Restos. Interiores [teatro]

Restos. Interiores

Há pouco arrumei os teus haveres cá por casa: doeu, como uma amputação. E uma lágrima inundou-me os pulmões.

Só me apetecia que estivesses ao meu lado para adormecer aninhada em ti. Sem palavras. Sem nada. E acordar. E sorrir-te. Bom dia. Coisas simples. Impossíveis.

Se apagar as tuas imagens o que me resta? Como substituir o teu brilho na escuridão?

Na primeira noite sem ti deitei-me sobre o lado direito, estiquei o mais possível a perna do mesmo lado e dobrada sobre ela a perna esquerda: a ilusão possível para a tua ausência.

Talvez não seja possível viver sem ti. A quem explicar isto? Preciso de um ombro para chorar e não há. Só palmadinhas nas costas e sorrisos de vitória disfarçados de compreensão. Merda.

Quero voltar a preparar uma toalha quente para cobrir o teu corpo que esfria depois do banho, quero dar-te um beijo, um abraço e um sorriso e palavras doces e depois cozinhar para ti um pouco de carne e arroz e depois esquecermo-nos de comer e corrermos para debaixo da laranjeira no quintal onde me tiras lentamente a roupa enquanto dizes palavras bonitas que eu não entendo e depois beijas-me e mordes-me o peito e eu já quase a enlouquecer mas o teu ritual ainda está no começo ainda há tanto corpo para beijar como se o meu corpo se multiplicasse e em cada corpo pudesse sempre e sempre descobrir mil maneiras diferentes de subir aos céus e eu também te beijo e te mordo e digo coisas que antes não sabia e sinto o teu sexo a arder cada vez mais desejoso do meu e o meu do teu e depois beijo-o e tu beijas o meu e a terra porosa aquece-nos ainda mais o sangue e depois entras em mim e dançamos dançamos e depois puxo-te ainda mais já não aguento não e tu queres também mas a morte pode ser já e não queremos só mais um pouco gritamos e depois a laranjeira estremece e voltam ao meu corpo todos os corpos e o teu brilha brilha como os anjos e depois comemos as laranjas caídas e cantas e eu pergunto porquê e tu dizes é só para me lembrar de como alimento o teu corpo e algo mais e obrigada pela laranja digo eu.

Talvez não seja possível viver sem ti.

Encenação de CAM, com Cátia Ribeiro, Joana Fartaria e Solange F (Festival FIAR)

 

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