Archive for ‘CRÓNICAS’

10/04/2014

Coração quase branco

por cam

É no que dá um iogurte estragado: náusea repentina, vómitos disfarçados de arrotos, cólicas intestinais. Sanita comigo. E logo logo para a cama – a prevenir achaques maiores com a ajuda de uma infusão de macela e cidreira.
Aproveito a frouxidão inesperada do corpo e o repouso de meio da tarde para ler. Entre compras e ofertas recentes, decido-me pelo “Coração Quase Branco”, do António Cabrita – livro da 50 Kg (como habitualmente composta em caracteres móveis e com impressão a condizer), que o seu editor, o poeta Rui Azevedo Ribeiro, me tinha dado em Coimbra, no Mal Dito, meia dúzia de dias antes.
Cabrita Coração quase branco

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08/03/2013

O território da memória

por cam

As palavras de R. Lino em “Paisagens de Além Tejo” (1) podem ser lidas como uma «visão do mundo colhida do interior do ser», uma «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)» (2).

R Lino_paisagens de alem tejo Se o termo não tivesse colado a si tantas interpretações equívocas, diria que se trata de uma etnografia, porque esta é uma poesia que se coloca deliberadamente no terreno, permitindo que ele a questione, mas, ao mesmo tempo, questionando-se: uma etnografia intensa em que os resultados são filtrados pelo ser da poeta (o «interior do ser»), que está na paisagem em dois tempos diferentes: o de «[…] um tecto, uma cadeira, um corpo / que se imprevista, uma estrada mais vereda…» (poema “1” de “um círculo”), ou o da memória que indaga, revela e transfigura as “paisagens”, a sua «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)»: «[…] há paisagens que prevalecem: / umas sobre as outras / na voz vária que as apresenta» (poema “14” de “outro círculo”). No poema, dá-se a união da matéria da terra (a paisagem, em sentido amplo) com a matéria do dizer, em mútua interrogação e contaminação (a memória não é a única “máquina” transformadora da paisagem). E também embate: como se o poema resistisse ao poema, isto é, ao processo de metamorfose de uma paisagem em outra paisagem – «Tenho de construir hoje esta planície.» (poema “7” de “um círculo”) –, em que a mínima perda é um passo perdido ou ferida insanável. «Percebo agora essa febre: / pouco mais me segura. / O sacrifício às palavras / é um exercício voraz / em que portos se procuram. / Escreve-se; escreve-se a tinta / sobre um tempo que dirá… / É um exercício voraz / tornado próprio em seu destino.» (poema “3” de “um círculo”). «De que texto somos as variantes?» (poema “4”, ibid.)
 A poesia de R. Lino neste tão singular livro é intensa; dizendo de outra maneira: concentra poderosamente a força e a violência que advêm da “geografia” e do esgaçar da memória, numa serena e delicada mutação em palavras – implodem e espalham a sua força pelo interior, sem o estrondear do definitivo (mortal).
Com cada livro de poemas, aprende-se de novo a respirar (como a um corpo amante): e é o prazer de dizer o poema como nosso, deixar de existir entre a sua respiração e a nossa qualquer diferença – ler assim, por exemplo: «Também gosto de saber / incontáveis pormenores: reproduzir o silêncio / com toda a gente lá dentro. / […] Às vezes enjoam-me um pouco / os gestos enumerados, os sítios das horas passadas / numa intempestiva ocupação dos corpos.» (poema “11”, ibid.)

Notas

(1) O livro é de 1986, das edições Rolim, col. Ilhas, com ilustrações de Graça Pereira Coutinho.

(2) O poeta Jorge Fazenda Lourenço escreveu sobre “Paisagens de Além Tejo”, de R. Lino, no Cartaz do Expresso (21 de Fevereiro de 1987): são dele as expressões «visão do mundo colhida do interior do ser» e «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)».

Declaração de interesse: publiquei na colecção “azulcobalto” que dirijo na Companhia das Ilhas, um livro de R. Lino, “Baixo-Relevo, em Fevereiro deste ano.

14/12/2012

Os trabalhos e os dias

por cam

1. Há cerca de um mês, mas hoje em especial, tenho-me debatido com a burocracia da Segurança Social – trata-se de minha mãe, quase com 80 anos. No meio do desespero, da teia burocrática e da malha de burocratas (que apenas o são por prazer masoquista), uma voz ao telefone (que pena não estar próximo para lhe dar um sorriso e, se possível, um abraço de afecto), que se esteve nas tintas para as regras e, sem estar contaminada pelo vírus masoquista, procurou resolver uma situação – que, no fundo até era simples.

2. O suplemento Ípsilon, do jornal Público, descobre todas as semanas um génio português do romance. Quando por aí o orgasmo não tem possibilidade de acontecer, procura o “jornalista cultural” prazer idêntico no louvaminhar de um sujeito qualquer, pago a peso de ouro (ele o “jornalista”/jornal) por qualquer “major” da edição.

 3. Leio, absorvidamente, e com o peso da emoção a pôr à prova a resistência do meu “fabile” coração (emocional e intelectual), uma das mais geniais e ignoradas autoras de escrita em Portugal: Eduarda Dionísio que herdou do pai, Mário Dionísio, a excelência intelectual e a recusa pelas lusas luzes do show business (cada um à medida do seu tempo, obviamente).
 
