UM NOME, APENAS

por cam

Nos últimos anos em cada ano regressa, do Canadá, ao Pico, onde estia. É mulher jovem, pouco mais de trinta anos, e gorda muito gorda. Rosto fechado: lábios finos cerrados, sobrancelhas negras unidas. Cabelo castanho escuro fino, arrepanhado para a nuca. Vestes utilitárias, sem o dedo da moda. Diariamente percorre uns dois quilómetros até ao restaurante. Sopa, prato principal e sobremesa deglutidos porque sim, decidida a terminar. Acompanhamento de água em boa quantidade e no final dois ou três “galões” (ou mais). Não comunica, ou apenas o essencial, no seu português atrapalhado. Caminhada de regresso a casa. Mulher solitária.

Este é um retrato possível, tranche de vie de um ser por quem passo nos últimos anos. Procure-se o olhar sociológico, por exemplo, para a “explicação”. Com meia dúzia de “ferramentas de ofício” esta mulher solitária ficará dissecada, à luz de temas que sempre são sacados nestas ocasiões: a condição feminina na emigração, a desestruturação identitária, os modelos dietéticos desajustados e o que mais estiver à mão e à moda. Mas a mulher concreta, aquela mulher gorda muito gorda de pouco mais de trinta anos que todos os verões nas estradas do Pico caminha solitária quilómetros para deglutir insaciada o alimento necessário e o não necessário, ficará submergida na análise, encostada à força à teoria, encaixilhada nela. Vê-se muito disso por aí. É o triunfo dos modelos sobre a força dos acontecimentos.

Sempre que vejo esta mulher, demoradamente às vezes por estar tão perto de mim no restaurante, ou num relance apenas quando por ela passo de carro, fico envergonhado por saber que entre a análise sociológica e o olhar de estranheza que ela em mim provoca, continuará, para mim, sem a espessura humana que ela seguramente tem – tão boa ou tão má como qualquer outra de entre nós, os que não causamos estranheza (aparentemente).

Reflicto e digo que sim: afinal, é mesmo disso que se trata, da essencial intolerância que todos lançamos sobre os seres ou comportamentos que de algum modo nos perturbam, nos colocam em xeque, nos tiram o tapete de debaixo dos pés. Ao longo dos anos, em Portugal, após o advento do regime democrático (um regime petrificado, não necessariamente em busca de uma essência democrática…), fomos habituando-nos a descartar das nossas consciências o labelo de racistas. A pouco e pouco, a bem ou a mal, tantas vezes apenas à superfície das palavras ensaiadas, aceitamos os outros e o que fazem: pretos, amarelos e de outras cores, africanos, brasileiros, leste-europeus, etc. E, um pouco menos bem, hindus, muçulmanos, judeus declarados; e a incontável dispersão de cultos de origem cristã não católica-apostólica-romana. E seitas: milenaristas, apocalípticas, tribalistas, animistas, muitas seitas. Com tudo isto vamos convivendo – mais nos grandes centros urbanos, claro. Criamos slogans (mentirosos mas apaziguadores), “todos diferentes, todos iguais” e lá vamos cantando e rindo… sim, porque festas e festarolas é o que mais fazemos. Aliás, para quem é da minha geração ou de anteriores, reparará (não sem um estremecimento de dejá vu), que temos nos nossos dias mais Fado, Futebol e Fátima… Ou não é verdade?

Mas, e aquela mulher gorda muito gorda de pouco mais de trinta anos que todos os verões nas estradas do Pico caminha solitária quilómetros para deglutir insaciada o alimento necessário e o não necessário, o que tem ela a ver com tudo isto? Tudo! Descartámos a acusação de racistas mas continuamos, firmemente, a declarar guerra, uma guerra surda, venenosa, a todos e a tudo que não se conforme ao nosso gosto – mesmo que tal seja coisa que de todo não temos… Colamos apressadamente etiquetas maldosas (pelas costas…) a qualquer ser humano, amigo, vizinho ou colega que por qualquer razão, por fútil que seja, não se compagine connosco. Declaramos intifada a usos e costumes e cores clubistas – a tudo o que nos cheire diferente. Consideramos impróprios os seres gordos, os seres muito magros, os seres de gostos sexuais “fora da norma”. Mascaramos a sede de poder com violências demagógicas, maledicências e arruaças. Gritamos “não presta!”, em vez de consideração séria e ponderada sobre um espectáculo, uma obra de arte, um livro, uma confecção gastronómica ou um passo de dança.

Todos os seres humanos têm direito a um nome. Isto (ou algo parecido, cito de cor) consta da Carta dos Direitos Humanos (aprovada em Assembleia Geral da ONU em 1948). Aquela mulher gorda muito gorda de pouco mais de trinta anos que todos os verões nas estradas do Pico caminha solitária quilómetros para deglutir insaciada o alimento necessário e o não necessário, tem nome. Saber esse nome e dizer-lho no cumprimento quotidiano é o primeiro passo para aceitar que estamos a ser intolerantes mas que não queremos continuar a sê-lo.

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