Posts tagged ‘Vitorino Nemésio’

08/01/2012

NEMÉSIO vs MAGALHÃES #03

por cam
J.M. Magalhães

O outro poeta que Magalhães conjuga com Nemésio (ver NEMÉSIO vs MAGALHÃES #02) é João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1943-) – que, tal como Júdice, também iniciou cedo a produção poética (publicou o primeiro livro de poesia em 1971). Tanto em 1978 como em 1999 tinha várias obras publicadas. Para além de outros sinais, Magalhães faz acentuar o terem ambos uma “obsessiva vocação de real” (p37), no caso específico de Nemésio, a “imersão hiper-real na banalidade e no concreto do quotidiano”, é também uma “linha motora (talvez pela sua estreita ligação com a representação pictórica) da obra de Fernandes Jorge”.

J.M. Fernandes Jorge

Para além das “consequências processuais paralelizáveis entre Andamento Holandês, de Nemésio e «Castelos de Holanda», de O Barco Vazio, de Fernandes Jorge” (p.38) e de permeio os Açores, o primeiro por ser a sua terra natal, o segundo por lhe dedicar mais de um livro, Magalhães lembra outras coisas, duas, que “contribuem fortemente para aproximar estes dois poetas na busca da amplidão temática e na consciência da imersão numa cultura particular.”

“Uma, o recurso à profundidade histórica nacional para dela fazer irromper a novidade dos versos.” (id.) “Outra, a reformulação da herança de António Nobre nos dois poetas, sobretudo nos seus poemas mais longos.” “A ligação à terra pessoal, as memórias do passado vivido, a complexidade metonímica das imagens, a associação do mito pessoal ao mito colectivo, o urdir de uma discursividade carregada de pequenas sequências quer emocionadas quer comprometidas quer auto-irónicas configuram aquilo a que poderia chamar a reinvenção da lição de Nobre.” (p.39)

Nem tudo fica dito, segundo JMM, que também crê que a obra de Nemésio representou muito “para a ultrapassagem das convenções modernistas e para a acentuação renovada do valor dos ritmos mais antigos da língua e das suas tradições orais.” (id.)

Vitorino Nemésio

Os blogues têm, com maior ou menor capacidade, uma função ampliadora e, sobretudo, de fazer chegar discussões e acontecimentos, tantas vezes como fruto do acaso, a leitores que por sua iniciativa talvez deles nunca tivessem conhecimento. As leituras de Joaquim Manuel Magalhães que aqui resumidamente trago de novo à liça vêm com essa convicção – ou esperança; perseguem, portanto, um objectivo, digamos, didáctico. Por outro lado, e concomitantemente, para outros leitores mais interessados (e supostamente informados e “lidos”), pretendem lembrar certas coisas, estimular leituras novas, reacender trocas de ideias. Os livros vivem bem com o tempo, que sempre os renova, tal como os grandes poetas, como Joaquim Manuel Magalhães, que tão bem sabe dialogar com os seus pares, criadores de pontos de contacto (ou de passagem), para outros mundos. Fazer mundos.

[continua]

08/01/2012

NEMÉSIO vs MAGALHÃES #02

por cam

Joaquim Manuel Magalhães

Cerca de 18 anos depois da primeira incursão na obra de Nemésio, Joaquim Manuel Magalhães (JMM) volta em Rima Pobre. Poesia Portuguesa de Agora (Presença, 1999) ao autor de Festa Redonda.

No texto em referência (pp.31-40), Magalhães sugere “uma leitura poética de Vitorino Nemésio enquanto lugar verbal onde surgem processos que, embora por vias distintas, acabam por ser semelháveis a posições processuais que poetas mais novos, pela altura da sua morte [1978], vinham a encontrar como terreno de vontade e de possibilidade.” (p.32) Convém dizer, antes de se perceber como Magalhães define esses pontos semelháveis, que ele considera que a “qualidade da poesia portuguesa recente assenta na recusa de uma dependência intergeracionalista.” (p.31) E diz “que não será prudente procurar encontrar continuidades e influências onde elas não existem. Porquanto apenas existe a justaposição que certas poéticas entre si fomentam, depois de terem demandado a originalidade criativa própria.” (pp.31-32)

