Posts tagged ‘crítica’

03/08/2012

A solidez da oficina e não só

por cam
Do Cabrita, com a mais do que devida vénia:
« Mais um “quatro estrelas em cinco” foi atribuído a um livro meu, na curta mas bem dominada crítica de Hugo Pinto Santos ao meu livrinho de contos Ficas a Dever-me uma Noite de Arromba. Pode ler-se aqui .

O que importa registar é que com tal acumulação de “quatro em cinco” nos últimos anos eu devia viver na Califórnia e ter dois dobermans no jardim. Prescindo bem da Califórnia. Mas já mói o que Hugo Pinto Santos repara no seu texto: «Poeta, ficcionista, ensaísta, António Cabrita editou (só em 2011) um título em cada uma das áreas, respectivamente Não se Emenda a Chuva, O Branco das Sombras Chinesas (outro “quatro estrelas em cinco”), e Respiro (faltaria aqui o meu romance no Brasil, nomeado para finalista da Telecom, e que vai ser editado pela AbYsmo). Que essa produção tenha sido acolhida com um silêncio quase total, eis o que se pode lamentar ou tentar inverter.» Não há nada a inverter. Não creio que Portugal possa ser um país menos mesquinho, menos desatento, menos cretino, mais justo do que é. Vejo as dificuldades com que o Carlos Alberto Machado vive no Pico, sendo talvez o dramaturgo da sua geração, e com a gaveta cheia de excelentes inéditos de ficção que não consegue colocar, vejo como rebolam todos agora diante do Rentes de Carvalho quando o silenciaram durante décadas e só porque felizmente agora o Rentes agora publica numa editora que conquistou uma boa relação com os media (se os “mesmos livros” do Rentes saíssem, por exemplo, na Afrontamento permaneciam no mais absoluto limbo), vejo como o Grabato Dias, um génio, continua a ser absolutamente desconhecido, sem que ninguém morra de vergonha por isso, vejo como o Manuel da Silva Ramos, uma das maiores imaginações-em -acto que conheci na vida (e já conheci algumas) continua a ser menosprezado, vejo como o Paulo José Miranda, o primeiro Prémio Saramago, e um talento total, tem tido uma carreira absolutamente acidentada apenas porque editou os primeiros livros na Cotovia, editora que nunca acolheu as preferências dos media apesar dos bons livros que editava, vejo como o Henrique Fialho continua sem editora para a sua produção profícua e inteligentíssima – e sei: nada há a esperar de um país cujos azimutes são subterrâneos. Até ao fim de ano tenho mais dois livros para sair, dois em Moçambique: «Para que Servem os Elevadores e outras indagações literárias», ensaios, pela Alcance, e «Inventário de Todos os Passos em Falso», uma antologia poética, também pela Alcance. E preparo, com essa excelência oficinal que o Hugo Pinto Santos me atribui, e cito: «Estas ficções de ambiência moçambicana, com personagens de carne e osso, distinguem-se pela disciplina da frase e pela boa gestão dos recursos à disposição – “O mar é o grampo que segura aquela casa de madeira à duna”. Dir-se que “grampo” é a palavra chave mas a chave deste como de outros achados de António Cabrita está antes na solidez da sua oficina, e não em qualquer truque isolado». Fico contente que ele note, que por detrás da transparência da escrita as articulações sejam sólidas. Ainda que pense que esta mesma solidez seja o que assusta quem prefere silenciar-me. Não tem mal, com a consciência oficinal que adquiri e a certeza de uma grande disciplina no trabalho sei que preparo para o ano que vem uma fornada de “cinco em cinco”, porque quando se persiste e não se deixa o talento à deriva é natural que as coisas cresçam. Vai ser tudo publicado no Brasil. Portugal que se foda. Entretanto, chama-me a Jade da banheira: «Bela Adormecida, chaleira…» (em Moçambique não é líquido que os elevadores ou os termo-acumuladores funcionem), e repisa, visto que não lhe respondo logo, «… então, Bela Adormecida, a chaleira…». Tenho uma filha de cinco anos que me chama – por carinho, não por desrespeito – Bela Adormecida. Melhor coisa não há… é isto e a escrita. »

24/05/2012

RESTOS. INTERIORES

por cam

O Nuno Dempster teve a simpatia de escrever no seu blogue sobre o meu texto Restos. Interiores, que escrevi e encenei em 2002 (Palmela, FIAR). Gestos como este devem agradecer-se, se possível publicamente.

Obrigado, Nuno.

da esquerda para a direita: Joana Fartaria, Solange F e Cátia Ribeiro (Palmela, 2002).

04/05/2012

ANJO DE EMPRÉSTIMO

por cam

Digam o que disserem sobre os poemas em órfãs folhas A4 ou na frente fria de um ecrã de computador, um livro, as folhas presas e uma capa que as envolve, essa coisa tão simples e despretensiosa continua a ser a casa perfeita dos poemas. E agora (finalmente!) que vejo os do Fernando Machado Silva, querido amigo, encadeados em livro, a sua “primeira viagem”, não escondo o sentimento: é um belo livro, por tantas e tão várias razões que não me chegará, tenho a certeza, a arte e o engenho para as dizer (a partir daqui, a quem não gostar de escolhas do coração e de adjectivações do belo aconselha-se a interrupção da leitura – poupamo-nos).

De um lado e do outro da palavra, os gostos variam, não raramente envolvem-se em escaramuças. No meu caso, seguramente por severas razões autobiográficas, tenho muitos gostos na poesia, até aparentemente opostos. Se me deixa sem palavras a secura de um poema, certas rasuras que parecem vir de outro patamar de conhecimento ou existência e a ele inevitavelmente hão-de regressar, também facilmente me deixo levar nas águas doces de uma boa “canção”, daquelas que tolamente se trauteiam, quer em noites de embriaguez (vínicas, amorosas ou outras), quer por toda a vida fora. Alguns dos poemas do Fernando são destas “canções de trautear” (mas não de trottoir), dolorosamente simples, já perto daquela simplicidade que namora outros voos – quem sou eu para saber se os alcançou!

