Archive for ‘C.A.M.’

06/11/2013

Em Lisboa, sobre o mar

por cam

Um poema meu na antologia EM LISBOA, SOBRE O MAR. POESIA 2001 – 2010. Edição Fabula Orbis

Em Lisboa sobre o mar 001

Título: Em Lisboa, sobre o Mar. Poesia 2001-2010
Colecção: Poetica Urbis
Selecção e Organização: Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa
Coordenação Editorial: Carmo Gregório
Design e Produção : Finepaper

© Fabula Urbis
Textos © Porto Editora, Assírio & Alvim e os Autores Armando Silva Carvalho, Carlos Alberto Machado, Gastão Cruz, Hélder Moura Pereira e Herdeiros dos Autores Eugénio de Andrade e Fiama Hasse Pais Brandão
Textos © restantes Autores

ISBN: 978-989-96566-2-8
Depósito Legal: 365779 /13

Edição: Fabula Urbis
R. de Augusto Rosa, 27
1100-058 LISBOA
Tel: 218 885 032
www.fabula-urbis.pt
fabula-urbis@fabula-urbis.pt
1 ª Edição: Outubro de 2013
Tiragem: 500 ex.

Agradecimento: 
A Fabula Urbis agradece aos Autores, aos titulares de Direitos de Autor e às editoras a autorização concedida para a reprodução dos textos.

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“(…) se são obviamente diferentes os registos usados – uns mais intimistas, outros mais fotográficos; uns mais sincréticos, outros mais descritivos; uns mais melancólicos, outros mais jocosos -, em todos eles se percebe como as imagens criadas parecem inscrever-se no leitor, transformando-o e transformando a cidade naquele que vai ser um território lido à luz do poema e, assim, uma paisagem única para cada leitor.”

ÍNDICE

Apresentação

ANA HATHERLY
O terceiro corvo

ANA LUÍSA AMARAL
De Lisboa: uma canção inacabada com revisitação e Tejo ao fundo

ANTÓNIO CARLOS CORTEZ
Bairro Alto 
Um barco no rio (2002, 2009) 
Regresso a Lisboa

ANTÓNIO FERRA
nos restos da cidade 
café e poema, por favor

ARMANDO SILVA CARVALHO
A noite e o rio

CARLOS ALBERTO MACHADO
[O acrobata da mota no poço da morte rodopiava]

EUGÉNIO DE ANDRADE
Aos jacarandás de Lisboa 
Outra vez o Tejo

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
Da árvore, numa rua de Lisboa 
Lisboa sob névoa

FREDERICO LOURENÇO
Rua do Século, 79

GASTÃO CRUZ
Com Ruy Belo na Esplanada do Campo Pequeno (1966) 
Viagem 
Na Rua do Ouro

HÉLDER MOURA PEREIRA
Falta de carências 
[O pássaro que passa na ponte]

JORGE AGUIAR OLIVEIRA
António Botto

JOSÉ MÁRIO SILVA
avenida almirante reis

MANUEL ALEGRE
Sobre as colinas de Lisboa

MARGARIDA FERRA
Arroios

MARGARIDA VALE DE GATO
Rua do Cardal à Graça

MARIA ANDRESEN
Lisboa 4 de Julho de 2004 (Domingo) 
Lisboa, Inverno de 2006

MIGUEL-MANSO
Balada da Rua Damasceno Monteiro

NUNO JÚDICE
Em Lisboa

PAULO TAVARES
Cidade Magnética

PEDRO MEXIA
Dentro de Segundos 
Lisboa, Cerca Moura 
Lisboa, São Pedro de Alcântara 
Os Domingos de Lisboa

RUI PIRES CABRAL
São Pedro de Alcântara, 45 
Cidade dos Desaparecidos

TIAGO GOMES
Poema do Caos e da Trindade

TIAGO PATRÍCIO
As gaivotas-de-patas-amarelas sobre Lisboa

VASCO GRAÇA MOURA
maio de 68 
canção do terreiro do paço

VÍTOR NOGUEIRA
Rua do Carmo, 43, Sobreloja 
A Descoberta da América 
Cais do Sodré, a Desoras 
Teseu sem Minotauro 
Feira da Ladra 
Grilhetas 
1848 
Vazios 
Contornos 
Relento 
Babel

 

16/10/2013

Antologia brasileira

por cam
CarlosA_Machado__CAPA2.inddUma antologia de poemas meus sairá por estes dias no Brasil, na colecção Portugal 0, dirigida pelo poeta e professor Luis Maffei, com edição da Oficina Raquel, do Rio de Janeiro. O livro, que tem prefácio de Maurício Vasconcelos (Universidade de S. Paulo), será apresentado durante o XXIV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, que vai decorrer entre 20 e 25 deste mês, na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, e em que participarei.
04/10/2013

Hugo Pinto Santos e o meu Gato

por cam

HugoPSantos-sobre-o-gato-visitador-2

25/06/2013

O gato visitador…

por cam

…chegou ontem, vindo da Nazaré. Abraço forte, Luís Meireles, obrigado, volta d’mar.