Vitorino Nemésio

O breve apreço que Joaquim Manuel Magalhães faz da obra de Nemésio ancora-se na sua eleição de Festa Redonda e Andamento Holandês como “as suas duas obras culminantes” (p.33). Magalhães anota hipóteses de ler as “linhas de tradicionalidade” em Nemésio, entendida tradicionalidade como “um processo de sedimentação do distinto”, tanto no semelhante como nos “radicais actos de rompimento” (p-32). Assim, pode enumerar JMM de Nemésio a “tradição oral novilatina”, a “poesia em francês na esteira de Gautier ou Verlaine”, de “cantadores tradicionais portugueses” e o “simbolismo de Nobre”. (id.) Em Nemésio considera JMM marcas distintivas como o “enlouquecimento processual (em Festa Redonda) só equiparável a Cesariny – modo radical do uso da métrica, sabotada em ambos pela “manutenção de uma rima, de uma toada, de um espelhamento qualquer que atira ao leitor um surpreendente estilhaço”, e dá um exemplo

Deixa à ida uma pluma

Que eu distraído escolha

Como na onda uma

Rolha.

(p.33)

Nuno Júdice

Entrando na aproximação a Júdice, Magalhães evoca raízes e pontes comuns – convém, antes, assinalar que Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, 1949-) publica poesia desde 1971 (A Noção de Poema) e em 1999 já contava com 22 títulos publicados (até 1978, ano do desaparecimento de Nemésio, publicara 7 obras – apenas para citar nomes: Antero, Gomes Leal, Eugénio de Castro, Junqueiro, Pessanha ou Soares dos Passos, e as fontes italiana e francesa: Leopardi, Baudelaire, Mallarmé, Laforgue e Lautrèamont, até chegar a Valéry. E ainda Hölderlin, que considera também associável à poética de ambos. Magalhães gosta de destacar, em termos de processos, a “violência formal que constitui a extremização do uso da quadra (…) para além da demanda popular” (fora do popular, Nemésio percebeu a radicalidade de Eliot e Pound e a “destruição dos preconceitos versilibristas herdados de Whitman por simbolistas e por modernistas” (p.35).

De volta a Júdice, outro campo de cruzamento com Nemésio, o uso do soneto; assinala três vectores no século XX português: o rompimento com a processualidade usual desta forma; variações que fundem a forma original com modelos e intuitos prosódicos mais populares; uso retradicionalizador da forma renascentista. Fora “desta dimensão formal específica do soneto, ambos os poetas se afastam, no que diz respeito ao uso da prosódia” (p.36).

Dentro das diferenças, o que muito aproxima estes e outros poetas (Manuel Gusmão, por exemplo), é a “total adesão ao poema como consciência da sua escrita” (id.) “A partir de 1959, a presença do estético como referencialidade interna do poema surge em vários poemas de Nemésio.” E as referências culturais não deixam de produzir “um seguro efeito de estranhamento” que é mesmo conseguido “dentro de situações verbais típicas da sua poesia desde o primeiro livro, precisamente nisso que diz respeito ao uso da quadra e da redondilha” (p.37). Esta “estúrdia processual” só Cesariny consegue equivaler.

[continua]

07/01/2012

NEMÉSIO vs MAGALHÃES #01

por cam

Em Os Dois Crepúsculos (Lisboa, A Regra do Jogo, 1981) Joaquim Manuel Magalhães (Peso da Régua, 1945-) conta como se encontrou, admirado, com a poesia de Vitorino Nemésio (Terceira, 1901-Lisboa, 1978), a partir da leitura de Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (Lisboa, Arcádia, 1976) – e diz, coisa curiosa, que leu “às arrecuas toda a poesia de Nemésio, entusiasmado pelos catorze poemas de Andamento Holandês.” (p.18)

