Os nomes que faltam [teatro]

Os nomes que faltam

 

Meli: Viste os meus olhos a boiarem na água, não foi? Olhos cegos com desejos de bombons… Isso foi mais tarde. Agora está frio. Está sempre tanto frio… O borralho espanta os ratos e o medo. O frio… Custa-me pensar. É muito tempo para não me sentir esmagada debaixo de tanta tropelia de coisas, de pessoas, de… tudo. A minha cabeça esmagou-se a pouco e pouco com aquelas vozes de actores de feira e depois a minha cabeça começou a balançar, primeiro pensei que eram as brasas do borralho que me faziam balançar, ou o barulho dos bichos naquele de lá para cá debaixo das tábuas, depois comecei a pensar que era das ausências, das falhas das pessoas, de ti, dela, não a nomearás, eu sei, não me martirizes, do meu homem, deste é da primeira falha que me lembro, a que dói mais e que nunca mais se remedeia, já me perdi, é o frio?, ou os meus olhos?, quê? já não sei, não me fales, não me grites, deixa-me em paz meu labrego, desculpa, filho, desculpa, pois, comecei a balançar, e não sei porquê, pois, as vozes dos actores de feira, o borralho, o frio, os ratos, que raio de combinação, e os bombons?, isso foi mais tarde, já te disse, sim, quando o balançar era de mais e os olhos deixaram de te ver, a cabeça esmagou-se por dentro, não é assim que se diz mas eu sei muito bem como é, o pensamento vai buscar carne aos olhos para poder pensar, o que é que tu julgas?, eu sei destas coisas, quer dizer, no princípio não sabia, fazia-me esquisita aquele balançar, mas depois percebi, pois, na noite dos bombons, os olhos, filho, para que é que eu queria os olhos?, já não havia mais carne para tirar, os meus olhos eram pequeninos, lembras-te?, pois, e choravam muito, só me fazia bem aquela aguazinha de malvas, com chichi de cão, como tu dizias, meu malandro, e pronto, quando me trouxeste os bombons já os meus olhos estavam no laguito do jardim, claro que pensei que era melhor que os visses primeiro e assim já não choravas tanto, nem acreditavas que estavam na água, eu sei, só te lembras que esborrachei os bombons nas mãos, está bem, agora que o pensamento já se foi para que quero eu os olhos, fora d’água ou dentro dela, hem?

(…)

A mortos e vivos. Os nomes que faltam. Encenação de Joana fartaria

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