Posts tagged ‘Portugal’

03/08/2012

A solidez da oficina e não só

por cam
Do Cabrita, com a mais do que devida vénia:
« Mais um “quatro estrelas em cinco” foi atribuído a um livro meu, na curta mas bem dominada crítica de Hugo Pinto Santos ao meu livrinho de contos Ficas a Dever-me uma Noite de Arromba. Pode ler-se aqui .

O que importa registar é que com tal acumulação de “quatro em cinco” nos últimos anos eu devia viver na Califórnia e ter dois dobermans no jardim. Prescindo bem da Califórnia. Mas já mói o que Hugo Pinto Santos repara no seu texto: «Poeta, ficcionista, ensaísta, António Cabrita editou (só em 2011) um título em cada uma das áreas, respectivamente Não se Emenda a Chuva, O Branco das Sombras Chinesas (outro “quatro estrelas em cinco”), e Respiro (faltaria aqui o meu romance no Brasil, nomeado para finalista da Telecom, e que vai ser editado pela AbYsmo). Que essa produção tenha sido acolhida com um silêncio quase total, eis o que se pode lamentar ou tentar inverter.» Não há nada a inverter. Não creio que Portugal possa ser um país menos mesquinho, menos desatento, menos cretino, mais justo do que é. Vejo as dificuldades com que o Carlos Alberto Machado vive no Pico, sendo talvez o dramaturgo da sua geração, e com a gaveta cheia de excelentes inéditos de ficção que não consegue colocar, vejo como rebolam todos agora diante do Rentes de Carvalho quando o silenciaram durante décadas e só porque felizmente agora o Rentes agora publica numa editora que conquistou uma boa relação com os media (se os “mesmos livros” do Rentes saíssem, por exemplo, na Afrontamento permaneciam no mais absoluto limbo), vejo como o Grabato Dias, um génio, continua a ser absolutamente desconhecido, sem que ninguém morra de vergonha por isso, vejo como o Manuel da Silva Ramos, uma das maiores imaginações-em -acto que conheci na vida (e já conheci algumas) continua a ser menosprezado, vejo como o Paulo José Miranda, o primeiro Prémio Saramago, e um talento total, tem tido uma carreira absolutamente acidentada apenas porque editou os primeiros livros na Cotovia, editora que nunca acolheu as preferências dos media apesar dos bons livros que editava, vejo como o Henrique Fialho continua sem editora para a sua produção profícua e inteligentíssima – e sei: nada há a esperar de um país cujos azimutes são subterrâneos. Até ao fim de ano tenho mais dois livros para sair, dois em Moçambique: «Para que Servem os Elevadores e outras indagações literárias», ensaios, pela Alcance, e «Inventário de Todos os Passos em Falso», uma antologia poética, também pela Alcance. E preparo, com essa excelência oficinal que o Hugo Pinto Santos me atribui, e cito: «Estas ficções de ambiência moçambicana, com personagens de carne e osso, distinguem-se pela disciplina da frase e pela boa gestão dos recursos à disposição – “O mar é o grampo que segura aquela casa de madeira à duna”. Dir-se que “grampo” é a palavra chave mas a chave deste como de outros achados de António Cabrita está antes na solidez da sua oficina, e não em qualquer truque isolado». Fico contente que ele note, que por detrás da transparência da escrita as articulações sejam sólidas. Ainda que pense que esta mesma solidez seja o que assusta quem prefere silenciar-me. Não tem mal, com a consciência oficinal que adquiri e a certeza de uma grande disciplina no trabalho sei que preparo para o ano que vem uma fornada de “cinco em cinco”, porque quando se persiste e não se deixa o talento à deriva é natural que as coisas cresçam. Vai ser tudo publicado no Brasil. Portugal que se foda. Entretanto, chama-me a Jade da banheira: «Bela Adormecida, chaleira…» (em Moçambique não é líquido que os elevadores ou os termo-acumuladores funcionem), e repisa, visto que não lhe respondo logo, «… então, Bela Adormecida, a chaleira…». Tenho uma filha de cinco anos que me chama – por carinho, não por desrespeito – Bela Adormecida. Melhor coisa não há… é isto e a escrita. »

22/06/2012

EPITÁFIO

por cam

Quem conhece Carlos Mota de Oliveira? Em 1973 editou “Isabelarcoirisdovinho”, edição de autor – livro esgotado. Seguiram-se mais de 30 obras de poesia – sim, de poesia –, algumas delas sob os nomes literários de Ana de Sá e José Bebiano. Muitas delas esgotadas.

