QUE PAISAGEM APAGARÁS, DE URBANO BETTENCOURT

notas de apresentação de QUE PAISAGEM APAGARÁS, de Urbano Bettencourt

por Carlos Alberto Machado

São Roque do Pico, 30 de Julho de 2010

“(…)

aqui o homem ergue

uma ilha e olha

as palavras cercadas de sal

até onde o olhar se afoga.

(Naufrágios Inscrições: 30)

Todos sabemos que um livro se apresenta por si mesmo; nada do que se diga ou se escreva sobre um livro lhe acrescenta ou lhe tira qualquer coisa – na exacta medida em que não é possível tirar ou pôr algo a algo que não se conhece por experiência própria. Por isso, é o leitor que se deixa apresentar pelo livro que lê, ele que ao mesmo tempo se apresenta ao livro – e dessa relação, afinal, nascem os livros.

Os livros são relações continuadas no tempo. É isso que lhes assegura a tão desejada eternidade. Aos livros a quem esta relação não se reconhece, porque se interrompe algures, resta serem apenas uns objectos que se guardam em estantes, arcas ou outros lugares de morte. Não passam de objectos, e isso diz tudo.

Os livros, vistos relacionalmente, são vidas que circulam, e nesse movimento constante perdem e ganham, diminuem ou crescem – mas nunca morrem. Poderão perder capas e folhas, mas o que neles é importante – ideias, sentimentos, coisas por descobrir – ficam. Quando olhamos para trás, para os livros com que fomos tecendo relações, é disso que nos lembramos, pouco importando se também lhes sabemos a cor do papel ou o número de páginas. Acontece mesmo perdermos deles o título – mas o essencial, se na verdade o livro foi algo que nasceu de uma relação pessoal de um de nós como um outro que se nos apresenta por escrito, então ele perdura, é livro e nós com ele.

É isso que pretendo fazer com mais este livro do meu amigo Urbano Bettencourt. Relacionar-me com ele, de pé para pé, pois apenas isso o honrará. Aqui, em público, não quero, pois, substituir-me ao livro, no sentido em que poderia dizer “este é o livro do Urbano Bettencourt”; não, não é; o livro do Urbano é aquele que nascer da relação de cada um de vós com o que ele escreveu. Ou seja: muitos livros. Para que ele possa continuar-se e nunca morrer. Portanto, aqui, hoje, mais do que “apresentar”, desejo partilhar o livro que é aquele que nasce do primeiro acto, essencial, da escrita do autor, e na sua continuação com um leitor, neste caso, eu. Tão bom ou tão mau como qualquer outro (é bom lembrar que tal como há maus autores (ou não-autores), também há maus leitores (ou não-leitores).

Disse que este livro – Que paisagem apagarás – é do meu amigo Urbano Bettencourt. Não uso o qualificativo “amigo” gratuitamente. Quando evoco a amizade que nos une, é porque – mania minha – considero que a amizade tem uma pertinência especial no processo de relação que evoquei. Explico-me: não procuro fingir neutralidade e isenção; quando leio o livro de um amigo (ou um livro de que antecipadamente sei que gosto), uso esse lado do afecto para uma relação naturalmente mais funda, mais rica, mais complexa. E que implica uma sinceridade e uma frontalidade que só os amigos estão em condições de perceber.

Também devo dizer, porque quem aqui está tem o direito de saber, para um melhor usufruto do momento, qual a relação que existe entre aquele que escreve e aquele que o lê. A amizade entre nós nasce de cumplicidades de trabalho literário, de idênticos olhares sobre as dinâmicas culturais, de atitudes que desgostam o medíocre statu quo literário no nosso país. Etc. Ou seja: por coisas que calam fundo e não por meros encontros de circunstância. E também, em termos práticos, porque partilhámos, com prazer mútuo, nas Lajes do Pico, o projecto da revista Magma e a coordenação da Biblioteca Açoriana – iniciativas infelizmente mortas pelo novo poder inculto.

Mas antes de ir ao livro, falemos do homem e da sua obra.

