Posts tagged ‘Revolução’

16/08/2013

Entrevista dada a António Rodrigues (Ípsilon)

por cam

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Ípsilon, Sexta-Feira 16 de Agosto de 2013.

 

 

 

 

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16/08/2013

Ípsilon: crítica a Hipopótamos

por cam

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Ípsilon, Sexta-Feira 16 de Agosto de 2013.

 

 

02/12/2011

OU TALVEZ UM CHAPÉU NOVO…

por cam

Na semana que antecedeu a última greve geral convocada pelas duas centrais sindicais, durante o dia e no rescaldo da dita, derramaram-se razões pela imprensa e pela Internet. Razões, eficácia, contexto e incidentes (previstos e acontecidos). Etc. Cada qual defendeu a sua fazenda, engenho, sanzala, machamba, quibbutz, kolkoze, a sua quinta ou quintal – mas aqueles que não têm nada disto, ficaram em casa. Muitos destes, é bom lembrar, para o ano continuarão a ficar em casa (se ainda houver), sem sequer ver televisão, porque vinte ou trinta euros para aceder à nova TDT fazem muita falta, ou nem existem nos seus bolsos. E serão, infelizmente, cada vez mais.

Sob o chapéu da greve geral, esteve o ritual, por exemplo. Um ritual de negação da ordem existente, prenunciador, se não despoletador, de uma ultrapassagem da brecha social que a crise financeira & tal agravou. Ou talvez não. Talvez falte a este ritual a sanção comunitária (antropológica, não a da UE…), condição sem a qual o ritual não passa de uma imitação formal, vazia de sentido. Talvez não saibamos. É um assunto que antropólogos e sociólogos fariam bem em trazer para o debate público (para além da assinatura de “manifestos”). Identificar problemas, debater ideias, sugerir soluções.

Sob o chapéu da mesma greve geral, respeitando ou não a “linha justa”, esteve a ideologia “sacada” aos avós, aos cotas. Com mochila repleta dos gadgets de moda, os habituais filhos-família radicais. Agora temperados (no sentido culinário), com ambientalismo e ideias pós-civilizacionais & outras. Quem, como eu, distribuiu propaganda ilegal, fez pichagens, fugiu à polícia de choque e passou noites borradas com medo da PIDE e da prisão, e que depois “fez” o 25 de Abril, tudo isto não parece mais do que uma versão patética de um passado recente que faliu (aqui e em todo o mundo). Estas supostas ideologias cheiram-me agora a fastfood. Na verdade, creio que sem estudo e reflexão (com os clássicos e os outros) não crescerá nem se desenvolverá um novo pensamento, uma nova maneira de fincar os pés na terra contra os donos do mundo. 

Sob o chapéu desta greve geral (e de outras “lutas” idênticas) nasceu qualquer coisa parecida com a esperança? Aquela esperança que se distingue da fé e da crença, isto é, qualquer coisa que saberemos que virá porque antes dela vir construímos qualquer coisa sólida? Mudar as vontades dos que acampam sob o chapéu? Ou talvez um chapéu novo? Pensar…  

07/07/2011

ÍNDICAS, JORNADA 14

por cam

Certas noites em Maputo, em alguns bares e discotecas, são “noites de talho”: as catorzinhas vão lá vender os seus corpos. Dizem-nos que vão em grandes quantidades. Porque há muitas miúdas que precisam do dinheiro por que trocam os seus corpos, porque há, obviamente, muitos que precisam desses corpos e estão dispostos a pagar por eles. Os seus “clientes” são figuras locais respeitáveis (enfim…), ou turistas em busca do sexo juvenil e negro. Parece um negócio. E é. Merca-se carne, viva, quente. E com outros predicados que valorizam a mercadoria. É assim, desculpem mas é assim. 

Mesmo durante o dia, à entrada dos liceus, muitas destas catorzinhas deitam o olhar convidativo aos brancos que passam com dinheiro nos bolsos. Fora de Maputo, veremos mais tarde que a fome é mais exigente e por isso os corpos destas meninas se vendem por qualquer coisa que lhes mitigue a fome.

Logo após a independência, os frelos atacaram violentamente a prostituição (negra e branca), em nome de uma moral dita revolucionária. Agora, são os mesmos frelos, ou os seus descendentes, mais “conscientes do mercado”, que deixam este “mercado” florescer, comem a parte rica, vomitam a parte pobre. E outros, muitos, fecham os olhos. E as bocas. É triste perceber até onde pode ir uma revolução.

Ver Glossário

06/05/2011

ÍNDICAS, JORNADA 4

por cam

Não sou “grande viajante”, embora conheça um pouco do mundo – muito pouco, aliás. Sempre que viajo para fora da pátria lusa, com ou sem planos, o que mais me agrada é andar pelos sítios, a vaguear, olhar as pessoas, falar com elas se a língua o permitir, comer e beber. Mas, isso é que conta, não me deixar ficar preso a roteiros, formais ou não. Não tenho a obsessão de tudo ver, de tudo “aprisionar” (ilusão) na máquina fotográfica.

 Gosto de voltar à pátria e dizer a toda a gente, “não, não vi, não reparei, não, não tenho muitas fotografias nem muitos bilhetes-postais, não.” Sempre que não fiz assim, arrependi-me: cansei-me, fiz bolhas nos pés, suei a roupa que levava e a que não levava. E ficava sem vontade de voltar a viajar.

Também não sei fazer planos. É verdade que às vezes tento, até acho que o planear é simpático, mesmo que saibamos que não cumpriremos, ah não, não mesmo, o plano feito ou qualquer outro.

