DOMINGOS

por cam

A muita gente aborrece os Domingos, com o seu cortejo de gente triste, desenraizada da alegria, constrangida a estar literalmente de parança.

Nas aldeias e lugarejos, os velhos não sentem os Domingos, e continuam, se faz bom tempo, nos seus bancos a olhar o infinito, que é coisa que só eles sabem olhar, e a esperar que a noite os recolha – como sempre. Os outros, vestem fatos domingueiros (“fatos domingueiros”, na ortografia actualmente imposta tanto podem ser de fazenda como de realidade…), vestem-se fatos domingueiros, dizia, e encostam-se as pessoas pela missa, os homens bebem mais fora de casa, os jovens ressacam, e todos esperam que os dias voltem a acontecer, prá semana.

Nos lugares ditos centros urbanos, peregrina-se sem sentido nas ruelas estreitas dos centros comerciais, vêem-se uns filmes nos intervalos dos ruídos de pipocas, embebedam-se outros, muitos, nas imediações dos estádios de futebol, antes de se embriagarem lá dentro a insultar árbitros e elementos considerados genericamente inimigos de cor diferente, a abater, portanto. Os tristes, os universais tristes a quem a vida não teve oportunidade de alegrar, são invisíveis onde quer que se encontrem, no bulício dos centros comerciais ou na solidão dos jardins públicos. São mais tristes os tristes aos Domingos, qualquer poeta sabe isto.   

Aos Domingos, os acólitos de Deus empanturram-se ainda mais: de fervor religioso, de esmolas e de comida. Enrubescem com bom ou mau vinho, meninos e meninas, impúberes ou matronas experimentadas, gostos não se discutem. Deus, mais benevolente aos Domingos, espera-os, severo, prá semana.

Aos Domingos, os presidentes de Câmara esgotam-se em convívios de tasca, festa profano-religiosa, feira agro-pecuária (com uns “tristes” do Governo a apoucar a tristeza que não lhes pertence), a inaugurar mais um salão, em obscena competição partidária. Beberricam por dever ou convicção, e arrastam com eles as fêmeas e as crias, se querem, elas, status, lugar na primeira fila da igreja, braço dado com “ele” na procissão, eles, lugar na universidade e emprego garantido depois, até aos Domingos têm de foçar com “ele“, por “ele“. Nas festas do Concelho, os presidentes percorrem quilómetros e quilómetros no perímetro da sua aldeia ou vila no Domingo maior que mete alta procissão, altos discursos e arengas político-religiosas; lançam-se livros de “proeminentes escritores” da terra, perante plateias narcotizadas que aguentam estoicamente até que o senhor doutor ou a senhora doutora no fim aceita receber um beijo lambusado e lhes ofereça um exemplar da sua obra, autografada “com carinho”, para depois espetar junto à imagem da Santa Padroeira; entediam-se até rebentar os pobres de Cristo que têm de padecer tudo isto: por convicção ou interesse num “lugarzinho”, num “favorzinho”. Os genuinamente tristes ficam ainda mais tristes nestes Domingos de fazer corar os Criadores. 

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