos em delagoa bay_web

01/05/2013

Ainda o Registo Civil

por cam

Registo Civil reúne os cinco livros de poemas publicados por Carlos Alberto Machado (Mundo de Aventuras, 2000; Ventilador, 2000; Mito, seguido de Palavras Gravadas na Calçada, 2001; A Realidade Inclinada, 2003; e Talismã, 2004), bem como outros tantos conjuntos de inéditos (Na Casa de Passar as Tardes, 2003-2004; Uma Pedra Sobre o Assunto, 2003-2006; O Amor. Estudos Para uma Queda, 2004; Tríptico em Negro-Azul, 2005; e Por Isso Voltarei, 2004-2006).

Registo civil. Poesia reunida 2000-2006

Registo civil. Poesia reunida 2000-2006

Ensaísta e dramaturgo, é de algum modo tardiamente que o Autor, nascido em 1954, se estreia em 2000 a publicar poesia. Viria a ser incluído na antologia Poetas Sem Qualidades (Lisboa, Averno, 2002), organizada por Manuel de Freitas, que aí refere, a propósito dos três primeiros livros, que a poesia do Autor configura uma “proposta mínima, minuciosa e não poucas vezes contundente” (p. 113). A atenção ao quotidiano, frívolo e sem saída, o seu assumido tom menor e um “humor tão corrosivo quanto desesperado” (pp. 113-114) seriam outras das características que Freitas destaca nesta poesia.

Cada um dos dez conjuntos de poemas apresentados em Registo Civil é marcado por assinalável coesão e interligação, nalguns casos reforçadas pelo agrupamento dos textos em sequências numeradas. Textos curtos, que podem até consistir em brevíssimas anotações, convivem com o verso e o poema longo. A pontuação revela-se escassa (e essa opção de escrita lembra-nos a de Ruy Belo), facto que confere maior importância ao recorte dos versos e à trama sintáctica. Estamos perante uma poesia angulosa, feita de cortes e justaposições que exigem a atenção e a marcação do leitor.

É patente a redução da escrita a uma espécie de grau zero poético, que passa pela assunção de uma linguagem menos tensa, despida de retórica, prosaica e que foge à pureza e grau de concentração que alegadamente caracterizaria toda a poesia. O Autor reconhece ser “impuro tudo o que escrevo” (p. 155) e formula a sua alternativa nos seguintes versos: “Desconheço por onde as palavras me levam / (…) / quero desfeiteá-las uma a uma arrancar-lhes / esperanças sonhadas embebê-las em venenos / sentidos da noite onde a sua matéria se inventa” (p. 80). O que designa por renovação da palavra constitui um programa que permite reconstruir o discurso poético sobre novas bases: “O próximo passo será o da decomposição / os corpos mergulhados em ácidos novos / eis como a ideia se adapta a preceito / de uma necessária renovação da palavra” (p. 81).

A poesia deveria visar a “escrever o mundo / escrevê-lo mesmo” (p. 149). Todavia, trata-se de um “nobre ofício em desuso e por isso raro / ou raro por ser de nobreza exercê-lo / ou por ser raro o mundo / de cuja nobreza / se possa escrever / ou por isso a escrita / substitui o mundo / que já não se escreve” (p. 149). Num mundo sem referências, torna-se notória a “ausência de um ponto cardeal” (p. 205). Não existindo alternativas, reduzindo-se a vida a “adiar o fim agora tão perto” (p. 46) e não havendo “mais nada para dizer” (p. 49), confessa-se que “o segredo é não existirmos” (p. 84), para se poder resistir à falta de sentido da vida.

A relação entre a escrita e o mundo ou, se quisermos, a palavra e o real, percorre estes versos. Há uma natural precedência da realidade face à escrita, não obstante o conceito de realidade se encontrar sob suspeita, desde logo perante um título como A Realidade Inclinada, mas também em versos como estes: “a mãe desmaia provavelmente / por ficar de repente sem saber / qual é o lado real / da realidade” (p. 290). A verdade é que a poesia permite inventar e criar mundo, bastando apenas um ajustamento para alinhar dois níveis aparentemente desalinhados: “Morreste primeiro no papel /uma morte tão digna como qualquer outra / estava escrito e isso é mais forte do que tudo / foi apenas uma questão de ajustar uma coisa à outra / uma cápsula de cianeto saturada de realidade” (p. 173).

