Archive for ‘LITERATURA’

10/04/2014

Coração quase branco

por cam

É no que dá um iogurte estragado: náusea repentina, vómitos disfarçados de arrotos, cólicas intestinais. Sanita comigo. E logo logo para a cama – a prevenir achaques maiores com a ajuda de uma infusão de macela e cidreira.
Aproveito a frouxidão inesperada do corpo e o repouso de meio da tarde para ler. Entre compras e ofertas recentes, decido-me pelo “Coração Quase Branco”, do António Cabrita – livro da 50 Kg (como habitualmente composta em caracteres móveis e com impressão a condizer), que o seu editor, o poeta Rui Azevedo Ribeiro, me tinha dado em Coimbra, no Mal Dito, meia dúzia de dias antes.
Cabrita Coração quase branco

read more »

08/02/2014

Miguel Real sobre o Hipopótamos

por cam

Miguel Real sobre Hipopótamos em Delagoa Bay (abysmo, 2013), no JL de 5  de Fevereiro de 2014

Hipopotamos_Critica

06/11/2013

Em Lisboa, sobre o mar

por cam

Um poema meu na antologia EM LISBOA, SOBRE O MAR. POESIA 2001 – 2010. Edição Fabula Orbis

Em Lisboa sobre o mar 001

Título: Em Lisboa, sobre o Mar. Poesia 2001-2010
Colecção: Poetica Urbis
Selecção e Organização: Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa
Coordenação Editorial: Carmo Gregório
Design e Produção : Finepaper

© Fabula Urbis
Textos © Porto Editora, Assírio & Alvim e os Autores Armando Silva Carvalho, Carlos Alberto Machado, Gastão Cruz, Hélder Moura Pereira e Herdeiros dos Autores Eugénio de Andrade e Fiama Hasse Pais Brandão
Textos © restantes Autores

ISBN: 978-989-96566-2-8
Depósito Legal: 365779 /13

Edição: Fabula Urbis
R. de Augusto Rosa, 27
1100-058 LISBOA
Tel: 218 885 032
www.fabula-urbis.pt
fabula-urbis@fabula-urbis.pt
1 ª Edição: Outubro de 2013
Tiragem: 500 ex.

Agradecimento: 
A Fabula Urbis agradece aos Autores, aos titulares de Direitos de Autor e às editoras a autorização concedida para a reprodução dos textos.

1

1

“(…) se são obviamente diferentes os registos usados – uns mais intimistas, outros mais fotográficos; uns mais sincréticos, outros mais descritivos; uns mais melancólicos, outros mais jocosos -, em todos eles se percebe como as imagens criadas parecem inscrever-se no leitor, transformando-o e transformando a cidade naquele que vai ser um território lido à luz do poema e, assim, uma paisagem única para cada leitor.”

ÍNDICE

Apresentação

ANA HATHERLY
O terceiro corvo

ANA LUÍSA AMARAL
De Lisboa: uma canção inacabada com revisitação e Tejo ao fundo

ANTÓNIO CARLOS CORTEZ
Bairro Alto 
Um barco no rio (2002, 2009) 
Regresso a Lisboa

ANTÓNIO FERRA
nos restos da cidade 
café e poema, por favor

ARMANDO SILVA CARVALHO
A noite e o rio

CARLOS ALBERTO MACHADO
[O acrobata da mota no poço da morte rodopiava]

EUGÉNIO DE ANDRADE
Aos jacarandás de Lisboa 
Outra vez o Tejo

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
Da árvore, numa rua de Lisboa 
Lisboa sob névoa

FREDERICO LOURENÇO
Rua do Século, 79

GASTÃO CRUZ
Com Ruy Belo na Esplanada do Campo Pequeno (1966) 
Viagem 
Na Rua do Ouro

HÉLDER MOURA PEREIRA
Falta de carências 
[O pássaro que passa na ponte]

JORGE AGUIAR OLIVEIRA
António Botto

JOSÉ MÁRIO SILVA
avenida almirante reis

MANUEL ALEGRE
Sobre as colinas de Lisboa

MARGARIDA FERRA
Arroios

MARGARIDA VALE DE GATO
Rua do Cardal à Graça

MARIA ANDRESEN
Lisboa 4 de Julho de 2004 (Domingo) 
Lisboa, Inverno de 2006

MIGUEL-MANSO
Balada da Rua Damasceno Monteiro

NUNO JÚDICE
Em Lisboa

PAULO TAVARES
Cidade Magnética

PEDRO MEXIA
Dentro de Segundos 
Lisboa, Cerca Moura 
Lisboa, São Pedro de Alcântara 
Os Domingos de Lisboa