Urbano Bettencourt tem dedicado parte da sua vida a projectos de divulgação da literatura açoriana. Desde muito jovem foi colaborador da imprensa escrita: ficou ligado ao suplemento “Glacial”, de A União, e que constituiria a matriz referencial de um grupo de escritores açorianos revelados nos finais dos anos 60, princípios dos anos 70; naquele jornal terceirense viria a alargar a sua participação através dos suplementos “Juvenil” e “Cartaz”, entre 1972 e 1974, altura em que cumpria serviço militar na Guiné.

No final dos anos 70, dirigiu, juntamente com o poeta J. H. Santos Barros, A Memória da Água-Viva (revista de cultura açoriana) durante a sua fase de publicação em Lisboa.

No seu Concelho de naturalidade, o das Lajes do Pico, colaborou, entre 2005 e 2009, na revista Magma, que dirigi: Urbano teve várias participações e a coordenação editorial do seu número 3, dedicado à poesia dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde, em 2006; coordenou comigo a Biblioteca Açoriana, de que se destacam duas obras: o prefácio de A Moldura, de Conceição Maciel, e a organização da antologia de contos de José Martins Garcia, Português, Contrabandista, em 2009.

A poesia açoriana fica a dever-lhe a colaboração na edição de algumas importantes antologias de poesia açoriana, como Caminhos do Mar. Antologia Poética Açoriano-Catarinense (com Lauro Junkes e Osmar Pisani). Florianópolis, Brasil, 2005, Pontos Luminosos. Açores e Madeira-Antologia Poética do Século XX (com Maria Aurora Homem e Diana Pimentel). Porto, 2006 e Azoru Salu. Dzejas antoloģija (com Leons Briedis). Riga, Letónia, 2009.

Urbano Bettencourt – Licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa – é, desde 1990, Assistente Convidado na Universidade dos Açores, onde tem leccionado, entre outras, as disciplinas de Introdução aos Estudos Literários, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa e Literatura Açoriana.

A sua dupla actividade, digamos assim, de criador e de professor, tem tido como resultado a edição de vários livros de crítica e divulgação literárias, com particular atenção para as literaturas insulares, comos sejam os conhecidos O Gosto das Palavras (I, II e III, entre 1983 e 1999); em 1989, o Emigração e Literatura; em 1998, o De Cabo Verde aos Açores – à luz da «Claridade». Mindelo-Cabo Verde; e, em 2003, Ilhas conforme as circunstâncias. Neste domínio da crítica e divulgação das literaturas insulares, tem realizado conferências em Cabo Verde, Madeira, Canárias e diversos pontos dos Açores. Tem igualmente vários ensaios dispersos por revistas da especialidade, dentro e fora do país. Além de colaboração dispersa pela imprensa, rádio e televisão; para esta última trabalhou com o realizador José Medeiros na feitura do documentário Djutta Ben-David: voz & alma e na adaptação do romance Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio.

Como criador, Urbano Bettencourt estreou-se em 1972, numa edição de autor, a partir de Setúbal: Raiz de Mágoa, assim se intitulava a sua primeira obra de poesia. Entre a poesia e a narrativa, o Urbano deu a lume mais oito obras, a saber: Ilhas (de parceria com Santos Barros), em 1976; Marinheiro com residência fixa, em 1980; em 1987, Naufrágios Inscrições; Algumas das Cidades, em 1995; Lugares Sombras e Afectos (com desenhos de Seixas Peixoto), em 2005; Santo Amaro sobre o Mar (com desenhos de Alberto Péssimo), em 2005, reeditado depois em 2009, pela Câmara Municipal de S. Roque do Pico; em 2006, Antero (com desenhos de Alberto Péssimo); e, agora, este Que paisagem apagarás.

Acrescente-se que está representado em diversas antologias de poesia açoriana publicadas em Portugal e no estrangeiro.

Com esta sucinta nota bio-bibliográfica, fica o essencial que neste domínio pode ser dito como perfil do autor Urbano Bettencourt (de nome de registo Manuel Urbano Bettencourt Machado), nascido nesta Ilha do Pico, no Calhau, freguesia da Piedade, corria o ano de 1949.

Ainda antes de ler o Que paisagem apagarás, permitam-me uma breve deambulação por algumas das obras de poesia e narrativa do nosso autor.

