DE RE RUSTICA, DE HG CANCELA

EFEITOS E CAUSAS

Ele é médico mas não exerce. Tem 44 anos. Saiu há pouco da prisão, ainda “demasiado presente” (7). Dedica-se “a enumerar uma a uma as coisas do mundo” (206), “estradas, estações de serviço, restaurantes e quartos vazios” (5). Trata-se de “impor um nome ao mundo” (41). Sabe que “nunca se vê nada (…), ver ou não ver dir-se-iam uma função de uma restrição voluntária da percepção” (5). Vê-se “obrigado a refazer o mundo com um vocabulário restrito” (7), reparte-se a terra “numa quadrícula de uso e de posse” (id.) Para este homem de poucas palavras, a posse não é mais do que um movimento de “subtracção”, “a posse não é cumulativa. a posse, a aprendizagem e a memória, alguma coisa que se acrescenta por subtracção. um movimento seco, sem referência exterior. isto, aqui agora, cada coisa por si. uma depois da outra. uma e outra articuladas pelo movimento de deslocação” (id.) – não há maiúsculas nesta escrita. O despaisamento (interior) faz-se pelo nivelamento das coisas rente à terra.

Nada deseja que o leve a qualquer direcção. É apenas um “ponto de articulação do mundo com a consciência” (15). Procura assegurar que entre ele e o mundo permaneça “um mínimo de articulação” (36). A “ignorância não diz respeito à dificuldade de duplicar o mundo por representações, à ausência de um nome ou de uma ordem reconhecível, mas tão só à simples existência do mundo. à existência rude daquilo que permanece para além da língua e para além da lei.” (39)

Este homem – único narrador – movimenta-se. Só, na sua viatura, percorre aleatoriamente o país, dorme uma noite num hotel, às vezes três ou quatro dias, uma semana. Sem regras, nem as provenientes do uso, como se os “acontecimentos se encadeassem para formar uma narrativa” (7). A Sul, conhece uma rapariga, empregada de um hotel onde ficou; “precisava de alguém. ela, de sorriso fácil e pernas magras, parecia servir (…) agarrava-lhe a mão, num simulacro de sentimento, com o comprometimento desapaixonado de quem oferece resistência à própria negação” (61), “carne transformada em carne, no limite próprio da posse e do possível” (68). A rapariga, desmazelada, “deixava atrás de si os restos de uma ordem esboroado no uso” (80). Nada que ele não veja em si mesmo e no mundo. Às vezes, fica “surpreendido por daquela desordem poder emergir alguma coisa como um simulacro de ordem” (82).

Este homem e esta “rapariga” iniciam uma rotina de apego um ao outro. Ele precisa dela, “uma barreira baça entre ele e o mundo” (92). Um dia será preciso que o homem regresse ao seu lugar agrário, ao local onde se mesclam memórias emprestadas, ou falsas, ou a construir – ou a, definitivamente, acabar o fecho do (seu) mundo. Chegam a uma casa, casa de família dele, numa pequena herdade, onde está à espera dele uma “mulher”, “que teria sessenta anos” (94); ao chegaram-se ele e ela para o cumprimento, ele desvia o rosto, de modo a “evitar o movimento quase compulsivo que conduziria a minha boca contra a sua” (id.) «é a minha tia» (id.), diz para a “rapariga”. Esta, conhece também o pai dele, homem de setenta e seis anos, Pater familias, todo-poderoso. Entre ele e o mundo “interpunha-se uma violência metódica” (135), “reduzido a uma espécie de animal pagão” (id.), o pai estava, afinal, “à espera que a realidade se alterasse o suficiente para se adequar à narrativa” (157)

 Inicia-se aqui, ou recua-se para, uma história, com as suas variantes que os modos e as circunstâncias nunca definem por completo, em que “a mulher”, “o homem” e aquele que narra e enuncia desfilam perante “a rapariga”, até ela própria se tornar um eixo em torno do qual se declinam ordenações e desordenações do mundo, ordem e desordem, vida e morte. Até um final, inesperado e talvez com a única nota de ironia de todo o romance – e onde se concentra uma força desmesurada, talvez. “a rapariga não fez perguntas [num, digamos, jantar de família]. acabou de comer, sem apetite. a história parecia ter-lhe agradado. tratava-se de colocar as coisas nos termos em que as podia, de facto, apreender, organizando o tempo e o mundo numa narrativa encadeada segundo uma orientação definida. de alguma maneira, ela começava a sentir-se capaz de fazer parte dessa narrativa, numa espécie de vislumbre da falha ou da brecha por onde poderia penetrar.” (108)

