UMA ROSA É UMA ROSA

O Professor Eudoro Acevedo olhou distraidamente para o aluno e pediu-lhe para ele ler o conto breve que tinha escrito como obrigação escolar desse semestre do Curso de Literatura Inglesa. Depois, desviou o olhar para as rosas que vicejavam no jardim do pátio da Universidade. Pensou que deveria falar com o Reitor para lhe pedir maiores cuidados no roseiral, notava-se um certo desmazelo. O que lhe pareceu uma gargalhada colectiva fê-lo voltar a atenção para o aluno que deveria estar a ler o que escrevera. Olhou para o jovem Martin Segurado que estava em silêncio e com grossos fios de lágrimas pelo rosto abaixo. O que se passa?, interrogou, em tom algures situado entre a ira e a curiosidade. O que de seguida se descreve é uma singela tentativa de reproduzir algo deveras bizarro. O jovem Martin Segurado iniciou uma espécie de pranto em que se misturavam desculpas, lágrimas abundantes, ardor na vista, cebolas e um sem fim de sons irreconhecíveis pelo ouvido humano. O Professor Eudoro Acevedo bateu com a mão na mesa. Acalme-se, senhor Segurado! O jovem calou-se mas a tempestade de lágrimas continuava, agora colorida com soluços que tornavam tudo ainda mais confrangedor. Acalme-se, e diga-me o que se passa. Na mente de Acevedo passou num milésimo de segundo uma imagem de si mesmo no meio de um campo de flores viçosas, um turbilhão de cores, e ele com um completo fato de jardineiro inglês do século XVIII, mais jovem, sorridente, em suma, feliz. Antes de se desvanecer, a imagem ainda foi perturbada pelo soluçar do jovem Segurado e pelas suas primeiras palavras. Professor, desculpe, não escrevi o que me pediu, ou assim, desculpe, disse entre dois violentos soluços. Deixe-se de desculpas e conte-nos o que lhe provoca tamanho desbragamento. Descontando as pausas do fungar de nariz, do soluçar e do empapar das lágrimas com o lenço de bolso, foi mais ou menos isto que disse o jovem aluno de Literatura Inglesa Martin Segurado. O registo é de um colega de Segurado, pois o Professor Eudoro Acevedo, ao fim de uns segundos, ocupou a mente com cheiros delicados de lírios silvestres e outros delírios florais.

Disse, então, Segurado: O Mestre sabe, o meu pai faleceu há três meses, ou assim. A minha mãe, para eu poder continuar a estudar, e assim, trabalha durante o dia no Ministério da Agricultura, como cozinheira, ao fim de tarde a engomar roupa, e assim, numa lavandaria, e à noite num bar a servir bebidas, ou assim. Ao fim de semana cose em casa malas e maletas, e assim, para o senhor Muñoz que trabalha como intermediário para a fábrica La Frontera. Como tenho uma irmanita de um ano, ela passa muito tempo a cuidar dela, e assim, e eu também ajudo, e assim. Por isso, por falta de tempo, deixa-me alguma comida no frigorífico e pão e leite e frutas, ou assim. No outro dia, eu disse-lhe Mamã, será que podia comer qualquer coisa diferente, ou assim? E ela respondeu-me que aprendesse, ou assim, Só tenho tempo para te fazer tortilhas. Então, aproveitei um bocadinho o meu tempo na Internet da Universidade, desculpe, sim?, e procurei saber como podia aprender a cozinhar, ou assim. Lá, uma senhora ruiva que diz que cozinha há mais de sessenta anos, ou assim, explica que o melhor é começar pelo princípio, ou assim, e então ensina vários preparados básicos. Eu achei que podia começar por aprender a fazer refogados, ou assim, para depois poder fazer paellas e assim. Depois, fui ver o que tinha em casa e só tinha um molho de cebolas que a minha mãe usa nas tortilhas além das batatas e assim. No dia seguinte ainda fui de novo à Internet para ter a certeza como se fazia com as cebolas, tirei umas notas e assim e depois voltei para casa para começar a fazer o preparado com as cebolas, e assim. Arranjei uma faca grande e comecei a cortas as cebolas, primeiro em rodelas finas, depois em tiras finas também e depois em quartinhos muito pequeninos, e assim. Começaram a arder-me os olhos, e assim, e deu-me uma fortíssima vontade de chorar e chorei, e assim. Acho que na Internet a senhora ruiva ou assim avisava sobre qualquer coisa de lavar as cebolas com água fria mas não me lembrava se era antes ou depois ou assim de as cortar. Isto foi ontem à noite, antes de eu ir tentar por no papel umas ideias e assim, para a história que o Mestre nos disse para escrevermos, e assim, eu sei que é muito em cima da hora, não se deve fazer os trabalhos só de véspera e assim, mas eu tenho estado muito ocupado a tomar conta da minha irmanita de um ano, ou assim, quando a minha mãe chegou de madrugada eu estava a dormir em cima das cebolas na mesa da cozinha e fui logo com um raspanete para a cama tentar dormir, e assim. Hoje de manhã as cebolas ainda estavam em cima da mesa da cozinha quando fui tomar o leite e pão, e assim, e acho que elas ainda me fizeram chorar, ou se calhar entrou algum bocadinho de cebola para um dos olhos, ou assim, de qualquer modo eu acho que também estou um bocadinho triste e envergonhado, e assim, e o senhor Mestre vai ter de me desculpar, ou assim.

Mestre Eudoro Acevedo sonhava com uma rosa viçosa. Ou assim.

[de O Universo e Outras Ficções]

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