Aquitanta [teatro]

Aquitanta

Vou contar-te um sonho. Pedaços de um sonho. Um daqueles sonhos onde já não te deixei entrar. Ao princípio, julguei que tinha acordado. Senti o sexo húmido. Toquei-o com a mão e percebi que era sangue. Mas cheirava a laranjas podres. Depois, estava sozinha numa estrada. Uma enorme recta a perder de vista. Os meus pés colados ao alcatrão em fogo. Queria caminhar e não conseguia. Chamei alto um nome. Um nome desconhecido. Começou a chover. Quente. Conseguia caminhar. De um lado da estrada, o mar; do outro, imensos pinheiros. Caminhava e chorava baixinho. Sempre a chover quente. E a dizer nomes, nomes de pessoas, nomes de coisas. Surgiram depois muitas aves e repetiam os mesmos nomes. Não me lembro bem de outras coisas pelo meio. Só me lembro que me vi a dançar numa enorme sala vazia. Descalça e com um leve vestido de noite. Cor de sangue. E apareceu a minha mãe com um prato de sopa nas mãos a dizer-me que era para dar ao gato e que não a deixasse arrefecer, bem quente é que a sopa se dá aos gatos. Disse-lhe que sim e depois acordei mesmo. Com o sexo seco. Voltei a adormecer a pensar com que palavras te contar isto. Ainda queres coleccionar os meus sonhos? Não.

Quero parar de sentir. Quero parar de saber. Quero parar. Parar.

Sou eu que falo?

Quantos cigarros são precisos para apagar uma memória?

Aquitanta. Encenação de CAM. Interpretação de Solange F.

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