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12/01/2012

BOTEM OS HOLOFOTES SOBRE O GAJO

por cam

Já tentei chegar à coisa de várias maneiras, a menos má é esta: Botem os holofotes todos sobre o gajo que dá pelo nome de António Cabrita e está no Alto Maé, Maputo, Moçambique, mais a Teresa e as suas três meninas! Um gajo agarrado ao tutano da terra e a viver noutro espaço-tempo. E faz disso escritura como pouca se faz no mundo que eu conheço. Pronto, está dito.

Ando às voltas com o Respiro dele (edição Língua Morta, Lisboa, Novembro de 2011 – não saiu em nenhum Top Ten, estejam descansados!). São trinta páginas de texto que pesam como um milhão de anjos (talvez caídos).

Num repente, pode ser assim: o Cabrita convocou Plotino, Koestler, Bosquet, Octavio Paz, Ken Wilber e Shayegan (exemplos maiores) para servirem de pilares e traves mestras para uma casa que ele próprio constrói. Até aqui, tudo bem. Ora, acontece que a casa que o Cabrita quer construir com eles é uma casa que desconcertaria qualquer arquitecto, dos idos e dos vindouros, parece-me, pois tem como principal traço distintivo o de ser uma casa e o seus desdobramentos sem fim. As cobertas não são o que parecem, nem o chão, e molda-se aos pensamentos de cada habitante ou visitante. Mais ou menos, que as palavras parecem estar a ser contaminadas pelas flutuantes terras moçambicanas.

Cabrita evoca o “clamor das contradições” (Plotino), os hólons (Koestler), o “terceiro incluído” (Nicolescu, Lupasco)… para dar umas valentes voltas ao real e à realidade, à referencialidade, ao uso da metáfora e da metonímia, ou não fosse o poeta, na iluminação de Jean Carteret, “o homem mais esburacado do mundo”.

(quando acabei a primeira leitura, só me apeteceu copiar todo o livro, como fez segundo Borges, o Pierre Menard, que “tinha a admirável ambição de vir a produzir umas páginas que coincidissem, palavra por palavra, linha por linha, com as de Miguel de Cervantes” no seu Quixote. Pois.)

Sobre a metáfora, nas palavras do poeta libanês Adonis: «Quando a metáfora encosta à ordem do dizer é porque está degradada e estampa unicamente uma réplica rançosa de um território que a retórica já mapeou – o que hoje, na realidade, acontece à maior parte da escrita e escolas, sem excepção.»

Os hólons, “cabeça de Janus: podem ser vistos como um todo em si mesmo e, simultaneamente, como uma parte do todo maior”, marcam o caminho do Cabrita na primeira parte do ensaio, mas ele faz questão de dizer que não há “hologarquias”, pois há uma diluição de categorias e não um esforço da legitimidade das mesmas – um não à autoridade. A água que sob fervura sobe no alguidar é o território da imanência, seguida de extraterritorialização, e dessa dobra nasce um novo plano imanente e assim sucessivamente. Por outro, lado, sem contradizer isto, mas seguindo-se-lhe, socorre-se ele de Bosquet : «avant l’arbre, il y a le besoin de dire arbre. Donc, la poésie va vers un renversement des hiérarchies.» A escrita vem de fora (Christian Bobin), o aqui e agora que tem no Efeito de Moebius (Pierre Levy) um recurso de uma consciência, corresponderá à Dobra de Fora de Deleuze.

E (simultaneamente), a “intuição de Paracelso: “em cada nível é a mente quem faz ver os olhos” – “e viva a reversão do Efeito de Moebius”.

Na segunda parte, Cabrita ataca a linguagem. Talvez as palavras que pede emprestadas a Octavio Paz digam o essencial: as palavras são elas o “o referente e são tão reais como as árvores, as casas, os aviões as paixões”. Isto porque o Cabrita se deita a falar de “linhagens de poetas”, uma, daqueles que se servem da linguagem como instrumento auxiliar; outra, daqueles para quem a “linguagem é em si mesma um problema, um conflito já existente, uma dobra” – e depois traz à liça o Herberto Helder. De um gag do Bucha & Estica, salta o cinéfilo Cabrita da “terceira mão” do gag para uma “terceira palavra”, a Graça de ser capaz de “aceitar o estranho como parte de nós. A “terceira palavra” é o poeta aceitar uma palavra que não lhe pertence – a instauração do sagrado.