O núcleo forte dos poemas deste primeiro livro do Fernando (porque me parece que ele poderia ter retirado alguns, poucos, sobretudo do início), são aqueles, a grande maioria, em que os versos, com uma sintaxe ao “ritmo do coração”, se estendem em aparente prosa, com sobressaltos como o da mulher “com olhos de horizontes distorcidos” que, não fossem os “ataques epilépticos da cadela” e mais umas tantas infelicidades, “por pouco era feliz”. Há nestes poemas o quotidiano melancolicamente observado, mas há sobretudo o seu de ficar só, com o horizonte cortado pela ausência da amante, ausência real ou imaginária, mas sempre e só dele, como quando “enforcava os meus dias entrançando os cabelos” e a única saída que vislumbra para começar de novo é “talvez deixar a porta aberta” – embora ele bem saiba que “a dor é uma propriedade privada”.

O poeta precisa de “um anjo de empréstimo”, mas ele surge apenas uma vez, embora se busque, ou se espere, sempre – depende das portas que fecham e abrem.   

Há muito corpo nesta poesia. Os corpos dos amantes que se enlaçam ou se abandonam, mas também o corpo idealizado como metáfora de uma felicidade que, paradoxalmente, parece não se desejar atingir. “Partiram-me uma vez o coração / e deliberadamente desci a escadaria da pouca saúde / para perceber no fim / que o que separa um remédio de um veneno / é somente a dosagem / agora / se mo partirem de novo / depois de colado / peço apenas que o façam rápido / e me deixem em paz / então / poderei assistir a uma última sessão /e chorar pela primeira vez / se não houver bilhetes / eu cá me arranjo / e me entendo com a morte”   

Nesta poesia – como em toda a poesia – “ficou aqui uma vez mais / tudo por dizer”: não é uma desistência, é o caminho que não tem, não pode ter, fim.

[ primeira viagem, de Fernando Machado Silva, edição Orfeu, Bruxelas, 2010 [2012], 74 páginas, 8 € (+ portes de envio), pedidos para: fernandomachadosilva79@gmail.com ou orfeu@skynet.be ]

24/02/2012

RENDIMENTO MÍNIMO

por cam

O poema é o lugar da imperfeição, da rudeza, do não-dito a tentar irromper. A poesia é uma teima infindável, sabedoria da impossibilidade. Mas o poema é isso, a poesia é isto, de outro modo, se se alcança o inalcançável, a coisa deixa de ser poema, deixa a poesia de existir – acontecerá outra coisa, com outro nome. E não sei se valerá a pena aí chegar. Prefiro a demanda. De modo que devemos deixar para os encartados a poesia imaculada e as poéticas tal-qual. Elas petiscam, porque não arriscam. Engalfinhadas na luta pelo poder – o que dá prebendas mediáticas e outras em euros crocantes, mas também os pequenos poderes domésticos, das pequenas tribos domesticadas em tascas e bares esconsos – fazem dos poemas e da poesia um negócio vil e venal.

Nunca sabemos onde estamos – eis também o que deve ser dito. Já vimos muitos dos arremessadores de pedras da calçada acabarem, verdes-rubros, nos parlamentos dos poderosos; outros, em certos momentos da vida publicam antologias dos melhores poemas, seus, se a tão longe se atreveu o despudor, dos outros, quando é longa a lista de dívidas sujas a pagar. É quando a poesia faz trasfega e se traveste em tráfico de influências.

As Edições 50Kg, Porto, do Rui Azevedo Ribeiro, faz livros em caracteres móveis, em pequenas tiragens (150 a 300 exemplares, creio que não mais). Está lá tudo o que um livro de poesia é: o tempo lento da incerteza. A tipografia de caracteres móveis, para quem não saiba, é um longo e paciente trabalho oficinal de juntar com uma pinça letra a letra, sinal a sinal, para ter uma palavra, uma linha e depois outra e outra e outra até que um pequeno livro começa a surgir; e a prensagem de cada página, imperfeita, onde se adivinha uma sabedoria dos materiais quando fazem sobressair uma palavra ou uma sequência, ou, pelo contrário, a tinta a menos quase elide uma outra. Cada pequeno livro guarda o cheiro, a rugosidade, é lugar de imperfeição, de rudeza.

Li na Terça-Feira de Carnaval três livros da 50Kg recebidos no dia anterior: “A metafísica das t-shirts brancas”, de Miguel Martins, “Rendimento mínimo”, de A. Dasilva O. e Rui Azevedo Ribeiro, e “Palinopsia”, de Pedro S. Martins.

O termo “palinopsia”, do grego “palin” (de novo) e “opsis” (ver, visão), significa literalmente “ver de novo”; “palinopsia” é, pois, um distúrbio visual que faz com que as imagens persistam mesmo depois do seu estímulo ter desaparecido. Não sei como o Pedro S. Martins “inventa” os seus poemas, por mim, voltei a ter ontem, mais uma vez, a experiência de, com os olhos fechados, reter-me numa imagem mental, fixamente, até chegar às palavras (incoincidentes, já se sabe). Acho que são “pós-imagens” estas figuras de S. Martins: “Visitam-me as netas. / / Trazem / os olhos em vida / a ferver (…)”, ou: “Sobressaltado / fuma cachimbo como / se tivesse / uma seara / de fogo à frente / dos olhos”.