Neste contexto, há também uma desvalorização da palavra e da criação poética: as palavras reduzem-se a “excrementos da alma” (p. 155), o poeta produz “lixo” (p. 153) ou cede à tentação das “palavras amestradas / p’ra oferecer no natal / ou isso ou umas peúgas.” (p. 82). Procura-se, tenteia-se uma palavra-talismã, uma palavra com “poder mágico” (p. 215), mas reconhece-se que nos recobre a “escama estéril das palavras / a mais” (p. 217). O sujeito luta “para saber a medida / desta poesia incompleta / narrativa sentimental / que somente desejaria / não precisar de palavras / substitutos ou remendos / da matéria de um corpo / em expansão noutro corpo” (p. 228).

A memória é outro pólo estruturador desta poesia. Note-se que quando se fala em memória não se fala em recuperação ou restituição. Aliás, na memória confluem factos recordados e factos imaginados, ou seja, a memória é um processo criativo. Alguns versos são, a este propósito, reveladores: “primeiro preciso que me lembre de tudo ou de quase tudo /e que me lembre desse tudo ou quase tudo ao mesmo tempo / ou pelo menos quase ao mesmo tempo ou seja umas coisas a seguir às outras / mas não muito depressa nem demasiado devagar” (p. 95). A memória e a escrita constituem um “processo de selecção e classificação” (p. 95) de lembranças que “não sossegam não param não estão quietas não se arrumam” (p. 97) e que equivalem a “inventar vidas novas” (p. 104). A memória, através da escrita, permite fechar as “falhas” (p. 107) e torna possível continuar, reinventando a cada dia o mundo, regenerando o que dele sobra da infância: “não me lembro de mais nada ou não há mais nada de que me lembrar / lembrar ou esquecer não significa apagar o passado dominá-lo / mas tornar possível não ter medo de o viver reinventando-o a todo o momento” (p. 107). É esta a lição, o “mito fundador” (p. 107) contido em Mito, o longo poema que o sujeito dirige à filha. Mas já em Livro de Aventuras, a primeira obra do Autor, assistimos também ao exercício da memória, ao “regresso a casa” (p. 9). O que se obtém nessa revisitação pode reduzir-se a “duas ou três / palavras / que falam / de uma luz / pequenina / escondida / num canto / da infância” (p. 22). A derrota é um dado, à partida. A decepção e o desânimo e o sabor amargo da vida impõem-se desde a infância: “Provei o sabor das azedas / (no campo de cebolas das competições de punhetas) / cedo demais” (p. 26); “No Inverno as chuvas queimam os rebentos / as raízes apodrecem sob os detritos e a Primavera / esconde de nós todos os anos a morte que vem” (p. 27). A abjecção e o grotesco, um universo expressionista estão patentes em numerosas passagens, nalgumas das quais nos recordamos de versos de Gotfried Benn: “Os dois ratinhos brancos / oferta do avô Domingos / decidiram passar férias / no meio de esfomeados / irmãos cinzentos felizes / por mudarem de dieta.” (p. 12)

No último conjunto, Por Isso Voltarei, há o deslocamento do espaço urbano para o território insular dos Açores. Os poemas assumem um pendor descritivo e um tom vagamente etnográfico, mas são sobretudo marcas de aprendizagem pessoal e do estabelecimento de um compromisso existencial e ético: “Um homem no alto da rocha do canto da baía / ocupa-se a inventar palavra a palavra uma ilha / tão bem inventada como qualquer outra ilha (p. 333). O “senhor manuel alves” é o principal destinatário da promessa de voltar formulada pelo sujeito e que no último poema verificamos encontrar-se cumprida: “o segredo que quero desvendar não é o da sua aguardente / por isso prometo que hei-de voltar” (p. 328); “Voltei senhor manuel alves voltei / e o senhor deu-me a honra / de dizer sim ao meu atrevimento / (…) / as minhas palavras escritas lêem-nas / os seus olhos inteiramente também / por isso voltarei sempre senhor” (p. 344). É neste tom afirmativo, de permanente recomeço, que o livro se encerra. São esboçadas as primeiras linhas de “uma teoria geral do enfado” (p. 335), mas há garantidamente maior arte na reivindicação da capacidade de inventar o mundo na desfocagem inerente a toda a poesia: “melhor assim entretanto treinarmos a outra / arte a de inventarmos os outros e a nós / com os nossos olhos míopes / oleiros do mundo” (p. 343).

José Ricardo Nunes sobre REGISTO CIVIL – poesia reunida (2000-2006), Lisboa, Assírio & Alvim, 2009. Revista Colóquio/Letras, 2010

23/04/2013

Novas Dramatugias en Português

por cam

Por estes dias chegou-me (com a ajuda simpática do Jorge Palinhos), o nº 7 da Revista Galega NÚA (Novas Dramatugias en Portugués), realizada pelos editores Jorge Palinhos, Julio Fernández e Zaida Gómez, com os autores: Maria Gil, Carlos Alberto Machado, Fernando Giestas, Ângela Carvalho Lopes, Cláudia Lucas Chéu, Luís Roberto Amabile, Isabel Fernandes Pinto, Luís Mestre, Helder Wasterlain, Diones Camargo, Hudson Andrade e Pedro Eiras.