Eu, mea culpa, também não conhecia a poesia de Carlos Mota de Oliveira – até há poucos dias. Por um acaso, chegaram até mim 5 obras: “Uma chávena de café que saiu do Tejo na manhã do dia sete de Julho de mil oitocentos e setenta e oito e nunca mais voltou”, “Os poetas adoram massagens”, “Ao cair subtil da tua saia”, “O mar português não sabe ler”, “Os portugueses são imbatíveis no terço” (todos edição de autor, 2011, produção milideias.pt). Cinco pequenos livros. No formato – 11×15 centímetros – e no número de páginas – de um mínimo de 14 a um máximo de 96. Se procurarem na net, poderão ficar a saber que Mota de Oliveira nasceu na cidade de Lisboa em 1951. Chega, digo eu, que isto de biografias pouco contará para o mérito ou demérito do poeta, deste ou de qualquer outro.

Deveria ter começado por escrever que me consolei a lê-lo (esta é para os açorianos, em particular os lajenses, que tão saborosamente usam o verbo “consolar”!). Este senhor poeta Mota de Oliveira tem uma peculiar maneira de usar as palavras. Nestes pequenos livros, impressos em papéis de cor forte, a gosto do autor, fica a louça toda partida. Mas não por um elefante desajeitado em loja atafulhada, mas sim por delicadas mãos (e o resto), meticulosamente, notam-se umas pequenas hesitações, nada de especial, e depois, tumba! (não, não é pimba!). A ironia (cáustica, logo corrosiva, inteligente, logo cáustica) atravessa estes livros do poeta: “O teu candeeiro ladra como ladram / todos os candeeiros do mundo / e como ladram os cães em Portugal. Na realidade, posso ver poesia / em quase tudo / e nunca ninguém me impediu / de ficar nos teus lençóis / sem ter onde dormir.” (“F”). Ou este “EM LOUVOR DE CAVACO SILVA” (que irresistivelmente lembra o Cesariny de “Os anos felizes” ou de “Investigação semântica”): “Eu boliqueimo-me / Tu boliqueimas-te / Ele boliqueima-se / Nós boliqueimamo-nos / Vós boliqueimai-vos / Eles incendeiam-se!” Em JANTARES, longo poema de quase 70 páginas, Carlos Mota de Oliveira implode a baboseira dos “barões” da política. Um cheirinho: “Camaradas / e / amigos  // acaba de entrar / na sala / o Doutor Soares // sempre real / cheio / de casta // de boa / raça // sem erupções / cutâneas  // pulquérrimo / pulquérrimo // e português / português / e português! / Pois é, pois é, / camaradas, / acaba de entrar // sem virar  / a / cabeça  // sem virar / uma esquina / sem virar-se / no leito / sem virar / um copo de vinho / e português / português / e português!” O verso curto, saltitante, ondeante, com uma sobrevalorização que lhe advém também das repetições, como ficaria bem ele na voz de um grande actor ou numa música à rés do corpo de um Caetano Veloso.

Diz o próprio, na sua página web, que “faleceu a 06/06/2011 barbaramente trucidado por uma automotora na estação de Alcântara”. Daí o que, ainda vivo, escreveu na última página do seu “Os poetas adoram massagens”:

INSCRIÇÃO TUMULAR

Carlos Mota de Oliveira

Protegido pela Securitas

04/02/2012

MEXIA E AS COISAS

por cam

Pedro Mexia, Suplemento Actual/Expresso, 4 de Fevereiro de 2012, sobre As Coisas, de Inês Fonseca Santos.

27/01/2012

ATÉ À VITÓRIA FINAL!

por cam

Em 1999, José Pacheco Pereira iniciou a publicação de uma biografia política de Álvaro Cunhal. Continuou, em 2001 e em 2005. Os três volumes totalizam 2.117 páginas. Cronologicamente, o volume terceiro terminou no ano de 1960, e Pacheco Pereira já anunciou que este ano publicará o quarto e último volume, dedicado, depreende-se, ao período que decorre desde a saída da prisão até ao final da vida do dirigente comunista, que ocorreu em 13 de Junho de 2005.