A. Dasilva O. abre a sua parte do “Rendimento mínimo” assim: “Um poema é já a morte / abençoada sem qualquer / valor ou angústia (…)” Por isso, sem “estado, teoria / ou discurso” espera pela “chegada / do carteiro / com o vale da morte” onde está escrito tudo o que não quis escrever. A cada poeta a sua verdade, mas eu, como leitor interessado no ofício, assinaria por baixo esta “morte” sem “valor” ou “angústia” como um modo de fazer do poema. O “rendimento mínimo” do Rui Ribeiro obriga-o a expor-se “ao canto em vergonha / À espera da quantia exacta”. Rendido “Entre ser ligeiro no desapego / E a imobilidade de estar atravessado / Por uma armação em poema”. Para além das valorações políticas e do jogo referencial, adiro ao fazer do poema onde o poeta procura assegurar o seu “rendimento mínimo” de palavras.

O poeta foi devidamente industriado “nas artes e ciências de estar vivo, / excepto a respiração, que é oferecida: // comer, roubar, fugir, / ser intramuros e existir na gleba / e desistir / silenciosamente.”; queimaram-lhe “reiteradamente os nervos, o bem-estar, o amor com ferros / em brasa trazidos dos fogos descontrolados dos [n]vossos egos.”: Miguel Martins não traz “paz; só, talvez, menos guerra / connosco, dia a dia, torturados.”, é poeta de “espada (…) de dois gumes” Cabe-nos a escolha, diz.

Depois, veio a “Quarta-Feira de Cinzas”.

04/02/2012

ELOQUENTE SINTOMA

por cam

António Guerreiro, «Ao Pé da Letra», Actual/Expresso, 4 de Fevereiro de 2012

16/01/2012

A VIDA DEIXA MARCAS NA ESCRITA

por cam

Recordo com gosto um jantar no restaurante D. Luís, em Campolide, quando o Manuel e a Inês juntaram os escribas dos primeiros livros da sua novíssima editora Averno: o Rui Pires Cabral (Praças e Quintais), o Rui Caeiro (Olhar o Nada, Ver a Deus) e eu (A Realidade Inclinada). Isto foi em 2003.

Na Averno seguiram-se muitos mais livros e escribas.

Entretanto, eu deixei o bairro e o convívio com alguns amigos.

E a Inês publica agora o seu primeiro livro de poemas: Em Caso de Tempestade Este Jardim Será Encerrado (Tea For One, 2011).

Escrever sobre um livro – coisa que faço poucas vezes e apenas sobre autores com quem tenho afinidades de alguma natureza –, resulta de uma vontade que tem semelhanças com a que me leva a criar as minhas próprias coisas. São diálogos, declarações de gosto, cumplicidades (embora deva admitir que algumas possam não ter retorno). Não são críticas – muito menos este texto –, embora eu não tenha por princípio nada contra a crítica (os contextos e os modos como se exerce são outras questões, que não vêm agora a preito).

Na minha primeira leitura deste livro da Inês fiquei com a impressão (essa coisa boa que tantos desprezam em público e cultivam em privado) de ser uma jornada de vida em que a sua voz poética, serena e contida, pontua momentos de vida da mulher Inês, mas, igualmente, a da poeta Inês, coisa, aliás, que reciprocamente se contaminam, ora de forma pacífica, ora em justas dolorosas. Creio que todos os livros de poemas são isso e apenas isso, uma maneira singular de cada um se inventar, nunca a partir de um nada impossível, mas num jogo de intermináveis passagens entre estados, naturezas, visões, desejos.

Uma primeira obra nunca é a primeira, pois resulta de sucessivos livros primeiros que se escrevem noutras zonas do ser (e sem essa escrita, essa sim primeira, não haveria “primeiras obras”). Por “razões” que nem imagino, a “primeira obra”, aquela de que saboreia as palavras impressas – visualmente, pelo tacto, pelo cheiro, pela manipulação das suas folhas – poderá ser o primeiro e único livro da vida do poeta, por vislumbrar que nunca mais poderá vir a escrever outro – porque nesse primeiro se esgotou, ou porque é preciso que a vida aí termine (o poeta nada mais tem a dizer, aquilo que ele é está nesse último – embora aparentemente primeiro – Livro.) Se o poeta atinge aquilo que quis alcançar, possuir-se a si mesmo na obra que termina, para quê continuar? Se não se possui, deve, então, saber esperar.

Continuar – a escrever – é viver no futuro, com um presente indesejado, incompleto. Poucos poetas conseguiram parar. Continuam(os), diz-se, a escrever sempre o mesmo livro. Prova de incompletude, será. Nunca coincidindo com o Outro que sabemos ter em nós. Divididos. Separados.

Porque digo estas coisas quando dialogo com o livro da Inês? Não sei, mas devo aceitá-lo (e quero partilhá-lo), porque sei que o sinto e o escrevo pelo livro dela – e pela mescla insondável de outras coisas que momento a momento nos fazem, infelizmente (ou talvez não). Nem os poetas sabem bem como separar os ingredientes da vida. Pois seja.

A Inês é uma pessoa amável e gentil. Mas isso não a impede de saber como perscrutar os escaninhos da sua, da nossa, via dolorosa – e de os expor à luz, que a uns acicata desejos, a outros o júbilo do fim. A jornada neste Jardim da Inês começa, canonicamente, pela Rua da Infância. Nela, há uma “rua estreita” que lhe “parecia só acabar no mar / no mar.” Mas, “se olhar / mais demoradamente” já sentirá o “sol a queimar o futuro”. Cinco anos é uma boa de idade para aprender que as palavras nunca se hão-de separar de nós: “Quando ela me cravou um lápis / sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita, / grafite fria à flor do sangue, / deixaria marcas para sempre.” – “ela” foi a Ágata, “cabelo em forma de pássaro – negro / asa de corvo.”

