Posts tagged ‘Cultura’

25/06/2011

DUAS MARGENS

por cam

Do Bilbiotecário de Babel (José Mário Silva), com a devida vénia: «Acaba de nascer uma nova revista literária, exclusivamente digital. Os editores são Vítor Quelhas, Carlos Pessoa e José Guardado Moreira. Eis a declaração de intenções: “A revista Duas Margens é uma plataforma aberta de divulgação editorial e literária transnacional e transcontinental no âmbito do espaço geográfico e cultural lusófono e ibero-americano (com produção literária inédita bilingue, em português e castelhano) e lugar de encontro e diálogo entre autores, editores, tradutores, críticos, livreiros, ilustradores, designers e outros agentes do campo literário, como fundações, prémios, congressos, encontros literários e feiras do livro, das duas margens do Atlântico.”»

Descarrega-se o PDF aqui.

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28/04/2011

SUROESTE: BONS VENTOS DE ESPANHA

por cam

Recebi ontem o número 1 da “revista de literaturas ibéricas” SUROESTE, editada pela Junta de Extremadura e Diputación de Badajoz (Espanha), com direcção de Antonio Sáez Delgado. O conselho de redacção e o conselho editorial têm em saudável equilíbrio entre portugueses e espanhóis.  

Vou ler. Para já, destaco a excelente “lâmina” (hors-texte) do Luís Manuel Gaspar, poeta e artista plástico responsável por uma obra (notável) que recusa (digo eu) os escaparates do novo-riquismo, onde diariamente se constroem génios, especialmente dessa coisa chamada literatura. Um abraço, Luís.

Destaco também o grafismo geral. E, finalmente, mas não menos importante, a edição, propriamente dita. O poder político pode, às vezes, fazer bem à cultura. Este é um bom exemplo, que as nossas câmaras e governos regionais poderiam seguir. Durante 5 anos, dirigi, com a Sara Santos, nas Lajes do Pico, a revista Magma (graficamente bem mais modesta do que esta), veio um novo poder político, pimba e analfabeto, e a coisa finou-se. Espero que não suceda coisa semelhante a esta bonita SUROESTE.

17/03/2011

CULTURA, KULTURA & CAMIONETAS DE CARGA

por cam

No meu modesto ponto de vista, Portugal conheceu vários desaires das retóricas de valores; o primeiro, foi com o 25 de Novembro de 1975 (o golpe das cavernas, perdão, das casernas, liderado por um major com patilhas anti-RDM e por um “boina vermelha” fascista, com o apoio do PS, aquele que meteu “o socialismo na gaveta”); o segundo, com o cavaquismo, entre 6 de Novembro de 1985 e 28 de Outubro de 1995, o regime do homem que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava… (ainda será assim?) – é claro que houve uns “desertos”, “aperitivos” e “sobremesas” várias…

Correu depois o ano de 1995 e chegou beato e sorridente o engenheiro (sem favores) António Guterrez: mais um desaire das retóricas de valores. Contudo, criado então o Ministério da Cultura, garbosamente dirigido pelo filósofo (sem favor) Manuel Maria Carrilho, ofereceu-nos o filósofo pragmatista ministro da cultura uma ilusão de retórica de (novos) valores: a de uma pós-modernidade atraente. Ancorava-se a política do filósofo-ministro (ou ministro-filósofo), secretariado pelo musicólogo Rui Vieira Nery, em várias coisas atraentes e atractivas, por exemplo: a cultura como eixo vital das políticas de Estado, a prática da cultura (binómio criação-fruição) em estreita ligação com a Escola e a Economia (para o que tentou criar política sectoriais adequadas, como a do ensino artístico, projecto até hoje nunca verdadeiramente retomado); e, entre outras de pormenor, o diagnóstico sócio-económico dos agentes e organizações das artes do palco, que se esboroou nas guerrilhas Norte-Sul e na desonestidade de muitos dos criadores que preferiram continuar a não ter políticas realistas de apoio às artes a terem de mostrar as suas contabilidades…; e o diagnóstico dos edifícios de espectáculos, com a consequente criação de uma Rede nacional de teatros – disto, ficou-se o diagnóstico apenas por um distrito e a Rede começou a ser feita ao sabor do acaso. O Ministério da Cultura de Carrilho e Nery rapidamente soçobrou, primeiro, com a saída deste, veramente descontente (e desconfiado) com o seu Ministro e com os da Educação e da Economia que se estavam nas tintas para o trabalho sério e colegial; depois, o próprio Carrilho, sem apoios internos e sem dinheiro, porque o Governo, ainda asfixiado com as obras de fachada do cavaquismo – e com alguns ministros a gostarem de lhe seguir as (más) pisadas –, também não queria saber de políticas culturais “à Jack Lang” e de filosofias de ponta… E também porque a má-língua lisboeta rapidamente fez envolver o ministro em lobbies que nada tinham a ver com a política e a cultura.

