TEATRO DA CORNUCÓPIA. As Regras do Jogo [ensaio-teatro]

Teatro da Cornucópia. As regras do jogo

É possível afirmar que em todo o percurso do Teatro da Cornucópia a generalidade dos críticos (das suas vozes) não procura atribuir à Cornucópia uma personalidade (ou identidade) artística. Em nenhum momento se detecta com clareza a preocupação de construir um discurso sistemático que intente defini-la e depois questioná-la, confrontando-a com ideia que a Companhia faz de si mesma. Desde 1973 até 1995 é possível afirmar que a Cornucópia faz um caminho em que o diálogo que procura é sistematicamente iludido: salvo pouquíssimos casos isolados, em certos momentos ou conjunturas, quem tem a “obrigação” de comunicar (os críticos, entre outros) não usa a mesma linguagem que permite a comunicação eficiente (porque recusa essa linguagem, porque ela está além das suas possibilidades?).

Se hoje é possível reconhecer que o Teatro da Cornucópia mantém ao longo da sua história uma coerência dinâmica, isto é, um mesmo tipo de preocupações (éticas, políticas e estéticas) e a procura de uma linguagem artística consentânea com esse tipo de preocupações, em função do tempo e das situações e não de modelos ideais, se tem esta coerência dinâmica, dizia, tal deve-se no essencial às convicções e posicionamentos firmes dos seus elementos, em particular dos que assumem a liderança da Companhia, e pouco aos diálogos tecidos com os seus comentadores oficiais – diálogos que procura sempre, afirmando-o publicamente e publicamente afirmando as suas teses, mas também as suas dúvidas, anseios e perplexidades. Está dito, está escrito nos muitos textos que suportam a digressão que aqui nestas páginas se realiza, nos diálogos construídos que, suponho, por vezes ao arrepio dos seus autores, aqui se erguem. Linguagens que não se cruzam porque são intrinsecamente diferentes, como sugiro? A impossibilidade da própria natureza do exercício crítico, que é também consequência da natureza do medium utilizado (situação que uma e outra vez a generalidade dos críticos realçou, a consciência que há uma desmesura na arte do espectáculo, um investimento criativo que não é passível de “tradução”)? Não sei responder cabalmente e com certeza segura. Sei que posso colocar num quadro uma imagem que a Cornucópia desenha de si própria através dos seus enunciados, a auto-percepção da sua imagem, o que a Companhia diz que é ou que quer ser. Sei que posso colocar num quadro outra imagem, mais fragmentada, multi-autoral, que é a da crítica como produto de uma variedade de vozes, o que os críticos desejam que a Cornucópia seja ou o que desejam que os outros pensem que ela é.

A generalidade dos críticos, isto é, os críticos como indivíduos mas também como donos de vozes, ao fim de um tempo de contacto prolongado com os espectáculos da Cornucópia, ou com a memória que deles vai ficando pelo rasto deixado por outras vozes críticas, incorporam os temas e as modalidades com os quais a Companhia vai erguendo a sua identidade, que é, já o disse (já o disse muitas vezes), uma identidade de incompletude construída numa luta permanente contra a morte, ou num diálogo com ela, na constante reflexão sobre um tempo e uma sociedade (civilização) que destrói a pouco e pouco as esperanças dos homens – e aqui o percurso da Cornucópia é uma mistura de esperança e mal-estar ou desesperança, temperada sempre com uma grande teimosia na magia e nas regras do teatro. E, sempre, uma crença absoluta em que o teatro é o corpo e a alma dos actores, sempre e cada vez mais expostos, entregues a um jogo que se quer progressivamente despojado: os actores como a última (única?) possibilidade de comunicação (de redenção?).

Neste turbilhão de jogos, emoções, crenças e desesperos poucos foram os críticos que voluntariamente jogaram o jogo da Cornucópia com as suas regras, um jogo de que não se pode sair imaculado (ia a escrever vivo). Os que mais arriscaram, nem sempre, nem sempre a jogar jogo aberto, produziram com a Cornucópia, numa comunhão que só o tempo, a sua passagem incontrolável, poderá iluminar, as ideias e as imagens com as quais é talvez possível chegar um pouco mais perto de uma arte visceral como o teatro que a Cornucópia faz. Os outros, porque não querem ou não podem, deixam para a história de uma Companhia crónicas que apenas podem ser testemunhos de umas noites quase sempre passadas numa cave grande e desconfortável, onde umas quantas pessoas teimosamente expõem em público actos e palavras, umas vezes inteligentes e belos, estranhos, espectaculares, longamente incompreensíveis, ou objectos perturbadores e belos sob uma luz tão pouco semelhante àquela que cá fora ilumina as suas também precárias existências.


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