A vida deixa marcas na escrita. Nesta escrita, o desencantamento, uma melancolia, associada à noção de perda, vai ganhando corpo. A falha é muitas vezes encarada como um espinho que acirra a desistência, mas também pode levar a uma exposição serena da dor. Espera fria e rigorosa. A escrita da Inês não apela ao sobressalto existencial – se, “em caso de tempestade o “jardim” tiver de ser “encerrado”, creio que ela olhará uma vez mais a pena branca da “colomba ferita” entre a vegetação e caminhará, serena e firmemente para a saída mais próxima.

Um “morto fica mais só”, mas “Os mais sós, afinal, são sempre os sobreviventes.” – “pago para fugir / à morte, escolhendo trajectos que me façam doer / todos os músculos, excepto o do coração.” Num “dia / em forma de pássaro morto”, a uma “indiferença cansada” prefere “a do outro pássaro que, lá muito em cima / (…) refaz a traços negros / a vida. É por esses instantes / de voo que aceito continuar a perder.”

“No fundo, é isto: espera-se.” / Escrevemos incuravelmente / a história dessa espera, mas / nunca se chega ao fim da rua, / mais escura do passado, / nem se despe por completo o luto, / sempre outros os mortos, sempre igual a si / a morte. A espera, // essa continua.”

O tipo singular de desencanto que atravessa a escrita da Inês pode ter este paradigma (de “Cemitério dos Prazeres”): “E o amor / [é] um casaco que nos pousam / sobre os ombros, como se isso bastasse / para reanimar o coração / quando tocamos às portas / e ninguém responde.” Mas desencanto não significa necessariamente desistência ou prostração: “Sobreviveremos à demasiada solidão, / mesmo que nenhuma outra porta / se venha a abrir para nós.” (do mesmo poema).

O antepenúltimo poema – dedicado a António Barahona – intitula-se “La Colomba Ferita”. Se ainda se puder usar o adjectivo “belo”, direi que sim, que é o poema mais belo do livro, e também o mais poderoso na sua luz. Na minha leitura, impressionista, direi, então, que é o poema-emblema do livro. É um daqueles poemas de que se pode dizer que “inventa na língua uma nova língua”.

Creio que é melhor transcrevê-lo integralmente:

Quando me cansar de voar ou

a ferida estiver finalmente visível,

promete-me que a faca

será afiada e silenciosa.

Que eu não a veja chegar,

como se não tivesse passado

uma vida a pressenti-la nas dobras

do lençol, mortalha de tantas noites.

 

 E antes, dá-me de beber

entre as mãos, conta-me

de céus azuis, sem garras

e sem abismos. Espera que

o meu coração de novo pequenino

se aninhe no calor das tuas veias

e se torne apenas a memória de

um sobressalto contra a tua pele.

Por este livro, por este poema, regresso a Campolide.

13/01/2012

PÓS-DEMOCRACIA

por cam

Na imprensa generalista, António Guerreiro (AG), no jornal Expresso (suplemento Atual), é uma das vozes mais persistentes na actualização de um pensamento sobre o mundo em que vivemos, quer na reflexão sobre a literatura, quer no âmbito de largo espectro do pensamento filosófico. Recentemente, abordou a actual crise europeia com o conceito de pós-democracia (O Rapto da Europa (versão em 3D), edição de 19 de Novembro de 2011, pp.34-36).

Falar de pós-democracia, ou estado pós-democrático na Europa, não é o mesmo que défice democrático. A ideia, outra, “significa a entrada num outro modelo que ainda não sabemos designar senão como inflexão, historicamente determinada, da democracia.” AG aborda esta ideia com o concurso de dois livros recentemente publicados: de Jürgen Habermas, Zur Verfassung Europas, e de Hans Magnus Enzensberger, Le doux monstre de Bruxelles ou l’Europe sous tutelle, na versão francesa. Habermas, segundo AG, “reflecte sobre uma constituição europeia que possa consagrar uma forma particular de «democracia transnacional» sem sacrificar a autonomia democrática dos povos e nações europeias.” Há em Habermas uma “denúncia” de “um caminho pós-democrático” “seguido por Angela Merkel e Nicolas Sarkozi.”

Por seu lado, Enzensberger ataca com “fúria crítica e muita verve cómica a obstinação de Bruxelas (…) em elaborar regulamentos e directivas, em controlar tudo e «colocar tudo sob tutela», impondo um sem número de regras que determinam a vida quotidiana dos cidadãos europeus.” Enzensberger denuncia a elite, supostamente esclarecida, que nos diz o que é certo ou errado, nos diz o que é melhor para todos nós. «A simples ideia de um referendo desencadeia imediatamente o pânico na eurocracia.» «A tríade Parlamento-Conselho-Comissão produz um buraco negro onde desaparece o que nós entendíamos por democracia.». A U.E., deste ponto de vista, representa uma tentativa de extermínio da “velha invenção europeia que é a democracia.” Aquilo que a Europa está actualmente a promover (“modelo técnico de governamentabilidade”) “abole a política e a ideia de representação e mediação em que esta se baseia.” A Europa, assim, “está a passar por derivas que significam pura e simplesmente a morte do modelo democrático ocidental.” A referência pode deixar de ser a cidade (a polis), mas sim a empresa – a pós-democracia.

Entretidos a discutir a baixa política no atropelo do quotidiano, despimo-nos da nossa capacidade de pensar, categorizada já como luxo ou coisa supérflua. Resta saber se isso acontece por ser uma consequência inevitável da abolição simbólica da Cidade ou se, por razões complexas, foi essa desistência que facilitou o caminho à invasão dos “bárbaros” de fato cinzento.

12/01/2012

BOTEM OS HOLOFOTES SOBRE O GAJO

por cam

Já tentei chegar à coisa de várias maneiras, a menos má é esta: Botem os holofotes todos sobre o gajo que dá pelo nome de António Cabrita e está no Alto Maé, Maputo, Moçambique, mais a Teresa e as suas três meninas! Um gajo agarrado ao tutano da terra e a viver noutro espaço-tempo. E faz disso escritura como pouca se faz no mundo que eu conheço. Pronto, está dito.