Só nestas últimas semanas me dediquei a ler a obra. Já outros o disseram: o trabalho de Pacheco Pereira é monumental, rigoroso, minucioso, sério, etc., etc. Toma como centro vital o militante e dirigente comunista Álvaro Cunhal, nas suas diferentes facetas, mas é sobretudo uma história do PCP e da oposição política ao regime de Salazar (o que está publicado, o que vier, será, naturalmente, da oposição ao regime liderado por Caetano). Não apenas a história do PCP mas de todos – indivíduos e grupos – os que tiveram presença e voz na maior parte da nossa vida no século XX. Um panorama impressivo e impressionante deste tempo. Isto que digo não é novidade, mas creio que nunca será demais repeti-lo.

A biografia política de Álvaro Cunhal feita por Pacheco Pereira tem tido a companhia de inúmeras investigações históricas (e não só) que revisitam o nosso passado desde, principalmente, a revolução liberal de oitocentos até aos nossos dias, a par de outras que abrangem outros períodos, mesmo de maior amplitude, como são as várias histórias de Portugal recentemente publicadas ou em vias disso. Significa isto que temos cada vez menos desculpas para continuarmos levianamente acomodados sobre ideias feitas acerca de nós – Portugueses coisa e tal, a maioria das vezes vilipendiados. São pontos de vista historiograficamente distintos, por diversas razões, mas une-os a necessidade de olhar para nós como povo, nação, o que quer que seja, sem pontos de partida condicionados ou, sendo-o, mostrados às claras. Com a frontalidade de estudar a vida e obra de um Salazar ou de um Cunhal por pessoas que declaradamente não estão do lado da simpatia, ou se estão nas tintas para isso.

Hoje, ler e estudar de novo a nossa história sem ideias preconcebidas é, creio, um exercício fundamental de cidadania.

Mas eu queria era falar do livro do Pacheco Pereira. Há nele muitas, muitas coisas sobre que reflectir, mas, por agora, limito-me a uma delas: na vida do PCP, e dos seus principais dirigentes, foi predominante, a par de um genuíno espírito de missão em defesa dos mais desprotegidos socialmente, um desfasamento essencial com a realidade e, por coerência, sucessivos e repentinos volte-faces, uma estratégia para fazer das derrotas vitórias, das inimizades amizades, etc. Quando não era a realidade que se enganava, dizia-se que afinal “nós já o tínhamos dito, feito”, etc. Num período mais próximo de nós, Álvaro Cunhal transformou um golpe militar bem sucedido numa “revolução democrática e nacional”. E o pior é que isto não se pode colocar sob o chapéu do tacticismo, não, tem raízes profundas, é uma maneira de ser, um estado de espírito, conceitos ideológicos arreigados até ao apodrecimento. E o livro de Pacheco Pereira tem, entre muitos outros méritos, o de nos fornecer farto material de reflexão sobre isto.   

15/01/2012

DESACORDO ORTOGRÁFICO

por cam

Pedro Mexia assina este Sábado no suplemento A(c)tual do Expresso uma excelente crónica sobre o Acordo Ortográfico: coloca as questões pertinentes, de forma lúcida e inteligente. Com a devida vénia, posto:

ANTIGA ORTOGRAFIA

15/01/2012

POESIA 61 HOJE

por cam

Recebi do Brasil, na Sexta-Feira 13, o livro colectivo, organizado por Jorge Fernandes da Silveira e Luís Maffei, Poesia 61 Hoje, da Oficina Raquel (Rio de Janeiro, 2011). Obrigado, Raquel. Obrigado, Luís.

Eis o Prefácio e Sumário:

31/12/2011

12 LIVROS

por cam

Desde Outubro de 2007 anoto os livros que leio. Este ano, registei 60, de diferentes dimensões e tempos de leitura – e de diferentes anos de edição (alguns deles em releitura). Deixo aqui a lista das 12 preferências, por ordem alfabética do nome do autor/organizador:

» António Cabrita e João Paulo Cotrim, O Branco das Sombras Chinesas, Abysmo (2011)

» Armando Silva Carvalho, Anthero, a Areia e a Água, Assírio & Alvim (2010)

» Ascêncio de Freitas, A Paz Adormecida, Caminho (2003)

» Ernst Gellner, Linguagem e Solidão. Uma interpretação do Pensamento de Wittgenstein e Malinowski, Edições 70 (2001)

» Fernando Rosas e Maria Fernanda Rolo, (orgs.), História da Primeira República, Tinta da China (2010)

» José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política, Temas e Debates (3 vols: 1999, 2001 e 2005)

» Manuel de Freitas, A Perspectiva da Morte. 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, Assírio & Alvim (2009)

» Miguel Morgado, Autoridade, Fundação Francisco Manuel dos Santos (2010)

» Natália Correia (org.), Antologia de Poesia Erótica e Satírica, frenesi/Antígona (1999, 1ª ed: 1965)

» Rui Ramos (coord.), Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal, A Esfera dos Livros (2010, 4ª ed.)

