Posts tagged ‘escrita’

13/03/2012

MÁ RAÇA, 2

por cam

O livro Má Raça (poemas de João Paulo Cotrim para ilustrações de Alex Gozlau), será lançado hoje, dia 13, às 22 horas, na 4A Fábrica (Rua João Anastácio Rosa, 4A, Lisboa – pode ver mais detalhes da edição aqui). Desta edição especial serão apenas publicados 25 exemplares de cada giclée (pássaro ou cão, em baixo), assinado e numerado.

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09/03/2012

MÁ RAÇA

por cam

10/02/2012

POE-ÉTICA (01)

por cam

Aconchego na minha mesa de trabalho Pessoa, Borges e, agora, Savater. Tudo, todos, por causa própria, mas que ambiciona ser pública: um romance, à falta de melhor termo, que joga (brinca) com a sucessão dos acontecimentos, a ordem das causas e das consequências, a natureza do real e da ficção, o lugar da escrita e da leitura, a revolta do tempo, espelhos, um ou mais assassinos num edifício de três andares…

Este romance ainda sem nome está a ser escrito desde 2007 e só a meio do ano passado deixei nele entrar o Pessoa, o das novelas policiárias (Quaresma, Decifrador), e o Borges (sobretudo quando ele reflecte sobre a literatura policial), em parte pela mão do seu biógrafo Volodia Teitelboim – e ainda virá o Pessoa dos Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal (edição de Richard Zenith), o dos Escritos sobre Génio e Loucura (edição de Jerónimo Pizarro), e o sempre presente Bernardo Soares e… chega, se não, não há romance; e o filósofo espanhol Fernando Savater. Este veio de uma releitura de Los Cuadernos del Norte (Revista Cultural de la Caja de Ahorros de Asturias), e, no número de 1983, dedicado à “Novela Criminal”, entre as páginas 8 e 11 lá está o artigo do filósofo: “Novela detectivesca y conciencia moral (ensayo de poe-etica)”. Metade do artigo é preenchido com uma discussão sobre os chamados romance detectivesco e romance negro – e Savater inclina-se para o primeiro. Lembra também, que o primeiro tem como arquétipo clássico o “Rei Édipo” e o segundo “Orestes” ou mesmo “Filoctetes”. Mas ele, no fundo, crê – e eu alinho – que a questão não é de géneros mas de individualidades.

A segunda parte do breve ensaio coloca as questões que mais me interessam neste contexto da minha escrita. Diz ele, que o romance detectivesco parte de uma perplexidade para chegar a uma culpabilidade: da esfinge ao descobrimento do crime, tal como em Édipo. Desde sempre – e para sempre – os indivíduos têm de escolher entre o mal e o bem, entre a virtude e o crime, indiferentes às épocas e aos regimes políticos, como se se tratasse do primeiro dia da história. Para conservar a independência e liberdade do indivíduo, é preciso reconhecer-lhe a capacidade de cometer o indesculpável, o injustificável. O detective começa a sua investigação pela mais terrível e transcendente verdade: qualquer homem tem bons motivos para matar um seu semelhante. A morte do próximo, essa expedita solução a que renunciámos socialmente para formar a comunidade, não deixa nunca de lançar-nos o seu apelo. O romance é tanto melhor, pois, quantas mais personagens estão em condições e com disposição de matar. Há sempre uma vontade que se decide e dá o grande salto. A investigação procura juntar a decisão e o gesto que a cumpre num único agente livre, identificado perante a morte.

[continua]

12/01/2012

BOTEM OS HOLOFOTES SOBRE O GAJO

por cam

Já tentei chegar à coisa de várias maneiras, a menos má é esta: Botem os holofotes todos sobre o gajo que dá pelo nome de António Cabrita e está no Alto Maé, Maputo, Moçambique, mais a Teresa e as suas três meninas! Um gajo agarrado ao tutano da terra e a viver noutro espaço-tempo. E faz disso escritura como pouca se faz no mundo que eu conheço. Pronto, está dito.

