Posts tagged ‘Mário Cabral’

27/01/2012

MAGMA EXPULSA E LEMBRADA

por cam

POR VAMBERTO FREITAS

“Cada texto foi inscrito com o seu valor próprio e com os decorrentes de cumplicidades, atracções e repulsas – tensões próprias de uma revista com identidade irrepetível.”

Carlos Alberto Machado, Coordenador da extinta revista Magma

«As palavras de Carlos Alberto Machado, um dos fundadores e coordenadores da (extinta) revista literária Magma, referem-se ao número zero de lançamento publicado pouco antes, e havia já chamado a si um diversificado grupo de escritores, uns mais conhecidos do que outros, residentes nos Açores e no Continente. Depressa esse rol de colaboradores aumentaria consideravelmente, Magma abriria as suas páginas à nossa diáspora, desde os Estados Unidos e Canadá ao Brasil, assim como a participantes de outros de países, alguns deles naturalmente em tradução. A edição inaugural incluía ainda uma separata de poesia, que se publicaria com outros dos seguintes sete números, cada uma coordenada por um escritor ou poeta convidado/a, tal como a revista no seu todo até ao seu abrupto desaparecimento em 2008. Estava assim lançada em 2005, a partir da Câmara Municipal das Lajes do Pico, sob a direcção também de Sara Santos, uma das melhores publicações de “criação literária” nos Açores, tendo como única companhia no arquipélago a NEO dirigida por John Starkey e com a chancela do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, mas mantendo uma autonomia editorial absoluta.

É certo que revistas ligadas aos nossos institutos culturais na Horta, em Angra do Heroísmo e Ponta Delgada sempre serviram como outras “universidades” da nossa classe culta, privilegiando a investigação história, sociológica e literária, mas só nestes últimos anos publicações como a Magma e a NEO davam continuidade ao que muito anos antes iniciara A Memória da Água-Viva, sob a direcção de José Henrique Santos Barros e Urbano Bettencourt a partir de Lisboa nos anos 70. Todos estes projectos tiveram ou têm características editoriais muito próprias: o diálogo literário implícito inter-geracional, colocando escritores de nome feito ao lado dos mais novos, estes sempre em busca de meios para chegarem a um público leitor na sua sociedade e, quando possível, para além dos horizontes regionais e nacionais. Ainda hoje as little magazines, assim chamadas nos EUA pelo seu formato livresco em que a criatividade visual quase sempre faz parte da sua originalidade e distinção, constituem (sem que a net as ameace, por enquanto) as mais procuradas publicações pelos que buscam sistematicamente a inovação ou as novas tendências literárias em qualquer língua. A Orpheu em Lisboa (Fernando Pessoa) e depois a Presença (José Régio, Casais Monteiro e João Gaspar Simões) em Coimbra foram para a nossa literatura o que The Paris Review ainda hoje representa para os norte-americanos: estar presente em qualquer uma das suas edições é ficar consagrado ou, no mínimo, apresentado a leitores de maior exigência literária e cultural.