» Thomas Pynchon, Vício Intrínseco, Dom Quixote (2010)

» Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, IN-CM (1998)

"Respiro", ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011

20/12/2011

CABRITA NO BRASIL, A SÉRIO…

por cam

O crítico brasileiro Nelson de Oliveira classificou “A Maldição de Ondina“, do António Cabrita, edição brasileira LETRASELVAGEM, de “ÓTIMO”, no Guia da Folha de São Paulo – um dos maiores jornais do Brasil e cujo Guia é de uma enorme importância na divulgação literária.

Fica aqui a reprodução da Folha, com o orgulho que dá saber que os nossos amigos vêm o seu trabalho reconhecido:

07/12/2011

PÉROLAS SOARISTAS

por cam

MAO, MAOISTA!

«P: Inclui Mao Tsé-tung na lista das grandes figuras?

R: (…) Era maoista, no sentido rigoroso do termo. Era um ditador. Eu não gosto de ditadores.»

(revista LER, 108, Dezembro de 2011, entrevista conduzida por Carlos Vaz Marques, pg. 30)

É OBRA!

«P: Pressente-se que aconteceu qualquer coisa que o impediu de escrever

R: Foi em Piediluco que os meus dois filhos me deram a triste notícia do falecimento do meu pai (…). Não entro na minha vida pessoal. Sou um marido com 62 anos de casado.

P: É obra

R: É, realmente.»

(Id, pg. 86)

02/12/2011

OU TALVEZ UM CHAPÉU NOVO…

por cam

Na semana que antecedeu a última greve geral convocada pelas duas centrais sindicais, durante o dia e no rescaldo da dita, derramaram-se razões pela imprensa e pela Internet. Razões, eficácia, contexto e incidentes (previstos e acontecidos). Etc. Cada qual defendeu a sua fazenda, engenho, sanzala, machamba, quibbutz, kolkoze, a sua quinta ou quintal – mas aqueles que não têm nada disto, ficaram em casa. Muitos destes, é bom lembrar, para o ano continuarão a ficar em casa (se ainda houver), sem sequer ver televisão, porque vinte ou trinta euros para aceder à nova TDT fazem muita falta, ou nem existem nos seus bolsos. E serão, infelizmente, cada vez mais.

Sob o chapéu da greve geral, esteve o ritual, por exemplo. Um ritual de negação da ordem existente, prenunciador, se não despoletador, de uma ultrapassagem da brecha social que a crise financeira & tal agravou. Ou talvez não. Talvez falte a este ritual a sanção comunitária (antropológica, não a da UE…), condição sem a qual o ritual não passa de uma imitação formal, vazia de sentido. Talvez não saibamos. É um assunto que antropólogos e sociólogos fariam bem em trazer para o debate público (para além da assinatura de “manifestos”). Identificar problemas, debater ideias, sugerir soluções.

Sob o chapéu da mesma greve geral, respeitando ou não a “linha justa”, esteve a ideologia “sacada” aos avós, aos cotas. Com mochila repleta dos gadgets de moda, os habituais filhos-família radicais. Agora temperados (no sentido culinário), com ambientalismo e ideias pós-civilizacionais & outras. Quem, como eu, distribuiu propaganda ilegal, fez pichagens, fugiu à polícia de choque e passou noites borradas com medo da PIDE e da prisão, e que depois “fez” o 25 de Abril, tudo isto não parece mais do que uma versão patética de um passado recente que faliu (aqui e em todo o mundo). Estas supostas ideologias cheiram-me agora a fastfood. Na verdade, creio que sem estudo e reflexão (com os clássicos e os outros) não crescerá nem se desenvolverá um novo pensamento, uma nova maneira de fincar os pés na terra contra os donos do mundo. 

