Posts tagged ‘Pico’

11/12/2011

DIA DE SOL FELINO

por cam

Pimpolhinha, Domingo 12. 12. 2011

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05/09/2011

O BANDO DA BURRA

por cam

A Sara hoje recebeu – e eu roubei-o para o ler e dar uma palavra pública de apreço… – “Cultura e Periferia: os bandos de carnaval na Piedade (Pico)”, do nosso amigo Urbano Bettencourt  (Separata das Actas do V Colóquio O Faial e a Periferia Açoriana nos Séculos XV a XX, Horta, Núcleo Cultural da Horta, 2011, pgs. 425-432), uf…

A brochura é sobre o livro editado em 2009 pelo Município das Lajes do Pico, O Bando da Burra, com autoria de Filipe Costa, Carlos Freitas e Fábio Vieira (concepção gráfica e ilustrações). O Urbano faz um breve enquadramento histórico e literário desta forma de cultura popular e debruça-se depois sobre o livro e os factos que documenta (os 15 “bandos” ditos e ouvidos entre 1982 e 2008 na Freguesia da Piedade, acrescido do “bando” registado por Manuel Dionísio,em Costumes Açorianos, em 1937). Lê-se com proveito e prazer, devidamente acompanhado, claro está, do livro do Bando – e de muito boa disposição.

03/09/2011

DOMINGOS

por cam

A muita gente aborrece os Domingos, com o seu cortejo de gente triste, desenraizada da alegria, constrangida a estar literalmente de parança.

Nas aldeias e lugarejos, os velhos não sentem os Domingos, e continuam, se faz bom tempo, nos seus bancos a olhar o infinito, que é coisa que só eles sabem olhar, e a esperar que a noite os recolha – como sempre. Os outros, vestem fatos domingueiros (“fatos domingueiros”, na ortografia actualmente imposta tanto podem ser de fazenda como de realidade…), vestem-se fatos domingueiros, dizia, e encostam-se as pessoas pela missa, os homens bebem mais fora de casa, os jovens ressacam, e todos esperam que os dias voltem a acontecer, prá semana.

Nos lugares ditos centros urbanos, peregrina-se sem sentido nas ruelas estreitas dos centros comerciais, vêem-se uns filmes nos intervalos dos ruídos de pipocas, embebedam-se outros, muitos, nas imediações dos estádios de futebol, antes de se embriagarem lá dentro a insultar árbitros e elementos considerados genericamente inimigos de cor diferente, a abater, portanto. Os tristes, os universais tristes a quem a vida não teve oportunidade de alegrar, são invisíveis onde quer que se encontrem, no bulício dos centros comerciais ou na solidão dos jardins públicos. São mais tristes os tristes aos Domingos, qualquer poeta sabe isto.   

Aos Domingos, os acólitos de Deus empanturram-se ainda mais: de fervor religioso, de esmolas e de comida. Enrubescem com bom ou mau vinho, meninos e meninas, impúberes ou matronas experimentadas, gostos não se discutem. Deus, mais benevolente aos Domingos, espera-os, severo, prá semana.

Aos Domingos, os presidentes de Câmara esgotam-se em convívios de tasca, festa profano-religiosa, feira agro-pecuária (com uns “tristes” do Governo a apoucar a tristeza que não lhes pertence), a inaugurar mais um salão, em obscena competição partidária. Beberricam por dever ou convicção, e arrastam com eles as fêmeas e as crias, se querem, elas, status, lugar na primeira fila da igreja, braço dado com “ele” na procissão, eles, lugar na universidade e emprego garantido depois, até aos Domingos têm de foçar com “ele“, por “ele“. Nas festas do Concelho, os presidentes percorrem quilómetros e quilómetros no perímetro da sua aldeia ou vila no Domingo maior que mete alta procissão, altos discursos e arengas político-religiosas; lançam-se livros de “proeminentes escritores” da terra, perante plateias narcotizadas que aguentam estoicamente até que o senhor doutor ou a senhora doutora no fim aceita receber um beijo lambusado e lhes ofereça um exemplar da sua obra, autografada “com carinho”, para depois espetar junto à imagem da Santa Padroeira; entediam-se até rebentar os pobres de Cristo que têm de padecer tudo isto: por convicção ou interesse num “lugarzinho”, num “favorzinho”. Os genuinamente tristes ficam ainda mais tristes nestes Domingos de fazer corar os Criadores. 

23/08/2011

VER

por cam

Os textos antigos (Frutuoso et all), diziam que do cimo da montanha do Pico se podia ver, em dias claros, as nove ilhas dos Açores. Não se vêm. E de nenhum lado os homens que as compõem. Cada um tem a crença calibrada pelos seus próprios desejos.