4. Existem em Portugal um patrões da poesia, armados de ferrão sempre pronto a aniquilar os outros. Herdaram (biologicamente) antigas práticas terratenentes, mas refinaram. Queimaram a terra à sua volta e agora reinam sozinhos. Bom, não é bem verdade, ainda subsistem uns quantos caquécticos a quem estes, mais novos, fingem prestar vassalagem; e uns outros, muito poucos, eles mesmos terratenentes, de outro tempo e de outra matriz, que resistem – mas com fim inexorável à vista. Os actuais poderosos, por qualquer razão certamente atribuível à demência congénita, continuam de atalaia e disparam cegamente sobre quem, na sua percepção distorcida, pareça colocar em perigo o seu reino. Para quê?: não se entende! Editam livros, são críticos em jornais poderosos, criam revistas, bares e livrarias. Quem quiser entrar na luta e, como eles, vingar, é só seguir a cartilha – há mais de dois séculos que tem resultados garantidos (mas fica sempre alguém de fora, ainda bem).
02/11/2012

COMO CALAR? COMO DIZER?

por cam

Nos idos de 1987 R. Lino foi antologiada na Sião – organizada por Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, e editada pela frenesi – quatro poemas entre as páginas 178 e 180. A encabeçar os poemas, uma breve nota onde se informa os leitores que a poeta nasceu em Évora, em 1952, e tinha até então publicado três livros de poemas. Há dias, um amigo enviou-me : Predação : Urânia, nós e as musas, edição da autora, 2012. Pouco mais se diz dela na nota biográfica: um livro acrescentado aos outros, participações em revistas e antologias e uma meia dúzia de conjuntos de poemas por publicar. E que vive em Lisboa. Muitos dos antologiados em Sião não chegaram a ter poemas em livro, uns “desapareceram” de circulação” (mortos ou vivos) outros andam arredados das editoras mainstream de poesia (que las hay) e até das de “margem”. Na escrita portuguesa (poesia, ficção, ensaio & etc.) cavam-se permanentemente fossos entre os “velhos” e os “novos”, ao mesmo tempo que se montam panegíricos dos novos heróis, os novos génios que rapidamente são substituídos por outros. É uma espécie de “besteselerização” “pronta-a-deitar-fora”. Os mortos ou ignorados (ou ambas as coisas) amontoam-se em camadas de esquecimento. Na praça pública, o povo, unido, grita por cultura, que a não há e devia haver. Pois.

Venho dizendo por aqui que crítico é que não sou, embora lá vá descabelando palavras sobre os outros de quem gosto – espero que me perdoem, ou melhor, como não sou cristão, que esqueçam o que escrevo.

Em : Predação : “cruzam-se vozes dramáticas” – é a poeta que o diz nas “breves palavras” no final do livro. É verdade: no dialogismo (“jogos de réplicas”), no esboçar de figuras teatrais, nos “movimentos de esbatidas ou sobrepostas alteridades”, também na introdução de um coro. E há igualmente uma determinada performatividade, no sentido em que as palavras não estão lá “em vez de”, pelo contrário, o seu “sentido” constrói-se nas acções que elas mesmas implicam, no “actuar” mais do que no “representar”. Não é somente assim, claro, mas muito do que está escrito parece-me assim.

Cada poeta desenha um mundo próprio, com arcos, túneis, horizontes e hipóteses de luz para que dele nos abeiremos, não digo entrar, mas permanecer o maior tempo possível no instável espaço liminar que nos faz simultaneamente ser e não ser (ele, nós, o poema). Também poderia dizer: cada poeta se curva sobre si mesmo na igual medida em que desafia o outro supostamente dialogante. Ou ainda: que o poeta é a modulação do outro em si e o arco reflexo que vai de si para o outro. Como seja. A verdade é que é apenas com palavras que conseguimos aproximar-nos (predadores?) do outro, que é feito de palavras, o poeta – como se ele as pudesse escrever em nós, para nós. Podemos ficar aqui, nesta ilusão?

A poesia de R. Lino é de uma intensidade pouco habitual entre nós: provoca a queda, a perda, a falha. Por isso, não será de espantar que termine exactamente assim: “olhemos, agora, à nossa volta / e perguntemos:”

Aceito o desafio.

03/02/2012

“ENGENHEIROS DE ALMAS”

por cam

Terminei há dias a leitura de Os Engenheiros de Almas – O Partido Comunista e os Intelectuais (Editorial Estampa, 1996)*, do historiador João Madeira. Tinha feito uma primeira leitura, incompleta, quando, em 1997, estava a escrever a minha tese de mestrado (sobre o Teatro da Cornucópia e a crítica, editora frenesi, 1999). A investigação de J. Madeira cobre fundamentalmente o período 1930-1960, baseada em fontes judiciais, depoimentos escritos e imprensa clandestina. O autor não se coíbe de juntar à configuração histórica uma interpretação de natureza sociológica. Embora este desiderato não seja explícito, ele é inevitável, parece-me. Creio que deverá fazer par este trabalho com a biografia política de Cunhal, os três volumes de José Pacheco Pereira (editora Temas e Debates, 1999, 2001 e 2005), para quem deseje abordar este período da nossa história e de um dos seus protagonistas de fundo, o PCP.

Destaques, para mim: a impressão que fica de que o PCP e a PVDE/PIDE viveram em interdependência, o primeiro, no complexo processo da clandestinidade, a segunda, no não menos complexo trabalho de lhe dar luta, por vezes ao ponto de assimilar ou mimetizar alguns dos seus processos. Por outro lado, em muitos momentos da sua história, o PCP parece viver a sobrevalorizar os mecanismos (lúdicos) da fuga. É evidente que isto não será a visão mais “correcta”, sobretudo porque no caso dos comunistas teve consequência trágicas, incluindo a prisão prolongada e a morte de muitos dos homens e mulheres que se entregaram com espírito de missão à luta contra aquilo que consideravam não dever existir em Portugal e num mundo dividido entre exploradores e explorados. Todavia, a própria luta interna no PCP, bem documentada em ambas as obras, mostra também que o fechamento ideológico e organizacional, impediu outras saídas políticas e, por isso, foi motivo de longas e dolorosas querelas com outros antifascistas, visíveis em especial nos processos de constituição e acção de movimentos “unitários” e nos processos eleitorais, em particular no do general Humberto Delgado.

