Posts tagged ‘policial’

09/03/2012

QUARESMA, DECIFRADOR (02)

por cam

Fernando Pessoa “leu” uma notícia curta e impessoal de um jornal onde se dizia que a “morte” de Abílio Quaresma acontecera em Nova Iorque. “Amargou-me n’alma isto de um homem como Quaresma nem um dia ter de fama. Bem sabia eu que ele não a buscara nunca – sonhador sempre, fechado no seu alcoolismo impenitente e no seu raciocínio já quasi automatizado.” Em memória dele, traça-lhe uma biografia: Encontrei o dr. Quaresma enfiado numa poltrona em atitude de abatimento. Não estaria bêbado – e daí, talvez o estivesse levemente – mas com certeza na véspera o havia estado. Recebeu-me levantando-se com uma lentidão brusca, com irritado custo. O seu aspecto indicava o vício como o do álcool. O amarelecimento da barba e do bigode – de um castanho claro agrisalhado –, o aspecto igualmente sujo do polegar e indicador da mão direita e da esquerda (menos) – superindicavam o tabaco. Fumava, com efeito, constantemente. O quarto estava numa desarrumação flagrante. Havia por cima de tudo cinza, papéis amarrotados ou para deitar fora mas arremessados para cima da mesa. Tudo traía a impaciência, a irrequietação e a indiferença. Via-se logo que nem esforço contínuo, nem coragem física, nem ímpeto amoroso podiam ter origem ou lugar naquele corpo retirado da circulação. Era, no pior sentido da palavra, um inofensivo.

Tinha, contudo, um raciocínio frio e fluido que conseguia contornar as saliências da realidade desenhando-as, quasi involuntariamente, – riscando leve. Conseguiu o que alguns sujeitos conseguem: ver a realidade em absoluto, demarcá-la dos acidentes e dos acessórios, e, de um golpe súbito, desdobrado em descaramento, fixar, como um relâmpago, todo o pormenor do visível. Perdido entre as charadas e os problemas como uma criança entre brinquedos, erguia sempre para nós uns olhos inocentes e lúcidos. A clareza mental que se adquire no esclarecimento, e que, quando se pergunta sobre a realidade, ou confunde tudo ou compreende tudo, não havendo nele, como uma honradez da vigília, nem compromisso, nem meio-termo. Estava desarmado perante a realidade e a vida. A realidade era para ele um muro branco, por cima do qual não a via mesmo que ver conseguisse a realidade quotidiana. Mas quando a realidade fosse um problema, e o raciocínio a pudesse incluir, então, de repente, a tristeza caía dele como um disfarce e assumia o comando de tudo como um rei revelado. Entenda-se: o Quaresma humilde não desaparecia; sobrepunha-se-lhe, como uma auréola, o raciocínio de Quaresma. Várias vezes tenho visto o mesmo fácies nos velhos guarda-livros, nos maduros que prateleiam nos alfarrabistas, nos reformados com manias confessionais, coleccionadores de selos com entendimento de serrilhas, historiadores minuciosos de passados universais, anatomistas do inútil.

Eis o retrato do “incompetente para a vida” Fernando Pessoa, perdão, Abílio Quaresma, decifrador.

[continuado daqui]

01/03/2012

QUARESMA DECIFRADOR (01)

por cam

Como se sabe, a arca de Pessoa não tem fim. A dita tem um encantamento mágico que faz com que os seres que lhe tocam se desdobrem noutros seres, e sempre assim, até ao fim dos tempos. A arca existiu mesmo antes de Pessoa e a heteronomia deste é tão só um produto, exuberante, do encantamento.

Cada pesquisador da obra de Pessoa & Cia. queda vítima do processo mágico. Conhecem-se mal os resultados do encantamento nos pesquisadores, apenas podemos deduzi-los dos inumeráveis duplos que se produzem em torno e a partir de Pessoa lui-même, ao ponto de ser razoável questionarmo-nos se este na verdade existiu ou se é apenas uma imagem fantasmática de um qualquer ser original que nunca conheceremos. Duplos de duplos de duplos, sobreposições quânticas de universos possíveis.