Ando às voltas com o Respiro dele (edição Língua Morta, Lisboa, Novembro de 2011 – não saiu em nenhum Top Ten, estejam descansados!). São trinta páginas de texto que pesam como um milhão de anjos (talvez caídos).

Num repente, pode ser assim: o Cabrita convocou Plotino, Koestler, Bosquet, Octavio Paz, Ken Wilber e Shayegan (exemplos maiores) para servirem de pilares e traves mestras para uma casa que ele próprio constrói. Até aqui, tudo bem. Ora, acontece que a casa que o Cabrita quer construir com eles é uma casa que desconcertaria qualquer arquitecto, dos idos e dos vindouros, parece-me, pois tem como principal traço distintivo o de ser uma casa e o seus desdobramentos sem fim. As cobertas não são o que parecem, nem o chão, e molda-se aos pensamentos de cada habitante ou visitante. Mais ou menos, que as palavras parecem estar a ser contaminadas pelas flutuantes terras moçambicanas.

Cabrita evoca o “clamor das contradições” (Plotino), os hólons (Koestler), o “terceiro incluído” (Nicolescu, Lupasco)… para dar umas valentes voltas ao real e à realidade, à referencialidade, ao uso da metáfora e da metonímia, ou não fosse o poeta, na iluminação de Jean Carteret, “o homem mais esburacado do mundo”.

(quando acabei a primeira leitura, só me apeteceu copiar todo o livro, como fez segundo Borges, o Pierre Menard, que “tinha a admirável ambição de vir a produzir umas páginas que coincidissem, palavra por palavra, linha por linha, com as de Miguel de Cervantes” no seu Quixote. Pois.)

Sobre a metáfora, nas palavras do poeta libanês Adonis: «Quando a metáfora encosta à ordem do dizer é porque está degradada e estampa unicamente uma réplica rançosa de um território que a retórica já mapeou – o que hoje, na realidade, acontece à maior parte da escrita e escolas, sem excepção.»

Os hólons, “cabeça de Janus: podem ser vistos como um todo em si mesmo e, simultaneamente, como uma parte do todo maior”, marcam o caminho do Cabrita na primeira parte do ensaio, mas ele faz questão de dizer que não há “hologarquias”, pois há uma diluição de categorias e não um esforço da legitimidade das mesmas – um não à autoridade. A água que sob fervura sobe no alguidar é o território da imanência, seguida de extraterritorialização, e dessa dobra nasce um novo plano imanente e assim sucessivamente. Por outro, lado, sem contradizer isto, mas seguindo-se-lhe, socorre-se ele de Bosquet : «avant l’arbre, il y a le besoin de dire arbre. Donc, la poésie va vers un renversement des hiérarchies.» A escrita vem de fora (Christian Bobin), o aqui e agora que tem no Efeito de Moebius (Pierre Levy) um recurso de uma consciência, corresponderá à Dobra de Fora de Deleuze.

E (simultaneamente), a “intuição de Paracelso: “em cada nível é a mente quem faz ver os olhos” – “e viva a reversão do Efeito de Moebius”.

Na segunda parte, Cabrita ataca a linguagem. Talvez as palavras que pede emprestadas a Octavio Paz digam o essencial: as palavras são elas o “o referente e são tão reais como as árvores, as casas, os aviões as paixões”. Isto porque o Cabrita se deita a falar de “linhagens de poetas”, uma, daqueles que se servem da linguagem como instrumento auxiliar; outra, daqueles para quem a “linguagem é em si mesma um problema, um conflito já existente, uma dobra” – e depois traz à liça o Herberto Helder. De um gag do Bucha & Estica, salta o cinéfilo Cabrita da “terceira mão” do gag para uma “terceira palavra”, a Graça de ser capaz de “aceitar o estranho como parte de nós. A “terceira palavra” é o poeta aceitar uma palavra que não lhe pertence – a instauração do sagrado.