Magma cumpria por inteiro a missão literária inerente a estes projectos. Olhando a vasta lista de participantes na suas páginas, nota-se de imediato a presença da maior parte dos nomes açorianos associados à nossa nova geração de escritores em convivência de igualdade sem apologias com alguns dos autores mais conhecidos e prestigiados em Portugal, desde Alberto Pimenta, Ana Hatherly, Ana Martins Marques, Manuel de Freitas e Gonçalo M. Tavares a outros de língua portuguesa como Luiz António de Assis Brasil e Lélia da Silva Pereira Nunes (que coordenaram um dos números da revista, levando alguns escritores brasileiros a ficcionarem os “seus” Açores, alguns deles nunca tendo cá estado). Da diáspora, uma vez mais, para além dos emblemáticos Onésimo T. Almeida e Francisco Cota Fagundes, aí está Frank X. Gaspar cuja obra em parte comemora a sua ancestralidade picoense, tendo merecido uma separata por mim traduzida sob o título de um dos seus poemas, A Noite dos Mil Rebentos. Não serão, no entanto, os nomes, por mais famosos que sejam na literatura nacional (nacional aqui inclui os Açores e os açorianos, naturalmente) ou estrangeira, mas sim porque a Magma passou a constituir, na sua relativamente curta existência, outro grande repositório da nossa memória colectiva, o que mais interessa sempre na escrita em qualquer uma das suas formas criativas ou ensaísticas, já para não falar no estímulo ao trabalho entre os que, apesar do seu inegável talento intelectual, raramente encontram um meio de divulgação da sua obra incipiente ou já legitimada quer pela comunidade quer institucionalmente. Para uma região que sempre se demarcou a nível nacional pela sua criação ou produção literária, mas sofre do provincianismo reinante e da lonjura das sectárias máquinas editoriais e de favores sem fim da nossa capital, só iniciativas como esta garantem a dignidade cultural do nosso povo, asseguram para as gerações vindouras os arquivos artísticos da sua própria ancestralidade geográfica, histórica, intelectual. Quem acha que isto tem importância menor, como parece ser o caso entre nós neste momento, esquece-se que a desmemória colectiva é bem-vinda e essencial à já reinante ditadura pós-moderna, ao novo fascismo engravatado que se auto-denomina de Mercados e nos corrói a todos. Um povo sem a sua voz fica coisificado e apto a ser manobrado por todos que o querem na condição de escravo. Por outro lado, a descentralização da cultura é também já um facto notável em muitos países avançados, os centros estão a virar margens ou a evoluir para comunidades de interesses outrora totalmente dominantes a partir dos grandes espaços ou cidades. Cada sociedade terá agora de garantir os seus próprios meios para se afirmar e se auto-afirmar perante os outros que partilham ou não o nosso destino. No que se refere a publicações deste género e ao diálogo a um nível superior sem nunca deixar de incluir quem deseje participar, não poderemos colocar no fim das prioridades dominadas por supostas manifestações de “cultura” no que entre nós passaram a ser festas instantâneas, com muita perna pimba e vozes sem talento em palcos estupidamente improvisados á beira-mar – a um custo, para os nossos cada vez mais limitados recursos, avassalador e cuja destruição maior tem sido também a marginalização e amordaçamento dos tradicionais rituais festivos nas freguesias rurais de todas ilhas.

“A NEO — escreveu Urbano Bettencourt no número três (2006) da Magma, por ele coordenado — publica-se em Ponta Delgada e fica muito bem aí mesmo; A Magma publica-se nas Lajes do Pico, que não são a capital ou ex-capital de coisa alguma, não têm uma ilha em frente, embora sejam o lugar de onde é possível ver a Montanha nascer das águas, como Vénus. Quer dizer, a Magma também fica muito bem onde está, sem complexos de lugar, pois, como afirmava o escritor cabo-verdiano Manuel Lopes, a partir da Horta e em meados do século passado, o pior que pode acontecer a um lugar pequeno é ser, simultaneamente, tacanho”.

Magma, pois, pela sua inquestionável qualidade em cada número publicado e pela sua abrangência de temas, geografias dos nossos afectos e estilos, prestigiava como poucas outras publicações nossas a literatura dos e nos Açores. Que partia de uma pequena vila açoriana fora do triângulo do poder político regional só lhe trazia um estatuto que em Portugal será difícil de encontrar, habituados que estamos às falsas e moribundas grandezas dos “grandes” centros. Não deveríamos esquecer que a grande tradição intelectual e criativa das nossas ilhas – não sou o único a afirmá-lo — tem a sua primeira base na página impressa, quer se trate de livros, jornais ou revistas, precisamente os meios mais ignorados cá nos tempos que correm.

Magma ficará arquivada e citada por muitos outros como testemunha do trabalho intelectual sério e universalmente identitário. O resto e os autores do nada irão cair irremediavelmente no muito merecido esquecimento.»