Sob o chapéu desta greve geral (e de outras “lutas” idênticas) nasceu qualquer coisa parecida com a esperança? Aquela esperança que se distingue da fé e da crença, isto é, qualquer coisa que saberemos que virá porque antes dela vir construímos qualquer coisa sólida? Mudar as vontades dos que acampam sob o chapéu? Ou talvez um chapéu novo? Pensar…  

28/11/2011

POEMÁRIO ASSÍRIO 2012

por cam

Saiu o Poemário 2012 da Assírio & Alvim, onde mais uma vez está um poema meu, retirado do Talismã – também está no Registo Civil (parece que está no dia 29 de Março, ainda não o vi). O poema é assim:

Luto sem fim à vista

para saber a medida

desta poesia incompleta

narrativa sentimental

que somente desejaria

não precisar de palavras

substitutos ou remendos

da matéria de um corpo

em expansão noutro corpo

energia transbordante

que vai de um para o outro

apagando o tédio.

[alguns livros meus estão na Wook com 50% de desconto…]

21/11/2011

O ESTRANHO CASO DE UM VALENTE ESTÚPIDO

por cam

O camarada Vasco, de pulido Valente, desancou sobre a malta do teatro – devia estar com falta de assunto e o camarada Viegas, com a ajuda dos camaradas Infante e Mota, vieram dar-lhe o mote. Foi isto na edição do jornal Público, da já antiga Sexta-Feira dia 18 de Novembro (só hoje, 21, é que o jornal chegou a esta bela ilha…).

O camarada valente devia informar os digníssimos leitores quanto lhe pagam no dito jornal para expelir grosserias, disparates e estupidezes; e se essa verba já inclui prestações antecipadas para pagar o internamento em hospital psiquiátrico a condizer – incluindo colete-de-forças, medicação e inimigos de estimação sobre quem escrever nos seus últimos anos de vida na instituição. Ah, e a morada do hospital, com horários de visita, está-se a ver bem para quê.

Vamos ao assunto, o do teatro. Vasco despenca sobre o Teatro Nacional & etc., nada que não soubéssemos de anteriores descargas de bílis. O que é novidade é agora o camarada ser especialista de literatura dramática e espectáculos de teatro, pois declara, com o ar de quem decreta para todo o sempre, que “Em 37 anos não apareceu uma única obra decente de dramaturgia portuguesa.” Como a bílis estava em risco de o ensandecer irremediavelmente, e se dá o caso de a Directora do jornal começar e ter poucas justificações perante a Administração para lhe pagar a semanada (e a primeira prestação do manicómio ainda não está paga), resolveram dar-lhe ainda mais corda, “quanto pior melhor”, pois lhe disseram então: “ó valentaço, prega-lhes aí com mais qualquer merdice para eles darem mais saltos!”, e é claro que o camarada salivou, desembestou e cagou a última valentia: “Chegou a altura de acabar com esta ridícula ilusão que em Portugal se chama «teatro»”.

Eu, caro camarada, comecei no teatro antes do 25 de Abril de 1974 (actor, etc.); nos últimos anos, tenho escrito daqueles textos que você acha que não são “dramaturgia decente”, pois não serão, nem quero advogar em causa própria. Mas sempre o informarei de alguns nomes de dramaturgas e dramaturgos que terão ficado ofendidos com os seus dislates (e pelo meio vão alguns que entretanto morreram, faço votos para que as almas deles o venham inquietar nas suas noites insones recheadas de monstros), sem cuidar de ordem de apresentação e dando de barato que me esquecerei de muita boa gente: Luísa Costa Gomes, Abel Neves, Armando Nascimento Rosa, Eduarda Dionísio, José Vieira Mendes, Hélia Correia, Jaime Rocha, Tiago Rodrigues, Pedro Eiras, André Murraças, Jorge Silva Melo, Jaime Salazar Sampaio, Jorge Louraço Figueira, Miguel Rovisco, Bernardo Santareno, Marcela Costa, Jacinto Lucas Pires, Carlos J. Pessoa, Fernando Mora Ramos, Patrícia Portela, Norberto Ávila, Álamo de Oliveira, Nuno Artur Silva, Regina Guimarães, Rui Guilherme Lopes, Isabel Medina, António Ferreira, António Torrado, Luís Assis, Luís Francisco Rebello, Vicente Sanches, Rui Sousa, Virgílio Martinho, José Saramago, Carlos Coutinho, Mário de Carvalho, José Peixoto, Helder Costa, Mário Cláudio, Francisco Luís Parreira, Cucha Carvalheiro, Fernando Augusto, José Jorge Letria, Pedro Bandeira Freire, Alexandre Andrade, Filme Homem Fonseca, João Quadros, Carla Bolito, Luís Filipe Borges, Mickael de Oliveira, Luís Mestre, Nelson Guerreiro, Paulo José Miranda, Rui Herbon, Miguel Castro Caldas, etc, etc.; e inúmeros actores e encenadores que produziram textos em contexto de improvisação, ou por processos de colagem/montagem, ou adaptando textos literários não teatrais, etc., etc.; ou os poetas e romancistas que circunstancialmente produziram textos para teatro, como, entre outros, Gonçalo M. Tavares, António Manuel Couto Viana, Agustina Bessa-Luís, Natália Correia, António Cabrita, Tolentino Mendonça, Augusto Abelaira, Fernando Guimarães, Armando Silva Carvalho, Possidónio Cachapa, Pedro Mexia, Lídia Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, José Luís Peixoto, Nuno Júdice, Pedro Rosa Mendes…