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14/04/2011

FORTE DE SANTA CATARINA

por cam

Forte de Santa Catarina (foto: PNS)

O Forte de Santa Catarina, nas Lajes do Pico, ganhou um PRÉMIO NACIONAL DE ARQUITECTURA PAISAGISTA 2011, na sub-Categoria de Desenho Urbano. A obra teve a seguinte Equipa Projectista:

Arquitectura Paisagista: Luís Cabral, Vasco Costa Simões (ARPAS – Arquitectos Paisagistas Associados); Arquitectura: Rui Pinto e Ana Teresa Robalo (RPAR Arquitectos); Engenharias: Francisco Salpico, Nelson Capote e José Rosendo

Câmara Municipal das Lajes do Pico.

O Projecto de recuperação do Forte de Santa Catarina foi concebido e realizado entre 2005 e 2007, para abrigar um Posto de Turismo e uma Zona de Lazer. Era então Presidente da Autarquia, Sara Santos (entre 2004 e 2009). Foi igualmente no seu mandato que foi recuperada a antiga fábrica da baleia SIBIL, transformada então em Centro de Artes e de Ciências do Mar, e que igualmente ganhou um prémio nacional, este de Turismo, atribuído em 2008.

Centro de Artes e de Ciências do Mar (foto: PNS)

03/04/2011

MONSTRO

por cam

Tenho um cão. Herdado. Já veio com quatro patas, pêlo em abundância, dentição de respeito, uns setenta quilos e nome. O meu cão é um serra da estrela de ar feroz mas de índole meiga.

Vive no quintal, em canil de boas dimensões.

Come de tudo, mas mesmo tudo. Desalmadamente. E ladra, como é de sua natureza. O seu vozeirão desdobra-se em eco pela vila quando vê ou sente pessoas ou animais que não lhe são familiares ou de que não gosta. Ladra, claro, e é tudo. Mas na pacata vila não guarda ou defende o que quer que seja – ainda mais no seu canil, o seu território privado.

À medida que envelhece, o meu cão alarga o seu conceito de território, na verdade o seu conceito de autoridade sofre. Há poucos anos, dominava o quintal e o passeio público junto ao portão e muro do quintal. Agora, alarga-se até onde o seu apurado olfacto e a sua sensível audição lhe permitem ir.

Talvez se julgue rei ou imperador, quem sabe.

Com a sua potente voz – que ladra, gane e uiva – o meu cão domina a sua imensa parcela de território. O seu vizinho cão mais próximo, digamos, primo, por vezes ainda o acompanha de início nos seus cânticos dominantes de guerreiro, mas cedo desiste, enrosca-se aos seus sonhos de cão e deixa o meu a reinar.

Também tem os seus horários, o meu cão. Concede aos “pobres humanos”, por vezes, uma ilusão de liberdade. Por exemplo: a cinquenta metros de minha casa há uma escola do ensino básico. Nos intervalos, a brincadeira de meninos e meninas ao ar livre é suficientemente ruidosa para mexer com a sensibilidade de qualquer cão: não do meu. Dá um ou dois latidos para marcar presença e depois sossega. Porém, ai dos rapazes e raparigas que depois do horário escolar ou aos fins-de-semana invadem o pátio da escola para brincar: o meu cão prega-lhes uma bela sinfonia canina, em que emprega toda a força da sua potente caixa torácica. Só a sineira da matriz rivaliza com ele em poluição sonora, insensível ao dia a dia dos pobres de Cristo.

O meu cão, como disse, é de uma grande meiguice. As gatas da vizinha pariram quase ao mesmo tempo ninhadas de sete ou oito filhotes e ao fim de uns dias era vê-los a passar pela rede larga do canil e a entrarem nos domínios do meu cão, para brincar e até mordiscar a sua comida. O meu cão assistia indiferente a tudo isso, deitado, de olhos tristes-ternurentos.

Por lhe dar diariamente alimento creio que ele gosta de mim. E eu, sem ele me dar o que quer que seja, gosto dele. Somos amigos, portanto.

O meu cão veio com nome, já disse, mas eu até me esqueço que ele foi baptizado – um nome pomposo qualquer. Chamo-lhe “cão” ou “monstro” ou “meu monstro”, e ele sabe que estou a falar com ele. Acho que ele também não sabe o meu nome de baptismo, e também não sei se terá criado um para seu uso exclusivo.  

“Monstro”, por exemplo.