Entro na terceira parte, em que o Cabrita diz que no mundo às camadas – os hólons – quando “ocorre uma passagem de uma para outra camada ocorre uma conversão semiótica”. No interior da linguagem, “a lógica deixa de operar segundo um esquema linear, gramatical, que se duplica na representação do espaço-tempo sucessivo, para actuar segundo intersecções, vizinhanças, constelações, fractalidades.” E diz ele julgar que se localiza “aqui a origem das disparidades que retalham o tecido da poesia contemporânea”

(isto está na página 26, não me apetece fazer ecoar aqui os nomes que povoam o texto).

Interessa-me, isso sim, abrir o peito a balas como estas: o poeta “habita” o “susto da linguagem”, “é uma coisa que se «sofre», e que não se pede ou de que se faça posse”. Esta parte termina com uma citação de Llansol, de Um Falcão no Punho, que talvez pudesse estar como epígrafe geral do ensaio: “Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.”

(agora devir ficar um ano a reler os livros da Llansol, mas nã’ posso)

Da quarta e última parte quero reter a reafirmação do duplo contra o uno, das simultaneidades contra o plano rasante, dos paralelismos simultâneos contra as univocidades, e assim (percebam que estes “contra” não são bem contra seja oque for…).

Outros “contras”: contra “o patchwork que é a regra que enganosamente nivela o mar das consciências”; contra o “sabor único”.

(agora devir ir trocar as partes todas e reescrever o texto, mas nã’ tenho forças)

Em 2007, a propósito da celebração de mais um Dia Mundial da Poesia, editei uma plaquette com um texto do Cabrita intitulado Que histórias conta o ouriço à baleia? – Travessias no imaginário. Começa assim: “Na Índia, Deus pode criar uma pedra que lhe seja impossível deslocar, e sonhar um sonho do qual não desperte. O que seria uma impossibilidade lógica para o pensamento ocidental. Na filosofia, chama-se a esta impossibilidade lógica uma aporia. Mas não existem aporias na literatura.”

Não sei quantas vezes mais voltarei a este livro do Cabrita, tenho de confessar que sofro de outras perturbações: agora, é com o Carlo Michelstaedter – La Persuasión y la Retórica, edição espanhola – e com o Quaresma, Decifrador, do Pessoa (mas o monte na realidade é maior e a confissão passaria a ser vergonhosa).

Ao fim da terceira leitura, impuseram-se-me os sobressaltos que se seguem:

1 . Um texto também serve para aprender

2 . Um texto também serve para cair num poço

3 . Um texto não serve para saber se o poço tem fundo

4 . Um texto pode ser um poço

5 . Um texto pode (deve?) ser Dois

6 . Um texto vai a meio

7 . Um texto flui como vida

8 . Um texto não existe porque é sempre a vontade de outro texto

9 . Um texto não se possui

10 . Um texto é ponte e travessia.

Respiro, ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011
08/01/2012

NEMÉSIO vs MAGALHÃES #03

por cam
J.M. Magalhães

O outro poeta que Magalhães conjuga com Nemésio (ver NEMÉSIO vs MAGALHÃES #02) é João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1943-) – que, tal como Júdice, também iniciou cedo a produção poética (publicou o primeiro livro de poesia em 1971). Tanto em 1978 como em 1999 tinha várias obras publicadas. Para além de outros sinais, Magalhães faz acentuar o terem ambos uma “obsessiva vocação de real” (p37), no caso específico de Nemésio, a “imersão hiper-real na banalidade e no concreto do quotidiano”, é também uma “linha motora (talvez pela sua estreita ligação com a representação pictórica) da obra de Fernandes Jorge”.

J.M. Fernandes Jorge

Para além das “consequências processuais paralelizáveis entre Andamento Holandês, de Nemésio e «Castelos de Holanda», de O Barco Vazio, de Fernandes Jorge” (p.38) e de permeio os Açores, o primeiro por ser a sua terra natal, o segundo por lhe dedicar mais de um livro, Magalhães lembra outras coisas, duas, que “contribuem fortemente para aproximar estes dois poetas na busca da amplidão temática e na consciência da imersão numa cultura particular.”