NUAS 7Sou suspeito, é verdade, mas acho que vale a pena lê-la.

 

19/04/2013

AUSTEN, PRIDE

por cam

AUSTEN, PRIDE – Orgulho e Preconceito, de Jane Austen publicou-se há 200 anos. Serviu de base a filmes melosos e a replicações de mau gosto, popularuchas, etc. Mas eu gosto de ler esta romântica inglesa. Gosto da maldade absurda de Mr. Bennet, gosto da mais despudorada mudança de humores de Mrs. Bennet (é impagável a sua mudança para com Darcy, quando sabe que a sua Lizzy o vai desposar), gosto da impossibilidade existencial deste mesmo Darcy e da fogosidade e da rebeldia de Lizzy, gosto da má educação aristocrática de Lady Catherine e da racionalidade de quase todas as personagens, mesmo quando uma delas parece que tem a sensibilidade à flor da pela, como Mrs. Bennet. E gosto de aprender sobre a economia romanesca, sobre a rapidez dos diálogos, sobre o balancear dos ritmos; gosto de ver como se escreve umas trezentas páginas sem o pechisbeque das descrições inúteis, gosto de ver como a autora subtilmente se esconde. E, acima de tudo, gosto de ver como é possível um romance onde se cruzam histórias de amor, ser tão pervertidamente baseado no dinheiro: os dotes, as rendas, não largam as personagens.
É possível juntar na mesma estante as obras, como esta, que acreditam na literatura e no romance, com as outras, as que desacreditam na primeira e desconstroem o segundo? Parece-me que sim.

16/04/2013

EDUCAÇÃO (Hanna Arendt)

por cam

EDUCAÇÃO – Hanna Arendt considera que a educação diz respeito a todos e que não pode ser em exclusivo confiada à pedagogia porque depende de um facto inquestionável e fundamental: «o facto de que todos chegamos ao mundo pelo nascimento e que é pelo nascimento que este mundo constantemente se renova. A educação é assim é o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele e, mais ainda, para o salvar da ruína que seria inevitável sem a renovação, sem a chegada dos novos e dos jovens. A educação é também o lugar em que se decide se se amam suficientemente as nossas crianças para não as expulsar do nosso mundo deixando-as entregues a si próprias, para não lhes retirar a possibilidade de realizar qualquer coisa de novo, qualquer coisa que não tínhamos previsto, para, ao invés, antecipadamente as preparar para a tarefa de renovação de um mundo comum.» O texto é de 1957, traduzido para português por José Miguel Silva («Entre o passado e o futuro. Oito exercícios sobre o pensamento político», Lisboa, Relógio D’Água, 2006). Actual.

16/04/2013

LÉVIN, TOLSTOI

por cam

Anna Karénina, de Lev Tolstoi, não dispensa quem o lê de ficar marcado pela relação do par Anna/Vronski – e, é claro, pela complexa rede de incidências socioculturais, etc; e também, evidentemente, se deixarmos por um momento de lado as questões de natureza literária, o (árduo) ofício literário de Tolstoi. Mas eu fascino-me sempre com aquele que, de algum modo, segundo Nabokov, «mais do que em qualquer outra personagem Tolstoi se retratou»: Lévin. A luta consigo próprio, com a natureza, com o trabalho (e o fascínio) da terra, a sua corporalidade (fisicalidade teatral), a par das intensas descrições do “campo”, a sua permanente questionação de si mesmo, dos fundamentos da vida ser como é e ele de nela estar, o medo da morte e finalmente a reconciliação, tolstoiviana. Lévin é «um homem de ideias morais, de Consciência com C maiúsculo.»; um símbolo dos ideais religiosos que animavam Tolstoi. A par disto, o desenlace, que agradava a Tolstoi, do «casamento perfeito» de Lévin (com Kiti). Ou não fosse também o romance o esplêndido desenvolvimento da sua primeira frase: «Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família é infeliz à sua maneira.»

14/04/2013

Nævus

por cam

BAIÃO, ABYSMO – Gosto de livros também como objectos de arte. Muitas vezes um livro que me chega às mãos é olhado demoradamente, cheirado, acariciado, folheado de trás para a frente e de frente para trás. Depois repousa, antes de se deixar ler – o prazer final. Foi (é) assim com Nævus, do poeta Rui Baião (editora Abysmo, 2013. Gravura de Thierry Simões. Edição de 250 exemplares, numerados e assinados pelos autores. Venda exclusiva online).