Entro na terceira parte, em que o Cabrita diz que no mundo às camadas – os hólons – quando “ocorre uma passagem de uma para outra camada ocorre uma conversão semiótica”. No interior da linguagem, “a lógica deixa de operar segundo um esquema linear, gramatical, que se duplica na representação do espaço-tempo sucessivo, para actuar segundo intersecções, vizinhanças, constelações, fractalidades.” E diz ele julgar que se localiza “aqui a origem das disparidades que retalham o tecido da poesia contemporânea”

(isto está na página 26, não me apetece fazer ecoar aqui os nomes que povoam o texto).

Interessa-me, isso sim, abrir o peito a balas como estas: o poeta “habita” o “susto da linguagem”, “é uma coisa que se «sofre», e que não se pede ou de que se faça posse”. Esta parte termina com uma citação de Llansol, de Um Falcão no Punho, que talvez pudesse estar como epígrafe geral do ensaio: “Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.”

(agora devir ficar um ano a reler os livros da Llansol, mas nã’ posso)

Da quarta e última parte quero reter a reafirmação do duplo contra o uno, das simultaneidades contra o plano rasante, dos paralelismos simultâneos contra as univocidades, e assim (percebam que estes “contra” não são bem contra seja oque for…).

Outros “contras”: contra “o patchwork que é a regra que enganosamente nivela o mar das consciências”; contra o “sabor único”.

(agora devir ir trocar as partes todas e reescrever o texto, mas nã’ tenho forças)

Em 2007, a propósito da celebração de mais um Dia Mundial da Poesia, editei uma plaquette com um texto do Cabrita intitulado Que histórias conta o ouriço à baleia? – Travessias no imaginário. Começa assim: “Na Índia, Deus pode criar uma pedra que lhe seja impossível deslocar, e sonhar um sonho do qual não desperte. O que seria uma impossibilidade lógica para o pensamento ocidental. Na filosofia, chama-se a esta impossibilidade lógica uma aporia. Mas não existem aporias na literatura.”

Não sei quantas vezes mais voltarei a este livro do Cabrita, tenho de confessar que sofro de outras perturbações: agora, é com o Carlo Michelstaedter – La Persuasión y la Retórica, edição espanhola – e com o Quaresma, Decifrador, do Pessoa (mas o monte na realidade é maior e a confissão passaria a ser vergonhosa).

Ao fim da terceira leitura, impuseram-se-me os sobressaltos que se seguem:

1 . Um texto também serve para aprender

2 . Um texto também serve para cair num poço

3 . Um texto não serve para saber se o poço tem fundo

4 . Um texto pode ser um poço

5 . Um texto pode (deve?) ser Dois

6 . Um texto vai a meio

7 . Um texto flui como vida

8 . Um texto não existe porque é sempre a vontade de outro texto

9 . Um texto não se possui

10 . Um texto é ponte e travessia.

Respiro, ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011
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08/01/2012

A INVENÇÃO DOS OUTROS

por cam

Suplemento Babelia, do El País, hoje:

«En 1984-1985 una exposición comisariada por William Rubin y Kirk Varnedoe se abría en el MOMA neoyorquino y a su modo inauguraba una corriente de revisión que, con mayor o menor sentido crítico, con más o menos rigor histórico, ponía en evidencia las complejas relaciones e influencias que las vanguardias históricas habían establecido desde siempre con las culturas otras, diferentes: “Exóticas”. En la muestra, Primitivismo en el arte del siglo XX. Afinidad de lo tribal y lo moderno, que hizo correr ríos de tinta en contra y a favor, se planteaba un recorrido desde los pioneros -Gauguin, Matisse y Picasso-, para seguir después con los expresionistas alemanes, Klee o Leger entre otros, llegando a tratar a los expresionistas abstractos americanos y hasta ejemplos del land art y Beuys, sobre todo porque las influencias “primitivas” contempladas en la muestra -se explicaba en el catálogo- eran tanto de África y Oceanía como de América del Norte.

