HOTEL DOS INOCENTES (01)

Noite. Chove. Dez graus centígrados registados às vinte e duas horas. Num micro-segundo preciso uma ratazana velha levanta o focinho para decidir quanto ao caminho a tomar em busca de alimento. Nesse exacto momento, no mesmo prédio em que se encontra a ratazana velha, um hesitante pingo de cera cai de uma vela cuja posição não resp1eita a posição absoluta de noventa graus em relação à mesa que lhe serve de base. O roedor, por qualquer processo em que seguramente a biologia tem um papel importante – embora não sendo de desprezar um certo instinto devedor da experiência acumulada – sai devagar do seu esconderijo em direcção à habitação mais próxima, no piso térreo, na empena esquerda do prédio. Aí vive apenas um homem cego, momentaneamente ausente. A ratazana velha, depois de várias voltas pelo percurso sinuoso do soalho e da sua junção com as paredes, chega à cozinha, exactamente a um compartimento que faz as vezes de dispensa do apartamento do homem cego. O seu faro de roedor experimentado leva-a até junto de um saco de plástico com cereais e mel. O saco, fora da sua caixa habitual, está aberto e a velha ratazana começa imediatamente a mordiscar os cereais adocicados. Momentaneamente saciada, a ratazana velha sai de casa do homem cego para retomar a sua jornada alimentar. No segundo andar direito, um homem asmático com cinquenta e cinco anos, escreve, depois de inúmeras tentativas falhadas: Deus fixou hoje a sua atenção neste velho prédio de fim de rua – nos seus melhores tempos foi o Hotel dos Inocentes. Ofertou aos seus moradores a capacidade de experienciar, por um curto espaço de tempo, a simultaneidade dos seus acontecimentos e vivências. Até esse momento, cada um de nós não poderia fazer mais que uma pobre ratazana velha nos seus percursos em busca de alimento. Agora, pensa este homem com dificuldade em respirar, podemos todos enlouquecer divinamente. Escreve isto e, gestos repetidos, amarrota a folha de papel e joga-a para o caixote do lixo. Entretanto, a ratazana velha dirige-se para o andar de cima onde a aguardam um pouco de queijo e um pedaço de estearina ainda quente e mole.

[de Hotel dos Inocentes]

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One Comment to “HOTEL DOS INOCENTES (01)”

  1. De transes atlânticos também me inebrio! Que interessante o seu blogue!

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