A COISA

A marcha decidida, embora lenta, do homenzinho, aliás, um homenzarrão com uns bons cento e cinquenta quilos de gordura sem formosura, mais o seu sorriso largo, só podiam prenunciar uma desgraça que vinha ao meu encontro. Meu dito, meu feito, ainda mal se esboroava o pensamento e já o dito enchia a cadeira à minha frente e sibilava um dá-me licença? As que ele precisasse, pensei, e disse com certeza. Com que então à espera? continuou a sibilar. Pensei que as cobras não eram assim gordas mas o sujeito sibilava como elas. O que é que ele queria que eu estivesse ali a fazer? A apreciar os magalas americanos da base militar ali defronte? A deslumbrar-me com o caótico parque de estacionamento? A ouvir nenhum avião passar? Numa sala de espera de um aeroporto, mesmo nesta manhosice do da Terceira, espera-se. Tentei também sibilar-lhe: há quatro horas – mas a coisa saiu-me mais em jeito de assobiadela marialva. A coisa gorda continuava por ali a olhar-me com um sorriso a tracejar-lhe os lábios finos. A todo o momento esperava ver sair-lhe a língua bífida. Mas não, era mais do estilo alforreca – embora sibilasse. E depois pus-me a pensar se as alforrecas emitiam sons mas a coisa voltou a sibilar: um dia, estive aqui dezoito horas à espera. A coisa além de esponjosa e sibilante tinha sentido de humor negro, estava lixado. Como não tinha para onde fugir moderei a minha impaciência. Já sabia que as esperas nos Açores podem durar muitas horas, a coisa gorda não me dava novidade nenhuma. O pior era que tinha decidido sair do avião sem bagagens: quando, depois de não ter conseguido aterrar na Horta o avião rumou para a Terceira e depois regressou a Lisboa, decidi ali ficar mesmo sem bagagens – para não ter que fazer a viagem para Lisboa e voltar, sem garantia nenhuma que no regresso o aeroporto da Horta tivesse condições de visibilidade para o monstro aterrar em segurança. Pensei que o meu amigo Antunes estaria em casa, na Praia da Vitória, e me daria guarida por uma noite, mas não, tinha também ficado retido, mas em Ponta Delgada, e não sabia, claro, quando voltava. De maneira que resolvi ficar por ali a ver o que acontecia. Se a demora se arrastasse muito mais ia até um hotel, lavava as cuecas e as meias e rezava para que a sorte no dia seguinte me bafejasse. Estive para dizer tudo isto à coisa, mas achei que não valia a pena. Durante duas horas, mais ou menos, a coisa sorriu-me e eu tartamudeei tolices de que já nem me lembro. Farto, resolvi ir procurar o tal hotel. Só me recordo de ter perguntado à coisa: e o senhor, vai continuar à espera do seu avião? Não, disse-me numa voz espantosamente clara e bem timbrada, não espero nenhum avião, estive aqui só a fazer-lhe companhia.

[de Estórias de Serão]

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