“(…) ganhar cada um o poder de organizar as suas contas com o mundo e nomear as coisas de que se faz a vida de homens remetidos ao curto espaço entre o mar e a serra; essas seriam as armas de que eles poderiam dispor sempre que decidissem romper o cerco da ilha e enfrentar os desafios do desconhecido, em busca do sonho escondido nas outras margens do mar.”

(Santo Amaro sobre o Mar: 44)

Uma das coisas com que gosto de me relacionar na escrita poética de Urbano Bettencourt é o seu modo, ou modos, de falar das suas ilhas – de aquela onde nasceu e das outras por onde passou ou em que viveu. Passam os anos e com eles a maneira como nos relacionamos com o nosso mundo, os modos como o filtramos, ou, se quiserem, os modos como o construímos. De algum modo, o olhar poético é essa particular querela de nós com o mundo e de como nela e por ela o escrevemos e nos escrevemos a nós próprios, isto, é, de como cada um de nós se faz um ser diferente dos outros seres. O mundo de ilhas do Urbano não é seguramente o do folclore institucional a que se obrigam os que sofrem de falta de imaginação – e lá vêm então vulcões, magmas, nuvens e neblinas, baleias e baleeiros e mais uma mão cheia de lugares comuns que deveriam apenas, para sossego dos nossos olhos e dos nossos ouvidos, adornar bilhetes postais e outros souvenirs. Urbano usa o “cordame a rede sexual dos versos em construção”, pois armar “o texto é ceder às imponderáveis pressões das marés”, cito de Naufrágios Inscrições (pg. 11). O texto procura dizer e dizer-se:

“Como afrontar a erosão do gesto? Algumas

das palavras flutuam depois de mortas mas o vento

as dissipa, lhes disseca a emoção de breves corpos sobre

a margem. Entretanto simularás aqui a construção da frase

língua a língua enunciada, o rumor do verbo no ventre

das baías.”

(Naufrágios Inscrições: 16)

Neste livro (de 1987), não é apenas no dizer ilhéu que o poeta procura o dizer-se e o dizer, leiam-se as suas palavras a pretexto da narrativa ficcional Orlando, de Virginia Woolf:

“Sabido é que o tempo

sobre os corpos actua e se transmuta, neles depondo

os resíduos, a intocável poeira das palavras

ou deles ressurgindo sedimentos, secreto

fulgor das mais antigas fundações.”

(Naufrágios Inscrições: 22)

“Fazer versos dói? Não!”

(…) O que dói é arrancá-los

assim ao próprio sangue como se um filho fora, erguê-los

à boca, dar-lhes um nome e nisso inscrever

a nossa morte. A nossa vida.”

(Naufrágios Inscrições: 25)

Poderia por muitas páginas mais continuar a citar as palavras que nos poemas do Urbano desenham uma “Arte Poética insular” – que bem poderia adoptar “a garrafa como meio de comunicação trans-atlântica” (Naufrágios Inscrições: 26) – antes de entrar no diálogo com o seu novo livro. Vou refrear a vontade e fazer visitas, breves, a mais três livros – e que isso possa servir também de mostra da riqueza e diversidade da escrita do Urbano, ao mesmo tempo que nos servem de ponte para o prazer da leitura de Que paisagem apagarás.

O Urbano é um visitador, e dos “lugares” que visita nascem “afectos” – aqueles que nos chegam pelas suas palavras, uma maneira especial de restituição do vivido, que é como quem diz, passos de um percurso de construção de identidade. Velada aqui e ali por algumas “sombras”, que os caminhos dos poetas nem sempre são jornadas plenas de claridade.

Tenho viajado muito

nem sempre na melhor altura.

(Algumas das Cidades: 45)

Três livros do autor têm directa e particular relação com os lugares visitados, desde as deambulações ocasionais por diferentes geografias, até aos lugares onde viveu parte significativa da sua vida. Algumas das Cidades (1995), Santo Amaro Sobre o Mar (2005) e Lugares Sombras e Afectos (2005) – e igualmente, veremos, no seu novo livro.. Neles se cruzam de forma mutuamente enriquecedora a poesia, e narrativa e a crónica, dando por vezes lugar a formas híbridas que potenciam o estético na sua estreita relação com o real.

