UMA HISTÓRIA DE AMOR…, DE TOMÁS VASQUES

A REALIDADE TAL QUAL ELA NÃO É, ou SUA EXCELÊNCIA, O LEITOR

Sobre  «Uma História de Amor no Casal da Eira Branca», de Tomás Vasques (abysmo, 2011)

Retomo o que escrevi em post anterior (“artigo”, lhe chama o WordPress, quanto a mim mais apropriadamente): “Gosta-se de livros pelos seus “conteúdos”: pois. E o “resto, não é livro? Estas e outras dúvidas mais ou menos idiotas desvanecem-se quando temos entre mãos livros editados pela abysmo”, como “(…) «Uma História de Amor no Casal da Eira Branca», de Tomás Vasques, com ilustrações de Susa Monteiro – e pronto, vão as tais dúvidas a ganir alto e forte para longe.” O texto de Tomás Vasques, as ilustrações de Sua Monteiro, o design do livro da responsabilidade de Luís Mendonça casam-se na perfeição. Todos sabemos que, por definição, não há casamentos felizes, e que neste caso, além disso, o casamento se assemelha a uma relação com três vértices, o que na língua dos valentes gauleses se conhece como ménage à trois. Felizmente que os livros não se colhem na realidade como as margaridas e que a sua natureza é outra, digamos, mais apetecível para matutinos despertares de sonho – ou para noites pesadas de chumbo.

Perfeições à parte, já perceberam que o livro me motiva. Como ando ainda a aprender a falar de outras artes que não a da escrita, vou-me só a esta, onde escorrego menos.

Este «Uma História de Amor…» é o primeiro texto ficcional de Tomás Vasques que leio – e a ausência de referências é sempre, para mim, um desafio suplementar, o da “leitura sem rede.” De uma primeira leitura do curto texto – 30 páginas, incluindo ilustrações – ficou-me a impressão de estar perante um guião de um romance, uma intriga minimal para aguentar as figuras e situações desenhadas a traço grosso. Como se lhe faltasse qualquer coisa que a substantivasse, lhe concedesse densidade. Pensei ainda mais em guião, em estrutura performativa. Fruto de alguma bulimia, li logo de seguida o «Short Movies» do Gonçalo M. Tavares que, embora objecto de outra estratégia narrativa (deverei escrever sobre ele), assume um registo telegráfico, despido, onde se vê que a “mão do autor” desespera para não se deixar ver (para não estar demasiado presente, aliás) e equilibrar uma objectividade (impossível) algures entre a polaroid, a narrativa etnográfica (pretensamente “distanciada”), etc., de forma a despoletar o “espanto”, o “absurdo”. Creio que um pouco de tudo isto está presente, na pequena narrativa de Tomás Vasques. Não vou contar a fábula, mas desde a primeira à última linha – foi isso que melhor “descobri” em segunda leitura –, a “estranheza” e o “absurdo” produzem-se, não pela substância da narrativa e dos seus jogos, mas pela expectativa que gera em cada passo e que de modo algum se concretiza. O texto joga com os conhecimentos “literários” do leitor médio, com a sua indispensável adesão a um modelo romanesco, com a potencial tensão que resultaria de ele ter de escolher, ou contribuir para, no seu papel de “leitor activo”, um desenvolvimento de cada nó narrativo, de cada solução e, finalmente, para o seu tipo de “final ideal.” É isto que o livro de Tomás Vasques não é – não quer ser. Uma análise mais minuciosa, que não saberei fazer, talvez possa detectar os quase indetectáveis passos em que o autor avança de mais, isto é, cede ao leitor: ou talvez não, e ele tenha antes pretendido contar uma história banal, que todos reconhecemos dos nossos quotidianos mas que, inchados de ficção, nos recusemos a ver. Não é haver aliens que estranhamos, o que estranhamos é não emparceirarmos com eles confortavelmente sentados no sofá quente e macio da nossa “realidade” inventada. A história simples, sem a panóplia redundante de peripécias das “missões impossíveis”, é talvez isto a recusa do nosso autor. Eu precisei desta realidade simples. Precisamos, acredito, desta realidade simples onde cada palavra deve ser julgada em todas as suas consequências, no seu peso específico e no seu jogo relacional. A crueza e a crueldade (ninguém diria…) de Tomás Vasques, perdão, de «Uma História de Amor no Casal da Eira Branca», fazem-nos falta.

Há mais de um ano, fiz este desafio a um amigo: “escreve numa folha A4 o teu percurso, numa manhã igual a tantas outras, desde o quarto de dormir até ao quarto de banho da tua casa – mas sem adjectivações.” “É simples!, é só isso que é escrever?”, respondeu-me imediatamente.

Continuo à espera.

2 comentários to “UMA HISTÓRIA DE AMOR…, DE TOMÁS VASQUES”

  1. Dou-lhe os meus parabéns!

  2. Adorei ^-^ ! Muito bom , continue assim! 🙂

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