Ana Maria Freitas é mais uma “vítima” do encantamento da arca. Para nós, ingénuos leitores afastados da arca-mãe, é uma dádiva o que ela nos traz nesta variação heteronímica, nada mais, nada menos do que um Pessoa escritor de novelas policiárias. Freitas chama-lhe “Quaresma Decifrador. As Novelas Policiárias” (volume de quase 500 páginas publicado em 2008 pela Assírio & Alvim). Estas novelas, 13, foram escritas durante décadas, terminaram com morte de Fernando Pessoa e ficaram todas incompletas. Freitas dá-nos conta desta particularidade historiográfica: “Em Durban começou a escrever histórias policiais, primeiro «Detective Stories» e, depois, «Tales of a Reasoner». “Como figura central criou um detective infalível, de acordo com as regras do policial: o ex-Sargeant Byng, alcoólico, raciocinador, incompetente para a vida quotidiana.” (sublinhado meu). As novelas agora reunidas giram em torno do decifrador e raciocinador infalível Abílio Fernandes Quaresma, solteiro, maior de idade e médico sem clínica. É o “próprio” Pessoa que nos diz dele: “Morava num 3º andar da Rua dos Fanqueiros, num pequeno quarto, desarrumado, com uma janela aberta para os telhados, por onde entrava a luz de Lisboa. Considerava-se um decifrador de charadas. Vivia no seu quarto, num estado de semi-doença indefinida, vegetando embrulhado numa manta e lendo. Deixava perceber, por um ligeiro tremor e pelos dedos amarelados, as marcas dos seus dois vícios, o alcoolismo e o tabaco.” Um “incompetente para a vida. Sonhador, fechado num alcoolismo impenitente e num raciocínio automatizado, Quaresma vagueia pela Lisboa de Bernardo Soares, ao sabor de um devaneio lógico. Um tipo indeciso de asceta da Baixa. A clareza mental atingiu nele o delírio.”

[continua

17/02/2012

POE-ÉTICA (02)

por cam

[continuado daqui]

Frente à morte e pela morte. Em cada um de nós (potenciais assassinos), ficam impedidas as duas possibilidades, a de ser vítima e a de ser verdugo, por obra da morte: um (a vítima), deixa de ser; o outro, será já igual a si mesmo, ficará identificado e coisificado pela morte que escolheu, convertido num estereótipo penal, o assassino. Esta primeira vertente simbólica que deriva da análise do romance policial, diz-nos que a vontade de um indivíduo mantém sempre aberta a possibilidade do injustificável – entre todos nós, há alguém que decide ser o criminoso, e esta decisão que o condena confirma-o, também, como sujeito livre. Já se disse que todos os crimes se cometem em nome da liberdade: em termos de uma determinada consciência ética, assim é: não há liberdade sem crime. Porém, o mesmo romance detectivesco clássico reproduz no seu próprio mecanismo a garantia de que a responsabilidade moral não deve chegar a ser imputabilidade arbitrária. No romance procura-se o culpado, não um culpado. O nervo próprio do género é a negação do ordálio, o capricho ou bode expiatório. A coacção social pretende recompor a ordem social quebrada; mas o detective não alinha na procura do rasto da vontade do mal. O que faz grande um detective é a sua intuição de uma autêntica objectividade. Os mais originais e aparentemente caprichosos formaram o seu génio na luta contra a generalização apressada e contra os juízos apriorísticos. O velho detective atreve-se à descoberta do singular, do irrepetível. Contra os ditames do senso comum, da simples doxa, o grande detective reclama-se da lógica pura, a instância menos sujeita à superstição popularucha e ao referendo. Ou seja, defende Savater, o género detectivesco clássico consiste na simbolização dramática da liberdade moral do homem e da imparcial objectividade da justiça.

Ao romance detectivesco clássico chamou-se romance de mistério e Savater defende que o mistério é a sua razão de ser, o seu traço fundamental. Gabriel Marcel, lembra Savater, distingue entre «problema» e «mistério»: os «problemas», são aquilo que a nossa intervenção activa pode resolver, como a fome ou o analfabetismo; os «mistérios», apenas podem ser apresentados e vividos, mas não resolvidos, como o sagrado, a morte ou o amor. Poder-se-ia então aceitar que o romance detectivesco seria melhor qualificado como «romance-problema»; mas não, contraria Savater: para além do problema tem de haver um mistério. Poder ser, como se disse, o injustificável e a liberdade. Porque é mistério o que pressentimos dentro de cada homem, a capacidade enigmática do sublime; ou, então, um dos diferentes “eus” que cada um esconde em si e que se decide romper o velho pacto que nos une contra a fera. O detective, então, avança por entre a névoa em direcção a um rosto desconhecido do qual apenas sabemos que se assemelha a nós. E depois o calafrio delicioso ao sentirmos a sua mão firme que nos arrasta, enquanto uma voz nos diz ao ouvido: «Vamos, Watson, a aventura está a começar!»