O-GATO-VISITADOR

13/11/2012

UM HOMEM A RESOLVER-SE

por cam

Ter nascido aqui e não ali dá a cada um de nós um princípio de identidade. Mais tarde vem o nome. Até o percebermos como nosso, como um privado primeiro sinal de identidade, ou marca que nos distingue dos outros, aprendemos imensas história de família, e sempre nós no centro de cada episódio. “Tu, quando vivíamos lá por aquelas fragas, tinhas o quê, uns três anitos?, pregaste-nos cá um desassossego logo que gatinhaste por ali abaixo em direcção ao mar revolto, Virgem Maria!” E sempre assim. As histórias, que mais tarde, ao longo da vida até morrermos, filtramos, mercê de tantas contingências, nos vão fazendo aquilo que somos – e nunca num momento desse devir somos iguais a outro momento, que se siga ou já tenha existido. Quer isto dizer que aquele primeiro momento e local de nascimento e mais as histórias de que fomos sendo protagonistas ou actores secundários, tudo isso só existe porque, momento a momento da nossa vida, aceitamos uns factos, recusamos outros, transformamos tudo a nosso bel-prazer (e forçadamente, o que não é, em rigor, a mesma coisa).

Adornei as palavras da forma mais simples de que fui capaz, mas eu sabia que o esforço seria em vão. De maneira que as palavras ficaram na cabeça, que é como quem diz.

O presente vai deixando de o ser, o que não sabemos é a altura exacta a partir da qual é legítimo chamar-lhe passado. Talvez seja melhor dizermos: o tempo passou. Ou: o tempo cresceu, aumentou, então…

O mestre Nemésio regressou à sua ilha Terceira 30 anos depois de ter rumado ao Continente. Em 1946, a estadia foi curta, mais prolongada a de 1955. Voltou, dizia, para se «resolver por escrito». Mas poderia alguém ter dúvidas que o homem, já em idade de gente, ainda havia de lhe sobrar passado por construir? Sobrava, sim senhora. Os seus dois regressos foram para volver-se a olhar para dentro, mergulhar no fundo de si mesmo. «O passado vale duas vezes o presente… Uma – porque vale o que foi, exactamente quando era; outra – porque torna a valer esse valor quando o puxamos à memória, agora que não é precisamente senão aquilo que foi.» Belas palavras estas as da herança por ele lavrada no Corsário das Ilhas, livro de memórias, de viagens (interiores, disse alguém), ou, digo eu, um jogo bem ao jeito dele, o de deixar-se ir construindo-se, palavra por palavra, à frente dos nossos olhos espantados. “Então, afinal, o homem precisou desse tempo todo para saber bem onde nasceu, com quem se fez, que vida levou, e como tudo isso lhe ficou na alma?” Pois, se calhar… Aquele seu «Se bem me lembro» foi fina ironia, hem?

“Credo em cruz, home’, o que aí vai de confusões! Sou açoriana da Ponta da Ilha do Pico, não se vê logo? Isso é coisa malina de teres estado tanto tempo lá fora a estudar.” “Mas olhe que o Nemésio…” “Deixa-te disso e vai-te à deita que já é muito tarde, vê lá se já te esqueceste que amanhã é o teu avô que leva a Coroa!”  

Crónica publicada na revista Azorean Spirit, da SATA, nº 52, 20 Outubro – 20 Dezembro 2012 (pp. 80-82).  

27/08/2012

Portugal Zero, Brasil

por cam

Lido ontem no blogue da editora Oficina Raquel, do Brasil: «A editora Oficina Raquel afirma-se cada vez mais como uma grande divulgadora da literatura portuguesa no Brasil. No contexto do Ano de Portugal no Brasil, que terá início em setembro de 2012, a Oficina editará quatro títulos. (…) Os outros dois títulos são de poesia: Carlos Alberto Machado e João Luís Barreto Guimarães, destacados poetas portugueses, dão continuidade, nos primeiros meses de 2013, à coleção Portugal 0, coordenada pelo editor da Oficina e também professor de literatura portuguesa da UFF Luís Maffei. Desde 2007, Portugal, 0 edita no Brasil nomes destacados da poesia portuguesa recente, e já lançou, desde então, cinco títulos, o último dos quais dedicado à poesia do exitosíssimo valter hugo mãe. A coleção é sinal de que a Oficina Raquel se interessa pela literatura portuguesa há mais tempo que uma moda. Os livros editados no contexto do Ano de Portugal no Brasil pela Oficina têm apoio da DGLB, Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.»