«Pouco importa a ruína dos dias, / resinas, um nojo a vapor; / essas coisas tão botânicas… // De nada servem palavras / atadas a ferros, frases sem cal / ardida, páginas e páginas / de gritos à descoberta / de melhor medo.»

14/04/2013

Paisagem e Povoamento

por cam

Durante anos e anos li as palavras que Carlos de Oliveira juntou e burilou em Finisterra – Paisagem e Povoamento (Lisboa, Sá da Costa, 1978); volto sempre a elas porque são primeiras, fundadoras. Como estas:
«Traços densos sulcam o papel, tão unidos que formam uma pasta de espessura sem falhas. Cristais microscópicos de lápis faíscam, dão à superfície negra o fulgor de certos minérios. Corpos compactos, do mesmo tamanho (refiro-me aos camponeses). Gestos dum ritual perto do fim: braços que pendem, para equilibrar a marcha, pernas flectidas torneando os rochedos, dificilmente, a caminho da água.» [p.17]
«Às vezes limpo o estojo de pirogravura: mas, no metal tão estalado, a ferrugem reaparece em poucos dias e progride pelas ranhuras como o desenho duma raiz. Além disso, rasgou-se o fole de borracha: só respira cobrindo-lhe o rasgão com a ponta do dedo (se falta ar ao estilete incandescente, o fogo morre por si mesmo e o trabalho é impossível). Preocupações aliás inúteis: não me sirvo do estojo há muito (desisti de perseguir a realidade ou, melhor, cansei-me).» [p.105]
Este livro de Carlos de Oliveira poderia ter como epígrafe este excerto de Simone de Beauvoir: «Os factos não determinam a sua expressão, não ditam nada: o que os relata descobre o que tem a dizer, pelo acto de dizer.» [Balanço Final, Lisboa, Bertrand, pp.87-88].

14/04/2013

Na parte de trás do real

por cam

Quando tinha 19 ou 20 anos poucos poetas me faziam companhia. Lawrence Ferlinghetti e Allen Ginsberg faziam parte dos “eleitos” (traduzidos por José Palla e Carmo, na célebre colecção Cadernos de Poesia, da Dom Quixote). Há dias, um desconhecido facebookiano voltou a levar-me para boas companhias.

Na parte de trás do real

Na parte de trás do real
Largo da estação de San José
vagueava acabrunhado
perto de uma fábrica de tanques
e sentei-me num banco
ao pé da guarita do agulheiro.

Uma flor jazia no feno que jazia
no asfalto da auto-estrada
- a temida flor do feno,
pensei eu. Tinha um caule
negro quebradiço e uma
corola de picos sujos
amarelados – picos longos como
os da coroa de Jesus -, e no centro
um sujo tufo de algodão
como um pincel de barba usado
guardado no meio de coisas velhas
na garage há mais de um ano.

Flor, flor amarela, e
flor da indústria também,
flor forte agreste e feia,
mas flor de qualquer modo,
com a forma da grande rosa
amarela do teu cérebro!
Esta é que é a flor do Mundo.

Allen Ginsberg, do volume Howl and other poems, em Uivo, trad. José Palla e Carmo, Lisboa, col. Cadernos de Poesia, Dom Quixote, 1973 (p.41).

14/04/2013

Uso e gasto

por cam

Boneco InezHá uns anos, a minha filha, ainda criança, fez-me ver a diferença entre uso e gasto: a propósito da sua diferente manipulação de um clip e de um agrafo.

08/03/2013

O território da memória

por cam

As palavras de R. Lino em “Paisagens de Além Tejo” (1) podem ser lidas como uma «visão do mundo colhida do interior do ser», uma «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)» (2).

