Hamlet & Ofelia [teatro]

Hamlet & Ofelia

 

III

Dia.

Ofélia: O que é agora?

Hamlet: Desculpa…

Ofélia: O que é agora?… Estou a ver… desabou sobre a tua cabeça outra nuvem de tristeza.

Hamlet: Não, não é nada…

Ofélia: Pois, estás aí tristonho e calado e não é nada.

Hamlet: Estou a pensar.

Ofélia: Em quê?…

Hamlet: Em… nas coisas de sempre.

Ofélia: Fugiste. Acabou-se, Hamlet. Esquece para sempre o teu país. Esquece para sempre os teus pais.

Hamlet: Nunca tive mãe e o meu pai foi morto duas vezes.

Ofélia: Absurdo. É assim que a tua mágoa cresce.

Hamlet: Não é possível esquecer, não há fogo que me seque a memória e a dor.É preciso chorar.

Ofélia: Eu já não choro. Não sou capaz.

Hamlet: Chora, é preciso chorar, chorar lágrimas sete vezes salgadas para queimar os olhos até deixar de sentir a dor.

Ofélia: Os teus olhos estão secos…

Hamlet: São os olhos da minha alma que choram.

Ofélia: A minha alma também ainda chora a ferida da morte do meu pai.

Hamlet: O teu pai era um tolo.

Ofélia: Um tolo que eu amava. E tu mataste-o.

Hamlet: Não matei o teu pai, matei um algoz que me espiava os passos.

Ofélia: Mas nunca matou ninguém. O mesmo não se pode dizer do irmão do teu pai…

Hamlet: Eu sei…

Ofélia: A serpente que tirou a vida ao teu pai usa agora a sua coroa e a sua cama.

Hamlet: Eu sei, eu sei quem matou o meu pai e prostituiu a minha mãe, quem se intrometeu na sucessão e nas minhas esperanças. Quem desejou e planeou o meu desaparecimento.

Ofélia: Conheces bem os dois culpados da traição e do incesto, tens os seus nomes os seus rostos gravados a ferro e fogo na memória… Mas a tua cobardia deixou sem vingar o leito real do nosso país, transformado num lamaçal de luxúria e incesto. Não serás maldito se permitires a esse cancro da natureza humana provocar ainda mais mortandade?

Hamlet: Não esqueço os animais adúlteros e incestuosos…

Ofélia: Lembrar não é agir… desejar e não agir cria pestilência. Por isso…   é melhor esqueceres. Não te atormentes… não me atormentes.

Hamlet: A minha alma está cheia de tristezas e contradições. Tanta morte, para nada…

Ofélia: Esquece, já te disse, assim ainda ficas pior. E eu estou aqui, contigo, meu príncipe.

Hamlet: Príncipe… príncipe sem reino e sem família.

Ofélia: És o meu príncipe, isso não te chega?

Hamlet: O teu príncipe arrastou-te para um prostíbulo.

Ofélia: Cumpriu-se a tua vontade.

Hamlet: Talvez houvesse outras escolhas.

Ofélia: A outra escolha, a única, era a morte. A minha e a tua.

Hamlet: Não sei.

Ofélia: Agora é tarde demais para dúvidas.

Hamlet: Alimento-me disso.

Ofélia: Ou morres disso. Por isso.

Hamlet: Morro pela memória do meu país transformado numa prisão. Um país saturado decelas e masmorras, de bocas caladas. Um país demasiado estreito para o meu pensamento, para os meus sonhos. (pausa) Fugimos de um país-prisão para um país-guerra.

Ofélia: Não são diferentes. São sempre irmãos a matar irmãos.

Hamlet: Ainda há cigarros?

Ofélia: Alguns. Queres?

Hamlet: Fumamos um a meias, está bem?

Ofélia: Hum, hum.

Hamlet: O dinheiro está a acabar…

Ofélia: Podias… podias escrever para…
Hamlet: … não!

Ofélia: Deixa.

Hamlet: Desculpa.

Ofélia: A Ratazana não nos deixa ficar nem mais um dia no seu querido bordel se não lhe dermos mais algum dinheiro.

Hamlet: Puta de merda, animal gordo e peçonhento. Cheira tão mal que tresanda.

Ofélia: Pois, mas a crápula foi a única que nos deu abrigo nestes meses.

Hamlet: Chamaste-me príncipe e ela deve ter pensado que me apanhava alguma fortuna, ou então que me matava e recebia a recompensa.

Ofélia: Fosse pelo que fosse, ela foi a única pessoa daqui que não nos perguntou de onde vínhamos e o que queríamos aqui fazer.

Hamlet: Num país em guerra civil também não é grande feito…

Ofélia: Não sejas mal agradecido.

Hamlet: Estás a ouvir?

Ofélia: Estou…

Hamlet: Mais um cliente da Ratazana. Mesmo por debaixo de nós.

Ofélia: Porcos.

Hamlet: Não digas isso, é gente solitária. Soldados desnorteados e famintos.

Ofélia: Qualquer dia…

Hamlet: O quê?

Ofélia: Nada… Amanhã vais sair outra vez à procura de comida?

Hamlet: Não sei. E tu?

Ofélia: Já estou farta de correr entre tiros e explosões.

Hamlet: Olha, amanhã vou para uma entrada do Metro com um letreiro assim: “Sou um exilado político e tenho fome. Ajudem-me, por favor.” Assinado: “Hamlet, Príncipe sem Pátria”.

Ofélia: Talvez resultasse, se ainda houvesse Metro e entradas de Metro e pessoas nas ruas com dinheiro.

Hamlet: Talvez resultasse.

Ofélia: Amo-te, meu príncipe.

Hamlet: Amo-te, princesa.

Hamlet & Ofelia. Encenação de Joana Fartaria, com Sílvia Barbeiro e Pedro Carmo

 

 

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5 Responses to “Hamlet & Ofelia [teatro]”

  1. ta tbm boa tarde mais eu queria saber o que eles fazem como:o que ela faz,qual é sua importância na peça,Qual a peça de referencia e o resumo sabe com essas coisas

  2. isso é só as falas eu quero saber oque ela faz no personagem da Ofélia só isso amigo(a)…

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