03/08/2012

A solidez da oficina e não só

por cam
Do Cabrita, com a mais do que devida vénia:
« Mais um “quatro estrelas em cinco” foi atribuído a um livro meu, na curta mas bem dominada crítica de Hugo Pinto Santos ao meu livrinho de contos Ficas a Dever-me uma Noite de Arromba. Pode ler-se aqui .

O que importa registar é que com tal acumulação de “quatro em cinco” nos últimos anos eu devia viver na Califórnia e ter dois dobermans no jardim. Prescindo bem da Califórnia. Mas já mói o que Hugo Pinto Santos repara no seu texto: «Poeta, ficcionista, ensaísta, António Cabrita editou (só em 2011) um título em cada uma das áreas, respectivamente Não se Emenda a Chuva, O Branco das Sombras Chinesas (outro “quatro estrelas em cinco”), e Respiro (faltaria aqui o meu romance no Brasil, nomeado para finalista da Telecom, e que vai ser editado pela AbYsmo). Que essa produção tenha sido acolhida com um silêncio quase total, eis o que se pode lamentar ou tentar inverter.» Não há nada a inverter. Não creio que Portugal possa ser um país menos mesquinho, menos desatento, menos cretino, mais justo do que é. Vejo as dificuldades com que o Carlos Alberto Machado vive no Pico, sendo talvez o dramaturgo da sua geração, e com a gaveta cheia de excelentes inéditos de ficção que não consegue colocar, vejo como rebolam todos agora diante do Rentes de Carvalho quando o silenciaram durante décadas e só porque felizmente agora o Rentes agora publica numa editora que conquistou uma boa relação com os media (se os “mesmos livros” do Rentes saíssem, por exemplo, na Afrontamento permaneciam no mais absoluto limbo), vejo como o Grabato Dias, um génio, continua a ser absolutamente desconhecido, sem que ninguém morra de vergonha por isso, vejo como o Manuel da Silva Ramos, uma das maiores imaginações-em -acto que conheci na vida (e já conheci algumas) continua a ser menosprezado, vejo como o Paulo José Miranda, o primeiro Prémio Saramago, e um talento total, tem tido uma carreira absolutamente acidentada apenas porque editou os primeiros livros na Cotovia, editora que nunca acolheu as preferências dos media apesar dos bons livros que editava, vejo como o Henrique Fialho continua sem editora para a sua produção profícua e inteligentíssima – e sei: nada há a esperar de um país cujos azimutes são subterrâneos. Até ao fim de ano tenho mais dois livros para sair, dois em Moçambique: «Para que Servem os Elevadores e outras indagações literárias», ensaios, pela Alcance, e «Inventário de Todos os Passos em Falso», uma antologia poética, também pela Alcance. E preparo, com essa excelência oficinal que o Hugo Pinto Santos me atribui, e cito: «Estas ficções de ambiência moçambicana, com personagens de carne e osso, distinguem-se pela disciplina da frase e pela boa gestão dos recursos à disposição – “O mar é o grampo que segura aquela casa de madeira à duna”. Dir-se que “grampo” é a palavra chave mas a chave deste como de outros achados de António Cabrita está antes na solidez da sua oficina, e não em qualquer truque isolado». Fico contente que ele note, que por detrás da transparência da escrita as articulações sejam sólidas. Ainda que pense que esta mesma solidez seja o que assusta quem prefere silenciar-me. Não tem mal, com a consciência oficinal que adquiri e a certeza de uma grande disciplina no trabalho sei que preparo para o ano que vem uma fornada de “cinco em cinco”, porque quando se persiste e não se deixa o talento à deriva é natural que as coisas cresçam. Vai ser tudo publicado no Brasil. Portugal que se foda. Entretanto, chama-me a Jade da banheira: «Bela Adormecida, chaleira…» (em Moçambique não é líquido que os elevadores ou os termo-acumuladores funcionem), e repisa, visto que não lhe respondo logo, «… então, Bela Adormecida, a chaleira…». Tenho uma filha de cinco anos que me chama – por carinho, não por desrespeito – Bela Adormecida. Melhor coisa não há… é isto e a escrita. »