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Magma (2005-2008), fundada e dirigida por Sara Santos e coordenada por Carlos Alberto Machado, Câmara Municipal das Lajes do Pico, Pico, Açores.

Texto publicado hoje, Sexta-Feira 27 de Janeiro, no Açoriano Oriental e também no blogue de Vamberto Freitas.

 

26/12/2011

O TEMPO DOS ASSASSINOS

por cam

Outro projecto que a miopia política assassinou: a revista Magma. Com direcção de Sara Santos e minha coordenação editorial, a revista era editada em regime de “carta branca”. Além de mim, coordenaram números: António Cabrita, Lélia Nunes e Luiz Antonio de Assis Brasil, Judite Jorge e Mário Cabral, Urbano Bettencourt.

Publicaram-se 7+1 números: do zero (Maio de 2005), ao 7 (Dezembro de 2008), com Separatas do zero ao 4.

Participaram nos 7+1 números, dezenas de autores, repartidos pela poesia, conto, teatro, ensaio e tradução, de Portugal (mainland, Açores e Madeira), Brasil, Cabo Verde, Espanha (Canárias) e Moçambique.

Na fotografia aqui à vista, estão as capas dos números zero e 1, com as respectivas Separatas, a do zero com Avulsos por Causa (poesia), de Renata Correia Botelho, e a do 1 À Flor do Mar (crónicas sobre livros), de Inês Dias.

Eis a lista dos participantes da Magma, para “memória futura”:

Abel Neves, Albano Martins, Alberto Pimenta, Alexandre Borges, Alexandre Dale, Altair Martins, Amilcar Neves, Ana Francisco, Ana Hatherly, Ana Maria Fagundo, Antidio Cabal González, Ana Marques Gastão, Ana Paula Inácio, Andes Chivangue, Ângela Correia, António Cabrita, António Godinho, António Olinto, Armando Artur, Carlos Alberto Machado, Carlos Bessa, Carlos Henrique Schroeder, Carlos Nogueira Fino, Carlos Tomé, Carlos Urbim, Carol Bensimon, Celso Gutfreind, CEPiA, Charles Kiefer, Christina Dias, Claudia Gelb, Claudio Daniel, Cleci Silveira, Daniel de Sá, Diego Grando, Dilan D’Ornellas Camargo, Dom Midó das Dores, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Nasi, Elis Cruz, Fernando Guerreiro, Fernando Neubarth, Fernando Paixão, Fernando Rozano, Fernando Silva, Ferreira Gullar, Flávio José Cardozo, Francisco Cota Fagundes, Frank X. Gaspar, Gabriela Funk, Gabriela Silva, Gilberto Perin, Gonçalo M. Tavares, Helder Moura Pereira, Hoyêdo de Gouvêa Lins, Inês Dias, Inês Lourenço, Ítalo Ogliari, Ivette Brandalise, Ivo Machado, J. Michael Yates, Jacinto Lucas Pires, Jaime Rocha, Jaime Vaz Brasil, Jane Tutikian, João Almeida, João-Luís de Medeiros, Joel Neto, Jorge Adelar Finatto, Jorge Fazenda Lourenço, Jorge Gomes Miranda, Jorge Louraço Figueira, José Agostinho Baptista, José de Sainz-Trueva, José Eduardo Degrazia, José Luís Hopffer Almada, José Luís Tavares, José Maria Carreiro, José Miguel Silva, José Viale Moutinho, Juan Carlos de Sancho, Judite Jorge, Júlio de Queiroz, Laerte Silva, Laís Chaffe, Leatrice Moellmann, Lélia Nunes, Leonardo Brasiliense, Lúcia Helena Marques Ribeiro, Luciana Veiga, Luis Carlos Patraquim, Luís Dill, Luís Filipe Borges, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Paulo Faccioli, Maicon Tenfen, Manuel de Freitas, Marcela Costa, Marcelo Passamai, Marcelo Spalding, Maria Aurora Carvalho Homem, Maria João Cantinho, Maria José Marques Figueiredo, Mariana Matos, Marie-Amélie Robilliard, Mário Cabral, Mário Lúcio Sousa, Mario Pirata, Marô (Maria Eunice) G. Barbieri, Monique Revillion, Nelson Saúte, Nuno Costa Santos, Nuno Moura, Olsen Jr., Onésimo Teotónio Almeida, Osmar Pisani, Paulo da Costa Domingos, Pedro Eiras, Pedro Fevereiro, Pedro Javier C. Garcia, Pedro Stiehl, Renata Correia Botelho, Renato Tapado, Ricardo Silvestrin, Rodrigo de Haro, Roger Cardús Juvé, Rogerio Manjate, Rogério Sousa, Rubem Penz, Rubens da Cunha, Rui Pires Cabral, Rui Sousa, Salomão Ribas Jr, Semy Braga, Sergio da Costa Ramos, Sidónio Bettencourt, Silveira de Souza, Sílvia Pinto Ferreira, Silvina Rodrigues Lopes, Sónia Bettencourt, Sulivan Bressan, Suzana Mafra, Tiago de Faria, Tiago Prenda Rodrigues, Tiago Rodrigues, Urbano Bettencourt, Valério Romão, Valesca de Assis, Vamberto Freitas, Victor Rui Dores, Vinícius Alves, Vítor Nogueira, Volnyr Santos, Walter Galvani e Zenilda Nunes Lins.