RUI PIRES CABRAL
São Pedro de Alcântara, 45 
Cidade dos Desaparecidos

TIAGO GOMES
Poema do Caos e da Trindade

TIAGO PATRÍCIO
As gaivotas-de-patas-amarelas sobre Lisboa

VASCO GRAÇA MOURA
maio de 68 
canção do terreiro do paço

VÍTOR NOGUEIRA
Rua do Carmo, 43, Sobreloja 
A Descoberta da América 
Cais do Sodré, a Desoras 
Teseu sem Minotauro 
Feira da Ladra 
Grilhetas 
1848 
Vazios 
Contornos 
Relento 
Babel

 

16/10/2013

Antologia brasileira

por cam
CarlosA_Machado__CAPA2.inddUma antologia de poemas meus sairá por estes dias no Brasil, na colecção Portugal 0, dirigida pelo poeta e professor Luis Maffei, com edição da Oficina Raquel, do Rio de Janeiro. O livro, que tem prefácio de Maurício Vasconcelos (Universidade de S. Paulo), será apresentado durante o XXIV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, que vai decorrer entre 20 e 25 deste mês, na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, e em que participarei.
04/10/2013

Hugo Pinto Santos e o meu Gato

por cam

HugoPSantos-sobre-o-gato-visitador-2

16/08/2013

Entrevista dada a António Rodrigues (Ípsilon)

por cam

untitled

Ípsilon, Sexta-Feira 16 de Agosto de 2013.

 

 

 

 

16/08/2013

Ípsilon: crítica a Hipopótamos

por cam

untitled

Ípsilon, Sexta-Feira 16 de Agosto de 2013.

 

 

02/08/2013

Poesia, um dia

por cam

Poesia um dia _Programa-1

Poesia um dia _Programa-2

25/06/2013

Hipopótamos: não ceder à tentação de desviar o olhar

por cam
Alguma boa vontade poderá fazer-nos aceitar que o nível qualitativo médio da ficção portuguesa tem vindo a crescer de forma sustentada ao longo da última década. Este crescimento é suportado pelo aumento significativo do número de autores, a par com a aquisição de estratégias narrativas e de edição capazes de evitar erros básicos de construção ou de escrita. O problema é que este nível médio (onde poderíamos colocar como autores mais notórios Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Dulce Maria Cardoso ou João Tordo, mas que se estende por um sem número de legítimos pretendentes) mantém-se mediano, se não baixo, sem ser capaz de gerar (ou de tornar visíveis) autores de excepção.
Esta, a excepção, se nasce quase sempre da quantidade, tem muitas vezes dificuldade em se fazer notar no interior da proliferação e da quantidade.
Por sua vez, a crítica literária, nos poucos espaços institucionais onde subsiste, raramente ajuda, tendendo a colar-se a estratégias voluntaristas que não se distinguem muito do registo de promoção editorial. Vemos sucederem-se livros “belíssimos”, mas literariamente inócuos, e quando acontece alguma coisa de relevante editoras e crítica fazem-se distraídas.
Num momento de multiplicação de autores, num momento de uma permissividade cultural quase sem entraves, a edição, o mercado e a crítica (a ordem não é aleatória) promovem uma intimidatória neutralização criativa. O autor ameaça transformar-se ele próprio na personagem de um ghost-writer de cara descoberta.
25/06/2013

O gato visitador…

por cam

…chegou ontem, vindo da Nazaré. Abraço forte, Luís Meireles, obrigado, volta d’mar.