Caro valentaço, quando voltar a ter vontade de descarregar a bilis, faça um guisadinho e… bom proveito!

19/11/2011

GREGOS, POBRES E MAUS

por cam

É inaceitável, embora compreensível e inevitável: quem não é igual a nós é “feio, pobre e mau” (em paráfrase do célebre filme de Ettore Scola Brutti, Sporchi e Cattivi, Feios, Porcos e Maus, de 1976).

Os desgraçados gregos, por exemplo, que ficaram na Europa no pós-guerra apenas por razões políticas: até o senhor Estaline reconheceu que cem por cento da Grécia ficava para o Ocidente, quando dividiu o mundo com Churchill. Os pobres gregos que serviram de tampão contra o expansionismo russo e que, também por ficarem na fronteira, geográfica e histórica, com o Médio Oriente, servem de plataforma logística para qualquer eventual conflito nesse lado do mundo, pagam agora as favas dos “europeus”. Dos “europeus” que inventaram uma “Europa” depois da Europa já existir, e nessa invenção quiseram usar a “carne para canhão” que são os países mais pobres ou com mais deficiências estruturais e que se serviram deles para consolidarem as suas economias – França e Alemanha – mas que na verdade nunca pensaram na Europa como um todo coerente e solidário. E agora, que o todo ameaça de implosão, arranjam uns “feios, pobres e maus” como bodes expiatórios. Os gregos ajudaram ao banquete dos ricos, mas também nós, os irlandeses, os espanhóis e a Itália berlusconiana. E o que mais se verá. Somos cada vez mais desencontrados e cada vez menos solidários.

Mas não é apenas entre Governos e Estados da “Europa”. Os povos e as fracções de povos dentro deles, também se acertam pelo mesmo diapasão, que é o da dissensão, do pequeno ódio, da baixeza, mesquinhez e mediocridade que alastra como lama e cola aquilo que de pior há para colar. Acirra a inveja mesquinha, a competição traiçoeira, a mentira despudorada, o rancor bilioso, a arrogância jactante. “Heróis do mar…”, aqui ou onde quer que seja. Ou: “Lá vamos, cantando e rindo…”.

Cá, entre nós, igualmente “feios, pobres e maus” para os “verdadeiros europeus”, alarga-se o fosso entre aqueles que cultivam o rigor, a excelência, o estudo e a reflexão, e aqueles que cultivam o desenrascanço, a mediocridade, o copianço e o berro como retórica maior. Se isto for verdade, o resultado é que seremos todos cada vez mais “feios, pobres e maus”. E chegaremos todos a um momento da nossa europeia história comum em que o termo “grego” condensará o que de pior há em todos nós, e que não conseguimos combater. Nesse dia, seremos todos “gregos”.

07/11/2011

POESIA ’61

por cam

Realiza-se no próximo dia 17 de Novembro no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa um Colóquio de “homenagem à literatura: nos 50 anos de poesia 61”. Trata-se de um iniciativa do Departamento de Literaturas Românicas.

Homenagem à literatura: nos 50 anos de poesia 61

PROGRAMA

9:30 – Sessão de Abertura

9:45 – Primeira Sessão

Jorge Fernandes da Silveira (Univ. Federal do Rio de Janeiro) – “Poetas 61  hoje. 50 anos a 5”.