Aqui, agora, como será? Eu e a Sara, por um tempo razoavelmente longo, mais de mês e meio. Eu tenho uma tarefa precisa, que é de sair de cá com informação sobre determinados aspectos de Maputo e da Beira, e começar a escrever um romance. A Bolsa do Centro Nacional de Cultura a isso contratualmente obriga. Ah, e a disponibilizar-me para dar umas aulas, umas conferências. Tudo bem. A Sara ajudar-me-á, o que é bom.

Não temos carro. Não temos mapas nem guias. O portátil irá ter comunicações móveis, mas ainda não tem. E quando tiver, terá de ser usado com parcimónia, as tarifas aqui são caríssimas. Por isso, abandono a ideia de estar sempre a ver o Google.maps.com. Perninhas, dar às perninhas, dizer à asma e à falta de hábitos de andar a pé que isso deve ser com outro Carlos, que não com este.

Deitar tudo à estrada, pois. Maputo é uma cidade muito bem desenhada, de longas, muito longas, e rectas avenidas, entre a Ponta Vermelha e o Alto Maé, entre a baía do lado da Catembe e o planalto da “cidade alta, muito para lá da Eduardo Mondlane. Isto é o que sei agora, talvez com algumas imprecisões. Virei a sabê-lo um pouco melhor, à custa de muitas dores musculares, muito suor, muito rogar de pragas.

Estamos a viver na Ponta Vermelha. Como pontos de referência, temos os dois hotéis mais caros e luxuosos de toda a África (ou só da Oriental?), o Cardoso, muito perto de nós, e o Polana, um pouco mais longe, na Julius Nyerere, que é a avenida da Embaixada de Portugal e do Centro Cultural Português. O Polana fica quase em frente à Mao Tsé Tung, onde está o Consulado de Portugal. Para trás, o Palácio dos Casamentos, o cinema Xenon, a livraria Mabuko, o Piri-Piri e o Nautilus. E o novel centro comercial Polana. E vários restaurantes e cafés, que por agora não nomeio, se não isto parece um raio desses guias turísticos!

Saímos a pé. Vamos em direcção ao Nautilus (em frente ao centro comercial Polana e ao lado do Piri-Piri) tomar o pequeno-almoço. Vários rapazes procuram à viva força que compremos tudo e mais alguma coisa. Ficamo-nos por alguns jornais do dia ou deste Sábado: o Savana, o Zambeze, o País, o Notícias. Habituamos os olhos às referências e a um tipo diferente de imprensa: pelos temas e a sua abordagem, pelo português, tantas vezes próximo de um linguajar de rua, misto do português que já foi colonial com o brasileiro das telenovelas, com o moçambicano de Maputo, e com vários outros estrangeirismos, quase sempre mal “digeridos”. Nice!

Pelas ruas vemos a destruição dos passeios públicos. As raízes centenárias das árvores que mostram que também tiveram a sua “independência” e rebentam por debaixo das lajes de cimento, mostram-se à luz do dia, e o passeante que se acautele. Com isso e com os buracos dos esgotos sem tampas, excelentes armadilhas para partir os nossos queridos e frágeis ossos. Uma criança pode facilmente cair inteira num destes buracos. E lixo, muito lixo. Os contentores, velhos de décadas e sem qualquer tipo de manutenção ou limpeza, estão tombados no chão, os seus conteúdos fétidos espalhados, na noite anterior os sem abrigo da revolução fizeram de cada um deles a sua lixeira alimentar privada.

Caminhamos pelo meio de tudo isto e do trânsito desenfreado – que não sabemos ainda olhar com a devida atenção, circula-se pela esquerda, “à Commonwealth”. Temos esperança de sobreviver. Vamos direitinhos pela 24 de Julho, até percebermos que já poderemos descer em direcção à downtown.

Pode não parecer, mas este é apenas o nosso segundo dia em Maputo.

GLOSSÁRIO

18/03/2011

ONDE ESTAVAM OS POBRES DO EGIPTO NA REVOLUÇÃO?

por cam

O jornalista do Público Paulo Moura, em reportagem no Cairo (20 de Fevereiro último): «Nos bairros miseráveis do Cairo não há Facebook, nem empregos, nem escolas, e as pessoas mal souberam que se preparava a queda do regime. Nos cafés de Berek el Khiem ou Al Azhar e El Gamalia ninguém se lembrou de ir manifestar-se para a Praça Tahrir. Chegaram atrasados à revolução e ela agora também pouco poderá fazer por eles.»

Nesta espécie de soma de individualismos em que se está a transformar – ou já irremediavelmente se transformou – o nosso mundo “ocidental” e “civilizado”, aos pobres cabe agora aguentarem uma nova onda de rapazes de vanguarda que fazem (por eles…), a revolução. Espero que não venham a erguer nenhum “livro”, de nenhuma cor, em nome dos “bons valores da revolução”. Aliás, que estupidez, só poderá ser um tablet de último modelo, com vários biliões de cores!

De novo Paulo Moura: «Pelas ruas de terra, cheias de buracos e atapetadas com dejectos, passam carroças puxadas por burros, passeiam ovelhas e cabras. Há pó e lixo por todo o lado, bancas onde se vendem pacotes de bolachas muito velhos, lojas sem nada e talhos com carne de camelo visivelmente podre, coberta de moscas, a 45 libras (6 euros) o quilo. As vielas cheiram mal e estão cheias de crianças.»

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