O-GATO-VISITADOR

18/06/2013

Hipopótamos em Delagoa Bay – entrevista a Novos Livros

por cam
carlosamachado com hipos1- O que representa, no contexto da sua obra o livro «Hipopótamos em Delagoa Bay»?
R- «Hipopótamos em Delagoa Bay» é antes de mais um exercício de plena liberdade. Mando às urtigas ideias feitas (por mim e pelos outros) sobre revoluções e independências, géneros literários e as eternas confusões sobre a “presença” do autobiográfico na ficção e a factualidade da História; passo criticamente em revista amores, vontades, anseios, perspectivas e desejos. Exponho-me: digo-me e contradigo-me. Por isso, aquém e além de classificações e categorizações, este é um livro livre. Quanto a “obra”, não sei.
2 – Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Em diferentes períodos da minha vida (1995 e 1998), por razões profissionais, estive umas semanas em Maputo. Nesses tempos nasceram ideias para um romance, escrevi alguns pedaços, delineei umas quantas figuras e situações. Em 2010, estive quase dois meses em Moçambique (em especial em Maputo), com uma Bolsa Criar Lusofonia (Centro Nacional de Cultura e DGLB). Desarrumei então ideias e projectos e nasceu, uns seis meses depois, este «Hipopótamos», que dificilmente terá uma síntese. Mas poderá ser assim: «Hipopótamos em Delagoa Bay» é um tratado de cobardia sem mestre. Um ajuste de contas com a traição. Um inventário de escombros. Um elucidário de sonhos. Um jogo de memórias. Um ordálio. Uma expiação. Política. Corpos. Paixão. Linguagem. No século XVIII, em Moçambique, a coroa austríaca instaura uma feitoria em Delagoa Bay – o nome inglês para a baía de Lourenço Marques, ou do Espírito Santo. Um século e meio depois, uma família alentejana, que teve nessa feitoria um antepassado, traficante de marfim, chega a Lourenço Marques, na altura em que Portugal começava a construir um país, outro país. Hermínio Quaresma, o último representante dessa família, chega até aos nossos dias atravessando a revolução portuguesa e a independência moçambicana. Uma peregrinação pessoal que atravessa tempos e lugares, os das revoluções, dos encontros e desencontros amorosos. A fazer e a desfazer estórias e a História. «Hipopótamos em Delagoa Bay» é romance de tudo isto. Sempre atravessado por uma dúvida: «houve aqui alguém que se enganou»?
3 – Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Além de muita coisa (sobretudo prosa e teatro) terminada e em descanso de “gaveta” (disco rígido do computador) por vontade própria ou por desinteresse dos editores, tenho dois textos teatrais em “banho-maria”, poemas e esboços de contos lançados para cadernos e computador. Dou umas complicadas voltas finais num romance que anda a ser escrito há meia dúzia de anos e a rever outro, mais recente; outro, ainda, a mais de metade, parece-me.
__________
Carlos Alberto Machado: Hipopótamos em Delagoa Bay. abysmo, 2013.
16/06/2013

LEITURAS EM DIA | Nuno Dempster :: Uma paisagem na web

por cam

Nuno Dempster_Uma paisagem na webLEITURAS EM DIA | Nuno Dempster :: Uma paisagem na web

& etc, 2013

 

[…]

Eu tenho da nação ideias desmembradas,

comungo do ranger de dentes

com os vizinhos,

comungo de açularem

os perros uns contra outros,

read more »

11/06/2013

Nuno Ramos de Almeida sobre o Hipopótamos

por cam

CAM_entrev_jornal-i-_-2013_06_08

01/05/2013

Ainda o Registo Civil

por cam

Registo Civil reúne os cinco livros de poemas publicados por Carlos Alberto Machado (Mundo de Aventuras, 2000; Ventilador, 2000; Mito, seguido de Palavras Gravadas na Calçada, 2001; A Realidade Inclinada, 2003; e Talismã, 2004), bem como outros tantos conjuntos de inéditos (Na Casa de Passar as Tardes, 2003-2004; Uma Pedra Sobre o Assunto, 2003-2006; O Amor. Estudos Para uma Queda, 2004; Tríptico em Negro-Azul, 2005; e Por Isso Voltarei, 2004-2006).

Registo civil. Poesia reunida 2000-2006

Registo civil. Poesia reunida 2000-2006

Ensaísta e dramaturgo, é de algum modo tardiamente que o Autor, nascido em 1954, se estreia em 2000 a publicar poesia. Viria a ser incluído na antologia Poetas Sem Qualidades (Lisboa, Averno, 2002), organizada por Manuel de Freitas, que aí refere, a propósito dos três primeiros livros, que a poesia do Autor configura uma “proposta mínima, minuciosa e não poucas vezes contundente” (p. 113). A atenção ao quotidiano, frívolo e sem saída, o seu assumido tom menor e um “humor tão corrosivo quanto desesperado” (pp. 113-114) seriam outras das características que Freitas destaca nesta poesia.

