ANJO DE EMPRÉSTIMO

por cam

Digam o que disserem sobre os poemas em órfãs folhas A4 ou na frente fria de um ecrã de computador, um livro, as folhas presas e uma capa que as envolve, essa coisa tão simples e despretensiosa continua a ser a casa perfeita dos poemas. E agora (finalmente!) que vejo os do Fernando Machado Silva, querido amigo, encadeados em livro, a sua “primeira viagem”, não escondo o sentimento: é um belo livro, por tantas e tão várias razões que não me chegará, tenho a certeza, a arte e o engenho para as dizer (a partir daqui, a quem não gostar de escolhas do coração e de adjectivações do belo aconselha-se a interrupção da leitura – poupamo-nos).

De um lado e do outro da palavra, os gostos variam, não raramente envolvem-se em escaramuças. No meu caso, seguramente por severas razões autobiográficas, tenho muitos gostos na poesia, até aparentemente opostos. Se me deixa sem palavras a secura de um poema, certas rasuras que parecem vir de outro patamar de conhecimento ou existência e a ele inevitavelmente hão-de regressar, também facilmente me deixo levar nas águas doces de uma boa “canção”, daquelas que tolamente se trauteiam, quer em noites de embriaguez (vínicas, amorosas ou outras), quer por toda a vida fora. Alguns dos poemas do Fernando são destas “canções de trautear” (mas não de trottoir), dolorosamente simples, já perto daquela simplicidade que namora outros voos – quem sou eu para saber se os alcançou!

O núcleo forte dos poemas deste primeiro livro do Fernando (porque me parece que ele poderia ter retirado alguns, poucos, sobretudo do início), são aqueles, a grande maioria, em que os versos, com uma sintaxe ao “ritmo do coração”, se estendem em aparente prosa, com sobressaltos como o da mulher “com olhos de horizontes distorcidos” que, não fossem os “ataques epilépticos da cadela” e mais umas tantas infelicidades, “por pouco era feliz”. Há nestes poemas o quotidiano melancolicamente observado, mas há sobretudo o seu de ficar só, com o horizonte cortado pela ausência da amante, ausência real ou imaginária, mas sempre e só dele, como quando “enforcava os meus dias entrançando os cabelos” e a única saída que vislumbra para começar de novo é “talvez deixar a porta aberta” – embora ele bem saiba que “a dor é uma propriedade privada”.

O poeta precisa de “um anjo de empréstimo”, mas ele surge apenas uma vez, embora se busque, ou se espere, sempre – depende das portas que fecham e abrem.   

Há muito corpo nesta poesia. Os corpos dos amantes que se enlaçam ou se abandonam, mas também o corpo idealizado como metáfora de uma felicidade que, paradoxalmente, parece não se desejar atingir. “Partiram-me uma vez o coração / e deliberadamente desci a escadaria da pouca saúde / para perceber no fim / que o que separa um remédio de um veneno / é somente a dosagem / agora / se mo partirem de novo / depois de colado / peço apenas que o façam rápido / e me deixem em paz / então / poderei assistir a uma última sessão /e chorar pela primeira vez / se não houver bilhetes / eu cá me arranjo / e me entendo com a morte”   

Nesta poesia – como em toda a poesia – “ficou aqui uma vez mais / tudo por dizer”: não é uma desistência, é o caminho que não tem, não pode ter, fim.

[ primeira viagem, de Fernando Machado Silva, edição Orfeu, Bruxelas, 2010 [2012], 74 páginas, 8 € (+ portes de envio), pedidos para: fernandomachadosilva79@gmail.com ou orfeu@skynet.be ]

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