Fernando Pinto do Amaral (Univ. de Lisboa) – “Entre as «pedras negras» e a  «luz dos espectros»”.

Fernando Cabral Martins (FCSH da Univ. Nova de Lisboa) – “Poética de Luiza  Neto Jorge”. Moderadora: Margarida Braga Neves (CLEPUL – Univ. de Lisboa)

11:15 – PAUSA PARA CAFÉ

11:30 – Segunda sessão

Fernando J. B. Martinho (Univ. de Lisboa) – “Testemunho de um contemporâneo  de Poesia 61”.

Rosa Maria Martelo (Univ. do Porto) – “De imagem em imagem”.

Manuel Gusmão (Univ. de Lisboa) – “A questão do discurso da  poesia. Dezanove Recantos e O Ciclópico Acto de Luiza Neto  Jorge”.

Moderadora: Isabel Rocheta (CLEPUL – Univ. de Lisboa)

13:00 – ALMOÇO

14:30 – Terceira sessão

António Carlos Cortez (Colégio Moderno/ CLEPUL) – Poesia 61.  Teoria e arte poética: dois casos: Fiama Hasse Pais Brandão e Gastão Cruz”.

Pedro Eiras (Univ. do Porto) – “Uma teoria de todas as coisas:  Francis Ponge e Luiza Neto Jorge”.

Nuno Júdice (FCSH da Univ. Nova de Lisboa) – Poesia 61:  uma poética actual”.

Moderadora: Fátima Freitas Morna (Univ. de Lisboa)

16:00 – PAUSA PARA CAFÉ

16:15 – Quarta sessão

Mesa-redonda de poetas, com Casimiro  de Brito, Gastão Cruz e Maria Teresa Horta.

Moderadora: Paula Morão (Centro de Estudos Comparatistas – Univ.  de Lisboa)

18:00 – ENCERRAMENTO

06/11/2011

AGULHA

por cam

AGULHA HISPÂNICA FINIS TERRAE

«Em janeiro de 2010 publicamos o número inicial da revista Agulha Hispânica. Completamos agora, em novembro de 2012, seu ciclo previsto de 12 edições e um total de 132 matérias, todas elas dedicadas às artes e à cultura de língua espanhola. As cartas de navegação indicam que construíamos aqui uma ponte em duplo sentido. De um lado, a conclusão de uma primeira fase (1999-2009) da Agulha Revista de Cultura; de outro, a sempre necessária recordação de que o Brasil não é um continente em si, mas sim parte de uma terra mais vasta, em sua grande maioria determinada por uma cultura de língua espanhola. Graças a este segundo aspecto, tratamos de definir melhor os nossos projetos editoriais, criando ao lado da já existente Banda Hispânica um equivalente a que intitulamos Banda Lusófona.

A partir de janeiro de 2012 cuidaremos de uma segunda fase da Agulha Revista de Cultura, de acordo com o que já antecipamos em sua edição # 0 (setembro de 2011). O conjunto de matérias publicadas pela Agulha Hispânica poderá ser visitado pelo leitor interessado a qualquer momento em nosso portal: www.revista.agulha.nom.br.

Em dois anos de circulação da Agulha Hispânica, há um balanço mínimo que cabe aqui observar. Houve certa decepção da parte de colaboradores de língua portuguesa quando dissemos que os temas de interesse da revista circunscreviam-se à cultura e às artes de língua espanhola. Um acompanhamento estatístico permitiu verificar que fomos mais visitados por leitores de língua espanhola do que leitores de língua portuguesa. A ideia de despertar a atenção, no leitor brasileiro, acerca de um ambiente cultural de um idioma vizinho, não funcionou. O poeta argentino Aldo Pellegrini, em 1966, ao publicar na Espanha sua Antología de la poesía viva latino-americana, dizia, no prólogo, que “Brasil y la América hispana comparten los mismos problemas y utilizan un idioma accesible para cualquiera de las partes”. O desejo, mais do que constatação, de Pellegrini, é algo que não se verificou até hoje, exceto em um ambiente circunstancial que mais reflete uma justificativa da ausência de diálogo do que propriamente um interesse de aproximação cultural. Mesmo nas mesas de negociação comerciais ou diplomáticas encontramos desinteresse mútuo em maior conhecimento da língua ou da cultura dos países envolvidos.