20/07/2012

para o miguel f.

por cam

Hoje um amigo reencontrou-me tropeçou em mim

num livro meu na fnac e foi sentar-se à sombra

de um corredor e leu as minhas estórias e disse-me

isso mesmo com umas palavras hesitantes no gmail

e a alegria que senti não foi além de uns pontos

de exclamação em socorro da memória atrapalhada

 

foi pelos inícios dos anos oitenta na assírio & alvim

da estação da cp do rossio em lisboa onde poetas

se afadigavam na procura dos corpos e os comboios

para sintra os levavam aos ombros macios dos começos

foi aí na a&a que todos os dias cavalgávamos os livros

e depois subíamos ao bairro pelas escadinhas do duque

 

foi lá que perdi memória outros perderam só a noite

ou uma espécie de insensibilidade dura os salvou

eu continuo a voltar sempre um dia antes do outro

sem que os fios da memória se fixem de uma vez por todas

eterno recomeço que apenas a espaços se parece com a vida

mas o teu email querido miguel cravou fundo uma estaca

 

não sei se amanhã daqui a horas ou dias desaparecerá

essa pele que agora parece a dos meus vinte e tal anos

as páginas novas dos livros novos as linhas dos rostos

que afloram à tona do dia os pequenos gestos tão sós

os sentimentos sem corpos os lugares desocupados

como as palavras que sem sabermos nos mentiam

 

ah se eu soubesse então que as minhas palavras futuras

teria também de as varrer do sarro que nos outros eu via

crescer disfarçadas com o rancor a romper as lantejoulas

tão fácil que era passar pontes a voar e sorrir de lábios

rasgados e a dor a ficar aninhada numa puta do gingão

ou num banco de jardim na madrugada fria do cais

 

havia muito aço frio naquela maldita estação do rossio

e não sei se terá ficado estes anos a embotar o espaço

e o tempo que se espraiam entre os que se davam

 

o certo é que morreram alguns de nós

toupeiras inúteis.

24/05/2012

RESTOS. INTERIORES

por cam

O Nuno Dempster teve a simpatia de escrever no seu blogue sobre o meu texto Restos. Interiores, que escrevi e encenei em 2002 (Palmela, FIAR). Gestos como este devem agradecer-se, se possível publicamente.

Obrigado, Nuno.

da esquerda para a direita: Joana Fartaria, Solange F e Cátia Ribeiro (Palmela, 2002).

10/02/2012

POE-ÉTICA (01)

por cam

Aconchego na minha mesa de trabalho Pessoa, Borges e, agora, Savater. Tudo, todos, por causa própria, mas que ambiciona ser pública: um romance, à falta de melhor termo, que joga (brinca) com a sucessão dos acontecimentos, a ordem das causas e das consequências, a natureza do real e da ficção, o lugar da escrita e da leitura, a revolta do tempo, espelhos, um ou mais assassinos num edifício de três andares…

Este romance ainda sem nome está a ser escrito desde 2007 e só a meio do ano passado deixei nele entrar o Pessoa, o das novelas policiárias (Quaresma, Decifrador), e o Borges (sobretudo quando ele reflecte sobre a literatura policial), em parte pela mão do seu biógrafo Volodia Teitelboim – e ainda virá o Pessoa dos Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal (edição de Richard Zenith), o dos Escritos sobre Génio e Loucura (edição de Jerónimo Pizarro), e o sempre presente Bernardo Soares e… chega, se não, não há romance; e o filósofo espanhol Fernando Savater. Este veio de uma releitura de Los Cuadernos del Norte (Revista Cultural de la Caja de Ahorros de Asturias), e, no número de 1983, dedicado à “Novela Criminal”, entre as páginas 8 e 11 lá está o artigo do filósofo: “Novela detectivesca y conciencia moral (ensayo de poe-etica)”. Metade do artigo é preenchido com uma discussão sobre os chamados romance detectivesco e romance negro – e Savater inclina-se para o primeiro. Lembra também, que o primeiro tem como arquétipo clássico o “Rei Édipo” e o segundo “Orestes” ou mesmo “Filoctetes”. Mas ele, no fundo, crê – e eu alinho – que a questão não é de géneros mas de individualidades.