Grupo de habitantes de las islas de Andamán, en el golfo de Benguela, fotografiados en París alrededor de 1869. Imagen incluida en la exposición La invención de lo salvaje. Zoos humanos, en el Museo Quai Branly, de París.-

Un juego de paralelismos organizado a través de yuxtaposiciones que desvelaban las “afinidades”, sobre todo formales, entre Occidente y los “otros”, escenificaba una especie de mundo feliz, o al menos acrítico, que silenciaba un segmento esencial del relato, quizás porque lo “primitivo” tiene para Occidente un doble significado: si por una parte es la infancia de la humanidad, lo no contaminado, por otra es lo sexual, lo orgánico. En pocas palabras, aquello que más puede perturbar a nuestra cultura, visual, higiénica por excelencia, contemplando el mundo desde su posición a salvo.

Así, la exposición del MOMA proponía dos mundos contrapuestos que, sin embargo, convivían cómodos, tal vez porque la mirada del connaisseur, en este caso los comisarios, había sabido seleccionar entre las otredades lo menos conflictivo, lo más abstractizante: lo más “puro”. Era una operación semejante a la que había planteado Picasso con Las señoritas de Aviñón, una obra en la cual las pavorosas máscaras se domestican, se conforman a la alta cultura después de que la mirada del artista las haya rescatado.

La belleza impoluta de Primitivismo y lo confortable de las asociaciones despertaron ya entonces la perplejidad del antropólogo James Clifford, quien en su artículo mítico Historias de lo tribal y lo moderno criticaba esa higiene extrema que veía a África -y al resto de las culturas- como atemporales, sin presente o pasado propios; parte de una fantasía occidental en la cual se fetichizaba el fetiche, enfatizando lo elegante de las culturas otras y, más importante aún y como reflexionaba Clifford, excluyendo las contaminaciones de las “modernidades” de otros ámbitos, incluso occidentales. Nada más cierto. ¿Dónde estaban Brasil con Tarsila do Amaral o Cuba con Wifredo Lam, por citar los ejemplos más conocidos entre los que se incluían en la reciente Afromoderrn. Viajes a través del Atlántico negro, producida por la Tate Liverpool en 2010 y que se pudo ver en el CGAC de Santiago de Compostela?

¿Dónde estaba, se preguntaba Clifford, Josephine Baker, un personaje que despertó el deseo hacia la africanidad de la vanguardia y que no sólo ponía de manifiesto la sexualización de ese deseo, sino lo híbrido del producto? Baker, como tantos de su generación, jugaba a disfrazarse de “negra” para que los blancos parisienses o neoyorquinos pensaran que los negros con los cuales se asociaban eran auténticos “africanos”, al tiempo que ponía de moda el Bakerfix que usaban las mujeres blancas para dar a su pelo el aspecto “lacado” que presentaba el de Baker. Es algo parecido a la historia que se cuenta de la conocida negrófila Nancy Cunard, autora de la antología de poemas Negro (1929), en la cual rescataba a los poetas de origen africano al lado de autores como Ezra Pound o Samuel Beckett. La rica heredera inglesa, desheredada por la familia tras la relación amorosa con un músico afroamericano, Henry Crowder -por quien dejó al poeta Aragon-, echaba en cara a su pareja no ser suficientemente africano, a lo cual él contestaba con paciencia que no era africano, que era norteamericano.

Sea como fuere, las relaciones de Occidente con las culturas no siempre han sido tan idílicas como este romance de las vanguardias con una cultura africana -muy hibridizada- puede hacer creer o como se esforzaba por mostrar Primitivismo en su búsqueda de productos “puros”. La realidad era muy diferente y ocurría en el Berlín de primeros del siglo XX: los visitantes de lugares remotos eran exhibidos en zoos, contemplados detrás de una valla por los curiosos que querían saber cómo eran en realidad los “exóticos”. Esa forma de exponer a los otros como objetos etnográficos, como trofeo del viajero o curiosidades del científico, era una práctica habitual en las exposiciones universales -lo demuestran las numerosas postales estereoscópicas que se imprimieron como souvenir de dichos acontecimientos. La pregunta surge inmediata ¿en qué se convertían las personas de otras culturas expuestas al público? Sobre todo, ¿en qué se diferenciaban de los freaks, tan populares hasta entrado el XX, si en ambos casos se representaban la “otredad” como forma de espectáculo? Más importante aún, ¿hasta qué punto son oscuras las relaciones de Occidente con los otros, las que desbordan lo idílico y desvelan lo sórdido?

Por todas estas contradicciones ocultadas por la mayor parte de los discursos culturales al uso llama la atención la muestra que se puede ver ahora en el Museo Quai Branly parisiense, La invención de lo salvaje. Zoos humanos, presentaba por Liliam Thuram con la asesoría, entre otros, de Pascal Blanchard, conocido experto en colonialismo. En la exposición se traza una línea desde los orígenes del fenómeno hasta una última reflexión en un vídeo en la cual varias personas hablan de sus “diferencias”, pasando por las exposiciones universales y coloniales, y los zoos humanos. La muestra propone, así, un recorrido histórico con especial énfasis en las cámaras de las maravillas, la exhibición de las gentes “exóticas” y la invención de lo “nativo” en las exposiciones coloniales, lugar que parapetados tras la excusa de ampliar el conocimiento se ocultaba una terrible maniobra de apropiación del otro -como bien supieron los surrealistas quienes odiaron la exposición colonial de París de 1931. La invención de lo salvaje nos obliga, pues, a reflexionar sobre las nociones de apropiación y normativización de lo diferente, sobre todo de exclusión, de las cuales Occidente ha hecho siempre gala, tratando todo lo que queda fuera de la norma -tanto los “diferentes” como los “primitivos”- como un objeto aislado, sin historia propia, atemporal, aquello para ser mirado desde la posición segura que siempre adopta Occidente.

Desvelar esa doble moral es el mérito de la exposición que, a través de un fabuloso conjunto de obras con frecuencia curiosas e inesperadas -desde fotos hasta autómatas, cuadros, pósteres, postales, artefactos, películas…- pone en evidencia ese lado oscuro en el cual a menudo los “exóticos” eran equiparados al resto de otredades. Pero la intensidad del paseo no acaba en la propuesta de desmontar estereotipos. En una parte del recorrido, alargados y camuflados en las paredes, unos espejos nos esperan en la visita dislocando el paseo… y al sujeto. Ahí estamos, reflejados mientras vamos observando las curiosidades expuestas, y la sensación que tenemos es inquietante: por arte de magia hemos dejado de ver para ser vistos. Nos hemos convertido en parte de lo expuesto, en el “otro”, en lo salvaje. Allí está la imagen del visitante mezclada con el resto… El mensaje queda claro: el “otro” no es sólo una ficción, sino que todos somos el “otro”.»

La invención de lo salvaje. Zoos humanos. Museo Quai Branly. Quai Branly, 37. París. Hasta el 3 de junio.

04/05/2011

INTELECTUAIS

por cam

A Fundação Francisco Manuel dos Santos, dirigida pelo sociólogo António Barreto, tem tido desde a sua fundação, recente, um papel inestimável de intervenção na vida do país. Desde logo, na criação e funcionamento da PORDATA, base de dados on-line sobre Portugal, rigorosa e dinâmica. Depois, a publicação dos Ensaios da Fundação, dirigidos por António Araújo, que até à data já fez sair, salvo erro, 12 volumes. Nem todos são sobre Portugal, mas mesmo aqueles que o não são, fazem bastante por nós, como Autoridade, de Miguel Morgado, ou A Filosofia em Directo, de Desidério Murcho, referindo-me apenas àqueles que li.

A larga maioria dos autores destes Ensaios é gente de novas gerações, em regra com ligação à universidade. Independentemente das suas origens e idades (a média rondará os 40 e poucos anos) pertencem a um “novo Portugal”: instruídos, cultos e intervenientes, a pensar o mundo que habitam (o português e o resto). António Barreto, figura nem sempre bem amada e que deu azo a destilar-se muito fel e a vozear demasiado alto, iam os anos oitenta e ele era o malfadado “pai” da “morte” da “Reforma agrária”, é ele, hoje, o principal responsável por dar voz a estes intelectuais. Intelectuais. Sem qualquer espécie de capa protectora. Pessoas comuns que usam o que deus lhes deu e mais alguma coisa, e que põem essas coisas dadas e adquiridas ao serviço do pensamento. Assim mesmo. Sinto orgulho. E sei que há mais. Infelizmente, há poucos antónios barretos e fundações como aquela que dirige que os ajudem a sair do anonimato. Andam entrincheirados em universidades e centros de estudo, outros na solidão doméstica, às vezes perdidos na lama dos blogues de cobardes anónimos & analfabetos. Alguns têm medo que lhes chamem nomes feios e às suas mãezinhas. Até os “acusam” de “intelectuais”, como se tal fosse uma coisa má e ofensiva para a humanidade. O “povo” gosta é de esbracejar, discutir a razão do mundo como se o mundo não passasse de uma partida de futebol, isto é, de uma maneira furiosa e malcriada (e o futebol não tem disto culpa…). Quando algum intelectual mais atrevido vai à televisão, o jornalista quer à viva força que ele responda apenas “sim” ou “não” ou “responda-me em dez segundos, temos compromissos comerciais!”. E o coitado, lá fica atarantado, e acaba quase sempre, inevitavelmente, por dizer umas coisas meio descosidas: mais umas achas para a fogueira que há-de exterminar a inteligência da face da televisão, que é como quem diz, da Terra.

Ficarão aqueles que “acertam” ou “adivinham” em vez de saberem, de raciocinarem; ficarão aqueles que apenas se interessam pelos fins, sem querer saber dos meios (como, por exemplo, arranjar um diploma universitário sem pôr os pés nas aulas, com uns professores “amigos”, e não ler um livro completo que seja em toda a sua vida); ficarão aqueles que são aerodinâmicos, saudáveis, risonhos e… palermas – os seus pobres cérebros foram trocados por uns ténis nice num qualquer site de “ocasião” na Net.

09/04/2011

«LOSANGO HEXAGONAL»

por cam

Leio O Ensino do Português, de Maria do Carmo Vieira e fico aterrado. Leiam, por favor, a edição, de 2010, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, sabiamente dirigida por António Barreto. E leiam também, por favor, o indignado artigo de Francisco José Viegas, sobre as questões suscitadas pelo conteúdo do livro, na revista Ler de Novembro do ano passado. Leiam, por favor – embora só possa fazer este apelo a quem aprendeu português pela literatura portuguesa e pela gramática, e não a quem “aprendeu” por TLEBS & quejandos e por uns sucedâneos de literatura, como, por exemplo, “atestados médicos”, “instruções de electrodomésticos”, “horóscopos” & etc…

Em Portugal, instalou-se (para durar? ai…) a cultura do facilitismo – a “malta” morre, meu, ‘bora gozar, já! Os exemplos vêm do alto. José Sócrates, Armando Vara e tantos outros, pediram a uns amigalhaços das “universidades” que lhes “facilitassem” uns cursos superiores, é chato não poder ser tratado por doutor-engenheiro-arquitecto-Professor. E lá estão eles.

No Ministério da “Educação”, mandam imperialmente uns senhores e umas senhoras da pedagogia e da linguística, que são os culpados – “culpados”, e não “responsáveis” – por este triste e grave estado de coisas. Na universidade onde fui professor, lutei contra situações que identifiquei como o resultado de mais de duas décadas de destruição sistemática da capacidade crítica de jovens, da ditadura do fácil e do que não é “chato”. Tive colegas dos departamentos de psicologia e de pedagogia que teimavam em aumentar a carga horária das disciplinas de pedagogia nos cursos artísticos, e – o pacote integra outras “maldades” – a “ludicidade” na transmissão do saber. Colegas de teatro, por exemplo, clamavam contra a demasiada “teoria”, os alunos “não aguentavam”, berravam eles, além de que era preciso “prepará-los para o mercado de trabalho”. “Ó colega”, disse eu, em reunião de Conselho de Artes (!), “explica lá como é que se faz, por exemplo, com a História do Teatro Português?”. “É muito simples”, retorquiu o colega, “preparamos umas cenas com os alunos e fazemos um percurso rápido desde as origens aos nossos dias, coisa aí para uma hora, e ficamos assim com o resto do ano livre para as disciplinas práticas.” Alguns de nós embasbacaram… Era impossível explicar a professores, um deles professor doutor, a cor da lama onde intelectualmente chafurdavam. Perante o nosso silêncio, exclamou, vitorioso, o mais novo: “Estão a ver como é simples?” Porreiro, pá…

