GODOFREDO (01)

Um deslize. Ínfimo. Coisa breve no desfiar do tempo. Depois, as consequências. Para toda a vida. Lembra-se: tinha dez anos, uma infância feliz. Menino-prodígio, génio do cálculo matemático e das línguas. A sua centenária tia Genoveva estava em visita primaveril. Família junta no jardim da casa. Fredinho, era esse o seu petit non carinhoso, não brincava. Apenas olhava a superfície da toalha bordada. Fredinho!, berrou-lhe de voz trémula e estridente ao ouvido direito a sua tia Genoveva, o menininho não quer mais torradinhas?! Fredo, Fredinho, Godofredo o menino esmagado entre palrar de adultos, rendas, doces, sumos e torradinhas estremeceu todo por dentro. Como não sabia o significado de um sentimento tão forte, calou-se. A tia Genoveva continuava a berrar-lhe ao ouvido direito enquanto ameaçava com uma torradinha entre os dedos a escorrerem manteiga. O tímpano de Godofredo rebentou, espichou sangue e o menino desmaiou entre as pernas mal cheirosas da tia. Acordou surdo do ouvido direito e embasbacou a família com as primeiras palavras proferidas após três dias em coma profundo: quero ficar só para o resto da minha vida. A família, depois de tão trágico acidente, acedeu. Godofredo, a partir desse deslize linguístico, começou a viver sozinho. Durante uns anos, vigiado à distância de um sussurro. Depois, já quase adulto, adquiriu gosto verdadeiro pela vida solitária e a independência absoluta foi mesmo decisão séria e consciente. O direito a estar só sem qualquer tipo de presença de familiar ou de amigo. Se a família não gostou, nunca ninguém lho disse. Talvez a excepção tivesse vindo da tia Genoveva, não tivesse ela morrido de pasmo segundos depois do grito que rebentou o tímpano direito do seu Fredinho. As circunvoluções cerebrais de Godofredo dão-se amiúde ao trabalho de levar à sua consciência esta história e as suas consequências. O mundo que Godofredo inventa, à falta de mundo melhor que esse na sua existência, dobra-se e desdobra-se em torno desse momento seminal da sua vida. A sua vida que começou de verdade no momento em que, ainda sem conscientemente o saber, enunciou um princípio orientador, um programa de vida. Desde então, na sua pacatez solitária, Godofredo inventa mundos, em primeiro lugar o seu. Tudo passa por aí. As réstias de realidade que lhe vêm de um som inadvertido, de um cheiro (talvez imaginado) do exterior, das palavras dos livros, do pouco que ainda sobra de uma espécie de memória da sua meninice – o que resistiu ao poder da sua imaginação –, tudo isso se mistura e revive na sua máquina de fazer mundos. Os mundos em que Godofredo é absolutamente feliz.

[de Godofredo]

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