 

11/04/2011

HOJE NÃO HÁ CHUVA DOS DEUSES

por cam

Quem vem por aqui sabe que não é hábito meu “conversar” sobre assuntos, digamos, mais pessoais. Alegrias, dores ou esperanças guardo-as para mim e para os poucos da minha “intimidade”. Esta questão da intimidade e da partilha – porque este é um espaço público – esteve sempre na minha zona de indecisão ao decidir há anos criar o meu primeiro blogue (o Campo de Afectos, creio que em 2003, e que pelo ciberespaço continua, sem que possa intervir nele, esqueci-me da password…). Este azulcobalto, logo no início, vai para pouco mais de um ano, esteve silenciado durante meses, justamente por essa razão. Há um pudor, quase vergonha em ultrapassar certos limites (essas ultrapassagens, dolorosas, quase sempre, deixo-as para a escrita de poesia, teatro ou ficção – e mesmo assim, com que atrapalhações). E talvez por isso a vontade que há pouco veio de enredar a razão, foi-se. Fica apenas uma espécie de lastro: espero resposta de dois editores sobre dois romances que escrevi durante 2010 e o início deste ano. Enquanto não chegam, emaranho projectos de escrita ficcional (romances na cabeça, como costumo dizer), olho o texto teatral que começou a sair de rajada e depois se imobilizou de repente, hesito nos poemas começados, leio livros e ponho no PC notas sobre a mediocracia, o poder em cena, nos cruzamentos infindáveis da antropologia, da filosofia e de outros saberes que vou cautelosamente tacteando; e penso na reescrita do meu ensaio (ingénuo) sobre a morte (de 1989) e…

Hoje, a brincadeira dos deuses não resultou em chuva.

(e digo um olá ao Mário Cabral que me enviou da sua Casa das Tramóias um texto-poema sensível, próximo, sempre, do seu Deus que não conheço mas que seguramente é bom, por ser chegado ao Mário; e fico à espera que o Cabrita arrume a casa na sua torre da Coop em Maputo pois tenho saudades das nossas conversas, quem sabe se ele virá até esta ilha, eu que este ano não voltarei a percorrer as ruas maputenses, maningue saudades António, Teresa, Ana, Jade e Luna, Tânia e Armindo, Zé Cabral, Patracas – que tu voltas sempre, é a tua terra –, malta da EPM e da ECA, Matteo e os outros amigos de amigos que gostaria de voltar a ver; e a nossa Adelaide, que há-de ter poema a condizer com a sua doçura)

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