Joaquim Manuel Magalhães

O texto de Magalhães edita-se em livro em 1981, mas presumo que o original, publicado em jornal, terá sido escrito pouco tempo depois da morte de Nemésio, que ocorreu em 1978. Magalhães confessa que “não gostava da figura humana Vitorino Nemésio.” (p.16) “Quando um homem morre o que vamos fazer?” O autor de Uma Luz com um Toldo Vermelho demarca-se daqueles que “tratam de arranjar um pássaro necrófilo que cantelacrimeje sobre o pobre morto em nome da perpetuação.” (id.) Porém, “Há uma coisa (…) que começa a salvar-mo: nunca foi o laureado da maioria para nobel nenhum. Nunca publicitou marcas de vinho. Nunca dirigiu associações de escritores portugueses. Nunca andou a escrever cartas zangadas sobre os pobrezinhos escritores portugueses. Nunca pertenceu a nenhum movimento literário, desses que em meias-dúzias se juntam para dizer como a literatura deve ser, mais ou menos modernaça nas suas cópias da última geração que os antecedeu lá fora. Pode ter feito coisas piores, mas estas, tão feias, nunca fez, que eu saiba.

É um grande alívio ter-se uma literatura em que há um poeta que se sente diferente dos outros e sem o fazer por rabujice fechada em aldeias, ou por atavismo provinciano de reaça moral. Um poeta que é regional por cosmopolitismo (e não por neo-realice), católico por formalismo (e não por beatice), erudito por modernidade (e não por alfarrabice). É deste poeta que eu sinto a falta de não ir escrever mais poemas, por muito que pertença o homem que o trazia consigo a um desejo de vida que me incomoda a mim.” (p.17)

Vitorino Nemésio

“Não deixem que este poeta se vá embora. Não se preocupem com a fúnebre comemoração. Leiam-no. Assim ajudam a «matar a morte».” (p.19).

Este texto foi publicado em livro há 30 anos, não sei se repararam bem.

 [continua]
29/08/2011

NEMÉSIO, CCB

por cam

DIA VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)

ÚLTIMA LIÇÃO


18 Set 2011 – 15:00

SALA ALMADA NEGREIROS

ENTRADA LIVRE

Entre 1969 e 1975, a RTP apresentou um programa semanal, que em 1974 passou a quinzenal, com o título Se bem me lembro. Durante cerca de meia hora, em horário nobre, os portugueses deixavam, encantados, o Professor. Vitorino Nemésio abrir-lhes as fronteiras da Cultura e do Conhecimento.Sabiam que era açoriano, professor universitário e escritor, e alguns talvez soubessem que tinha escrito o romance Mau Tempo no Canal. Pouco mais. Vitorino Nemésio tinha o mundo dentro de si e era de todo o mundo. Mas, isolado de qualquer grupo, o mundo não o chegou a conhecer.Vinte anos depois da sua morte, o documentário Vitorino Nemésio – VIAGEM aborda a personalidade única que foi  Vitorino Nemésio, dentro da cultura portuguesa: escritor, professor, ensaísta, jornalista, comunicador. Mas, acima de tudo, poeta. E Homem.
PROGRAMA
Participação de:
Fátima de Freitas Morna
Luiz Fagundes Duarte
Carlos Alberto Machado
António Machado Pires
António Mega Ferreira

16h30 | Pedro Lamares lê “Última Lição” (9 de dezembro 1971)

17h15 | Intervalo

17h30 | “Vitorino Nemésio – Viagem” (1999)
Documentário de Maria João Rocha (50 minutos)

26/07/2011

DESPAISAMENTO…

por cam

“Trinta anos de ausência da terra onde nasce um homem desenraízam-no cerce. O despaisamento é mais duro e inflexível que o transplante. (…)

Se o exilado prolonga o exílio a ponto de se naturalizar na terra que o acolheu, – então a terra efectivamente perdida, tornando-se imaginada, depura-se e acomoda-se a essa situação ideal. O melhor é não mexer na representação da pátria que acompanha o homem ao longe; não pretender conferi-la, por um regresso efémero, com o representado. (…) Estranhado ontem no exílio, – agora, que torna à sua terra, o alheio e o estranho é ele.”

Vitorino Nemésio, em “O Filho Pródigo”, de Corsário das Ilhas, 1956
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