MONSTRO

por cam

Tenho um cão. Herdado. Já veio com quatro patas, pêlo em abundância, dentição de respeito, uns setenta quilos e nome. O meu cão é um serra da estrela de ar feroz mas de índole meiga.

Vive no quintal, em canil de boas dimensões.

Come de tudo, mas mesmo tudo. Desalmadamente. E ladra, como é de sua natureza. O seu vozeirão desdobra-se em eco pela vila quando vê ou sente pessoas ou animais que não lhe são familiares ou de que não gosta. Ladra, claro, e é tudo. Mas na pacata vila não guarda ou defende o que quer que seja – ainda mais no seu canil, o seu território privado.

À medida que envelhece, o meu cão alarga o seu conceito de território, na verdade o seu conceito de autoridade sofre. Há poucos anos, dominava o quintal e o passeio público junto ao portão e muro do quintal. Agora, alarga-se até onde o seu apurado olfacto e a sua sensível audição lhe permitem ir.

Talvez se julgue rei ou imperador, quem sabe.

Com a sua potente voz – que ladra, gane e uiva – o meu cão domina a sua imensa parcela de território. O seu vizinho cão mais próximo, digamos, primo, por vezes ainda o acompanha de início nos seus cânticos dominantes de guerreiro, mas cedo desiste, enrosca-se aos seus sonhos de cão e deixa o meu a reinar.

Também tem os seus horários, o meu cão. Concede aos “pobres humanos”, por vezes, uma ilusão de liberdade. Por exemplo: a cinquenta metros de minha casa há uma escola do ensino básico. Nos intervalos, a brincadeira de meninos e meninas ao ar livre é suficientemente ruidosa para mexer com a sensibilidade de qualquer cão: não do meu. Dá um ou dois latidos para marcar presença e depois sossega. Porém, ai dos rapazes e raparigas que depois do horário escolar ou aos fins-de-semana invadem o pátio da escola para brincar: o meu cão prega-lhes uma bela sinfonia canina, em que emprega toda a força da sua potente caixa torácica. Só a sineira da matriz rivaliza com ele em poluição sonora, insensível ao dia a dia dos pobres de Cristo.

O meu cão, como disse, é de uma grande meiguice. As gatas da vizinha pariram quase ao mesmo tempo ninhadas de sete ou oito filhotes e ao fim de uns dias era vê-los a passar pela rede larga do canil e a entrarem nos domínios do meu cão, para brincar e até mordiscar a sua comida. O meu cão assistia indiferente a tudo isso, deitado, de olhos tristes-ternurentos.

Por lhe dar diariamente alimento creio que ele gosta de mim. E eu, sem ele me dar o que quer que seja, gosto dele. Somos amigos, portanto.

O meu cão veio com nome, já disse, mas eu até me esqueço que ele foi baptizado – um nome pomposo qualquer. Chamo-lhe “cão” ou “monstro” ou “meu monstro”, e ele sabe que estou a falar com ele. Acho que ele também não sabe o meu nome de baptismo, e também não sei se terá criado um para seu uso exclusivo.  

“Monstro”, por exemplo.

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