R Lino_paisagens de alem tejo Se o termo não tivesse colado a si tantas interpretações equívocas, diria que se trata de uma etnografia, porque esta é uma poesia que se coloca deliberadamente no terreno, permitindo que ele a questione, mas, ao mesmo tempo, questionando-se: uma etnografia intensa em que os resultados são filtrados pelo ser da poeta (o «interior do ser»), que está na paisagem em dois tempos diferentes: o de «[…] um tecto, uma cadeira, um corpo / que se imprevista, uma estrada mais vereda…» (poema “1” de “um círculo”), ou o da memória que indaga, revela e transfigura as “paisagens”, a sua «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)»: «[…] há paisagens que prevalecem: / umas sobre as outras / na voz vária que as apresenta» (poema “14” de “outro círculo”). No poema, dá-se a união da matéria da terra (a paisagem, em sentido amplo) com a matéria do dizer, em mútua interrogação e contaminação (a memória não é a única “máquina” transformadora da paisagem). E também embate: como se o poema resistisse ao poema, isto é, ao processo de metamorfose de uma paisagem em outra paisagem – «Tenho de construir hoje esta planície.» (poema “7” de “um círculo”) –, em que a mínima perda é um passo perdido ou ferida insanável. «Percebo agora essa febre: / pouco mais me segura. / O sacrifício às palavras / é um exercício voraz / em que portos se procuram. / Escreve-se; escreve-se a tinta / sobre um tempo que dirá… / É um exercício voraz / tornado próprio em seu destino.» (poema “3” de “um círculo”). «De que texto somos as variantes?» (poema “4”, ibid.)
 A poesia de R. Lino neste tão singular livro é intensa; dizendo de outra maneira: concentra poderosamente a força e a violência que advêm da “geografia” e do esgaçar da memória, numa serena e delicada mutação em palavras – implodem e espalham a sua força pelo interior, sem o estrondear do definitivo (mortal).
Com cada livro de poemas, aprende-se de novo a respirar (como a um corpo amante): e é o prazer de dizer o poema como nosso, deixar de existir entre a sua respiração e a nossa qualquer diferença – ler assim, por exemplo: «Também gosto de saber / incontáveis pormenores: reproduzir o silêncio / com toda a gente lá dentro. / […] Às vezes enjoam-me um pouco / os gestos enumerados, os sítios das horas passadas / numa intempestiva ocupação dos corpos.» (poema “11”, ibid.)

Notas

(1) O livro é de 1986, das edições Rolim, col. Ilhas, com ilustrações de Graça Pereira Coutinho.

(2) O poeta Jorge Fazenda Lourenço escreveu sobre “Paisagens de Além Tejo”, de R. Lino, no Cartaz do Expresso (21 de Fevereiro de 1987): são dele as expressões «visão do mundo colhida do interior do ser» e «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)».

Declaração de interesse: publiquei na colecção “azulcobalto” que dirijo na Companhia das Ilhas, um livro de R. Lino, “Baixo-Relevo, em Fevereiro deste ano.

14/12/2012

Entrevista na rua de baixo

por cam

Nas Ilhas, o que não falta é boa companhia

Entrevista com Carlos Alberto Machado

A vida de Carlos Alberto Machado encontra-se, desde muito cedo, ligada ao mundo da cultura. Aos 15 anos já se dedicava à animação cultural e ao teatro, tendo mais tarde encenado alguns espetáculos, escritos por si ou em colaboração. Além de professor é autor de diversos livros, reunindo também uma participação dispersa por jornais e revistas, algumas das quais criou e dirigiu. Juntamente com Sara Santos fundou, em Maio do ano passado, a Companhia das Ilhas, que se dedica a editar livros e a um sem número de coisas.

Falámos com Carlos Machado, morador nas Lajes do Pico (Açores) desde 2005, para saber mais sobre esta (boa) Companhia. A partir de agora, e além do chá, das baleias e das paisagens de fazer o coração entrar em sobressalto, os livros – e os cadernos de notas – também passam a ser imagem de marca dos Açores.

Nas Ilhas, o que não falta é boa companhia

A Companhia das Ilhas parece assemelhar-se a um vasto universo que inclui escritores fantasmas, livros onde o humor corrosivo, a poesia e a ironia marcam presença, cursos de escrita ou uma loja que oferece magnéticos circulares, colecções de postais e blocos de notas, todos tendo os Açores como inspiração. Em quatro parágrafos gordos, o que é a Companhia das Ilhas e o que tem para oferecer?

A Companhia das Ilhas nasceu para prestar serviços e criar produtos em áreas que se complementam: imagem, escrita, impressão e edição. E com uma componente, que queríamos mais relevante, de assessoria de comunicação e cultura. O projecto editorial já fazia parte dos nossos propósitos iniciais, mas, em Maio de 2011, ainda não era sentido como premente. Trabalhámos, e trabalhamos, nessas áreas, e até procuramos que sejam mais produtivas, mas resolvemos, digamos, adiantar o projecto editorial – e é ele que tem tido, desde Junho deste ano, maior visibilidade. A edição de livros corre paralela com a criação e edição de materiais de merchandising cultural, tendo, apenas neste caso, uma vertente exclusivamente açoriana, para já.

Temos um particular gosto pelos livros, diria paixão, se a palavra e o que ela envolve não estivessem tão banalizadas, ao nível do lixo mediático. A Companhia das Ilhas-editora, no actual panorama da edição em Portugal tem afinidades com alguns outros projectos, tanto por razões de dimensão (micro, familiar) e independência (a todos os títulos), como pela sua política editorial, desalinhada de modas e que não tira senha para se pôr nas filas de grupos de gosto (e outros). A sua singularidade ancora-se na natureza da sua localização geográfica: a vila das Lajes do Pico (cerca de 300 habitantes), ilha do Pico (cerca de 15.000 habitantes) – mas não fazemos disto bandeira de nenhuma corrida ou festa. Nada impede o projecto de estar aberto ao mundo – antes pelo contrário.