Cada um dos dez conjuntos de poemas apresentados em Registo Civil é marcado por assinalável coesão e interligação, nalguns casos reforçadas pelo agrupamento dos textos em sequências numeradas. Textos curtos, que podem até consistir em brevíssimas anotações, convivem com o verso e o poema longo. A pontuação revela-se escassa (e essa opção de escrita lembra-nos a de Ruy Belo), facto que confere maior importância ao recorte dos versos e à trama sintáctica. Estamos perante uma poesia angulosa, feita de cortes e justaposições que exigem a atenção e a marcação do leitor.

É patente a redução da escrita a uma espécie de grau zero poético, que passa pela assunção de uma linguagem menos tensa, despida de retórica, prosaica e que foge à pureza e grau de concentração que alegadamente caracterizaria toda a poesia. O Autor reconhece ser “impuro tudo o que escrevo” (p. 155) e formula a sua alternativa nos seguintes versos: “Desconheço por onde as palavras me levam / (…) / quero desfeiteá-las uma a uma arrancar-lhes / esperanças sonhadas embebê-las em venenos / sentidos da noite onde a sua matéria se inventa” (p. 80). O que designa por renovação da palavra constitui um programa que permite reconstruir o discurso poético sobre novas bases: “O próximo passo será o da decomposição / os corpos mergulhados em ácidos novos / eis como a ideia se adapta a preceito / de uma necessária renovação da palavra” (p. 81).

A poesia deveria visar a “escrever o mundo / escrevê-lo mesmo” (p. 149). Todavia, trata-se de um “nobre ofício em desuso e por isso raro / ou raro por ser de nobreza exercê-lo / ou por ser raro o mundo / de cuja nobreza / se possa escrever / ou por isso a escrita / substitui o mundo / que já não se escreve” (p. 149). Num mundo sem referências, torna-se notória a “ausência de um ponto cardeal” (p. 205). Não existindo alternativas, reduzindo-se a vida a “adiar o fim agora tão perto” (p. 46) e não havendo “mais nada para dizer” (p. 49), confessa-se que “o segredo é não existirmos” (p. 84), para se poder resistir à falta de sentido da vida.

A relação entre a escrita e o mundo ou, se quisermos, a palavra e o real, percorre estes versos. Há uma natural precedência da realidade face à escrita, não obstante o conceito de realidade se encontrar sob suspeita, desde logo perante um título como A Realidade Inclinada, mas também em versos como estes: “a mãe desmaia provavelmente / por ficar de repente sem saber / qual é o lado real / da realidade” (p. 290). A verdade é que a poesia permite inventar e criar mundo, bastando apenas um ajustamento para alinhar dois níveis aparentemente desalinhados: “Morreste primeiro no papel /uma morte tão digna como qualquer outra / estava escrito e isso é mais forte do que tudo / foi apenas uma questão de ajustar uma coisa à outra / uma cápsula de cianeto saturada de realidade” (p. 173).

Neste contexto, há também uma desvalorização da palavra e da criação poética: as palavras reduzem-se a “excrementos da alma” (p. 155), o poeta produz “lixo” (p. 153) ou cede à tentação das “palavras amestradas / p’ra oferecer no natal / ou isso ou umas peúgas.” (p. 82). Procura-se, tenteia-se uma palavra-talismã, uma palavra com “poder mágico” (p. 215), mas reconhece-se que nos recobre a “escama estéril das palavras / a mais” (p. 217). O sujeito luta “para saber a medida / desta poesia incompleta / narrativa sentimental / que somente desejaria / não precisar de palavras / substitutos ou remendos / da matéria de um corpo / em expansão noutro corpo” (p. 228).