“Verbos incoativos são os verbos derivados intransitivos, parafraseáveis pela expressão «tornar-se ADJ/N» ou «N» a forma derivante.” Isto, é: verbos intransitivos, antigamente… O Ministério da “Educação”, por um lado, “simplex”, por outro, “complex”: é “chato”, não se lê, não se estuda; a gramática, empestada de linguística, evita que se perceba o funcionamento da língua. O que dá coisas como estas, de alunos universitários: “No dia em que marca-mos”, “tenho hoje grassas à minha mulher”, “facha etária”, “não está assecível”, e, como variantes do losango, “losângulo, losângolo, losangulo, losangolo”; ou, no âmbito da geometria, um aluno que “descobriu” um “losango hexagonal”…

E não se podem incriminar os culpados disto?

26/03/2011

O FULGOR DE LLANSOL

por cam

Maria Gabriela Llansol

«Sobre Maria Gabriela Llansol (1931-2008) disse Eduardo Lourenço que será, depois de Fernando Pessoa, “o próximo grande mito literário da literatura portuguesa”: “Nunca será uma autora fácil e consensual. É uma espécie de fenómeno misterioso. Alguém vindo de uma outra espécie de planeta. Quem a encontra é difícil não ficar fascinado por essa escrita.”

Esse fascínio é partilhado pelos escritores, artistas e cineastas com quem o Ípsilon falou sobre Maria Gabriela Llansol – leitura de cabeceira à qual recorrem, encantados pelo fulgor do texto, por um universo único, ou pelo desafio de ler em liberdade desafiando os cânones.

Criadores contemporâneos (llansolianos assumidos ou não) falam ao Ípsilon da sua relação de encantamento com Maria Gabriela Llansol, um “animal de escrita” que permanece misterioso. É já neste domingo [27 de Março] que o Centro Cultural de Belém inaugura a exposição Sobreimpressões”»

01/03/2011

VENHA O DIABO…

por cam

Há quem inveje as pessoas que se retiram dos grandes centros urbanos e se fixam, por exemplo, numa ilha no meio do oceano Atlântico – como eu, aqui na ilha do Pico.

E há quem possa ter o prazer de participar, por exemplo, em eventos como o que abaixo ajudo a divulgar. E…

Venha o diabo…

Colóquio Internacional Jacques Rancière, que vai decorrer nos dias 15 e 16 deste mês, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (por onde andei entre 1984 e 1990, nas antropologias). Organizam cientificamente o evento Golgona Anghel, Vanessa Brito e Silvina Rodrigues Lopes.

Aqui fica o texto de apresentação:

“Abrir um espaço entre nós e as palavras, criar dissensos, é, para Rancière, o próprio coração da política e a condição do pensamento. Pretendemos neste Colóquio tomar essa tese como incitação a uma reflexão que não se limite a explicitar as relações poder/saber e os dispositivos de legitimação e institucionalização que as concretizam. A escrita enquanto pensar/agir – capaz de evidenciar e de deslocar as operações de unificação do mundo constituídas por ficções consensuais que procedem à naturalização das relações tecidas em palavras e imagens – será, pois, o tema orientador. Partir-se-á da leitura de livros e textos de Jacques Rancière, insistindo em conceitos neles decisivos, como os de igualdade, de emancipação, de partilha do sensível e de história, que estão na base da conceptualização da possibilidade de incessantes reconfigurações do mundo, segundo as quais, poesia, literatura e filosofia partilham a capacidade de dar existência ao que era imperceptível apesar da sua operatividade. Essa é a possibilidade de conceber a história em termos não-deterministas e de escapar aos mecanismos identitários: experiência de afirmação da igualdade que implica uma atenção às palavras da literatura que não as reinscreva nos circuitos do estabelecido e às palavras anónimas com que se fez história e ficaram ignoradas pelo ruído de modelos narrativos que impuseram uma lógica de exclusão.”

12/04/2010

O POETA NADA CONSEGUE…

por cam

O poeta nada consegue, não consegue dar remédio ao mal; só o escutam quando elogia o mundo, não quando o retrata tal como ele é. Só a mentira conduz à fama, não ao conhecimento!

Hermann Broch, A Morte de Virgílio

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