Horta, dividida entre memórias e realidade, “de encontro à Montanha emboscada na sua teia de nuvens” (Algumas das Cidades: 13); “Que maldição no teu corpo se completa, encantamento ou feitiço, que nem o beijo profano de Nemésio logrou quebrar?” (Algumas das Cidades: 13);

“Uma cidade ama-se. Ou odeia-se.

E compreendê-la?”

(Algumas das Cidades: 13)

“(…) mas quem poderá desvendar os recantos mais secretos de um homem ou interpretar os desígnios que os seus gestos transfiguram e mascaram?” (Algumas das Cidades: 23).

Santo Amaro, Concelho de São Roque do Pico, é terra de afectos do Urbano: nela passou grande parte da sua infância e adolescência e ele tem sabido honrar a dívida de gratidão: Santo Amaro sobre o Mar (com desenhos de Alberto Péssimo), obra de 2005, reeditada em 2009 pela Câmara de S. Roque, é-lhe inteiramente dedicada – texto próximo do documento histórico, onde são analisadas obras e testemunhos humanos que de algum modo fazem a história de Santo Amaro. Para além do rigor exigível a um historiador (não o sendo Urbano), acresce a delicadeza de uma escrita que faz do afecto uma ímpar mais valia. “Vim por causa de um sonho” frase que terá o dom de “dar sentido e seguimento às coisas do mundo e dos textos”, escreve Urbano a propósito de António d’Ávila Gomes e do seu neto António d’Ávila Bettencourt (pgs. 32 ss.). E aqui, explicitamente, a frontal recusa de certos escritos, meros “produtos turístico-culturais para consumo embasbacado, portadores de uma imagem enviesada da vida e das gentes açorianas (…) uma incomensurável tontice para falar da paisagem açoriana «onde a pedra branca e negra joga com o verde a perder de vista»”. (pgs. 17-18).

“Como Ulisses recuso a surdez:

ergo do chão a vara poupada pelo fogo,

a ela me arrimarei enquanto vogo

de costa a costa

de ilha a ilha.

(Lugares Sombras e Afectos, 9)

Lugares Sombras e Afectos, de 2005, é um livro particularmente forte e comovedor:

“Regresso dos nomes e lugares

destes versos. Não direi, porém,

a exacta dimensão em que me tenha

perdido ou encontrado.

Pouso no peitoril a túnica

das palavras, o secreto sal dos seus caminhos,

e escuto

a lenta respiração

do mundo.”

(Lugares Sombras e Afectos, 18)

Nele, a sua poesia tem a exactidão das palavras e das coisas, quando elas são mais matéria concreta, e a procura da linguagem poética se faz nesse entreposto entre chão e língua:

“Onde for o lugar de tudo isto e a memória

desse lugar,

aí encontrarás a raiz exacta

das palavras,

a seiva

de que a vida se sustenta.

(Lugares Sombras e Afectos, 22)

Livro diverso e heterodoxo, onde, a par da sodade de Cabo Verde, por exemplo, há também lugar para um poema de sabor ferlinghettiano:

“Creio

na vinda do Grande Sismo com epicentro no coração

das violas da terra e do mar

que dê um estremeção à casa Fechada

e estilhace as vidraças por onde passem

os pássaros e as correntes frias do Norte,

(…)

E espero

finalmente

Que o corvo e a pomba venham anunciar

a primeira folha de cegueira e o fim

da Grande Seca Universal.”

(Lugares Sombras e Afectos, 57-58)

Chegados, finalmente, a Que paisagem apagarás, gostaria de começar o diálogo anunciado com uma epígrafe sacada ao primeiro conto do livro – pois o livro é de contos (15) acrescidos de Breves, brevíssimas e (des)aforismos, assim mesmo, o autor é que manda e sabe (ou vive-versa); a epígrafe, pois:

“Perseguir um verso pode ser um projecto de vida, mesmo que se trate de um verso funesto.” (do conto “O comboio inexistente”).