“A posse não é cumulativa”, diz o autor-narrador logo na primeira linha do romance – numa espécie de antepara de reflexão que é uma das marcas textuais ao longo das páginas, um enunciado que logo se expõe, se põe em causa, subsequentemente na narração e nos breves diálogos, melhor dizendo, falas soltas, poucas, que o autor-narrador deixa presas à sua boca ou às dos seres que com ele tacteiam o mundo – “as coisas são articuladas pelo movimento de deslocação”, os factos e as circunstâncias não são sequenciáveis e acumuláveis formando um todo; as causas e os efeitos não produzem uma sequência mais ou menos inevitável, “não havia nada de determinado ou inevitável. ou antes, o único movimento não determinado não seria o primeiro, mas o último, o único capaz de escapar à retroacção do efeito sobre a causa. a dúvida consistia apenas em saber como podia o efeito suspender a causa. ou como podia a causa suprimir o efeito. acerca disso não havia nada que eu pudesse dizer” (108; cfr. infra.157-158). A existência do romance, daquilo que ele entretece nas suas malhas mas também naquelas em que procura enredar o leitor (legente, melhor seria dizer), radica nesta (im)possibilidade de reformulações de efeitos e de causas. Em procurar evitar o caos, em criar o caos, em colocar ordem na desordem, desordem na ordem, até não se saber bem como nomear uma e outra. É isso que está na génese desta escrita – como tão esplendidamente se dá a ver nas páginas finais.

Se se trata também aqui do espaço agrário e do significado da sua preservação e posse – De Re Rustica é o nome da obra do latino Varrão – é de atentar nas descrições minuciosas do espaço da herdade de família, em especial aquelas que dão conta da sua irreversível degradação, ou de quando se trata de arrolar casa e terras para efeitos de registo na conservatória de registo predial. Trata-se aqui de “um trabalho lento e obstinado de inscrição da posse na memória, de redução das coisas ao espaço do nome e da história. o mundo era aquilo.” (183)

“O homem” (o pai) é uma personificação possível da desordem. Em duas situações, uma, quando atinge com um tiro de caçadeira a cabeça de uma vaca e no mesmo tiro atinge também “a mulher” (160-1) ou, nas páginas finais, na violenta cena igualmente com “a mulher”, isso é bem nítido. Todavia, o que surpreende não é esta violência, mas o facto de o autor-narrador (filho…) não lhe opor uma violência simétrica e recíproca. “a soma do que não sabemos acrescenta-se à nossa ignorância, transformando-a não em conhecimento, mas em resignação.” (201) Quando o fizer, morrerá. Ou não? (223)

As descrições de violência física entre duas pessoas têm o mesmo regime textual com que nos “dá” um hotel, uma estrada, uma refeição, um terreno agrário, etc. É evidente, que Cancela está mais interessado, e bem, muitas vezes, nos jogos de linguagem que lhe permitem, creio que com imenso prazer para o leitor, que a escolha e o encadeado das palavras, muitas vezes por um aparente prosaísmo, pertençam ao domínio do não-dito poético. A “perda da percepção parecia afectar não tanto a sensibilidade, mas a realidade das coisas” (189).

O “movimento do mundo reduzia-se agora ao perímetro das terras”, diz o autor-narrador quase a terminar (218), à sua volta aquilo “começava a coincidir com a sua própria existência (id.). Ele precisava apenas de “identificar aquilo de que poderia prescindir (…) agora quase já sem critério, como se isso correspondesse a enumerar uma a uma as coisas do mundo, enumerar o mundo. não era muito, nem era pouco. era tudo. (206).

“Define-se a regra, definindo no mesmo movimento as condições da sua transgressão.” (136).

 

Nota de leitura de De Re Rustica, de H.G. Cancela(*), Porto, Afrontamento, 2011

(*) H. G. Cancela nasceu em 1967 e é Licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É professor de Estética na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Publicou ainda: Anunciação (romance) e Novembro (poesia)

Carlos Alberto Machado, Lajes do Pico, 25 Agosto de 2011

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