Álvaro Cunhal é a figura omnipotente e omnipresente em tudo isto. Genial e implacável talvez possam ser epítetos em relevo, quer na sua vida pessoal, quer partidária e ideológica. As mais de duas mil páginas que até ao momento Pacheco Pereira lhe dedicou escalpelizam o seu percurso, de forma quase obsessiva, e, em vários sentidos, “presentificam-no”.

O que é impressionante nesta parte da lusa história, é que todas as teses de Cunhal/PCP nunca se concretizaram, em especial a mais importante delas, a da “revolução democrática nacional”, que substituiu a tese do “levantamento popular”, que por sua vez substituiu a da “sublevação popular armada”… O 25 de Abril foi para o PCP, mas apenas para ele, a concretização desse objectivo. Mas só para o PCP, pois, em boa verdade, o 25 de Abril foi mais um golpe (bem sucedido) militar, na boa linha putschista que já vem da revolução liberal de oitocentos e que depois teve dois momentos maiores, o 5 de Outubro de 1910 e o 28 de Maio de 1926. Esse lado “interruptor” foi de consequências bem negativas e de que talvez não tenhamos ainda plena consciência. E nunca nos livrámos disso. Hoje, com outros protagonistas, continua a fazer “estragos”. Seria bom que “trocássemos umas ideias sobre o assunto”…

*= A expressão “engenheiros de almas” foi cunhada por Stalin para se referir à função social dos escritores.

27/01/2012

ATÉ À VITÓRIA FINAL!

por cam

Em 1999, José Pacheco Pereira iniciou a publicação de uma biografia política de Álvaro Cunhal. Continuou, em 2001 e em 2005. Os três volumes totalizam 2.117 páginas. Cronologicamente, o volume terceiro terminou no ano de 1960, e Pacheco Pereira já anunciou que este ano publicará o quarto e último volume, dedicado, depreende-se, ao período que decorre desde a saída da prisão até ao final da vida do dirigente comunista, que ocorreu em 13 de Junho de 2005.

Só nestas últimas semanas me dediquei a ler a obra. Já outros o disseram: o trabalho de Pacheco Pereira é monumental, rigoroso, minucioso, sério, etc., etc. Toma como centro vital o militante e dirigente comunista Álvaro Cunhal, nas suas diferentes facetas, mas é sobretudo uma história do PCP e da oposição política ao regime de Salazar (o que está publicado, o que vier, será, naturalmente, da oposição ao regime liderado por Caetano). Não apenas a história do PCP mas de todos – indivíduos e grupos – os que tiveram presença e voz na maior parte da nossa vida no século XX. Um panorama impressivo e impressionante deste tempo. Isto que digo não é novidade, mas creio que nunca será demais repeti-lo.

A biografia política de Álvaro Cunhal feita por Pacheco Pereira tem tido a companhia de inúmeras investigações históricas (e não só) que revisitam o nosso passado desde, principalmente, a revolução liberal de oitocentos até aos nossos dias, a par de outras que abrangem outros períodos, mesmo de maior amplitude, como são as várias histórias de Portugal recentemente publicadas ou em vias disso. Significa isto que temos cada vez menos desculpas para continuarmos levianamente acomodados sobre ideias feitas acerca de nós – Portugueses coisa e tal, a maioria das vezes vilipendiados. São pontos de vista historiograficamente distintos, por diversas razões, mas une-os a necessidade de olhar para nós como povo, nação, o que quer que seja, sem pontos de partida condicionados ou, sendo-o, mostrados às claras. Com a frontalidade de estudar a vida e obra de um Salazar ou de um Cunhal por pessoas que declaradamente não estão do lado da simpatia, ou se estão nas tintas para isso.

Hoje, ler e estudar de novo a nossa história sem ideias preconcebidas é, creio, um exercício fundamental de cidadania.

Mas eu queria era falar do livro do Pacheco Pereira. Há nele muitas, muitas coisas sobre que reflectir, mas, por agora, limito-me a uma delas: na vida do PCP, e dos seus principais dirigentes, foi predominante, a par de um genuíno espírito de missão em defesa dos mais desprotegidos socialmente, um desfasamento essencial com a realidade e, por coerência, sucessivos e repentinos volte-faces, uma estratégia para fazer das derrotas vitórias, das inimizades amizades, etc. Quando não era a realidade que se enganava, dizia-se que afinal “nós já o tínhamos dito, feito”, etc. Num período mais próximo de nós, Álvaro Cunhal transformou um golpe militar bem sucedido numa “revolução democrática e nacional”. E o pior é que isto não se pode colocar sob o chapéu do tacticismo, não, tem raízes profundas, é uma maneira de ser, um estado de espírito, conceitos ideológicos arreigados até ao apodrecimento. E o livro de Pacheco Pereira tem, entre muitos outros méritos, o de nos fornecer farto material de reflexão sobre isto.   

13/01/2012

PÓS-DEMOCRACIA

por cam

Na imprensa generalista, António Guerreiro (AG), no jornal Expresso (suplemento Atual), é uma das vozes mais persistentes na actualização de um pensamento sobre o mundo em que vivemos, quer na reflexão sobre a literatura, quer no âmbito de largo espectro do pensamento filosófico. Recentemente, abordou a actual crise europeia com o conceito de pós-democracia (O Rapto da Europa (versão em 3D), edição de 19 de Novembro de 2011, pp.34-36).