A segunda parte do breve ensaio coloca as questões que mais me interessam neste contexto da minha escrita. Diz ele, que o romance detectivesco parte de uma perplexidade para chegar a uma culpabilidade: da esfinge ao descobrimento do crime, tal como em Édipo. Desde sempre – e para sempre – os indivíduos têm de escolher entre o mal e o bem, entre a virtude e o crime, indiferentes às épocas e aos regimes políticos, como se se tratasse do primeiro dia da história. Para conservar a independência e liberdade do indivíduo, é preciso reconhecer-lhe a capacidade de cometer o indesculpável, o injustificável. O detective começa a sua investigação pela mais terrível e transcendente verdade: qualquer homem tem bons motivos para matar um seu semelhante. A morte do próximo, essa expedita solução a que renunciámos socialmente para formar a comunidade, não deixa nunca de lançar-nos o seu apelo. O romance é tanto melhor, pois, quantas mais personagens estão em condições e com disposição de matar. Há sempre uma vontade que se decide e dá o grande salto. A investigação procura juntar a decisão e o gesto que a cumpre num único agente livre, identificado perante a morte.

[continua]

18/01/2012

HAMLET & OFELIA VOLTAM A ATACAR!

por cam

«Conheço há muitos anos o Hamlet e a Ofelia. Estes ou outros. Sempre diferentes na sua fuga pelo mundo. Morrendo e ressuscitando sempre. A primeira vez que os encontrei foi em África. Bissau. Mercado a céu aberto do Bandim. Ele esgaravatava dos bolsos uma decrépita nota de franco para um quarto de uma Sagres escaldante. Ela à beira da estrada mijava sangue. E os seus olhos pediam a compaixão de uma morte breve. Mais tarde, Lisboa. Pensão Paraíso (“Banhos Quentes e Frios”). Ofereceram-me os seus corpos esvaziados em troca do que eu quisesse. Encontrei-os ainda no Kosovo. Klina. Brigada portuguesa. A guerra tirara um braço a Hamlet. A Ofelia a cor da pele. Nada tinham que servisse de moeda de troca. A última vez foi em Nova Iorque. Foram eles que comandaram a destruição das Twin Towers. Foi essa a história que me quiseram vender e que eu não comprei. Preferi ser eu a inventar-lhes uma outra vida. A troco de nada.»

[ a minha peça está editada pela Escola Portuguesa de Moçambique (2008) e em Kindle/Amazon – e este é o seu texto de “apresentação”… ]

12/01/2012

BOTEM OS HOLOFOTES SOBRE O GAJO

por cam

Já tentei chegar à coisa de várias maneiras, a menos má é esta: Botem os holofotes todos sobre o gajo que dá pelo nome de António Cabrita e está no Alto Maé, Maputo, Moçambique, mais a Teresa e as suas três meninas! Um gajo agarrado ao tutano da terra e a viver noutro espaço-tempo. E faz disso escritura como pouca se faz no mundo que eu conheço. Pronto, está dito.

Ando às voltas com o Respiro dele (edição Língua Morta, Lisboa, Novembro de 2011 – não saiu em nenhum Top Ten, estejam descansados!). São trinta páginas de texto que pesam como um milhão de anjos (talvez caídos).

Num repente, pode ser assim: o Cabrita convocou Plotino, Koestler, Bosquet, Octavio Paz, Ken Wilber e Shayegan (exemplos maiores) para servirem de pilares e traves mestras para uma casa que ele próprio constrói. Até aqui, tudo bem. Ora, acontece que a casa que o Cabrita quer construir com eles é uma casa que desconcertaria qualquer arquitecto, dos idos e dos vindouros, parece-me, pois tem como principal traço distintivo o de ser uma casa e o seus desdobramentos sem fim. As cobertas não são o que parecem, nem o chão, e molda-se aos pensamentos de cada habitante ou visitante. Mais ou menos, que as palavras parecem estar a ser contaminadas pelas flutuantes terras moçambicanas.

Cabrita evoca o “clamor das contradições” (Plotino), os hólons (Koestler), o “terceiro incluído” (Nicolescu, Lupasco)… para dar umas valentes voltas ao real e à realidade, à referencialidade, ao uso da metáfora e da metonímia, ou não fosse o poeta, na iluminação de Jean Carteret, “o homem mais esburacado do mundo”.

(quando acabei a primeira leitura, só me apeteceu copiar todo o livro, como fez segundo Borges, o Pierre Menard, que “tinha a admirável ambição de vir a produzir umas páginas que coincidissem, palavra por palavra, linha por linha, com as de Miguel de Cervantes” no seu Quixote. Pois.)

Sobre a metáfora, nas palavras do poeta libanês Adonis: «Quando a metáfora encosta à ordem do dizer é porque está degradada e estampa unicamente uma réplica rançosa de um território que a retórica já mapeou – o que hoje, na realidade, acontece à maior parte da escrita e escolas, sem excepção.»