E o que temos agora? Uma Ministra e um Ministério desnorteados, ao sabor de quem lhe cai em cima com mais força. A Ministra, talvez gostasse de ter uma Kultura – musculada, militar, talvez, e com uns processos em tribunal, como fez com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Mas não, não tem Kultura, nem Cultura – o que tem é assim uma espécie de Camioneta de carga que se carrega (até rebentar), sem cuidar a Ministra e os seus “imediatos” a natureza da carga. Isto é: um Ministério sem projecto. Carrilho, até há pouco, torceu-se às esconsas, agora fá-lo em público: pode saber-se para quê, Manuel Maria?

17/03/2011

RELATO DE UM PAÍS INCULTO

por cam

Com a devida vénia, transcrevo o texto de Francisco Valente, do seu blogue Da Casa Amarela:

«Um dia depois de ser comunicada a intenção do Governo de baixar a taxa do IVA dos campos de golfe de 23% para 6%, decisão essa comunicada pela televisão pública, em imagens, como uma descida da taxa aplicada nos carros Volkswagen Golf, é comunicado, pela Cinemateca Portuguesa, o cancelamento de 13 sessões já programadas deste mês sob o pretexto de cortes no seu financiamento decididos pelo Ministério das Finanças que impedem o transporte regular das películas, assim como a sua devida legendagem.

A mistura e o tratamento destes acontecimentos não é apenas reveladora de um país em crise financeira e em crise intelectual — a do tratamento das imagens, sensibilidade diária e sinal de inteligência que já não importa nem à primeira entidade responsável pela sua garantia, ou pelo menos, a mais vista. Trata-se, sobretudo, da prova definitiva que este Governo — e os sucessivos Governos compostos pela mesmíssima classe política que desgovernam o nosso país para o caminho da bancarrota e, sobretudo, da ignorância —, não se importa que a sua população vá jogar golfe com o pretexto de contribuir para uma cultura de lazer, mas já se importa que outra parte da sua população manifeste vontade de ir ver um filme de Godard, Antonioni ou Cimino para se enriquecer de outra forma — o enriquecimento cultural.
Esse enriquecimento é aquele que tem faltado de forma constante a quem nos governa e a quem é governado. Se o país se encontra na situação em que está, será, antes de mais, pela falta de educação e sensibilidade quando é chamado a tomar as decisões mais importantes do seu destino: a da gestão e do direccionamento dos seus recursos, assim como a promoção de uma política virada para um progresso mental e intelectual dos seus contribuintes, habitantes e criadores.
O facto que se chegue ao ponto de intervir no funcionamento regular de uma das poucas instituições que funciona de forma eficiente e transparente em Portugal — a Cinemateca Portuguesa — não é apenas sinal de uma total indiferença por esse mesmo caminho — ausente — que tem minado o desenvolvimento efectivo do nosso país. É a afirmação definitiva que, em tempos de crescimento ou de crise, este Governo, e outros, continuam a ver a cultura como uma soma de conteúdos, e não como sinal de uma riqueza tão indispensável como aquela que está dentro de cada uma das nossas carteiras. Mas Portugal, neste momento, não será mais do que isso nos seus pontos de responsabilidade: carteiras vazias para cabeças sem ideias ou educação. O facto de se censurar a cultivação da sua população e daquele que deveria ser visto como o regular — e essencial — serviço público revela-se tanto na incapacidade do seu órgão oficial de imagens (a RTP) em dar um tratamento devido do mundo que a rodeia, como no abismo final que nos retira, para além do bem-estar económico, o bem-estar cultural, último reduto da nossa vivência em sociedade, e que começa a marcar a vida do eterno e triste destino deste país.
A solução é apenas uma: terminar, de uma vez por todas, com a impunidade da incompetência que nos dirige e da insensibilidade para as áreas essenciais da nossa sobrevivência dentro e fora de uma crise: a educação e o conhecimento. A violência do fim das imagens não será menor do que a da falsificação dos seus significados, já indiferentes a uma população em crise de vida — consequência directa dessa mesma incompetência. Ficamos a saber: para a classe que nos dirige, mais vale ir apanhar bolas do que ver um Godard. Veremos quais das revoltas será a mais consequente, mas para isso, este Governo não saberá que a(s) história(s) das nossas imagens pairam sempre sobre os nossos falhanços.»
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