“Uma, o recurso à profundidade histórica nacional para dela fazer irromper a novidade dos versos.” (id.) “Outra, a reformulação da herança de António Nobre nos dois poetas, sobretudo nos seus poemas mais longos.” “A ligação à terra pessoal, as memórias do passado vivido, a complexidade metonímica das imagens, a associação do mito pessoal ao mito colectivo, o urdir de uma discursividade carregada de pequenas sequências quer emocionadas quer comprometidas quer auto-irónicas configuram aquilo a que poderia chamar a reinvenção da lição de Nobre.” (p.39)

Nem tudo fica dito, segundo JMM, que também crê que a obra de Nemésio representou muito “para a ultrapassagem das convenções modernistas e para a acentuação renovada do valor dos ritmos mais antigos da língua e das suas tradições orais.” (id.)

Vitorino Nemésio

Os blogues têm, com maior ou menor capacidade, uma função ampliadora e, sobretudo, de fazer chegar discussões e acontecimentos, tantas vezes como fruto do acaso, a leitores que por sua iniciativa talvez deles nunca tivessem conhecimento. As leituras de Joaquim Manuel Magalhães que aqui resumidamente trago de novo à liça vêm com essa convicção – ou esperança; perseguem, portanto, um objectivo, digamos, didáctico. Por outro lado, e concomitantemente, para outros leitores mais interessados (e supostamente informados e “lidos”), pretendem lembrar certas coisas, estimular leituras novas, reacender trocas de ideias. Os livros vivem bem com o tempo, que sempre os renova, tal como os grandes poetas, como Joaquim Manuel Magalhães, que tão bem sabe dialogar com os seus pares, criadores de pontos de contacto (ou de passagem), para outros mundos. Fazer mundos.

[continua]

24/09/2011

POETAS

por cam

Portugal é um país de desprezados. Onde poetas morrem de fome, de incompreensão, de solidão. É sabido. Também, parece, não é fenómeno somente português; que não seja, não obsta a que não seja português. Dos quatro costados.

Morre-se, morre-se mesmo ou metaforicamente, o que, em certas circunstâncias, vem a dar no mesmo. Camões pediu tença ao Sebastião, o dos nevoeiros, acabou a esmolar junto à igreja de São Domingos, vide Sena, outro que “morreu”, também das duas maneiras, pior para ele, que tanto defendeu os “mortos”, impúdica e malfeitosamente “assassinados” pela ignorância. Etc. Camões lê-se ainda, salvo seja, porque a “malta” tem que o “dar” no liceu. O Desejado é mais desejado do que o Poeta. Sena? Quem será?… É, somos, assim.

Devíamos fazer uma lista de “desprezados”. E passá-la, lentamente, com as suas vozes em fundo, todos os dias, de hora a hora, na RTP (1, 2, Açores, Madeira, Notícias, Internacional, África, Memória). Serviço público. Para distinguirmos os seus nomes dos nomes dos jogadores e treinadores de futebol. Serviço público.

Conheço alguns desprezados, vivos, bem vivos, enfim, tanto quanto é possível a um desprezado. São quase todos poetas. Vivem nas Ilhas e no Continente, sem distinção. Escrevemo-nos, às vezes. Quando calha um editor benévolo publicar os nossos livros, enviamo-los uns aos outros. Dedicadamente.

Conheço um poeta, jovem, que é talvez o mais desprezado de todos os poetas que conheço. Sofre com as suas dúvidas mais do que qualquer outro poeta. É um desprezo que ele sofre calado. Condena-se a escrever na net (a “gaveta” moderna dos desprezados), com as dúvidas todas coladas aos poemas, a macerarem a dor, a roerem-lhe maliciosamente as palavras. Sofro com ele. Inutilmente, suspeito.