Os hólons, “cabeça de Janus: podem ser vistos como um todo em si mesmo e, simultaneamente, como uma parte do todo maior”, marcam o caminho do Cabrita na primeira parte do ensaio, mas ele faz questão de dizer que não há “hologarquias”, pois há uma diluição de categorias e não um esforço da legitimidade das mesmas – um não à autoridade. A água que sob fervura sobe no alguidar é o território da imanência, seguida de extraterritorialização, e dessa dobra nasce um novo plano imanente e assim sucessivamente. Por outro, lado, sem contradizer isto, mas seguindo-se-lhe, socorre-se ele de Bosquet : «avant l’arbre, il y a le besoin de dire arbre. Donc, la poésie va vers un renversement des hiérarchies.» A escrita vem de fora (Christian Bobin), o aqui e agora que tem no Efeito de Moebius (Pierre Levy) um recurso de uma consciência, corresponderá à Dobra de Fora de Deleuze.

E (simultaneamente), a “intuição de Paracelso: “em cada nível é a mente quem faz ver os olhos” – “e viva a reversão do Efeito de Moebius”.

Na segunda parte, Cabrita ataca a linguagem. Talvez as palavras que pede emprestadas a Octavio Paz digam o essencial: as palavras são elas o “o referente e são tão reais como as árvores, as casas, os aviões as paixões”. Isto porque o Cabrita se deita a falar de “linhagens de poetas”, uma, daqueles que se servem da linguagem como instrumento auxiliar; outra, daqueles para quem a “linguagem é em si mesma um problema, um conflito já existente, uma dobra” – e depois traz à liça o Herberto Helder. De um gag do Bucha & Estica, salta o cinéfilo Cabrita da “terceira mão” do gag para uma “terceira palavra”, a Graça de ser capaz de “aceitar o estranho como parte de nós. A “terceira palavra” é o poeta aceitar uma palavra que não lhe pertence – a instauração do sagrado.

Entro na terceira parte, em que o Cabrita diz que no mundo às camadas – os hólons – quando “ocorre uma passagem de uma para outra camada ocorre uma conversão semiótica”. No interior da linguagem, “a lógica deixa de operar segundo um esquema linear, gramatical, que se duplica na representação do espaço-tempo sucessivo, para actuar segundo intersecções, vizinhanças, constelações, fractalidades.” E diz ele julgar que se localiza “aqui a origem das disparidades que retalham o tecido da poesia contemporânea”

(isto está na página 26, não me apetece fazer ecoar aqui os nomes que povoam o texto).

Interessa-me, isso sim, abrir o peito a balas como estas: o poeta “habita” o “susto da linguagem”, “é uma coisa que se «sofre», e que não se pede ou de que se faça posse”. Esta parte termina com uma citação de Llansol, de Um Falcão no Punho, que talvez pudesse estar como epígrafe geral do ensaio: “Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.”

(agora devir ficar um ano a reler os livros da Llansol, mas nã’ posso)

Da quarta e última parte quero reter a reafirmação do duplo contra o uno, das simultaneidades contra o plano rasante, dos paralelismos simultâneos contra as univocidades, e assim (percebam que estes “contra” não são bem contra seja oque for…).

Outros “contras”: contra “o patchwork que é a regra que enganosamente nivela o mar das consciências”; contra o “sabor único”.

(agora devir ir trocar as partes todas e reescrever o texto, mas nã’ tenho forças)

Em 2007, a propósito da celebração de mais um Dia Mundial da Poesia, editei uma plaquette com um texto do Cabrita intitulado Que histórias conta o ouriço à baleia? – Travessias no imaginário. Começa assim: “Na Índia, Deus pode criar uma pedra que lhe seja impossível deslocar, e sonhar um sonho do qual não desperte. O que seria uma impossibilidade lógica para o pensamento ocidental. Na filosofia, chama-se a esta impossibilidade lógica uma aporia. Mas não existem aporias na literatura.”

Não sei quantas vezes mais voltarei a este livro do Cabrita, tenho de confessar que sofro de outras perturbações: agora, é com o Carlo Michelstaedter – La Persuasión y la Retórica, edição espanhola – e com o Quaresma, Decifrador, do Pessoa (mas o monte na realidade é maior e a confissão passaria a ser vergonhosa).