Embora não goste muito de diálogos em que se evoca terceiros sem a permissão prévia do autor, arrisco a amizade invocando como possíveis patronos dos textos deste livro, os portugueses José Martins Garcia e Mário Henrique Leiria e o espanhol Ramón Gómez de La Serna – se o tempo disponível fosse outro, creio que eles, e talvez outros (vindos da portuguesa tradição romanesca oitocentista, quem sabe?), poderiam fazer com os textos do Urbano uma interessante polifonia.

Em algum do timbre do Urbano nestes contos e outros textos são reconhecíveis sonoridades de humor e de non sense que, para abreviar razões, se poderiam relacionar, ainda que longinquamente, com a área britânica (Carrol ou Sterne), ou com alguma da prosa albergada sob o largo chapéu do surrealismo francês ou afrancesado (pré, lui même ou aparentados): Jarry, Queneau, Vian, etc. Mas, sobretudo, a mesma veia que em Portugal deu Lima, Pacheco, os citados Martins Garcia e Leiria ou algum Sena.

Erudições arredadas da viagem, e entro n’O comboio inexistente. Ouço e observo a personagem Antero, para quem “a paisagem em si mesma não comovia por aí além; melhor dizendo, só o comovia enquanto objecto já transfigurado pela imaginação lírica.” Um desconhecido, que há pouco se tinha sentado em frente de Antero, diz de repente:

“Vou à procura de uma mulher que saiu de casa atrás de um verso de treze sílabas.”

E o diálogo que logo se estabelece:

“– Não creio que seja uma boa razão para viajar.

– A da mulher ou a minha?

– A sua.”

Deixo-os, alguns minutos, linhas depois. “Todos passamos por momentos de desânimo.” (Que paisagem apagarás, 9 e 11).

Resolvo ir às Lajes, para tomar um chá. “Aos poucos, uma sonolência foi-me aconchegando o corpo, deixando-o num amolecimento geral. (…) Algum tempo depois, não sei quanto, eu fazia whale watching a bordo da Cigana, navegávamos ao longo da Rua Direita, o vigia avistara um grupo de golfinhos no Lago da Matriz. (…). Na confusão que se seguiu, alguém me atirou ao chão e dezenas de toupeiras passaram sobre mim em correria desenfreada. Com o esforço para me erguer, acordei. De manhã, falei deste sonho ao senhor Amílcar. Ele sorriu. – Isso foi do chá de ontem. O tal da imaginação. E como bem sabe, senhor Machado, esse chá é totalmente imprevisível.” (Que paisagem apagarás, “Nas Lajes, um chá imprevisível”, 15-23).

Estes são apenas dois exemplos do tom que percorre os contos de Urbano Bettencourt em Que paisagem apagarás.

Nunca abandonando o humor inteligente, Urbano tem um outro registo neste seu novo livro que é de inteira justiça destacar: por um lado, porque nesses textos se vê o que acima disse sobre os lugares e os afectos; depois, porque abordam a sua experiência na guerra colonial (Guiné-Bissau), de uma forma despojada, lúcida e, ao mesmo tempo, com uma grande capacidade de empatia com os protagonistas de uma guerra. Um excerto de “Noite” (pgs. 77-93) – que me perdoarão por ser algo longo:

“A lanterna do enfermeiro projecta um clarão trémulo sobre formas irreais. Um pouco à frente, o Marques estendido no chão, sem pernas, o ventre rasgado e exposto ao pasmo dos vivos. Tudo acabava ali, sem glória nem dignidade, mesmo a de um espaço de recato onde cada um pudesse acompanhar o Marques nessa velada antes da última viagem. (…) Quando, aos poucos, regressarem à realidade em volta, buscarão no ombro ao lado o conforto que ninguém será capaz de dar-lhes. Um cansaço de álcool atacar-lhes-á os músculos e as articulações, uma água insidiosa vai minar-lhes os nervos e a alma. E terão envelhecido séculos. (…). E depois de tudo isto o nome de um homem é o quê? Há ainda alguma coisa concreta e tangível que possa responder-lhe? Ou já não passa de um conjunto de sons que se abrem numa sequência de imagens desencontradas e fugidias? A partir dali, pensar no Marques será sempre uma tentativa de imaginar o lugar improvável onde as suas pernas acusam a ausência de um corpo que as reúna e justifique. E nenhuma luz brilhará sobre esse tempo.”