As edições da Companhia das Ilhas são de pequeno formato e com reduzido número de páginas. Como não é um figurino, não precisou de costureiros. Os autores, os “géneros” e as colecções são escolhas de gosto pessoal (critério tão bom ou tão mau como qualquer outro). Articulam-se com a opção de editar “géneros” negligenciados por grande parte das editoras portuguesas – poesia, teatro, conto. Os preços baixos são uma opção complementar de política editorial e não um estratagema comercial (o que implicaria a subalternização de textos e de autores, como tantos por aí fazem). Esta política agiliza a edição e passa ao lado das máquinas (demasiado) bem oleadas do mainstream (e de algumas pretensas margens). Algures entre o panfleto, o artigo de revista e o “folhetim” está um livro Companhia das Ilhas.

A Companhia das Ilhas é ilha em muitos sentidos, mas uma ilha movente que deita âncora aqui e ali: livrarias (reais e virtuais), formas várias de distribuição e venda (mas atenta às perversidades do sistema e sempre pronta a zarpar para outras geografias menos tentaculares).

Nas Ilhas, o que não falta é boa companhia

Quais as principais motivações que levaram à sua criação?

Somos uma micro-empresa familiar. Fazemos agora com a Companhia das Ilhas aquilo que, em outros tempos e de outros modos, fizemos individualmente ou em colectivos.

Que balanço faz destes primeiros dezanove meses de vida?

Em 2012 editámos 11 títulos – 4 de poesia, 1 de teatro, 1 de crónicas e 5 de ficção, sendo dois destes de um género situado algures entre a micro-história e o aforismo – com quase 3.000 exemplares impressos, cerca de metade deles vendidos. Realizamos uma oficina de BD, ilustração e argumento. Prestámos alguma assessoria de comunicação, e coisas avulsas. Estamos contentes mas insatisfeitos.

Como é ter o coração da Companhia nos Açores? Isso dificulta de algum modo a forma de trabalhar e de estar no mercado editorial?

A Companhia das Ilhas é açoriana por circunstâncias complexas. Sempre que editamos autores açorianos, fazemo-lo porque gostamos desses autores (alertando para que sabemos diferenciar percursos, saberes e capacidades) e também porque gostamos de mostrar caminhos já feitos mas que têm a ganhar se forem vistos sob olhares renovados. Aqui, nos Açores, é obviamente uma vantagem editar temas e autores açorianos – a todos os níveis. Fora daqui, depende.

Nas Ilhas, o que não falta é boa companhia

Em termos literários, a Companhia das Ilhas oferece uma grande diversidade, como monólogos teatrais – “Bela Dona e Outros Monólogos”, de Pedro Eiras -, pensamentos fragmentados dedicados ao felino doméstico – “A Minha Gata”, de João Paulo Cotrim – ou um retrato do quotidiano através da poesia – “Às Vezes é um Insecto que faz Disparar o Alarme”, de Nuno Costa Santos”. Diria que apesar dessa diversidade há um fio condutor entre as obras? E como podemos destrinçá-lo – ou nomeá-lo?

Quando alguém que não conhecemos nos envia propostas de edição dos seus originais, respondemos invariavelmente que não fazemos julgamento de livros e de autores, não temos queda para juízos e juízes (“marajás”, parafraseando o Eduardo Lourenço). Somos de gostos fortes, de impulsos, intuições e de costela anarquista. Já lemos uns quantos livros, o que poderá ajudar. Há quem goste de se aconchegar aqui, outros não. É assim a vida.

Há uma colecção denominada “Terra Açoriana” e outra baptizada de “transeatlântico” – que gira à volta dos Açores, da África Lusófona e do Brasil -, para a qual estão em preparação três lançamentos de autores açorianos. Podemos ver a Companhia das Ilhas como uma rampa de lançamento para autores nascidos na Atlântida açoriana?

Temos também a “azulcobalto” – e vamos ter mais. A relação privilegiada com outros arquipélagos e com o dito mundo lusófono não resulta de uma colagem a um certo air du temps (tantas vezes de má consciência), mas é a efectivação de certas vivências e cumplicidades. Queremos ter com quem escreve uma relação franca, independentemente de geografias, etc. Se alguém desejar “rampas de lançamento”, tem todo o direito de o fazer.

Nas Ilhas, o que não falta é boa companhia

A par dos livros, a loja on-line da Companhia das Ilhas oferece objectos inspirados pelos Açores como as colecções de postais sobre as Festas do Espírito Santo ou a caça à baleia, os magnéticos com motivos da natureza e da cultura local ou os cadernos de notas que farão inveja a muito bom moleskine. Como têm sido olhados estes objectos pelo público e de que forma é importante esta componente comercial para a editora?