Brasil e América Hispânica são dois mundos desencontrados. Os pontos em comum são de uma graça magnífica, porém é uma terra de cegos, em que ninguém quer ver; nativos simplesmente se regozijam da cegueira que os impede de compartilhar um mundo tão vasto e rico, tão múltiplo e afinado em uma legitimidade mestiça que dota o próprio continente americano de uma potencialidade invejável. Aventurar-se como o fez Ken Burns (1953) pelas vísceras da formação do jazz nos Estados Unidos e a partir dessa viagem compor um documentário que reflete essencialmente uma riqueza mestiça, é algo que nos falta à América Latina, naquele sentido de estabelecer diferenças, similitudes, singularidades, afinidades, uma viagem musical cujas entranhas podem dar a senha para descobrir outras viagens, no mundo plástico, na literatura etc. Não justifica eleger os Estados Unidos como um inimigo comum, ao mesmo tempo em que não fazemos nada por mergulhar em nossa história e buscar conhecimento ulterior e pontos coincidentes.

A história da colonização do continente americano é a mesma, de uma ponta a outra de nossa vastidão territorial, sob muitos aspectos. Exploração humana e de recursos minerais, escravidão e deformação religiosa. O balanço de meio milênio não nos torna mais ou menos vítimas ao norte ou ao sul. Desastres ecológicos, acidentes “naturais” provocados, racismos disfarçados em truques de inclusão social, não há governos mais ou menos cretinos em toda a extensão territorial. Cada um participa com seu talento para a desagregação. E à sua maneira, ao modo da conveniência de cada um, as castas intelectuais são coniventes, passivas ou ativas, desse processo de desintegração cultural.

Eu sempre encontrei muita dificuldade no meio intelectual de meu país ao dizer: “temos uma responsabilidade direta nisto…”, em grande parte por esse alheamento que tanto caracteriza o intelectual no Brasil, essa ideia distorcida de que errados são os outros. Um país sem diálogo, que avança (não evolui) por negociações sob a mesa, subterfúgios, arranjos irreveláveis, subornos etc. Uma mesma casta se julga no direito de dissociar-se em defesa ou acusação de Cuba, Estados Unidos, Venezuela, Honduras, sob inúmeros aspectos alheia à essência, alimentada futilmente pelos efeitos de mídia. O Brasil abandonou à própria sorte sua região central e se fez cego em relação à fronteira com os demais países sul-americanos. A única ponte possível, nos dois casos, é a da prevaricação política, do tráfico em suas múltiplas formas corrosivas, a prostituição etc. Nem os poetas da região escrevem sobre o tema. Ninguém se compromete com nada neste país. Terra de Pilatos, aqui ninguém suja as mãos. O país olha para um mar fictício, talvez sonhando com D. Sebastião que venha nos trazer a glória excelsa na terra.

Contudo, a maravilha da existência humana é que os desafios não se esgotam. Concluímos este breve ciclo de dois anos da revista Agulha Hispânica, que assume nova forma de circulação dentro do Projeto Editorial Banda Hispânica, ao mesmo tempo em que inauguramos, já em janeiro de 2012, a nova fase da Agulha Revista de Cultura. Sempre contando com a cumplicidade irmã do Jornal de Poesia, avançamos em mais uma etapa, plenamente conscientes de nossa contribuição à cultura.»

Editorial de AGULHA HISPÂNICA | REVISTA DE CULTURA, nº 12

01. La esfinge insurrecta: poesía en hispanoamérica | Floriano Martins

02. Armando Romero: magias en Cajambre | José Prats Sariol

03. De trovadores y juglares | Américo Ochoa

04. Eduardo Molina Ventura, en los días de nuestros años | Hernán Ortega Parada

05. Gaitán: la sociedad de control en los días del odio… El día del odio, de José Antonio Osorio Lizarazu | Luis Carlos Muñoz Sarmiento

06. Los autobiografemas de Cícera | Pedro Granados

07. Pablo Neruda, El habitante y su esperanza, más allá del surrealismo | Maria Aparecida da Silva

08. Premoniciones políticas y religiosas en Freddy Gatón Arce | Manuel Mora Serrano

09. ¿Qué es una Noche de celofán? Alfonso Peña y El límite del patio | Guillermo Fernández

10. Tábanos 13 poetas chilenos | Christian González Díaz

Artista convidado
Eligio Pichardo | República Dominicana
La imagem popular en la pintura de Eligio Pichardo | Jeannette Miller

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