Falar de pós-democracia, ou estado pós-democrático na Europa, não é o mesmo que défice democrático. A ideia, outra, “significa a entrada num outro modelo que ainda não sabemos designar senão como inflexão, historicamente determinada, da democracia.” AG aborda esta ideia com o concurso de dois livros recentemente publicados: de Jürgen Habermas, Zur Verfassung Europas, e de Hans Magnus Enzensberger, Le doux monstre de Bruxelles ou l’Europe sous tutelle, na versão francesa. Habermas, segundo AG, “reflecte sobre uma constituição europeia que possa consagrar uma forma particular de «democracia transnacional» sem sacrificar a autonomia democrática dos povos e nações europeias.” Há em Habermas uma “denúncia” de “um caminho pós-democrático” “seguido por Angela Merkel e Nicolas Sarkozi.”

Por seu lado, Enzensberger ataca com “fúria crítica e muita verve cómica a obstinação de Bruxelas (…) em elaborar regulamentos e directivas, em controlar tudo e «colocar tudo sob tutela», impondo um sem número de regras que determinam a vida quotidiana dos cidadãos europeus.” Enzensberger denuncia a elite, supostamente esclarecida, que nos diz o que é certo ou errado, nos diz o que é melhor para todos nós. «A simples ideia de um referendo desencadeia imediatamente o pânico na eurocracia.» «A tríade Parlamento-Conselho-Comissão produz um buraco negro onde desaparece o que nós entendíamos por democracia.». A U.E., deste ponto de vista, representa uma tentativa de extermínio da “velha invenção europeia que é a democracia.” Aquilo que a Europa está actualmente a promover (“modelo técnico de governamentabilidade”) “abole a política e a ideia de representação e mediação em que esta se baseia.” A Europa, assim, “está a passar por derivas que significam pura e simplesmente a morte do modelo democrático ocidental.” A referência pode deixar de ser a cidade (a polis), mas sim a empresa – a pós-democracia.

Entretidos a discutir a baixa política no atropelo do quotidiano, despimo-nos da nossa capacidade de pensar, categorizada já como luxo ou coisa supérflua. Resta saber se isso acontece por ser uma consequência inevitável da abolição simbólica da Cidade ou se, por razões complexas, foi essa desistência que facilitou o caminho à invasão dos “bárbaros” de fato cinzento.

23/12/2011

QUE O NATAL VOS SEJA DOCE…

por cam

Leio O Branco das Sombras Chinesas, de João Paulo Cotrim e do António Cabrita, das novíssimas edições Abysmo (Setembro de 2011). Foi o livro inicialmente um “folhetim a meelas (…) servido em outro diário, este nosso Diário de Notícias, à razão de duas doses semanais, durante o Verão quente de 2001 (de 2 de Julho a 28 de Agosto), faz agora uma década de misérias (…)”. Agora, esta edição, toda impressa em azul forte, tem 78 páginas – incluindo as 16 das ilustrações de João Fazenda – as folhas em dobra simples e cozidas como se fosse um único “caderno” e sem aparas no sobrante da dobra.

Cotrim e Cabrita agarram pelas ventas o boi da língua, e talvez o inverso, e fazem com a literatura umas belas tripas à moda… deles. Mas também não deixa de ser verdade, porque os leitores precisam de “bengalas”, que tem sim senhor uma estória: o protagonista – de início não tem nome, mas páginas andadas será nomeado por João David – que “detestava coincidências, simetrias, concordâncias”, desagrada-lhe ter de ir visitar o pai da sua “cara-metade”, a bela Mariana, coisa que agora ainda lhe custa mais depois que “Verónica, um belíssimo transexual, assentara arraiais no quarto 33 da pensão” (pensão que viremos a saber chamar-se Bizâncio, pertence a David e tem como empregado o impávido Negruras, angolano). Ficamos também a saber que o nosso herói a páginas tantas da sua história pessoal perdeu a consciência, coisa que não seria rara nele, já que a sacrifica com o “método de uísques sobre uísques”, e que então teria acordado no Hospital de Cascais “com um enorme remendo no lado esquerdo da cabeça”: uma orelha que se foi, não sabe, ou não se lembra, ele como. Ainda neste vertiginoso Capítulo 1, David entra no Pavilhão Chinês e atira uma pergunta espantada: “ – O senhor explica-me como é que tem ali a minha orelha?” Depois, Cotrim e Cabrita cavalgam capítulo sobre capítulo a estalo de língua: sucedem-se “episódios” rocambolescos onde não faltam citações literárias, filosóficas e existenciais, sempre a jogar em simultâneo nos cortes de uma espada de afiado duplo fio. E safam-se. Vamos com eles nos jogos de linguagem, no permanente non sense, na transgressão linguística, no arrepio de lógicas e de valores. Vale tudo: sacar orelhas, traficar em arte, corromper vereadores de câmara, matar papagaios, entrar em jogos cabalísticos, ouvir lengalengas de cegos, mortes provocadas por foices e martelos, Estaline e Lenine. Não digo mais – apenas que o nosso David sempre terá de se haver com “coincidências, simetrias, concordâncias”…

Que o Natal vos seja doce, caríssimos irmãos.

16/12/2011

BRUMADO

por cam

Aqui na ilha, aos dissabores normais de uma vida normal, adiciona-se, com uma frequência significativa, o peso das nuvens – um peso que será antes de mais do domínio das sensações e dos sentimentos, embora ele provenha, diz-se, de fenómenos atmosféricos concretos, não sei, nem sempre consigo interiorizar a materialidade das coisas. Também não me apetece fazer diagnóstico, análise, nada disso. Constato, tanto quanto é possível alguém se inteirar da pureza de uma coisa, que esse peso, digamos para simplificar, simbólico, tem muitas vezes uma influência directa nos nossos humores – isto parece coisa do romantismo, o que se há-de fazer?

Nesses dias, como o de hoje,  “ponho-me a pensar na vida” – que é uma frase que não tem qualquer sentido. Por isso nos serve para pensar, nos ajuda a pensar. Hoje deu-me para reflectir um pouco sobre o que é isto de escrever num espaço público (jornais, blogues). Não fui muito longe nem muito fundo – porque não és capaz, dirão alguns malévolos bem humorados, alguns deles incapazes de deitar uma ideia a seguir a outra sem vilipendiar os outros, nem perceber muito para além do seu nariz e do seu umbigo. Vou-me espraiando…

Abro um parêntese: alguém dos CTT conseguiu cometer a proeza de colocar na nossa caixa de correio um livro grande, de capa dura, e fê-lo de forma de tal modo habilidosa que ele entrar, entrou, mas sair não queria, aliás, não o deixava a predisposição metálica da caixa, que teimou em não se moldar à minha vontade para o livro sair sem mossas nos bordos. Mas foi o que lhe sucedeu. Ainda pensei em recorrer a um bruxo, mas chovia, e antes tê-lo amachucado do que inchado pela chuva que haveria de entrar na dita caixa no entretanto da espera. Fim da interrupção.

Reflecti, meditei e fiquei-me, para já, por isto: os limites éticos desta escrita. Para simplificar: até onde posso ir eu (ou qualquer outro cronista ou bloguista), de modo a não deixar de emitir, à minha maneira, os meus pontos de vista, mas sem entrar no campo da ofensa (em sentido lato). Todos nós conhecemos pessoas que se esquecem do que é um espaço público. E, então, é fartar vilanagem. Já nem falo dos problemas de ofensa aos outros pelo desconhecimento das mais elementares regras de escrita (sob todos os pontos de vista). Mas, no fundamental, daqueles homens e mulheres que, tantas vezes sob anonimato, vilipendiam, insultam, denigrem quem querem e lhes apetece. Pensei em mim, com a minha forma assertiva e frontal: terei caído nestes pecadilhos, embora involuntariamente?

O dia está brumoso. Pois está.

09/12/2011

REFLEXOS CONDICIONADOS

por cam

Na noite de 29 de Novembro deste ano, Norberto Rosa, Vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD) foi sequestrado em carjacking, na zona da Pontinha, Lisboa, durante o tempo necessário para ser obrigado a fazer dois levantamentos em caixas multibanco. Rosa, ex-Secretário de Estado do Orçamento de Manuela Ferreira Leite, foi depois abandonado noutra localidade. Isto foi o essencial das notícias que circularam na generalidade dos órgãos de comunicação social. Não disseram, que eu tenha conhecimento, que o alto funcionário da CGD é natural da ilha do Pico, mais concretamente da localidade da Silveira, concelho das Lajes do Pico.

Hoje de manhã (dia 30), num dos locais onde se difundem com muita rapidez todo o tipo de boatos, a “notícia” era a seguinte: “o banqueiro Norberto Rosa da Silveira foi preso e a Manuela Ferreira Leite também!” Ninguém quis saber da verdade, ou pelo menos qual tinha sido a origem da informação. Nada. Passou a ser verdade. Durante quanto tempo não saberemos.

Este episódio, infelizmente muito frequente entre nós, revela várias coisas. Detenho-me numa só delas. E que tem a ver com os níveis de literacia dos portugueses em geral. Uma grande parte de nós não lê. Pior do que isso: quando lê, não sabe ler. Digamos assim: o sentido de um texto, ou a parte de informação que nele existe, não é decifrado na sua totalidade pelo leitor – na melhor das hipóteses fica-se por uma parte pouco significativa. Quando digo texto, digo também comunicação verbal, sobretudo aquela que provém de televisão ou rádio. Esta incapacidade poderia ter apenas como consequência ficar o leitor simplesmente desprovido da maior parte do prazer e do ganho cognitivo da leitura. Mas não. Creio que é mais grave (é aqui que a gente deixa entrar na história os cães de Pavlov). Algumas pessoas, quando ouvem falar de “banqueiros”, “bancos”, “político”, “rico”, começam a salivar e “pensam” imediatamente em “comer”, isto é, na alimentação que se traduz em “vingança”. E, então, os seus reflexos condicionados criam o alimento “prisão”, “corrupção”, “roubo”, “desvio” – etc. Vingança. Julgando estar alimentados – não passa de uma ilusão, daí a minutos começam de novo a sentir fome e é preciso que soem novas “campainhas” –, saem rua fora a contaminar os seus iguais. Se alguém os contraria rosnam ferozmente e se o recalcitrante insiste na dúvida, são mesmo capazes de passar da ameaça à mordidela. Entretanto, a realidade passa por eles sem que lhes cheire a alimento – verdadeiro.

É favor não salivar.

02/12/2011

OU TALVEZ UM CHAPÉU NOVO…

por cam

Na semana que antecedeu a última greve geral convocada pelas duas centrais sindicais, durante o dia e no rescaldo da dita, derramaram-se razões pela imprensa e pela Internet. Razões, eficácia, contexto e incidentes (previstos e acontecidos). Etc. Cada qual defendeu a sua fazenda, engenho, sanzala, machamba, quibbutz, kolkoze, a sua quinta ou quintal – mas aqueles que não têm nada disto, ficaram em casa. Muitos destes, é bom lembrar, para o ano continuarão a ficar em casa (se ainda houver), sem sequer ver televisão, porque vinte ou trinta euros para aceder à nova TDT fazem muita falta, ou nem existem nos seus bolsos. E serão, infelizmente, cada vez mais.

Sob o chapéu da greve geral, esteve o ritual, por exemplo. Um ritual de negação da ordem existente, prenunciador, se não despoletador, de uma ultrapassagem da brecha social que a crise financeira & tal agravou. Ou talvez não. Talvez falte a este ritual a sanção comunitária (antropológica, não a da UE…), condição sem a qual o ritual não passa de uma imitação formal, vazia de sentido. Talvez não saibamos. É um assunto que antropólogos e sociólogos fariam bem em trazer para o debate público (para além da assinatura de “manifestos”). Identificar problemas, debater ideias, sugerir soluções.

Sob o chapéu da mesma greve geral, respeitando ou não a “linha justa”, esteve a ideologia “sacada” aos avós, aos cotas. Com mochila repleta dos gadgets de moda, os habituais filhos-família radicais. Agora temperados (no sentido culinário), com ambientalismo e ideias pós-civilizacionais & outras. Quem, como eu, distribuiu propaganda ilegal, fez pichagens, fugiu à polícia de choque e passou noites borradas com medo da PIDE e da prisão, e que depois “fez” o 25 de Abril, tudo isto não parece mais do que uma versão patética de um passado recente que faliu (aqui e em todo o mundo). Estas supostas ideologias cheiram-me agora a fastfood. Na verdade, creio que sem estudo e reflexão (com os clássicos e os outros) não crescerá nem se desenvolverá um novo pensamento, uma nova maneira de fincar os pés na terra contra os donos do mundo. 

Sob o chapéu desta greve geral (e de outras “lutas” idênticas) nasceu qualquer coisa parecida com a esperança? Aquela esperança que se distingue da fé e da crença, isto é, qualquer coisa que saberemos que virá porque antes dela vir construímos qualquer coisa sólida? Mudar as vontades dos que acampam sob o chapéu? Ou talvez um chapéu novo? Pensar…  

25/11/2011

QUIZLAND

por cam

Somos todos um pouco culpados pela criação do objectivo utópico da democracia cultural, ou talvez melhor dito, do estado democrático em que além do acesso igualitário a bens de consumo e fruição culturais, teríamos níveis médio-altos de formação cultural. Embalados por esta utopia – ou mito civilizacional – espantamo-nos sempre que verificamos que tal está longe de acontecer; mais ainda, que o objectivo é mesmo utópico. Em edição recente, uma revista de âmbito nacional tablóidiza o assunto mostrando, diz a revista, a profunda e generalizada ignorância dos estudantes em cursos universitários. Os resultados são aterradores, mas ainda mais aterradores se mostram quando a dita revista se limita a reproduzir as chamadas “perguntas de bolso”, agora modernizadas na expressão “cultural quiz” (ai…). Ou seja, a revista e os “jornalistas” que deram curso ao “inquérito” deviam também ser considerados “analfabetos” e “ignorantes”. Este tipo de avaliação de conhecimentos daria melhores resultados se optassem pela resposta múltipla; por exemplo, na pergunta “Quem pintou o tecto da Capela Sistina?”, colocariam como respostas possíveis: (a) “Paula Rego”, (b) “Miguel Ângelo”, (c) “Carla Bruni”. A minha dúvida é se a percentagem de acertos seria ou não mais elevada…

Mas a culpa é nossa, como disse a abrir.

Confrontados com o desolador panorama em que há pequenos grupos possuidores de culturas sólidas separados por uma terra estéril de ignorantes (desde os analfabetos puros aos analfabetos universitários & doutores & engenheiros & etc.), a tendência é de fuga (ou de capitulação ao terror).

O pior de tudo é que ainda há uma réstia de esperança: saímos de casa a arrastá-la piedosamente mas somos rapidamente atropelados por uma turba de jovens frequentadores de esplanadas e de discotecas-de-fim-de-semana, “quitados” como as viaturas-sexo que ostentam, especializados em madeixas e extensões de cabelo, o-meu-carro-é-melhor-que-o-teu, sempre, mas sempre, com os inevitáveis adornos chauvinistas-bairristas-racistas, graçolas e maledicências sobre quem não está presente e as eternas baboseiras sobre performances alcoólicas (quanto mais bêbedo e ressacado no domingo de manhã, mais herói local – quando percebem que se devem queixar disso é sempre tarde de mais).

 Esta é aqui a minha realidade-ficção, se quiserem, Quizland é a minha pátria (a do outro era a língua portuguesa, mas lixaram-no agora com o Novo Acordo Ortográfico).

21/11/2011

O ESTRANHO CASO DE UM VALENTE ESTÚPIDO

por cam

O camarada Vasco, de pulido Valente, desancou sobre a malta do teatro – devia estar com falta de assunto e o camarada Viegas, com a ajuda dos camaradas Infante e Mota, vieram dar-lhe o mote. Foi isto na edição do jornal Público, da já antiga Sexta-Feira dia 18 de Novembro (só hoje, 21, é que o jornal chegou a esta bela ilha…).

O camarada valente devia informar os digníssimos leitores quanto lhe pagam no dito jornal para expelir grosserias, disparates e estupidezes; e se essa verba já inclui prestações antecipadas para pagar o internamento em hospital psiquiátrico a condizer – incluindo colete-de-forças, medicação e inimigos de estimação sobre quem escrever nos seus últimos anos de vida na instituição. Ah, e a morada do hospital, com horários de visita, está-se a ver bem para quê.

Vamos ao assunto, o do teatro. Vasco despenca sobre o Teatro Nacional & etc., nada que não soubéssemos de anteriores descargas de bílis. O que é novidade é agora o camarada ser especialista de literatura dramática e espectáculos de teatro, pois declara, com o ar de quem decreta para todo o sempre, que “Em 37 anos não apareceu uma única obra decente de dramaturgia portuguesa.” Como a bílis estava em risco de o ensandecer irremediavelmente, e se dá o caso de a Directora do jornal começar e ter poucas justificações perante a Administração para lhe pagar a semanada (e a primeira prestação do manicómio ainda não está paga), resolveram dar-lhe ainda mais corda, “quanto pior melhor”, pois lhe disseram então: “ó valentaço, prega-lhes aí com mais qualquer merdice para eles darem mais saltos!”, e é claro que o camarada salivou, desembestou e cagou a última valentia: “Chegou a altura de acabar com esta ridícula ilusão que em Portugal se chama «teatro»”.

Eu, caro camarada, comecei no teatro antes do 25 de Abril de 1974 (actor, etc.); nos últimos anos, tenho escrito daqueles textos que você acha que não são “dramaturgia decente”, pois não serão, nem quero advogar em causa própria. Mas sempre o informarei de alguns nomes de dramaturgas e dramaturgos que terão ficado ofendidos com os seus dislates (e pelo meio vão alguns que entretanto morreram, faço votos para que as almas deles o venham inquietar nas suas noites insones recheadas de monstros), sem cuidar de ordem de apresentação e dando de barato que me esquecerei de muita boa gente: Luísa Costa Gomes, Abel Neves, Armando Nascimento Rosa, Eduarda Dionísio, José Vieira Mendes, Hélia Correia, Jaime Rocha, Tiago Rodrigues, Pedro Eiras, André Murraças, Jorge Silva Melo, Jaime Salazar Sampaio, Jorge Louraço Figueira, Miguel Rovisco, Bernardo Santareno, Marcela Costa, Jacinto Lucas Pires, Carlos J. Pessoa, Fernando Mora Ramos, Patrícia Portela, Norberto Ávila, Álamo de Oliveira, Nuno Artur Silva, Regina Guimarães, Rui Guilherme Lopes, Isabel Medina, António Ferreira, António Torrado, Luís Assis, Luís Francisco Rebello, Vicente Sanches, Rui Sousa, Virgílio Martinho, José Saramago, Carlos Coutinho, Mário de Carvalho, José Peixoto, Helder Costa, Mário Cláudio, Francisco Luís Parreira, Cucha Carvalheiro, Fernando Augusto, José Jorge Letria, Pedro Bandeira Freire, Alexandre Andrade, Filme Homem Fonseca, João Quadros, Carla Bolito, Luís Filipe Borges, Mickael de Oliveira, Luís Mestre, Nelson Guerreiro, Paulo José Miranda, Rui Herbon, Miguel Castro Caldas, etc, etc.; e inúmeros actores e encenadores que produziram textos em contexto de improvisação, ou por processos de colagem/montagem, ou adaptando textos literários não teatrais, etc., etc.; ou os poetas e romancistas que circunstancialmente produziram textos para teatro, como, entre outros, Gonçalo M. Tavares, António Manuel Couto Viana, Agustina Bessa-Luís, Natália Correia, António Cabrita, Tolentino Mendonça, Augusto Abelaira, Fernando Guimarães, Armando Silva Carvalho, Possidónio Cachapa, Pedro Mexia, Lídia Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, José Luís Peixoto, Nuno Júdice, Pedro Rosa Mendes…

Caro valentaço, quando voltar a ter vontade de descarregar a bilis, faça um guisadinho e… bom proveito!

19/11/2011

GREGOS, POBRES E MAUS

por cam

É inaceitável, embora compreensível e inevitável: quem não é igual a nós é “feio, pobre e mau” (em paráfrase do célebre filme de Ettore Scola Brutti, Sporchi e Cattivi, Feios, Porcos e Maus, de 1976).

Os desgraçados gregos, por exemplo, que ficaram na Europa no pós-guerra apenas por razões políticas: até o senhor Estaline reconheceu que cem por cento da Grécia ficava para o Ocidente, quando dividiu o mundo com Churchill. Os pobres gregos que serviram de tampão contra o expansionismo russo e que, também por ficarem na fronteira, geográfica e histórica, com o Médio Oriente, servem de plataforma logística para qualquer eventual conflito nesse lado do mundo, pagam agora as favas dos “europeus”. Dos “europeus” que inventaram uma “Europa” depois da Europa já existir, e nessa invenção quiseram usar a “carne para canhão” que são os países mais pobres ou com mais deficiências estruturais e que se serviram deles para consolidarem as suas economias – França e Alemanha – mas que na verdade nunca pensaram na Europa como um todo coerente e solidário. E agora, que o todo ameaça de implosão, arranjam uns “feios, pobres e maus” como bodes expiatórios. Os gregos ajudaram ao banquete dos ricos, mas também nós, os irlandeses, os espanhóis e a Itália berlusconiana. E o que mais se verá. Somos cada vez mais desencontrados e cada vez menos solidários.

Mas não é apenas entre Governos e Estados da “Europa”. Os povos e as fracções de povos dentro deles, também se acertam pelo mesmo diapasão, que é o da dissensão, do pequeno ódio, da baixeza, mesquinhez e mediocridade que alastra como lama e cola aquilo que de pior há para colar. Acirra a inveja mesquinha, a competição traiçoeira, a mentira despudorada, o rancor bilioso, a arrogância jactante. “Heróis do mar…”, aqui ou onde quer que seja. Ou: “Lá vamos, cantando e rindo…”.

Cá, entre nós, igualmente “feios, pobres e maus” para os “verdadeiros europeus”, alarga-se o fosso entre aqueles que cultivam o rigor, a excelência, o estudo e a reflexão, e aqueles que cultivam o desenrascanço, a mediocridade, o copianço e o berro como retórica maior. Se isto for verdade, o resultado é que seremos todos cada vez mais “feios, pobres e maus”. E chegaremos todos a um momento da nossa europeia história comum em que o termo “grego” condensará o que de pior há em todos nós, e que não conseguimos combater. Nesse dia, seremos todos “gregos”.

18/11/2011

GOSTAR DO BRANCO DAS SOMBRAS CHINESAS

por cam

Li há dois dias O BRANCO DAS SOMBRAS CHINESAS do João Paulo Cotrim e do António Cabrita, das novíssimas edições ABYSMO, iniciativa do primeiro. Prometi escrevidura sobre o dito, mas não está fácil. Vou explicar, mas digo já que, embora obviamente esperasse coisa boa, superou as minhas melhores expectativas. Portanto, se não escrevesse mais nada, que ficasse pelo menos isto: gostei e torço para que muitas pessoas comprem e leiam o BRANCO DAS SOMBRAS.

Por que é que não está fácil escrever: primeiro, porque os autores são meus amigos, o que me leva a declarar, como agora é uso, “conflito de interesses”; segundo, não sou “crítico literário encartado”; por fim o mais importante: quando a prosa tem esta originalidade e fulgor, que mais há a fazer do que um tipo se aconchegar mansinho, silenciado?

Entremeio para adiar o embate: O BRANCO DAS SOMBRAS CHINESAS, de João Paulo Cotrim e António Cabrita, ilustrações de João Fazenda (Abysmo, Setembro de 2011), foi inicialmente um “folhetim a meelas (…) servido em outro diário, este nosso Diário de Notícias, à razão de duas doses semanais, durante o Verão quente de 2001 (de 2 de Julho a 28 de Agosto), faz agora uma década de misérias (…)”. Esta edição, toda impressa em azul forte, tem 78 páginas – incluindo as 16 das ilustrações – as folhas em dobra simples e cozidas como se fosse um único “caderno” e sem aparas no sobrante da dobra.

Agora é que é – qual é o enredo, a trama, o plot do BRANCO DAS SOMBRAS?  tem. Ah sim? Atão comé quesaguenta? Aguenta-se, e bem, porque o Cotrim e o Cabrita agarram pelas ventas o boi da língua, e talvez o inverso, e fazem com a literatura umas belas tripas à moda… deles. Mas também não deixa de ser verdade, porque os leitores precisam de “bengalas”, que tem sim senhor uma estória: o protagonista – de início não tem nome mas páginas andadas será nomeado por João David – que “detestava coincidências, simetrias, concordâncias”, desagrada-lhe ter de ir visitar o pai da sua “cara-metade”, a bela Mariana, coisa que agora ainda lhe custa mais depois que “Verónica, um belíssimo transexual, assentara arraiais no quarto 33 da pensão” (pensão que viremos a saber chamar-se Bizâncio, pertence a David e tem como empregado o impávido Negruras, angolano). Ficamos também a saber que o nosso herói a páginas tantas da sua história pessoal perdeu a consciência, coisa que não seria rara nele, já que a sacrifica com o “método de uísques sobre uísques”, e que então teria acordado no Hospital de Cascais “com um enorme remendo no lado esquerdo da cabeça”: uma orelha que se foi, não sabe, ou não se lembra, ele como. Ainda neste vertiginoso Capítulo 1, David entra no Pavilhão Chinês e atira uma pergunta espantada: “ – O senhor explica-me como é que tem ali a minha orelha?” Depois, o Cotrim e o Cabrita cavalgam capítulo sobre capítulo a estalo de língua: sucedem-se “episódios” rocambolescos onde não faltam citações literárias, filosóficas e existenciais, sempre a jogar em simultâneo nos cortes de uma espada de afiado duplo fio. E safam-se. Vamos com eles nos jogos de linguagem, no permanente non sense, na transgressão linguística, no arrepio de lógicas e de valores. Vale tudo: sacar orelhas, traficar em arte, corromper vereadores de câmara, matar papagaios, entrar em jogos cabalísticos, ouvir lengalengas de cegos, mortes provocadas por foices e martelos, Estaline e Lenine. Não digo mais – apenas que o nosso David sempre terá de se haver com “coincidências, simetrias, concordâncias”.

Se eu fosse “crítico literário encartado”, teria, provavelmente, de encontrar neste livro e nesta escrita a “meelas” ecos de outros livros e escritas, pontos de contacto com autores mais ou menos canónicos, etc. Mas não, ainda bem que desse mal não sofro (já tenho que chegue para várias famílias, obrigado). Por isso, com o desleixo de quem não tem dever de ofício, acabada a leitura e depois de uma noite de insónia, baralharam-se-me no sono recheado de monstros, O BRANCO DAS SOMBRAS CHINESAS com os filmes dos irmãos Marx, O Arranca Corações do Boris Vian, o Doc do Vício Intrínseco do Thomas Pynchon e o Brinquedo Electrónico Essencial do Manuel João Gomes. Será coisa boa?

“Com licença”…

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