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04/03/2011

UM NOME, APENAS

por cam

Nos últimos anos em cada ano regressa, do Canadá, ao Pico, onde estia. É mulher jovem, pouco mais de trinta anos, e gorda muito gorda. Rosto fechado: lábios finos cerrados, sobrancelhas negras unidas. Cabelo castanho escuro fino, arrepanhado para a nuca. Vestes utilitárias, sem o dedo da moda. Diariamente percorre uns dois quilómetros até ao restaurante. Sopa, prato principal e sobremesa deglutidos porque sim, decidida a terminar. Acompanhamento de água em boa quantidade e no final dois ou três “galões” (ou mais). Não comunica, ou apenas o essencial, no seu português atrapalhado. Caminhada de regresso a casa. Mulher solitária.

Este é um retrato possível, tranche de vie de um ser por quem passo nos últimos anos. Procure-se o olhar sociológico, por exemplo, para a “explicação”. Com meia dúzia de “ferramentas de ofício” esta mulher solitária ficará dissecada, à luz de temas que sempre são sacados nestas ocasiões: a condição feminina na emigração, a desestruturação identitária, os modelos dietéticos desajustados e o que mais estiver à mão e à moda. Mas a mulher concreta, aquela mulher gorda muito gorda de pouco mais de trinta anos que todos os verões nas estradas do Pico caminha solitária quilómetros para deglutir insaciada o alimento necessário e o não necessário, ficará submergida na análise, encostada à força à teoria, encaixilhada nela. Vê-se muito disso por aí. É o triunfo dos modelos sobre a força dos acontecimentos.

Sempre que vejo esta mulher, demoradamente às vezes por estar tão perto de mim no restaurante, ou num relance apenas quando por ela passo de carro, fico envergonhado por saber que entre a análise sociológica e o olhar de estranheza que ela em mim provoca, continuará, para mim, sem a espessura humana que ela seguramente tem – tão boa ou tão má como qualquer outra de entre nós, os que não causamos estranheza (aparentemente).

Reflicto e digo que sim: afinal, é mesmo disso que se trata, da essencial intolerância que todos lançamos sobre os seres ou comportamentos que de algum modo nos perturbam, nos colocam em xeque, nos tiram o tapete de debaixo dos pés. Ao longo dos anos, em Portugal, após o advento do regime democrático (um regime petrificado, não necessariamente em busca de uma essência democrática…), fomos habituando-nos a descartar das nossas consciências o labelo de racistas. A pouco e pouco, a bem ou a mal, tantas vezes apenas à superfície das palavras ensaiadas, aceitamos os outros e o que fazem: pretos, amarelos e de outras cores, africanos, brasileiros, leste-europeus, etc. E, um pouco menos bem, hindus, muçulmanos, judeus declarados; e a incontável dispersão de cultos de origem cristã não católica-apostólica-romana. E seitas: milenaristas, apocalípticas, tribalistas, animistas, muitas seitas. Com tudo isto vamos convivendo – mais nos grandes centros urbanos, claro. Criamos slogans (mentirosos mas apaziguadores), “todos diferentes, todos iguais” e lá vamos cantando e rindo… sim, porque festas e festarolas é o que mais fazemos. Aliás, para quem é da minha geração ou de anteriores, reparará (não sem um estremecimento de dejá vu), que temos nos nossos dias mais Fado, Futebol e Fátima… Ou não é verdade?

Mas, e aquela mulher gorda muito gorda de pouco mais de trinta anos que todos os verões nas estradas do Pico caminha solitária quilómetros para deglutir insaciada o alimento necessário e o não necessário, o que tem ela a ver com tudo isto? Tudo! Descartámos a acusação de racistas mas continuamos, firmemente, a declarar guerra, uma guerra surda, venenosa, a todos e a tudo que não se conforme ao nosso gosto – mesmo que tal seja coisa que de todo não temos… Colamos apressadamente etiquetas maldosas (pelas costas…) a qualquer ser humano, amigo, vizinho ou colega que por qualquer razão, por fútil que seja, não se compagine connosco. Declaramos intifada a usos e costumes e cores clubistas – a tudo o que nos cheire diferente. Consideramos impróprios os seres gordos, os seres muito magros, os seres de gostos sexuais “fora da norma”. Mascaramos a sede de poder com violências demagógicas, maledicências e arruaças. Gritamos “não presta!”, em vez de consideração séria e ponderada sobre um espectáculo, uma obra de arte, um livro, uma confecção gastronómica ou um passo de dança.

Todos os seres humanos têm direito a um nome. Isto (ou algo parecido, cito de cor) consta da Carta dos Direitos Humanos (aprovada em Assembleia Geral da ONU em 1948). Aquela mulher gorda muito gorda de pouco mais de trinta anos que todos os verões nas estradas do Pico caminha solitária quilómetros para deglutir insaciada o alimento necessário e o não necessário, tem nome. Saber esse nome e dizer-lho no cumprimento quotidiano é o primeiro passo para aceitar que estamos a ser intolerantes mas que não queremos continuar a sê-lo.