Ando às voltas com o Respiro dele (edição Língua Morta, Lisboa, Novembro de 2011 – não saiu em nenhum Top Ten, estejam descansados!). São trinta páginas de texto que pesam como um milhão de anjos (talvez caídos).

Num repente, pode ser assim: o Cabrita convocou Plotino, Koestler, Bosquet, Octavio Paz, Ken Wilber e Shayegan (exemplos maiores) para servirem de pilares e traves mestras para uma casa que ele próprio constrói. Até aqui, tudo bem. Ora, acontece que a casa que o Cabrita quer construir com eles é uma casa que desconcertaria qualquer arquitecto, dos idos e dos vindouros, parece-me, pois tem como principal traço distintivo o de ser uma casa e o seus desdobramentos sem fim. As cobertas não são o que parecem, nem o chão, e molda-se aos pensamentos de cada habitante ou visitante. Mais ou menos, que as palavras parecem estar a ser contaminadas pelas flutuantes terras moçambicanas.

Cabrita evoca o “clamor das contradições” (Plotino), os hólons (Koestler), o “terceiro incluído” (Nicolescu, Lupasco)… para dar umas valentes voltas ao real e à realidade, à referencialidade, ao uso da metáfora e da metonímia, ou não fosse o poeta, na iluminação de Jean Carteret, “o homem mais esburacado do mundo”.

(quando acabei a primeira leitura, só me apeteceu copiar todo o livro, como fez segundo Borges, o Pierre Menard, que “tinha a admirável ambição de vir a produzir umas páginas que coincidissem, palavra por palavra, linha por linha, com as de Miguel de Cervantes” no seu Quixote. Pois.)

Sobre a metáfora, nas palavras do poeta libanês Adonis: «Quando a metáfora encosta à ordem do dizer é porque está degradada e estampa unicamente uma réplica rançosa de um território que a retórica já mapeou – o que hoje, na realidade, acontece à maior parte da escrita e escolas, sem excepção.»

Os hólons, “cabeça de Janus: podem ser vistos como um todo em si mesmo e, simultaneamente, como uma parte do todo maior”, marcam o caminho do Cabrita na primeira parte do ensaio, mas ele faz questão de dizer que não há “hologarquias”, pois há uma diluição de categorias e não um esforço da legitimidade das mesmas – um não à autoridade. A água que sob fervura sobe no alguidar é o território da imanência, seguida de extraterritorialização, e dessa dobra nasce um novo plano imanente e assim sucessivamente. Por outro, lado, sem contradizer isto, mas seguindo-se-lhe, socorre-se ele de Bosquet : «avant l’arbre, il y a le besoin de dire arbre. Donc, la poésie va vers un renversement des hiérarchies.» A escrita vem de fora (Christian Bobin), o aqui e agora que tem no Efeito de Moebius (Pierre Levy) um recurso de uma consciência, corresponderá à Dobra de Fora de Deleuze.

E (simultaneamente), a “intuição de Paracelso: “em cada nível é a mente quem faz ver os olhos” – “e viva a reversão do Efeito de Moebius”.

Na segunda parte, Cabrita ataca a linguagem. Talvez as palavras que pede emprestadas a Octavio Paz digam o essencial: as palavras são elas o “o referente e são tão reais como as árvores, as casas, os aviões as paixões”. Isto porque o Cabrita se deita a falar de “linhagens de poetas”, uma, daqueles que se servem da linguagem como instrumento auxiliar; outra, daqueles para quem a “linguagem é em si mesma um problema, um conflito já existente, uma dobra” – e depois traz à liça o Herberto Helder. De um gag do Bucha & Estica, salta o cinéfilo Cabrita da “terceira mão” do gag para uma “terceira palavra”, a Graça de ser capaz de “aceitar o estranho como parte de nós. A “terceira palavra” é o poeta aceitar uma palavra que não lhe pertence – a instauração do sagrado.

Entro na terceira parte, em que o Cabrita diz que no mundo às camadas – os hólons – quando “ocorre uma passagem de uma para outra camada ocorre uma conversão semiótica”. No interior da linguagem, “a lógica deixa de operar segundo um esquema linear, gramatical, que se duplica na representação do espaço-tempo sucessivo, para actuar segundo intersecções, vizinhanças, constelações, fractalidades.” E diz ele julgar que se localiza “aqui a origem das disparidades que retalham o tecido da poesia contemporânea”

(isto está na página 26, não me apetece fazer ecoar aqui os nomes que povoam o texto).

Interessa-me, isso sim, abrir o peito a balas como estas: o poeta “habita” o “susto da linguagem”, “é uma coisa que se «sofre», e que não se pede ou de que se faça posse”. Esta parte termina com uma citação de Llansol, de Um Falcão no Punho, que talvez pudesse estar como epígrafe geral do ensaio: “Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.”

(agora devir ficar um ano a reler os livros da Llansol, mas nã’ posso)

Da quarta e última parte quero reter a reafirmação do duplo contra o uno, das simultaneidades contra o plano rasante, dos paralelismos simultâneos contra as univocidades, e assim (percebam que estes “contra” não são bem contra seja oque for…).

Outros “contras”: contra “o patchwork que é a regra que enganosamente nivela o mar das consciências”; contra o “sabor único”.

(agora devir ir trocar as partes todas e reescrever o texto, mas nã’ tenho forças)

Em 2007, a propósito da celebração de mais um Dia Mundial da Poesia, editei uma plaquette com um texto do Cabrita intitulado Que histórias conta o ouriço à baleia? – Travessias no imaginário. Começa assim: “Na Índia, Deus pode criar uma pedra que lhe seja impossível deslocar, e sonhar um sonho do qual não desperte. O que seria uma impossibilidade lógica para o pensamento ocidental. Na filosofia, chama-se a esta impossibilidade lógica uma aporia. Mas não existem aporias na literatura.”