Há uma outra pessoa desprezada, poeta também, mulher de mais de setenta anos. Um dia não fui capaz de continuar a ouvir a veemência da sua dor de desprezada. Fui cobarde. Desculpa-me, E. 

Outro desprezado poeta meu amigo, dá-lhe para o fel. Está sempre a um passo de empunhar uma arma e desatar a matar quem lhe apareça pela frente. Talvez seja falta de coragem. Ou de cúmplices.

Já alguns poetas morreram no meu tempo de existência, daqueles que me deram lições de vida, porque de poesia não é possível. Sempre que posso, leio o que escreveram, para saber se ainda estou vivo.

Este texto é dedicado ao António Cabrita, poeta, em nome de todos os grandes poetas desprezados que conheço. Este está em Maputo, Moçambique, a juntar ao desprezo que não se nos descola da pele a dor do exílio, ainda que alguns digam que foi porque quis. Mentirosos.    

13/09/2011

RECORDAR PARA QUÊ?

por cam

«Recordar para quê? É bonito, por exemplo, saber-se que o “recordar” significa algo como “fazer passar segunda vez pelo coração alguém ou alguma coisa.”; que “recordar” não anda longe de “acordar” e de “concordar” (…) Pois que Deus (…) conserve o juízo aos humanos até à hora da morte. E, que, entretanto, por caridade, os deixe recordar um pouco, fazer um bocado de etimologia íntima, corografar o coração cansado e compadecido.»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 118.

25/08/2011

PREDAÇÃO

por cam

Ler os outros, as suas escritas, é um modo de me apoderar do que me falta neles. O processo é predatório na sua essência. Acrescento ao meu corpo de possibilidades as partes dos outros que desejo, e no mesmo passo regenero as idênticas que em mim gosto, nos seus detalhes.

Neste processo, para evitar excessos em mim, desfaço-me de algumas partes, umas declaradamente estranhas – ou assim as sinto – e outras reutilizáveis. Se isto aproveitar aos outros, acrescentando-os, é mero acaso, e apenas assim assemelhado a qualquer lance altruísta.

Um jogo em que a cumplicidade nem sempre é voluntária nem recíproca, luta encarniçada que sai de mim para mim, este acontecimento ocasional de escrever sobre os outros.

Açougue de palavras, pedaços de carne roubados e atirados às feras.

15/08/2011

CHAVE

por cam

a minha "chave de reviravoltas"

12/08/2011

ISTO ANDA ASSIM…

por cam

02/08/2011

OS NOMES QUE FALTAM

por cam

Recebi ontem algumas fotografias da encenação do meu texto Os nomes que faltam, (Alfornelos, 17 de Junho de 2005), com produção do Grupo SindicActo, encenação de João de Carvalho (não parece, mas já foi há 6 anos…).

15/07/2011

COTOVIADAS

por cam

Dia de Lisboa. Entro na livraria na rua do Carmo que comercializa, em saldos, fundos editoriais. Da Cotovia – editora que não gosta de mim –, compro A magia que tira os pecados do mundo (1995), onde leio O destino do hoje no campo estético é continuar a ser o hoje de amanhã, sendo naturalmente ao mesmo tempo o amanhã e o ontem de sempre. Também da Cotovia – que não gosta mesmo de mim –, o A câmara, a escrita e a coisa dita (2008), do Ruy Duarte de Carvalho. Leio o pequeno texto sobre o antropólogo Paulo Valverde, de quem fui amigo e acho que o Carvalho não leu o texto que lhe serve de mote e espraia-se em generalidades, nem sempre bem “coladas”. Uma desilusão. Mas que me leva a recordar o querido Paulo, e a voltar ao poema que lhe dediquei, pouco depois da sua morte:

Guardei comigo sem saber
umas quantas pequenas coisas de nós
nada de que me lembrasse talvez
se alguém por absurdo me pedisse
o teu necrológio agora
com o espanto da tua morte
a roer-me ainda o músculo idiota
soletro meia dúzia de memórias
inúteis para os outros provavelmente:
os teus olhos que nos recebiam
a sorrir no aeroporto de são tomé
o almoço com o joão e a antónia
na roça de são joão dos angolares
e também com eles o banho nus
na baía de ana chaves à noite
a tua motoreta chinesa “leve-leve”
e a partilha de um tchiloli no riboque
os célebres jantares “a convite”
o teu olhar tímido em aguizé
ou quando sofremos em maputo
um enxovalho imbecil e racista
p’ra que digo eu isto agora?
a paz não é possível eu sei
nem isso se oferece a um morto.
 

eu e o paulo em são tomé, em 1995

 
 
04/07/2011

QUEIMAR AS MÃOS AOS SUJOS

por cam

A blogosfera, como se diz, obriga, a quem nela admite expor-se, à não ultrapassagem de certos limites. Opto por instaurar uma espécie de campo minado: não é mortal, mas queima as mãos aos sujos.

Por isso, falar dos dias só é possível no interior desse limite.

Entre ruídos, protejo-me.

Silvina Rodrigues Lopes: “A inteligência que abre desmedidamente a ferida da linguagem e do mundo traz consigo a exigência de um filtro do esquecimento, filtro que o sujeito não pode receber como um objecto, mas a que se entrega na poesia, onde a alma, arde como uma coisa que arde, onde tudo começa a ser real: a beleza, o amor, o anonimato de cada coisa.”

O texto em itálico é parte de uma “fala” da personagem “Fausto”, do Fausto fragmentado de Pessoa. E o texto de Silvina chama-se Fausto na praia do limite e consta do programa do espectáculo Fausto. Fernando. Fragmentos. – criado em 1988 pelo Ricardo Pais, no Nacional.

03/07/2011

ERNESTO SUÁREZ

por cam

Na semana passada recebi do Ernesto Suárez dois dos seus livros de poemas – El Relato del Cartógrafo (1997) e La Casa Transparente (2007). Não tendo ofício de crítico (não tenho nesse campo de gerir qualquer “lugar”), procuro ler poesia como quem sai a passear por caminhos aleatórios e sem destino certo. Nas primeiras páginas de El Relato del Cartógrafo parei na pedra do caminho onde Suárez deixou à vista el ángulo exacto de nuestra derrota. Fui com isto até ao fim do livro e voltei, Los días se vuelven eternamente / lluviosos en este viaje hacia lo incierto / como el vuelo sin sueño de la aves / seguimos una ruta que lleva al abandono. O poeta interroga-se ¿cómo cifrar las regiones del desamparo? Talvez se descubram otras geografias (…) tenaz caligrafia / para el acabamento.

Em La Casa Transparente, o poema epígrafe diz que en la tierra de sal / yace mi cuerpo (…) sobre esta tierra de sal / sobre este redimido cuerpo de sal.

Seja. Voltarei a fazer o caminho, sabendo que está el poema en las hendiduras de la palavra.

19/06/2011

ESTOU VIVO, MAIS OU MENOS

por cam

Para os meus 10 seguidores diários (que talvez sejam menos, há uns azarados que à procura de outra coisa qualquer vêm parar a esta costa):

– Não, não estou em Moçambique; estive, entre Agosto e Outubro de 2010; as Índicas escrevem-se agora, em maturação enviesada pelo tempo;

– Recupero de leituras: d’A Montanha Mágica do Mann, do Fausto do Goethe (e da versão/tradução do Nerval). Tenho outros pesos pesados em fila de espera. Ando às voltas com o terceiro romance (vai com 100 páginas), enquanto os outros dois dão voltas e voltas desassossegadas nas noites insones dos editores.

Acabei de ver na SIC a segunda parte do José e Pilar do Miguel Gonçalves Mendes e fiquei sem palavras adequadas.

Dito isto: andarei daqui arredado. Não tenho o talento de outros tenazes e brilhantes escritores/bloguistas. Deverei pedir desculpa?

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