10/02/2012

POE-ÉTICA (01)

por cam

Aconchego na minha mesa de trabalho Pessoa, Borges e, agora, Savater. Tudo, todos, por causa própria, mas que ambiciona ser pública: um romance, à falta de melhor termo, que joga (brinca) com a sucessão dos acontecimentos, a ordem das causas e das consequências, a natureza do real e da ficção, o lugar da escrita e da leitura, a revolta do tempo, espelhos, um ou mais assassinos num edifício de três andares…

Este romance ainda sem nome está a ser escrito desde 2007 e só a meio do ano passado deixei nele entrar o Pessoa, o das novelas policiárias (Quaresma, Decifrador), e o Borges (sobretudo quando ele reflecte sobre a literatura policial), em parte pela mão do seu biógrafo Volodia Teitelboim – e ainda virá o Pessoa dos Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal (edição de Richard Zenith), o dos Escritos sobre Génio e Loucura (edição de Jerónimo Pizarro), e o sempre presente Bernardo Soares e… chega, se não, não há romance; e o filósofo espanhol Fernando Savater. Este veio de uma releitura de Los Cuadernos del Norte (Revista Cultural de la Caja de Ahorros de Asturias), e, no número de 1983, dedicado à “Novela Criminal”, entre as páginas 8 e 11 lá está o artigo do filósofo: “Novela detectivesca y conciencia moral (ensayo de poe-etica)”. Metade do artigo é preenchido com uma discussão sobre os chamados romance detectivesco e romance negro – e Savater inclina-se para o primeiro. Lembra também, que o primeiro tem como arquétipo clássico o “Rei Édipo” e o segundo “Orestes” ou mesmo “Filoctetes”. Mas ele, no fundo, crê – e eu alinho – que a questão não é de géneros mas de individualidades.

A segunda parte do breve ensaio coloca as questões que mais me interessam neste contexto da minha escrita. Diz ele, que o romance detectivesco parte de uma perplexidade para chegar a uma culpabilidade: da esfinge ao descobrimento do crime, tal como em Édipo. Desde sempre – e para sempre – os indivíduos têm de escolher entre o mal e o bem, entre a virtude e o crime, indiferentes às épocas e aos regimes políticos, como se se tratasse do primeiro dia da história. Para conservar a independência e liberdade do indivíduo, é preciso reconhecer-lhe a capacidade de cometer o indesculpável, o injustificável. O detective começa a sua investigação pela mais terrível e transcendente verdade: qualquer homem tem bons motivos para matar um seu semelhante. A morte do próximo, essa expedita solução a que renunciámos socialmente para formar a comunidade, não deixa nunca de lançar-nos o seu apelo. O romance é tanto melhor, pois, quantas mais personagens estão em condições e com disposição de matar. Há sempre uma vontade que se decide e dá o grande salto. A investigação procura juntar a decisão e o gesto que a cumpre num único agente livre, identificado perante a morte.

[continua]

13/04/2010

A DIFICULDADE DO ROMANCE

por cam

Há três dias revi, como se fosse a primeira vez, o filme (em vídeo) O Estado das Coisas, de Wim Wenders (1982). Numa altura em que tenho alguma dificuldade em digerir romances que por aí vão sendo badalados, o filme de Wenders encaixou na perfeição. A reflexão sobre a própria linguagem do cinema – o seu fascínio, mas igualmente os seus limites e possibilidades, narrativas e outras –, a inclusão reflexiva, a inovação estrutural, são alguns dos problemas (ainda) numa certa procura da escrita romanesca (se quisermos continuar a dizer que tal é possível) e do cinema. Eu aposto nisso: a tradicional boa história – como Borges dizia do romance policial – entrelaçada inteligentemente numa hibridação que mantenha intactas as condições essenciais de comunicabilidade. Nabokov falou de obscenidade quando o romance não tem nada para acrescentar ao mundo. Perfilho desta ideia, sabendo que ela pode não passar de mais um aforismo inútil, decorativo.

São as dificuldades que vou sentindo na escrita dos meus projectos romanescos. Acresce que trago da poesia e do teatro (e dos contos curtos, que tenho experimentado nos últimos cinco anos) outras dificuldades – mas também outras capacidades de enriquecimento e inovação. A ver vamos.

O estado das coisas, de Wim Wenders (1982)

%d bloggers like this: