Archive for ‘Vitorino Nemésio’

07/01/2012

NEMÉSIO vs MAGALHÃES #01

por cam

Em Os Dois Crepúsculos (Lisboa, A Regra do Jogo, 1981) Joaquim Manuel Magalhães (Peso da Régua, 1945-) conta como se encontrou, admirado, com a poesia de Vitorino Nemésio (Terceira, 1901-Lisboa, 1978), a partir da leitura de Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (Lisboa, Arcádia, 1976) – e diz, coisa curiosa, que leu “às arrecuas toda a poesia de Nemésio, entusiasmado pelos catorze poemas de Andamento Holandês.” (p.18)

Joaquim Manuel Magalhães

O texto de Magalhães edita-se em livro em 1981, mas presumo que o original, publicado em jornal, terá sido escrito pouco tempo depois da morte de Nemésio, que ocorreu em 1978. Magalhães confessa que “não gostava da figura humana Vitorino Nemésio.” (p.16) “Quando um homem morre o que vamos fazer?” O autor de Uma Luz com um Toldo Vermelho demarca-se daqueles que “tratam de arranjar um pássaro necrófilo que cantelacrimeje sobre o pobre morto em nome da perpetuação.” (id.) Porém, “Há uma coisa (…) que começa a salvar-mo: nunca foi o laureado da maioria para nobel nenhum. Nunca publicitou marcas de vinho. Nunca dirigiu associações de escritores portugueses. Nunca andou a escrever cartas zangadas sobre os pobrezinhos escritores portugueses. Nunca pertenceu a nenhum movimento literário, desses que em meias-dúzias se juntam para dizer como a literatura deve ser, mais ou menos modernaça nas suas cópias da última geração que os antecedeu lá fora. Pode ter feito coisas piores, mas estas, tão feias, nunca fez, que eu saiba.

É um grande alívio ter-se uma literatura em que há um poeta que se sente diferente dos outros e sem o fazer por rabujice fechada em aldeias, ou por atavismo provinciano de reaça moral. Um poeta que é regional por cosmopolitismo (e não por neo-realice), católico por formalismo (e não por beatice), erudito por modernidade (e não por alfarrabice). É deste poeta que eu sinto a falta de não ir escrever mais poemas, por muito que pertença o homem que o trazia consigo a um desejo de vida que me incomoda a mim.” (p.17)

Vitorino Nemésio

“Não deixem que este poeta se vá embora. Não se preocupem com a fúnebre comemoração. Leiam-no. Assim ajudam a «matar a morte».” (p.19).

Este texto foi publicado em livro há 30 anos, não sei se repararam bem.

 [continua]
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31/12/2011

12 LIVROS

por cam

Desde Outubro de 2007 anoto os livros que leio. Este ano, registei 60, de diferentes dimensões e tempos de leitura – e de diferentes anos de edição (alguns deles em releitura). Deixo aqui a lista das 12 preferências, por ordem alfabética do nome do autor/organizador:

» António Cabrita e João Paulo Cotrim, O Branco das Sombras Chinesas, Abysmo (2011)

» Armando Silva Carvalho, Anthero, a Areia e a Água, Assírio & Alvim (2010)

» Ascêncio de Freitas, A Paz Adormecida, Caminho (2003)

» Ernst Gellner, Linguagem e Solidão. Uma interpretação do Pensamento de Wittgenstein e Malinowski, Edições 70 (2001)

» Fernando Rosas e Maria Fernanda Rolo, (orgs.), História da Primeira República, Tinta da China (2010)

» José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política, Temas e Debates (3 vols: 1999, 2001 e 2005)

» Manuel de Freitas, A Perspectiva da Morte. 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, Assírio & Alvim (2009)

» Miguel Morgado, Autoridade, Fundação Francisco Manuel dos Santos (2010)

» Natália Correia (org.), Antologia de Poesia Erótica e Satírica, frenesi/Antígona (1999, 1ª ed: 1965)

» Rui Ramos (coord.), Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal, A Esfera dos Livros (2010, 4ª ed.)

» Thomas Pynchon, Vício Intrínseco, Dom Quixote (2010)

» Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, IN-CM (1998)

"Respiro", ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011

19/09/2011

BOAS SURPRESAS

por cam

Foi uma agradável surpresa ver ontem no CCB a sala esgotada (mais de 150 pessoas), para o Dia Vitorino Nemésio, em que tive o prazer de participar como “leitor”. Aproveito para agradecer publicamente ao A. Mega Ferreira, ao J.P. Cotrim e dar um abraço aos meus companheiros de mesa, além do Mega: António Machado Pires, Fátima de Freitas Morna, Luiz Fagundes Duarte e ao actor (excelente) Pedro Lamares.

18/09/2011

FALHA

por cam

«Entro no Convento como se tocasse a Completas. E, realmente, nada me falta – senão o que sempre me faltou!…»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 113.

17/09/2011

VIGIAR, VELAR

por cam

«Os naturais da costa sudoeste da Terceira, os da Graciosa, os das duas vertentes da Serra única e longitudinal de São Jorge, o picaroto do Norte e o de Oeste, o faialense, acostumam-se de meninos ao palpite e à sondagem do horizonte: são naturalmente vigias ou velas. A atitude radical do ilhéu é chegar à porta de casa e interrogar o mar. A relativa frequência do nome “fanal” na toponímia açoriana não só atesta a necessidade de sinalização nocturna, como a rede de atalaias que se forma naturalmente em torno de cada ilha e que, de umas às outras, se tece de postos fixos ou acidentais de espera e de observação. O nome da vila de Velas, que coube à cabeça do povoamento de São Jorge, põe na ilha alpestre essa espécie de divisa do destino islenho – que é vigiar, velar»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 61.

16/09/2011

COM OS OLHOS TIRAMOS DO MAR A TERRA QUE NOS FALTOU

por cam

«Mas contra o que se poderia tirar da área apertada que nos coube no berço, quanto à nossa equação com o Mundo e à nossa maneira de respirar, a verdade é que ninguém mais do que o ilhéu, a não ser talvez o homem da planície, possui o instinto da amplidão. É com os nossos próprios olhos que tiramos do mar a terra que nos faltou. Ilhéus do que, de São Miguel para Oeste, chamamos as Ilhas de Baixo, o dispositivo em que se encontram as ilhas do grupo central favorece essa impressão de mobilidade, de terras sonhadas, que as ilhas dão umas às outras. O clima, húmido e baço, torna-se cúmplice da ilusão.»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 61.

15/09/2011

NEMÉSIO, CCB

por cam

14/09/2011

ESSA COVA EM QUE ESTÁS…

por cam

«Pode-se morrer descansado numa ilha. A cova nem por isso é mais curta

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 74.

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13/09/2011

FAVAS

por cam

«Que rico dia para semear seja o que for: fava ou recordações! Para a fava começa a ser tarde (…). Mas para recordações é sempre tempo. É só meter a mão no saco e tirar. Quanto mais do fundo, melhor!»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 135.

13/09/2011

RECORDAR PARA QUÊ?

por cam

«Recordar para quê? É bonito, por exemplo, saber-se que o “recordar” significa algo como “fazer passar segunda vez pelo coração alguém ou alguma coisa.”; que “recordar” não anda longe de “acordar” e de “concordar” (…) Pois que Deus (…) conserve o juízo aos humanos até à hora da morte. E, que, entretanto, por caridade, os deixe recordar um pouco, fazer um bocado de etimologia íntima, corografar o coração cansado e compadecido.»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 118.

12/09/2011

CAÇA-PALAVRAS

por cam

«Todos os meus caçaram bichos de pena e pêlo: – só eu caço palavras sem sentido… além de apontar em vão à praga de saudades sem remédio. E até perdi a licença…»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 155.

12/09/2011

VIGIAR, VELAR

por cam

«Mas contra o que se poderia tirar da área apertada que nos coube no berço, quanto à nossa equação com o Mundo e à nossa maneira de respirar, a verdade é que ninguém mais do que o ilhéu, a não ser talvez o homem da planície, possui o instinto da amplidão. É com os nossos próprios olhos que tiramos do mar a terra que nos faltou. Ilhéus do que, de São Miguel para Oeste, chamamos as Ilhas de Baixo, o dispositivo em que se encontram as ilhas do grupo central favorece essa impressão de mobilidade, de terras sonhadas, que as ilhas dão umas às outras. O clima, húmido e baço, torna-se cúmplice da ilusão.

Os naturais da costa sudoeste da Terceira, os da Graciosa, os das duas vertentes da Serra única e longitudinal de São Jorge, o picaroto do Norte e o de Oeste, o faialense, acostumam-se de meninos ao palpite e à sondagem do horizonte: são naturalmente vigias ou velas. A atitude radical do ilhéu é chegar à porta de casa e interrogar o mar. A relativa frequência do nome “fanal” na toponímia açoriana não só atesta a necessidade de sinalização nocturna, como a rede de atalaias que se forma naturalmente em torno de cada ilha e que, de umas às outras, se tece de postos fixos ou acidentais de espera e de observação. O nome da vila de Velas, que coube à cabeça do povoamento de São Jorge, põe na ilha alpestre essa espécie de divisa do destino islenho – que é vigiar, velar»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 61.

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11/09/2011

LEMBRAR

por cam

«Lembrar o mar e as coisas velhas! Como se não fosse essa a nossa operação familiar! Como se um homem não nascesse para ter saudade daquilo que foi e onde o foi, com peripécias que já se reconstituem mal, caras queridas que o tempo e a morte apagaram, mas cujas vozes vêm levantar-se no coração como a camada de folhas que um vento de Outono arrepia e logo deixa aquietar.»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 118.

07/09/2011

PREPARATIVOS DE VIAGEM

por cam

«(…) logo que me ponho em andamento (…) apetece-me fazer transunto do que vejo e em que cavilo. O ponto é ter à mão um canhenho para isso. E, como grafómono, é raro descuidar-me de fazer provisão desse apetrecho. Estou mesmo em dizer que o ter de escolher papel apropriado, encher a caneta à partida, munir-me talvez de uma esferográfica, bem como mobilizar a máquina de escrever e o papel químico para as outras tarefas do pequeno escritório em trânsito, me é tanto ou mais agradável que o cumprimento posterior de todos os gestos da escrita.»

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 171.

29/08/2011

NEMÉSIO, CCB

por cam

DIA VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)

ÚLTIMA LIÇÃO


18 Set 2011 – 15:00

SALA ALMADA NEGREIROS

ENTRADA LIVRE

Entre 1969 e 1975, a RTP apresentou um programa semanal, que em 1974 passou a quinzenal, com o título Se bem me lembro. Durante cerca de meia hora, em horário nobre, os portugueses deixavam, encantados, o Professor. Vitorino Nemésio abrir-lhes as fronteiras da Cultura e do Conhecimento.Sabiam que era açoriano, professor universitário e escritor, e alguns talvez soubessem que tinha escrito o romance Mau Tempo no Canal. Pouco mais. Vitorino Nemésio tinha o mundo dentro de si e era de todo o mundo. Mas, isolado de qualquer grupo, o mundo não o chegou a conhecer.Vinte anos depois da sua morte, o documentário Vitorino Nemésio – VIAGEM aborda a personalidade única que foi  Vitorino Nemésio, dentro da cultura portuguesa: escritor, professor, ensaísta, jornalista, comunicador. Mas, acima de tudo, poeta. E Homem.
PROGRAMA
Participação de:
Fátima de Freitas Morna
Luiz Fagundes Duarte
Carlos Alberto Machado
António Machado Pires
António Mega Ferreira

16h30 | Pedro Lamares lê “Última Lição” (9 de dezembro 1971)

17h15 | Intervalo

17h30 | “Vitorino Nemésio – Viagem” (1999)
Documentário de Maria João Rocha (50 minutos)

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