Posts tagged ‘Guerra’

01/03/2012

A GUERRA

por cam

«É fácil, e vulgar, que se induza no homem normal o estado de homicídio: basta mandá-lo para a guerra. O bêbado procede como um louco, e o soldado procede como um assassino. (…) Porque mata o soldado? Por uma imposição de um impulso externo que lhe oblitera por completo todas as suas noções normais de respeito pela vida e pela lei; esse impulso externo pode ser a Pátria, o dever, ou a simples submissão a uma convenção, mas o facto é que é como o álcool que converteu o outro em louco, uma coisa vinda de fora. A guerra é um estado de loucura colectiva, mas, nos seus resultados sobre o indivíduo, difere da bebedeira: a bebedeira dissolve-o, a guerra torna-o anormalmente lúcido, por uma abolição das inibições morais. O soldado é um possesso: funciona nele, e através dele, uma personalidade diferente, sem lei nem moral. O soldado é um possesso ou um intoxicado com uma daquelas drogas que dão uma clareza factícia ao espírito, uma lucidez que não deve haver perante a profusão da realidade. (…) Um respeito emotivo pela vida, eis o que evita que se mate. Tem-no o budismo; tê-lo-ia o cristão, se efectivamente o fosse. (…) Quem não é capaz de matar um homem também não é capaz de matar um frango. E, conversamente, quem é capaz de matar um frango é capaz de matar um homem; o caso é fornecerem-lhe as circunstâncias externas que lhe tornem frangos os outros homens, ou determinado homem – isto é, as circunstâncias externas em que se obnubile, não a noção da existência (essa está obnubilada em quem pode matar), mas a noção da identidade de outra vida humana como a própria (que é o que está obnubilado em quem efectivamente mata).»

[Fernando Pessoa, Quaresma, Decifrador, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008, edição de Ana Maria Freitas: pp. 93-98]

19/11/2011

GREGOS, POBRES E MAUS

por cam

É inaceitável, embora compreensível e inevitável: quem não é igual a nós é “feio, pobre e mau” (em paráfrase do célebre filme de Ettore Scola Brutti, Sporchi e Cattivi, Feios, Porcos e Maus, de 1976).

Os desgraçados gregos, por exemplo, que ficaram na Europa no pós-guerra apenas por razões políticas: até o senhor Estaline reconheceu que cem por cento da Grécia ficava para o Ocidente, quando dividiu o mundo com Churchill. Os pobres gregos que serviram de tampão contra o expansionismo russo e que, também por ficarem na fronteira, geográfica e histórica, com o Médio Oriente, servem de plataforma logística para qualquer eventual conflito nesse lado do mundo, pagam agora as favas dos “europeus”. Dos “europeus” que inventaram uma “Europa” depois da Europa já existir, e nessa invenção quiseram usar a “carne para canhão” que são os países mais pobres ou com mais deficiências estruturais e que se serviram deles para consolidarem as suas economias – França e Alemanha – mas que na verdade nunca pensaram na Europa como um todo coerente e solidário. E agora, que o todo ameaça de implosão, arranjam uns “feios, pobres e maus” como bodes expiatórios. Os gregos ajudaram ao banquete dos ricos, mas também nós, os irlandeses, os espanhóis e a Itália berlusconiana. E o que mais se verá. Somos cada vez mais desencontrados e cada vez menos solidários.

Mas não é apenas entre Governos e Estados da “Europa”. Os povos e as fracções de povos dentro deles, também se acertam pelo mesmo diapasão, que é o da dissensão, do pequeno ódio, da baixeza, mesquinhez e mediocridade que alastra como lama e cola aquilo que de pior há para colar. Acirra a inveja mesquinha, a competição traiçoeira, a mentira despudorada, o rancor bilioso, a arrogância jactante. “Heróis do mar…”, aqui ou onde quer que seja. Ou: “Lá vamos, cantando e rindo…”.

Cá, entre nós, igualmente “feios, pobres e maus” para os “verdadeiros europeus”, alarga-se o fosso entre aqueles que cultivam o rigor, a excelência, o estudo e a reflexão, e aqueles que cultivam o desenrascanço, a mediocridade, o copianço e o berro como retórica maior. Se isto for verdade, o resultado é que seremos todos cada vez mais “feios, pobres e maus”. E chegaremos todos a um momento da nossa europeia história comum em que o termo “grego” condensará o que de pior há em todos nós, e que não conseguimos combater. Nesse dia, seremos todos “gregos”.

19/10/2011

HAMLET & OFELIA: ESTREIA 4 Nov.

por cam

HAMLET & OFELIA

de Carlos Alberto Machado | m/16
uma produção do Teatro Passagem de Nível

Texto Carlos Alberto Machado Criação e Interpretação Mónica Lourenço, Ricardo Mendes Apoio à Criação Rita Martins Concepção Cénica Mónica Lourenço, Ricardo Mendes Comunicação Rita Martins Design Luc@s Fotografia e Video Luc@s, Rita Martins Produção Luis Mendes, Ricardo Mendes Agradecimentos Ana Martins, André Tenente, Diogo Costa, Inês Sá, Isabel Torres

Estrutura apoiada por Câmara Municipal da Amadora, Junta de Freguesia de Alfornelos 

Apoios Proto – Intensive Art Care, FPTA – Federação Portuguesa de Teatro

Centro Comercial Colina do Sol Auditório de Alfornelos: Pça. José Afonso, 15E Alfornelos – Amadora

Localização: 5 min. Metro Alfornelos (Linha Azul)

Google Maps: http://g.co/maps/4dfxr

Informações e reservas 914 497 037 | 214 763 633 | teatropassagemdenivel@gmail.com

23/08/2011

TOLERÂNCIA OU GUERRA

por cam

O culto do local, apoiada em declarações do estilo “o que é nosso é que é bom” (do nosso povo, da nossa terra, etc.), é, em muitas circunstâncias, uma face da xenofobia, a caminho do racismo – e da guerra, a situação por excelência de recusa do Outro. Para além de ser uma demonstração de estreiteza de espírito e de mediocridade intelectual e humana.

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