Os nossos cadernos de notas QuickTour (marca registada que fazemos em parceria com a Milideias) são um pequeno sucesso. Vamos trabalhar mais nesta área (por enquanto, apenas com referência aos Açores e à sua história e cultura).

O que nos vai trazer o ano de 2013 para a Companhia das Letras? Pode revelar-nos já alguns lançamentos futuros?

Temos muitos compromissos, alguns sem data. Se não surgir nenhum “tsunami”, editaremos em estreia absoluta um livro de poemas de Madalena C. Campos, outro do poeta Helder Moura Pereira, os moçambicanos Luís Carlos Patraquim, também com poemas, e, com estórias, o José Pinto de Sá. Os açorianos Urbano Bettencourt, poesia, Rogério Sousa, ficção. O brasileiro Luís Maffei, poesia. De Espanha (Canárias), poesia sobre Lisboa de Ricardo Pérez Piñero. Um texto teatral do Rui Pina Coelho. Uma nova colecção, “Viageiros”. E uma colecção sobre músicos açorianos, com direcção de José Manuel Bettencourt da Câmara, que se inicia com um volume dedicado a Francisco de Lacerda. E muita coisa sobre os museus açorianos.

Vive nas Lajes do Pico desde 2005. De que forma alterou essa mudança geográfica a sua forma de escrita e de relação com o mundo (humano e natural)?

Escrevo sem geografia (acho…). Mas os locais, as pessoas e tanto mais, aqui como em qualquer outro lugar no mundo, não me deixam muito optimista quanto ao futuro da humanidade. E gosto de crises.

É DAQUI

14/12/2012

10 + 10 de 2012

por cam

Neste ano que está quase a acabar li umas boas dezenas de livros, embora a maior parte deles editados em outros anos. Para partilhar, mas também para minha própria memória, eia uma lista de livros que mais me tocaram (excluo os 11 livros editados na Companhia das Ilhas): 10 de 2012 e 10 de outros anos, mas lidos, relidos, em 2012 (ordem alfabética de nome de autor).

» 10 de 2012

Fraga da Silva, A besta, Direcção Regional de Cultura dos Açores (novela)

Inês Fonseca Santos, As coisas, abysmo (poesia)

Inês Lourenço, Câmara escura, Língua Morta (poesia)

Miguel-Manso, Um lugar a menos, ed. autor (poesia)

Nuno Dempster, Elegias de Cronos, artefacto (poesia)

Nuno Moura, Prémio Nacional de Poesia, MiaSoave (poesia)

Primo Levi e Tullio Regge, Diálogo sobre a ciência e os homens, Gradiva (ensaio em forma de conversa?)

R. Lino, Predação: urânia, nós e as musas, ed. autora (poesia)

Rui Almeida, Caderno de Milfontes, Volta d’Mar (poesia)

Valério Romão, Autismo, abysmo (romance)

 » 10 de outros anos

Camilo Castelo Branco, Mistérios de Lisboa (romance)

Charles Dickens, Os Cadernos de Pickwick (romance)

Claudio Magris, Danúbio (romance, livro de viagem, ensaio…)

David Lodge, A consciência e o romance (ensaio)

Eduarda Dionísio, As histórias não têm fim, Cotovia (romance)

Helder Moura Pereira, Se as coisas não fossem o que são (poesia)

João Miguel Fernandes Jorge, Lagoeiros (poesia)

João Paulo Cotrim e António Cabrita com ilustrações João Fazenda, O branco das sombras chinesas, abysmo (novela)

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa (poesia)

Rui Tavares, O grande terramoto (história)

14/12/2012

Os trabalhos e os dias

por cam

1. Há cerca de um mês, mas hoje em especial, tenho-me debatido com a burocracia da Segurança Social – trata-se de minha mãe, quase com 80 anos. No meio do desespero, da teia burocrática e da malha de burocratas (que apenas o são por prazer masoquista), uma voz ao telefone (que pena não estar próximo para lhe dar um sorriso e, se possível, um abraço de afecto), que se esteve nas tintas para as regras e, sem estar contaminada pelo vírus masoquista, procurou resolver uma situação – que, no fundo até era simples.

2. O suplemento Ípsilon, do jornal Público, descobre todas as semanas um génio português do romance. Quando por aí o orgasmo não tem possibilidade de acontecer, procura o “jornalista cultural” prazer idêntico no louvaminhar de um sujeito qualquer, pago a peso de ouro (ele o “jornalista”/jornal) por qualquer “major” da edição.