Não sei quantas vezes mais voltarei a este livro do Cabrita, tenho de confessar que sofro de outras perturbações: agora, é com o Carlo Michelstaedter – La Persuasión y la Retórica, edição espanhola – e com o Quaresma, Decifrador, do Pessoa (mas o monte na realidade é maior e a confissão passaria a ser vergonhosa).

Ao fim da terceira leitura, impuseram-se-me os sobressaltos que se seguem:

1 . Um texto também serve para aprender

2 . Um texto também serve para cair num poço

3 . Um texto não serve para saber se o poço tem fundo

4 . Um texto pode ser um poço

5 . Um texto pode (deve?) ser Dois

6 . Um texto vai a meio

7 . Um texto flui como vida

8 . Um texto não existe porque é sempre a vontade de outro texto

9 . Um texto não se possui

10 . Um texto é ponte e travessia.

Respiro, ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011
08/01/2012

NEMÉSIO vs MAGALHÃES #03

por cam
J.M. Magalhães

O outro poeta que Magalhães conjuga com Nemésio (ver NEMÉSIO vs MAGALHÃES #02) é João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1943-) – que, tal como Júdice, também iniciou cedo a produção poética (publicou o primeiro livro de poesia em 1971). Tanto em 1978 como em 1999 tinha várias obras publicadas. Para além de outros sinais, Magalhães faz acentuar o terem ambos uma “obsessiva vocação de real” (p37), no caso específico de Nemésio, a “imersão hiper-real na banalidade e no concreto do quotidiano”, é também uma “linha motora (talvez pela sua estreita ligação com a representação pictórica) da obra de Fernandes Jorge”.

J.M. Fernandes Jorge

Para além das “consequências processuais paralelizáveis entre Andamento Holandês, de Nemésio e «Castelos de Holanda», de O Barco Vazio, de Fernandes Jorge” (p.38) e de permeio os Açores, o primeiro por ser a sua terra natal, o segundo por lhe dedicar mais de um livro, Magalhães lembra outras coisas, duas, que “contribuem fortemente para aproximar estes dois poetas na busca da amplidão temática e na consciência da imersão numa cultura particular.”

“Uma, o recurso à profundidade histórica nacional para dela fazer irromper a novidade dos versos.” (id.) “Outra, a reformulação da herança de António Nobre nos dois poetas, sobretudo nos seus poemas mais longos.” “A ligação à terra pessoal, as memórias do passado vivido, a complexidade metonímica das imagens, a associação do mito pessoal ao mito colectivo, o urdir de uma discursividade carregada de pequenas sequências quer emocionadas quer comprometidas quer auto-irónicas configuram aquilo a que poderia chamar a reinvenção da lição de Nobre.” (p.39)

Nem tudo fica dito, segundo JMM, que também crê que a obra de Nemésio representou muito “para a ultrapassagem das convenções modernistas e para a acentuação renovada do valor dos ritmos mais antigos da língua e das suas tradições orais.” (id.)

Vitorino Nemésio

Os blogues têm, com maior ou menor capacidade, uma função ampliadora e, sobretudo, de fazer chegar discussões e acontecimentos, tantas vezes como fruto do acaso, a leitores que por sua iniciativa talvez deles nunca tivessem conhecimento. As leituras de Joaquim Manuel Magalhães que aqui resumidamente trago de novo à liça vêm com essa convicção – ou esperança; perseguem, portanto, um objectivo, digamos, didáctico. Por outro lado, e concomitantemente, para outros leitores mais interessados (e supostamente informados e “lidos”), pretendem lembrar certas coisas, estimular leituras novas, reacender trocas de ideias. Os livros vivem bem com o tempo, que sempre os renova, tal como os grandes poetas, como Joaquim Manuel Magalhães, que tão bem sabe dialogar com os seus pares, criadores de pontos de contacto (ou de passagem), para outros mundos. Fazer mundos.

[continua]

08/01/2012

NEMÉSIO vs MAGALHÃES #02

por cam

Joaquim Manuel Magalhães

Cerca de 18 anos depois da primeira incursão na obra de Nemésio, Joaquim Manuel Magalhães (JMM) volta em Rima Pobre. Poesia Portuguesa de Agora (Presença, 1999) ao autor de Festa Redonda.

No texto em referência (pp.31-40), Magalhães sugere “uma leitura poética de Vitorino Nemésio enquanto lugar verbal onde surgem processos que, embora por vias distintas, acabam por ser semelháveis a posições processuais que poetas mais novos, pela altura da sua morte [1978], vinham a encontrar como terreno de vontade e de possibilidade.” (p.32) Convém dizer, antes de se perceber como Magalhães define esses pontos semelháveis, que ele considera que a “qualidade da poesia portuguesa recente assenta na recusa de uma dependência intergeracionalista.” (p.31) E diz “que não será prudente procurar encontrar continuidades e influências onde elas não existem. Porquanto apenas existe a justaposição que certas poéticas entre si fomentam, depois de terem demandado a originalidade criativa própria.” (pp.31-32)

Vitorino Nemésio

O breve apreço que Joaquim Manuel Magalhães faz da obra de Nemésio ancora-se na sua eleição de Festa Redonda e Andamento Holandês como “as suas duas obras culminantes” (p.33). Magalhães anota hipóteses de ler as “linhas de tradicionalidade” em Nemésio, entendida tradicionalidade como “um processo de sedimentação do distinto”, tanto no semelhante como nos “radicais actos de rompimento” (p-32). Assim, pode enumerar JMM de Nemésio a “tradição oral novilatina”, a “poesia em francês na esteira de Gautier ou Verlaine”, de “cantadores tradicionais portugueses” e o “simbolismo de Nobre”. (id.) Em Nemésio considera JMM marcas distintivas como o “enlouquecimento processual (em Festa Redonda) só equiparável a Cesariny – modo radical do uso da métrica, sabotada em ambos pela “manutenção de uma rima, de uma toada, de um espelhamento qualquer que atira ao leitor um surpreendente estilhaço”, e dá um exemplo

Deixa à ida uma pluma

Que eu distraído escolha

Como na onda uma

Rolha.

(p.33)

Nuno Júdice

Entrando na aproximação a Júdice, Magalhães evoca raízes e pontes comuns – convém, antes, assinalar que Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, 1949-) publica poesia desde 1971 (A Noção de Poema) e em 1999 já contava com 22 títulos publicados (até 1978, ano do desaparecimento de Nemésio, publicara 7 obras – apenas para citar nomes: Antero, Gomes Leal, Eugénio de Castro, Junqueiro, Pessanha ou Soares dos Passos, e as fontes italiana e francesa: Leopardi, Baudelaire, Mallarmé, Laforgue e Lautrèamont, até chegar a Valéry. E ainda Hölderlin, que considera também associável à poética de ambos. Magalhães gosta de destacar, em termos de processos, a “violência formal que constitui a extremização do uso da quadra (…) para além da demanda popular” (fora do popular, Nemésio percebeu a radicalidade de Eliot e Pound e a “destruição dos preconceitos versilibristas herdados de Whitman por simbolistas e por modernistas” (p.35).

De volta a Júdice, outro campo de cruzamento com Nemésio, o uso do soneto; assinala três vectores no século XX português: o rompimento com a processualidade usual desta forma; variações que fundem a forma original com modelos e intuitos prosódicos mais populares; uso retradicionalizador da forma renascentista. Fora “desta dimensão formal específica do soneto, ambos os poetas se afastam, no que diz respeito ao uso da prosódia” (p.36).

Dentro das diferenças, o que muito aproxima estes e outros poetas (Manuel Gusmão, por exemplo), é a “total adesão ao poema como consciência da sua escrita” (id.) “A partir de 1959, a presença do estético como referencialidade interna do poema surge em vários poemas de Nemésio.” E as referências culturais não deixam de produzir “um seguro efeito de estranhamento” que é mesmo conseguido “dentro de situações verbais típicas da sua poesia desde o primeiro livro, precisamente nisso que diz respeito ao uso da quadra e da redondilha” (p.37). Esta “estúrdia processual” só Cesariny consegue equivaler.

[continua]

08/01/2012

DE RE RUSTICA: AINDA

por cam

HG Cancela escrevia assim, no seu blogue ContraMundum, em  4 de Janeiro de 2012:

VER MORRER UM LIVRO

(em causa própria)

passei o verão e o outono a assistir à morte de um livro. demorou mais de sete anos a estar terminado, morreu no espaço de duas estações.
editado, os volume foram distribuídos, sumariamente expostos, e rapidamente devolvidos à editora. da imprensa, nem os quatro parágrafos do espaço editorial dos dois ou três lugares da divulgação e da crítica instituída.
o bom senso e a crença na própria ideia de crítica dizem-nos que, se de forma tão unânime um livro cai no espaço dúbio do infra-criticável, é provável que o mereça. neste caso, duvido convictamente.
é um romance duro, provavelmente difícil, mas de uma espessura pouco comum, tanto em termos de escrita como de narrativa.
morreu antes de ter adquirido existência enquanto coisa pública (e, afinal, é apenas esse o sentido da publicação de um livro). nem sequer é legítima a pretensão ingénua de que o tempo e a história o poderiam reabilitar. raramente os romances são objecto de recuperação história, e mais raramente ainda o são pelos leitores. estará morto, portanto. começava assim:
«a posse não é cumulativa. a posse, a aprendizagem e a memória, alguma coisa que só se acrescenta por subtracção. um movimento seco, sem referência exterior. isto, aqui, agora, cada coisa por si. uma depois da outra. uma e outra articuladas pelo movimento de deslocação. de ali até ali, um primeiro passo. e depois outro, semelhante no espaço ao espaço ocupado pelo anterior. ou um pouco menos. e a isso soma-se uma espécie de pressa, sem mais o que perder.
  permaneci na cidade por mais dois dias. o tempo apenas de percorrer as lojas da baixa e comprar duas malas, roupa, sapatos, uma carteira. um relógio. entregaram-me o carro na manhã do terceiro dia. documentos, seguro, registo de propriedade. era um automóvel escuro, de estofos de couro e linhas sóbrias. passei pelo hotel para levantar as malas e dirigi-me para sul. forcei-me a fazê-lo, a avançar e a parar. de norte para sul, depois para o interior, evitando as cidades e o litoral povoado. conduzia devagar, cento e cinquenta quilómetros por dia, duzentos, por estradas secundárias. parava a meio da tarde e procurava onde ficar. hotéis de passagem, pensões de beira de estrada.» 1
1. H. G. Cancela, De Re Rustica, Edições Afrontamento, 2011, (223 p.).
08/01/2012

DE RE RUSTICA

por cam

Crítica de Hugo Pinto Santos ao romance de H.G Cancela  “De Re Rustica“, Porto, Afrontamento, 2011 (in Expresso/Actual, Sábado, 7 de Janeiro de 2012). Em Agosto de 2011 publiquei aqui uma nota sobre o mesmo livro.

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08/01/2012

COPIAR UMA CIDADE

por cam

Crítica de Manuel de Freitas ao livro de poesia de Vitor Nogueira “Modo Fácil de Copiar uma Cidade“, Lisboa, & etc, 2011 (in Expresso/Actual, Sábado, 7 de Janeiro de 2012). Abraço aos dois.

07/01/2012

NEMÉSIO vs MAGALHÃES #01

por cam

Em Os Dois Crepúsculos (Lisboa, A Regra do Jogo, 1981) Joaquim Manuel Magalhães (Peso da Régua, 1945-) conta como se encontrou, admirado, com a poesia de Vitorino Nemésio (Terceira, 1901-Lisboa, 1978), a partir da leitura de Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (Lisboa, Arcádia, 1976) – e diz, coisa curiosa, que leu “às arrecuas toda a poesia de Nemésio, entusiasmado pelos catorze poemas de Andamento Holandês.” (p.18)

Joaquim Manuel Magalhães

O texto de Magalhães edita-se em livro em 1981, mas presumo que o original, publicado em jornal, terá sido escrito pouco tempo depois da morte de Nemésio, que ocorreu em 1978. Magalhães confessa que “não gostava da figura humana Vitorino Nemésio.” (p.16) “Quando um homem morre o que vamos fazer?” O autor de Uma Luz com um Toldo Vermelho demarca-se daqueles que “tratam de arranjar um pássaro necrófilo que cantelacrimeje sobre o pobre morto em nome da perpetuação.” (id.) Porém, “Há uma coisa (…) que começa a salvar-mo: nunca foi o laureado da maioria para nobel nenhum. Nunca publicitou marcas de vinho. Nunca dirigiu associações de escritores portugueses. Nunca andou a escrever cartas zangadas sobre os pobrezinhos escritores portugueses. Nunca pertenceu a nenhum movimento literário, desses que em meias-dúzias se juntam para dizer como a literatura deve ser, mais ou menos modernaça nas suas cópias da última geração que os antecedeu lá fora. Pode ter feito coisas piores, mas estas, tão feias, nunca fez, que eu saiba.

É um grande alívio ter-se uma literatura em que há um poeta que se sente diferente dos outros e sem o fazer por rabujice fechada em aldeias, ou por atavismo provinciano de reaça moral. Um poeta que é regional por cosmopolitismo (e não por neo-realice), católico por formalismo (e não por beatice), erudito por modernidade (e não por alfarrabice). É deste poeta que eu sinto a falta de não ir escrever mais poemas, por muito que pertença o homem que o trazia consigo a um desejo de vida que me incomoda a mim.” (p.17)

Vitorino Nemésio

“Não deixem que este poeta se vá embora. Não se preocupem com a fúnebre comemoração. Leiam-no. Assim ajudam a «matar a morte».” (p.19).

Este texto foi publicado em livro há 30 anos, não sei se repararam bem.

 [continua]
30/12/2011

O PÊNDULO DE MICHELSTAEDTER

por cam

Finalmente vou ler Carlo Michelstaedter, o jovem filósofo italiano autor de A Persuasão e a Retórica, livro que me chegou hoje de Espanha. Michelstaedter era para mim um desconhecido até ler, há muitos anos, o texto de Eduardo Prado Coelho “O ensaio em geral”, inserto n’O Cálculo das Sombras (ASA, 1997). Prado Coelho refere-se a ele quando aborda o “lugar do ensaio num mundo que surge como que alienado pelo predomínio de uma cultura estética em que a exigência de verdade e o peso das motivações profundas se foram progressivamente dissolvendo.” (p. 30).

Para o autor de A Mecânica dos Fluídos e O Universo da Crítica, Michelstaedter descreveu como ninguém “com tanta veemência (por palavras e actos trágicos) esta situação.” (p. 31). Sigo EPC (pp. 31-32): Carlo Michelstaedter, nasceu em 1887 em Gorizia e estudou em Florença. Suicidou-se a 16 de Outubro de 1910, no dia seguinte àquele em que redigiu os apêndices críticos da sua tese intitulada La persuasione e la retórica. O seu trabalho abre com uma imagem que tem vindo a tornar-se famosa: o pêndulo. Para Michelstaedter, um pêndulo que esteja suspenso de um gancho move-se por um desejo intenso de tocar o ponto mais baixo: que seria aquele em que viria a coincidir consigo mesmo, definitiva e solarmente persuadido da sua própria verdade. É esta a «sua fome de mais baixo». Mas entregue a si mesmo o pêndulo oscila, balança, agita-se numa interminável circularidade de movimentos, em que cada ponto que ele atinge é um ponto em que falha o ponto mais baixo que pretendia atingir. Deste modo, «sempre o domina uma igual fome do mais baixo e infinita lhe resta para sempre a vontade de descer.» Mas se alguma vez pudesse atingir esse ponto (o ponto em que, persuadido de uma verdade única, deixaria de estar submetido à oscilação do processo de persuasão, isto é, ao movimento incessante da retórica), ele deixaria de ser o que é: um peso – «quando mais nada lhe faltasse – mas fosse finito, perfeito: se se possuísse a si próprio, ele teria deixado de existir». A verdade absoluta como limite inevitável da persuasão é não apenas a morte da linguagem (ou a morte de uma linguagem dominada pela retórica) como a morte da existência humana. Mas a sua vida enquanto vida é também insatisfação absoluta, vazio radical: «la sua vita é questa mancanza della sua vita». Donde, o pêndulo está condenado à oscilação (ou, se quiserem, à cultura estética dominada pelo oscilação retórica): «O peso é para si próprio impedimento de possuir a sua própria vida e não depende de mais ninguém senão de si na sua impossibilidade de se satisfazer. O peso não poderá nunca ser persuadido.» O seu destino é abandonar-se ao eterno jogo das aparências e das sombras, colorido pelas manchas vagabundas da pintura impressionista, fragilizado pela derivação psicológica, impulsionado pela orgia dionisíaca de raiz nietzschiana. (o Eduardo Prado Coelho morreu há quatro anos e sempre que leio um dos seus textos não quero aceitar que tenha morrido).

O livro que vou ler é uma edição de 2009 da sextopiso (Espanha/México), com apresentação de Miguel Morey e prólogo e notas de Sergio Campailla. Textos complementares de Claudio Magris, Massimo Cacciari e Paolo Magris.

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