A memória é outro pólo estruturador desta poesia. Note-se que quando se fala em memória não se fala em recuperação ou restituição. Aliás, na memória confluem factos recordados e factos imaginados, ou seja, a memória é um processo criativo. Alguns versos são, a este propósito, reveladores: “primeiro preciso que me lembre de tudo ou de quase tudo /e que me lembre desse tudo ou quase tudo ao mesmo tempo / ou pelo menos quase ao mesmo tempo ou seja umas coisas a seguir às outras / mas não muito depressa nem demasiado devagar” (p. 95). A memória e a escrita constituem um “processo de selecção e classificação” (p. 95) de lembranças que “não sossegam não param não estão quietas não se arrumam” (p. 97) e que equivalem a “inventar vidas novas” (p. 104). A memória, através da escrita, permite fechar as “falhas” (p. 107) e torna possível continuar, reinventando a cada dia o mundo, regenerando o que dele sobra da infância: “não me lembro de mais nada ou não há mais nada de que me lembrar / lembrar ou esquecer não significa apagar o passado dominá-lo / mas tornar possível não ter medo de o viver reinventando-o a todo o momento” (p. 107). É esta a lição, o “mito fundador” (p. 107) contido em Mito, o longo poema que o sujeito dirige à filha. Mas já em Livro de Aventuras, a primeira obra do Autor, assistimos também ao exercício da memória, ao “regresso a casa” (p. 9). O que se obtém nessa revisitação pode reduzir-se a “duas ou três / palavras / que falam / de uma luz / pequenina / escondida / num canto / da infância” (p. 22). A derrota é um dado, à partida. A decepção e o desânimo e o sabor amargo da vida impõem-se desde a infância: “Provei o sabor das azedas / (no campo de cebolas das competições de punhetas) / cedo demais” (p. 26); “No Inverno as chuvas queimam os rebentos / as raízes apodrecem sob os detritos e a Primavera / esconde de nós todos os anos a morte que vem” (p. 27). A abjecção e o grotesco, um universo expressionista estão patentes em numerosas passagens, nalgumas das quais nos recordamos de versos de Gotfried Benn: “Os dois ratinhos brancos / oferta do avô Domingos / decidiram passar férias / no meio de esfomeados / irmãos cinzentos felizes / por mudarem de dieta.” (p. 12)

No último conjunto, Por Isso Voltarei, há o deslocamento do espaço urbano para o território insular dos Açores. Os poemas assumem um pendor descritivo e um tom vagamente etnográfico, mas são sobretudo marcas de aprendizagem pessoal e do estabelecimento de um compromisso existencial e ético: “Um homem no alto da rocha do canto da baía / ocupa-se a inventar palavra a palavra uma ilha / tão bem inventada como qualquer outra ilha (p. 333). O “senhor manuel alves” é o principal destinatário da promessa de voltar formulada pelo sujeito e que no último poema verificamos encontrar-se cumprida: “o segredo que quero desvendar não é o da sua aguardente / por isso prometo que hei-de voltar” (p. 328); “Voltei senhor manuel alves voltei / e o senhor deu-me a honra / de dizer sim ao meu atrevimento / (…) / as minhas palavras escritas lêem-nas / os seus olhos inteiramente também / por isso voltarei sempre senhor” (p. 344). É neste tom afirmativo, de permanente recomeço, que o livro se encerra. São esboçadas as primeiras linhas de “uma teoria geral do enfado” (p. 335), mas há garantidamente maior arte na reivindicação da capacidade de inventar o mundo na desfocagem inerente a toda a poesia: “melhor assim entretanto treinarmos a outra / arte a de inventarmos os outros e a nós / com os nossos olhos míopes / oleiros do mundo” (p. 343).

José Ricardo Nunes sobre REGISTO CIVIL – poesia reunida (2000-2006), Lisboa, Assírio & Alvim, 2009. Revista Colóquio/Letras, 2010

23/04/2013

Novas Dramatugias en Português

por cam

Por estes dias chegou-me (com a ajuda simpática do Jorge Palinhos), o nº 7 da Revista Galega NÚA (Novas Dramatugias en Portugués), realizada pelos editores Jorge Palinhos, Julio Fernández e Zaida Gómez, com os autores: Maria Gil, Carlos Alberto Machado, Fernando Giestas, Ângela Carvalho Lopes, Cláudia Lucas Chéu, Luís Roberto Amabile, Isabel Fernandes Pinto, Luís Mestre, Helder Wasterlain, Diones Camargo, Hudson Andrade e Pedro Eiras.

NUAS 7Sou suspeito, é verdade, mas acho que vale a pena lê-la.

 

%d bloggers like this: