5 Cervejas para o Virgílio [teatro]

 

5 cervejas para o Virgílio

V

UMA CERVEJA (MORNA) NO INFERNO

 

Virgílio-narrador

Antes e depois estás sentado a uma mesa da cervejaria. Uma Sagres morna faz-te companhia. Traaaaalarilolé… Falas pouco, mesmo com os copos. Pigarreias a doença que há-de matar-te. Por ora, arrastas a tarde. O moço ouve-te ao ritmo dos goles de cerveja morna em tarde de verão, sem imaginar que um dia há-de arranjar coragem para se contar e pegar nas tuas palavras a modos de gratidão, ou lá o que há-de ser. Apanhou alguns jeitos teus, o miúdo refilão. Deixa-te de literatura, Virgílio, deixa lá ouvir o que o miúdo-que-já-não-é te pôs a dizer em fim de vida, livra!

 

Virgílio

Sabes, Carlitos, talvez um dia a ti te dê também para inventares a vida de outra maneira. Inventar, pois!, que outra merda querias que se fizesse? Esses gajos andam todos a cagar d’alto do neorealismo, do surrealismo, do abjeccionismo e do caralho que os foda a todos, é tudo mas é um grande despautério, miúdo! A malta o que faz é inventar a porra da vida, uns têm é mais jeito e leituras que outros, é o que é! E uns matam-se, como fez o doido do Dácio. E não me venhas com a porra do Herberto! Olha pró gajo, ali cheio de admiradores, aquelas putas que nem ler sabem, como aquele cabrão do Nelson, chulo de merda! O cabrão do Herberto é só um grande inventor da merda da vida. E a puta do Cesariny é outro. E o doidivanas do Pacheco leva-lhes a melhor. Não há muitos mais que o façam assim com as letras. De resto, ficam a inventar mulheres e filhos e empregos e salamaleques e enfartes do miocárdio e blá blá blá e reformas e medalhas e o caralho do Salazar e estes filhos da puta dos partidos da democracia, tudo invenções rascas. A verdade? Talvez os mortos a saibam… Não digas a ninguém que te digo isto. Ora porra! Não fiques envergonhado. Bebe mais uma.

 

Tenho inveja de vocês quando estão lá no palco. Mesmo quando fazem aquelas merdas do Saramago — tu até ias bem no Camões, mas o teu “patrão” só gosta de miúdos para os foder. Mesmo assim gosto de vos ver, aquelas mentiras sabem mesmo bem, é por serem feitas de carne e osso e por isso não se podem desmentir, não se podem apagar e substituir como a merda das palavras que escrevemos. Até a porcaria das palavras que escrevo para vocês ficam duras como caralho entesado, têm sangue a pulsar. Traaaaalarilolé! Tenho mesmo inveja de vocês… Entre cada ressaca a vida que vocês vivem fingida vale mais que tudo. Não dói tanto, acho eu… É fácil esquecerem-se da noite anterior.

 

(silêncio)

 

Estás para aqui a aturar a merda dum bêbedo! Bebe… Já te disse. Não digas nada.

 

Vai refilar com o outro, o que te fode a vida, está bem?

 

Quando perderes o medo vais ficar cagado para sempre, à procura, a inventares-te e… Engelhado. Sinto-me assim, não julgues. As mãos ficam presas… Aquela miúda do cu em pera, sabes? Essa puta começou a engelhar-me. Sabes como é que comecei a sentir-me ao fim de uns meses com essa gaja? A puta parecia que me chupava por dentro, sugava-me, e eu a pouco e pouco ia-me sentindo engelhar — a ficar a olhar para a televisão ou para os estúpidos dos amigos dela, aqueles idiotas a quem ela me apresentava como se eu fosse o seu animal de estimação. E para quê? Na verdade, a gaja nem gostava de foder, era completamente frígida. O Manel João é que se fartou de me avisar — e depois também ele caiu na esparrela… Uma merda. Mas se não fosse com ela havia de ser com outra, esta parte da vida é sempre… Tu gostas de foder?

 

Eu não te escolhi, ouviste?!

 

Não te ponhas aí a pensar que és uma espécie de “escolhido” — e mesmo que fosses, também tu podias ter escolhido melhor… Traaaaalarilolé!

 

Sabes qual é a última merda que tens que fazer na vida? É escolheres a miúda que te levanta os colhões antes de te mandar umas pazadas de terra para cima. Pois. Os papéis que deixares escritos não hão-de servir-te para nada.

 

Já enterrei alguns gajos, sabias? Já. É fodido. E depois escreves. Apagas a memória quantas vezes for preciso. Mas nunca chega, nunca… É que na vida de um gajo há uma merda que nos faz uma falta dos diabos. São costelas, são fígados que nos arrancam, sei lá, toda a gente sente mesmo que ficou sem mais um bocado, escrevemos juntos a merda da vidinha e depois ficamos como uns velhos nos corredores das urgências…

 

O que é que isto tem a ver contigo ou comigo? Não sei… Não bebas cerveja gelada, faz-te mal.

(silêncio)

 

Vou morrer com um cancro na garganta. Ou no cu.

 

Boa literatura…

 

Bebe mais uma. Natural. Que se lixe o calor!

 

De que é que estavam à espera? De um final literário? Peçam ao Saramago! Ou ao Urbano! Vão pró caralho!!

 

Tás com cara de Jesus Cristo berbere. Vou deixar-te para aí uns papéis com umas merdas, com umas merdas que ninguém quer, se a minha bruxa não tos arrancar com a cona pede ao Vitor Silva Tavares que faça deles um livreco.

 

Que se foda o Saramago.

 

(bebe)

 

Levas-me a casa?

 

(bebe)

 

Achas que isto é final que se apresente?

 

(bebe)

 

Tens uma cama?

 

(longo e definitivo silêncio).

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