Ao fim da terceira leitura, impuseram-se-me os sobressaltos que se seguem:

1 . Um texto também serve para aprender

2 . Um texto também serve para cair num poço

3 . Um texto não serve para saber se o poço tem fundo

4 . Um texto pode ser um poço

5 . Um texto pode (deve?) ser Dois

6 . Um texto vai a meio

7 . Um texto flui como vida

8 . Um texto não existe porque é sempre a vontade de outro texto

9 . Um texto não se possui

10 . Um texto é ponte e travessia.

Respiro, ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011
06/01/2012

AS QUALIDADES DO MANUEL DE FREITAS

por cam

Conhecemo-nos no bairro lisboeta de Campolide, nos princípios de 2001, tinha eu já publicado os meus primeiros livros de poesia “Mundo de Aventuras” (1999) e “Ventilador” (2000) e o Manuel o, também de poesia, “Todos Contentes e Eu Também (2000). Sem o sabermos, éramos vizinhos. Descoberta a vizinhança, veio a amizade. Partilhámos nesses anos o que é comum dois amigos partilharem, com os gostos comuns da poesia e da boa conversa à mesa vinicamente regada. Sempre, ou quase sempre, com a Inês (que em 2002 publicaria na Colóquio-Letras da Gulbenkian uma recensão sobre o “Ventilador” que ainda hoje me emociona). Tive a felicidade de ser um dos antologiados em “Poetas Sem Qualidades” (Averno, 2002 – a sua editora que publicou também em 2004, o meu “A Realidade Inclinada”) antologia que tanto celeuma provocou (e hoje continua a ser uma obra de referência quando se discute a poesia contemporânea portuguesa & etc… – cf. a minha crónica sobre o último livro do Pedro Eiras: “Um certo pudor tardio. Ensaio sobre os «poetas sem qualidades»”, Porto, Outubro de 2011). Depois, anos mais tarde, as nossas vidas descruzaram-se, com mágoa minha. Tudo isto para dizer (lembrar) que a minha escrita sobre livros está inevitavelmente ligada ao modo como me relaciono com os autores por quem nutro amizade. Não pretendo esconder isso, antes pelo contrário. É assim e ainda bem que é.

Manuel de Freitas (Vale de Santarém, 1972) é, além de poeta, ensaísta, tradutor, antologiador e crítico; dirige, com a Inês Dias, a revista Telhados de Vidro e a editora Averno. Esta crónica surge agora a propósito da antologia por ele organizada, e publicada em 2009 mas que só agora tive oportunidade de ler: “A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX” (Assírio & Alvim). O Manuel usou um critério temporal: poetas nascidos antes de 1950. Os -2 são Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge que “preferiram não ser incluídos” (p. 12). “Esta antologia (…) está-se nas tintas para a posteridade. Trata-se de uma viagem estritamente pessoal (…)” (p.10). Li-a – com imenso prazer, embora com as inevitáveis discordâncias –, mas o que me leva a escrever agora são outros aspectos: esta antologia (creio que outras se seguirão), completa, de certo modo, a escrita do Manuel de Freitas – de modo nenhum se trata de um gesto de autoridade ou de sobranceria, como por vezes acontece com certos antologiadores. Não, de todo. Por outro lado, reforça a sua visão do lugar poético, dos seus “fazeres” e da sua relação com o “real”. Não se trata apenas de uma “perspectiva da morte”, mas, de certa maneira radical, olhar para trás e trazer à liça os poetas e as poesias de, digamos, uma linhagem. Antologiar, é, no caso do Manuel de Freitas, cimentar um percurso: as “vozes que tanto me marcaram”, “marca-as” ele retroactivamente. Ambição gratuita? Não.

O Manuel de Freitas é uma das personalidades fortes da poesia e do pensar da poesia hoje em Portugal e creio que o tempo só reforçará junto de quem o lê essa evidência. Uns gostam, outros não. Eu gosto.

O Manuel tem dois ensaios sobre dois poetas maiores (Al Berto, 1999, Herberto Helder, 2001); há quase uma década vem publicando no jornal Expresso (suplemento Actual) as suas recensões críticas: creio que todos ganharíamos em (re)lê-las organizadas em livro. Fica a deixa.

29/12/2011

OFICINA

por cam

26/12/2011

O TEMPO DOS ASSASSINOS

por cam

Outro projecto que a miopia política assassinou: a revista Magma. Com direcção de Sara Santos e minha coordenação editorial, a revista era editada em regime de “carta branca”. Além de mim, coordenaram números: António Cabrita, Lélia Nunes e Luiz Antonio de Assis Brasil, Judite Jorge e Mário Cabral, Urbano Bettencourt.

Publicaram-se 7+1 números: do zero (Maio de 2005), ao 7 (Dezembro de 2008), com Separatas do zero ao 4.