 3. Leio, absorvidamente, e com o peso da emoção a pôr à prova a resistência do meu “fabile” coração (emocional e intelectual), uma das mais geniais e ignoradas autoras de escrita em Portugal: Eduarda Dionísio que herdou do pai, Mário Dionísio, a excelência intelectual e a recusa pelas lusas luzes do show business (cada um à medida do seu tempo, obviamente).
 
4. Existem em Portugal um patrões da poesia, armados de ferrão sempre pronto a aniquilar os outros. Herdaram (biologicamente) antigas práticas terratenentes, mas refinaram. Queimaram a terra à sua volta e agora reinam sozinhos. Bom, não é bem verdade, ainda subsistem uns quantos caquécticos a quem estes, mais novos, fingem prestar vassalagem; e uns outros, muito poucos, eles mesmos terratenentes, de outro tempo e de outra matriz, que resistem – mas com fim inexorável à vista. Os actuais poderosos, por qualquer razão certamente atribuível à demência congénita, continuam de atalaia e disparam cegamente sobre quem, na sua percepção distorcida, pareça colocar em perigo o seu reino. Para quê?: não se entende! Editam livros, são críticos em jornais poderosos, criam revistas, bares e livrarias. Quem quiser entrar na luta e, como eles, vingar, é só seguir a cartilha – há mais de dois séculos que tem resultados garantidos (mas fica sempre alguém de fora, ainda bem).
13/11/2012

UM HOMEM A RESOLVER-SE

por cam

Ter nascido aqui e não ali dá a cada um de nós um princípio de identidade. Mais tarde vem o nome. Até o percebermos como nosso, como um privado primeiro sinal de identidade, ou marca que nos distingue dos outros, aprendemos imensas história de família, e sempre nós no centro de cada episódio. “Tu, quando vivíamos lá por aquelas fragas, tinhas o quê, uns três anitos?, pregaste-nos cá um desassossego logo que gatinhaste por ali abaixo em direcção ao mar revolto, Virgem Maria!” E sempre assim. As histórias, que mais tarde, ao longo da vida até morrermos, filtramos, mercê de tantas contingências, nos vão fazendo aquilo que somos – e nunca num momento desse devir somos iguais a outro momento, que se siga ou já tenha existido. Quer isto dizer que aquele primeiro momento e local de nascimento e mais as histórias de que fomos sendo protagonistas ou actores secundários, tudo isso só existe porque, momento a momento da nossa vida, aceitamos uns factos, recusamos outros, transformamos tudo a nosso bel-prazer (e forçadamente, o que não é, em rigor, a mesma coisa).

Adornei as palavras da forma mais simples de que fui capaz, mas eu sabia que o esforço seria em vão. De maneira que as palavras ficaram na cabeça, que é como quem diz.

O presente vai deixando de o ser, o que não sabemos é a altura exacta a partir da qual é legítimo chamar-lhe passado. Talvez seja melhor dizermos: o tempo passou. Ou: o tempo cresceu, aumentou, então…

O mestre Nemésio regressou à sua ilha Terceira 30 anos depois de ter rumado ao Continente. Em 1946, a estadia foi curta, mais prolongada a de 1955. Voltou, dizia, para se «resolver por escrito». Mas poderia alguém ter dúvidas que o homem, já em idade de gente, ainda havia de lhe sobrar passado por construir? Sobrava, sim senhora. Os seus dois regressos foram para volver-se a olhar para dentro, mergulhar no fundo de si mesmo. «O passado vale duas vezes o presente… Uma – porque vale o que foi, exactamente quando era; outra – porque torna a valer esse valor quando o puxamos à memória, agora que não é precisamente senão aquilo que foi.» Belas palavras estas as da herança por ele lavrada no Corsário das Ilhas, livro de memórias, de viagens (interiores, disse alguém), ou, digo eu, um jogo bem ao jeito dele, o de deixar-se ir construindo-se, palavra por palavra, à frente dos nossos olhos espantados. “Então, afinal, o homem precisou desse tempo todo para saber bem onde nasceu, com quem se fez, que vida levou, e como tudo isso lhe ficou na alma?” Pois, se calhar… Aquele seu «Se bem me lembro» foi fina ironia, hem?

“Credo em cruz, home’, o que aí vai de confusões! Sou açoriana da Ponta da Ilha do Pico, não se vê logo? Isso é coisa malina de teres estado tanto tempo lá fora a estudar.” “Mas olhe que o Nemésio…” “Deixa-te disso e vai-te à deita que já é muito tarde, vê lá se já te esqueceste que amanhã é o teu avô que leva a Coroa!”  

Crónica publicada na revista Azorean Spirit, da SATA, nº 52, 20 Outubro - 20 Dezembro 2012 (pp. 80-82).  

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