Passo aos finais com umas conversas com Breves, brevíssimas e (des)aforismos, deixando-vos esta bela quadra, que o poeta Joaquim António da Silva dedicou ao gato da “Viscondessa da Cruz, formosa dama de uma repartição pública”:

“Gato que mijas na cama

Como se fosse na rua,

Não faças disso um drama

Porque a cama não é tua.”

A terminar, alguns (des)aforismos, para que possam agradecer ao Urbano a sua inteligência e humor:

Grandes esperanças

Desencantado com a vida, a família e os amigos, disse adeus ao mundo e refugiou-se na adega com vista sobre o mar do Canal.

Ao fim de sete dias e sete noites de muito beber, começou, finalmente, a ver uma luz ao fundo do tonel.

Ernesto Gregório, hamletiano

Haver ou não haver… um representante da República junto da literatura açoriana.

Sustentações (em louvor do Divino)

Decorreu com enorme sucesso o workshop sobre “A importância dos fractais num desenvolvimento turístico harmónico e sustentado”.

Antes dos trabalhos, foram servidas sopas do Espírito Santo.

Durante o coffee break, foram servidas sopas do Espírito Santo.

No final dos trabalhos, foram servidas sopas do Espírito Santo.

O esplendor da crítica

O crítico de serviço leu demoradamente o livro Lugares sombras e afectos. E acabou por deter-se numa questão de suma transcendência: os apetitosos seios desenhados por Seixas Peixoto são regionais ou universais?

Entrevista de bolso

O futebolista Esculpício, interrogado sobre a existência da literatura açoriana:

“A mulher e as crianças dizem que sim, mas o mister diz que nunca leu. E se ele não leu é porque não há.”

Ernesto Gregório, parafraseando Juliette Greco

Os maiores escritores açorianos vivos estão mortos.

“A importância da Retórica

O Senhor disse ao homem: “Comerás o pão com o suor do teu rosto.”

O homem tomou à letra as palavras do Senhor. E num inverno rigoroso, sem conseguir suor para acompanhar o pão, acabou por morrer de fome.

É o que acontece a quem não sabe da Retórica.

Ladrão que rouba a ladrão

Uma tarde, entre o cigarro e a cerveja, ele queixou-se de um certo U. Bettencourt, que andava a rapinar-lhe títulos, versos e até períodos inteiros dos seus livros.

Aconselhei-o, então, a usar aspas e citar fontes, para que esse tal Bettencourt pudesse copiar directamente do original.”

Espero que leiam o livro e se divirtam. Ah, cuidado com a Retórica…

Obrigado.

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One Comment to “QUE PAISAGEM APAGARÁS, DE URBANO BETTENCOURT”

  1. CARÍSSIMO
    APENAS HOJE , POR SER DELIBERADAMENTE QUASE INFO EXCLUÍDO , TIVE CONHECIMENTO DE UMA CRÍTICA DEVERAS CONTROVERSA. SOBRE O FORTE E COMOVEDOR ” LUGARES SOMBRAS E AFECTOS” ( com c antes do t como manda a regra da minha escolaridade). DE FACTO O ESPLENDOR DA CRÍTICA NUNCA DEVE TER MAMADO SEQUER NOS SEIOS , VULGO MAMAS DA SUA PRÓPRIA MÃE…

    MAMAR É UNIVERSAL E SE VOSSA EXCELÊNCIA NÃO MAMOU NAS TETAS DE SUA MÃE , COMO PODERÁ CONHECER A ANATOMIA DE TAL ORGÃO QUE PRETENDE DEFINIR.

    QUE PAISAGEM TERÁ VOSSA SENHORIA DE APAGAR , PARA CONSEGUIR TRANSCREVER OS SEIOS EM PALAVRAS QUE MEREÇAM A DIGNIDADE DE TAL FONTE DE ALIMENTO POÉTICO HUMANO.

    seixaspeixoto

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