Participaram nos 7+1 números, dezenas de autores, repartidos pela poesia, conto, teatro, ensaio e tradução, de Portugal (mainland, Açores e Madeira), Brasil, Cabo Verde, Espanha (Canárias) e Moçambique.

Na fotografia aqui à vista, estão as capas dos números zero e 1, com as respectivas Separatas, a do zero com Avulsos por Causa (poesia), de Renata Correia Botelho, e a do 1 À Flor do Mar (crónicas sobre livros), de Inês Dias.

Eis a lista dos participantes da Magma, para “memória futura”:

Abel Neves, Albano Martins, Alberto Pimenta, Alexandre Borges, Alexandre Dale, Altair Martins, Amilcar Neves, Ana Francisco, Ana Hatherly, Ana Maria Fagundo, Antidio Cabal González, Ana Marques Gastão, Ana Paula Inácio, Andes Chivangue, Ângela Correia, António Cabrita, António Godinho, António Olinto, Armando Artur, Carlos Alberto Machado, Carlos Bessa, Carlos Henrique Schroeder, Carlos Nogueira Fino, Carlos Tomé, Carlos Urbim, Carol Bensimon, Celso Gutfreind, CEPiA, Charles Kiefer, Christina Dias, Claudia Gelb, Claudio Daniel, Cleci Silveira, Daniel de Sá, Diego Grando, Dilan D’Ornellas Camargo, Dom Midó das Dores, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Nasi, Elis Cruz, Fernando Guerreiro, Fernando Neubarth, Fernando Paixão, Fernando Rozano, Fernando Silva, Ferreira Gullar, Flávio José Cardozo, Francisco Cota Fagundes, Frank X. Gaspar, Gabriela Funk, Gabriela Silva, Gilberto Perin, Gonçalo M. Tavares, Helder Moura Pereira, Hoyêdo de Gouvêa Lins, Inês Dias, Inês Lourenço, Ítalo Ogliari, Ivette Brandalise, Ivo Machado, J. Michael Yates, Jacinto Lucas Pires, Jaime Rocha, Jaime Vaz Brasil, Jane Tutikian, João Almeida, João-Luís de Medeiros, Joel Neto, Jorge Adelar Finatto, Jorge Fazenda Lourenço, Jorge Gomes Miranda, Jorge Louraço Figueira, José Agostinho Baptista, José de Sainz-Trueva, José Eduardo Degrazia, José Luís Hopffer Almada, José Luís Tavares, José Maria Carreiro, José Miguel Silva, José Viale Moutinho, Juan Carlos de Sancho, Judite Jorge, Júlio de Queiroz, Laerte Silva, Laís Chaffe, Leatrice Moellmann, Lélia Nunes, Leonardo Brasiliense, Lúcia Helena Marques Ribeiro, Luciana Veiga, Luis Carlos Patraquim, Luís Dill, Luís Filipe Borges, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Paulo Faccioli, Maicon Tenfen, Manuel de Freitas, Marcela Costa, Marcelo Passamai, Marcelo Spalding, Maria Aurora Carvalho Homem, Maria João Cantinho, Maria José Marques Figueiredo, Mariana Matos, Marie-Amélie Robilliard, Mário Cabral, Mário Lúcio Sousa, Mario Pirata, Marô (Maria Eunice) G. Barbieri, Monique Revillion, Nelson Saúte, Nuno Costa Santos, Nuno Moura, Olsen Jr., Onésimo Teotónio Almeida, Osmar Pisani, Paulo da Costa Domingos, Pedro Eiras, Pedro Fevereiro, Pedro Javier C. Garcia, Pedro Stiehl, Renata Correia Botelho, Renato Tapado, Ricardo Silvestrin, Rodrigo de Haro, Roger Cardús Juvé, Rogerio Manjate, Rogério Sousa, Rubem Penz, Rubens da Cunha, Rui Pires Cabral, Rui Sousa, Salomão Ribas Jr, Semy Braga, Sergio da Costa Ramos, Sidónio Bettencourt, Silveira de Souza, Sílvia Pinto Ferreira, Silvina Rodrigues Lopes, Sónia Bettencourt, Sulivan Bressan, Suzana Mafra, Tiago de Faria, Tiago Prenda Rodrigues, Tiago Rodrigues, Urbano Bettencourt, Valério Romão, Valesca de Assis, Vamberto Freitas, Victor Rui Dores, Vinícius Alves, Vítor Nogueira, Volnyr Santos, Walter Galvani e Zenilda Nunes Lins.

 

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