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03/03/2011

PALAVRAS SOBRADAS

por cam

Uma das verdades dos nossos dias, que poucos contestarão, creio, é a aceleração do tempo. “O tempo já não sobra como dantes!” Pois não. E o pior não é isso; em cada parcela do pouco tempo posto à disposição de cada um de nós temos de cumprir pelo menos o dobro do que antes fazíamos no mesmo tempo contado de relógio: temos mais máquinas, mais sofisticação tecnológica, temos mais habilidade e, sobretudo, temos o que não gostamos: sempre alguém a exigir-nos pressa e até a colocar à nossa disposição os meios adequados a tal, desde a milagrosa máquina de cozinha doméstica até às mais velozes vias de comunicação universal virtuais. Fazer rápido, light, micro, jovem, superficial – mais depressa mais depressa que o tempo urge! Para quê? – perguntarão, algo distraídos, os mais ingénuos; para nos fazer sobrar tempo para o prazer ou para o mais requintado ócio? Não senhor, não: para nos fazer sobrar mais tempo a fornecer à máquina devoradora do capitalismo – liberal e selvagem.

Nos meus primeiros dias de “ilhéu emprestado”, conheci aqui na ilha do Pico um senhor que nunca mais esquecerei. Tem um nome, tem, já lá iremos, não tenham pressa, primeiro, a história. Foi para os lados da Ponta da Ilha. Entrei numa taberna, acompanhado da Sara e de um casal de amigos, estes e eu absolutamente desconhecidos para o homem que nos olhava com a precisão lenta da sabedoria. Os seus licores e aguardentes já tinham feito crescer águas nas nossas bocas mesmo antes de lhes sentirmos o cheiro e o sabor e por isso pedimos, logo, “um cálice daquele, como se chama?” Entre este pedido desajeitado e o nome pronunciado decorreu um tempo incomensurável (não apenas porque não se poderia medir mas porque foi um tempo de outra natureza). O nosso anfitrião olhou-nos com os seus olhos claros, lavou um cálice bojudo na água corrente, deixou escorrer a água em demasia e depois encheu-o de uma bebida rosada, ardente. Pousou o cálice no balcão. “Bebam!” Bebeu o meu amigo, depois a sua esposa e depois eu. Para a Sara fez questão de ser ele a dar-lhe o cálice à mão. O sorriso inicial nunca ele o desfez. Sobraram tantas palavras naquele tempo fora do tempo! Mentira: trocámos umas palavras de ocasião, porque o essencial já tinha sido dito.

Sobraram palavras, é verdade também, para cada um de nós poder continuar calmamente a não ter pressa de as gastar todas de uma só vez – ou a reduzi-las a uma espécie de linguagem primeva e atávica, monossilábica e unidireccional. Sobraram palavras para não nos esquecermos que uma palavra gritada não vale necessariamente mais que uma palavra adornada pelo silêncio. Sobraram palavras para nelas atentarmos bem e percebermos o valor que têm para se pensar – e nunca para agredir.

Pensar calmamente. Os filósofos gregos (e outros) tomaram o seu tempo com sageza. Talvez, coitados, nunca tenham enxergado que as suas palavras feitas pensamentos chegariam a um tempo em que a palavra e o pensamento são desprezados, com pouca ou nenhuma cotação nas Bolsas. A Justiça interessa a quem? A quem a ministra ou a quem ela se aplica? Resposta fácil e imediata: não sei. Platão pôs Sócrates (o do século V a.C. e que também não sabia de engenharia) a falar com quem não estava de acordo com ele e, sobre este e outros assuntos, escreveu, pelo menos, uma obra de algumas centenas de páginas. E a nossa opção agora, é, creio: darmo-nos tempo para ler calmamente essas e outras muitas centenas de páginas e ficarmos um pouquinho mais apetrechados para lidar com as asperezas e truques nojentos do injusto mundo em que todos vivemos; ou: procuramos já já na wikipedia uma definição rápida de justiça segundo Platão na sua República e ficamos…; ou:…

Se me permitirem, ficarei então por aqui, por estas páginas… ah… quase me esquecia!: muito obrigado, senhor Manel Alves, pela divinal aguardente de amora, que Deus o tenha para sempre no seu seio acolhedor!

09/06/2010

FÁBRICA DA BALEIA DE SÃO ROQUE

por cam

Vou apresentar o livro do José Carlos Garcia, Fábrica da Baleia de São Roque, Sábado, 19 de Junho, 21.30 h., Centro Multimédia de São Roque do Pico.

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