Archive for ‘FILOSOFIA E PENSAMENTO’

01/03/2012

A GUERRA

por cam

«É fácil, e vulgar, que se induza no homem normal o estado de homicídio: basta mandá-lo para a guerra. O bêbado procede como um louco, e o soldado procede como um assassino. (…) Porque mata o soldado? Por uma imposição de um impulso externo que lhe oblitera por completo todas as suas noções normais de respeito pela vida e pela lei; esse impulso externo pode ser a Pátria, o dever, ou a simples submissão a uma convenção, mas o facto é que é como o álcool que converteu o outro em louco, uma coisa vinda de fora. A guerra é um estado de loucura colectiva, mas, nos seus resultados sobre o indivíduo, difere da bebedeira: a bebedeira dissolve-o, a guerra torna-o anormalmente lúcido, por uma abolição das inibições morais. O soldado é um possesso: funciona nele, e através dele, uma personalidade diferente, sem lei nem moral. O soldado é um possesso ou um intoxicado com uma daquelas drogas que dão uma clareza factícia ao espírito, uma lucidez que não deve haver perante a profusão da realidade. (…) Um respeito emotivo pela vida, eis o que evita que se mate. Tem-no o budismo; tê-lo-ia o cristão, se efectivamente o fosse. (…) Quem não é capaz de matar um homem também não é capaz de matar um frango. E, conversamente, quem é capaz de matar um frango é capaz de matar um homem; o caso é fornecerem-lhe as circunstâncias externas que lhe tornem frangos os outros homens, ou determinado homem – isto é, as circunstâncias externas em que se obnubile, não a noção da existência (essa está obnubilada em quem pode matar), mas a noção da identidade de outra vida humana como a própria (que é o que está obnubilado em quem efectivamente mata).»

[Fernando Pessoa, Quaresma, Decifrador, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008, edição de Ana Maria Freitas: pp. 93-98]

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17/02/2012

POE-ÉTICA (02)

por cam

[continuado daqui]

Frente à morte e pela morte. Em cada um de nós (potenciais assassinos), ficam impedidas as duas possibilidades, a de ser vítima e a de ser verdugo, por obra da morte: um (a vítima), deixa de ser; o outro, será já igual a si mesmo, ficará identificado e coisificado pela morte que escolheu, convertido num estereótipo penal, o assassino. Esta primeira vertente simbólica que deriva da análise do romance policial, diz-nos que a vontade de um indivíduo mantém sempre aberta a possibilidade do injustificável – entre todos nós, há alguém que decide ser o criminoso, e esta decisão que o condena confirma-o, também, como sujeito livre. Já se disse que todos os crimes se cometem em nome da liberdade: em termos de uma determinada consciência ética, assim é: não há liberdade sem crime. Porém, o mesmo romance detectivesco clássico reproduz no seu próprio mecanismo a garantia de que a responsabilidade moral não deve chegar a ser imputabilidade arbitrária. No romance procura-se o culpado, não um culpado. O nervo próprio do género é a negação do ordálio, o capricho ou bode expiatório. A coacção social pretende recompor a ordem social quebrada; mas o detective não alinha na procura do rasto da vontade do mal. O que faz grande um detective é a sua intuição de uma autêntica objectividade. Os mais originais e aparentemente caprichosos formaram o seu génio na luta contra a generalização apressada e contra os juízos apriorísticos. O velho detective atreve-se à descoberta do singular, do irrepetível. Contra os ditames do senso comum, da simples doxa, o grande detective reclama-se da lógica pura, a instância menos sujeita à superstição popularucha e ao referendo. Ou seja, defende Savater, o género detectivesco clássico consiste na simbolização dramática da liberdade moral do homem e da imparcial objectividade da justiça.

Ao romance detectivesco clássico chamou-se romance de mistério e Savater defende que o mistério é a sua razão de ser, o seu traço fundamental. Gabriel Marcel, lembra Savater, distingue entre «problema» e «mistério»: os «problemas», são aquilo que a nossa intervenção activa pode resolver, como a fome ou o analfabetismo; os «mistérios», apenas podem ser apresentados e vividos, mas não resolvidos, como o sagrado, a morte ou o amor. Poder-se-ia então aceitar que o romance detectivesco seria melhor qualificado como «romance-problema»; mas não, contraria Savater: para além do problema tem de haver um mistério. Poder ser, como se disse, o injustificável e a liberdade. Porque é mistério o que pressentimos dentro de cada homem, a capacidade enigmática do sublime; ou, então, um dos diferentes “eus” que cada um esconde em si e que se decide romper o velho pacto que nos une contra a fera. O detective, então, avança por entre a névoa em direcção a um rosto desconhecido do qual apenas sabemos que se assemelha a nós. E depois o calafrio delicioso ao sentirmos a sua mão firme que nos arrasta, enquanto uma voz nos diz ao ouvido: «Vamos, Watson, a aventura está a começar!»

13/01/2012

PÓS-DEMOCRACIA

por cam

Na imprensa generalista, António Guerreiro (AG), no jornal Expresso (suplemento Atual), é uma das vozes mais persistentes na actualização de um pensamento sobre o mundo em que vivemos, quer na reflexão sobre a literatura, quer no âmbito de largo espectro do pensamento filosófico. Recentemente, abordou a actual crise europeia com o conceito de pós-democracia (O Rapto da Europa (versão em 3D), edição de 19 de Novembro de 2011, pp.34-36).

Falar de pós-democracia, ou estado pós-democrático na Europa, não é o mesmo que défice democrático. A ideia, outra, “significa a entrada num outro modelo que ainda não sabemos designar senão como inflexão, historicamente determinada, da democracia.” AG aborda esta ideia com o concurso de dois livros recentemente publicados: de Jürgen Habermas, Zur Verfassung Europas, e de Hans Magnus Enzensberger, Le doux monstre de Bruxelles ou l’Europe sous tutelle, na versão francesa. Habermas, segundo AG, “reflecte sobre uma constituição europeia que possa consagrar uma forma particular de «democracia transnacional» sem sacrificar a autonomia democrática dos povos e nações europeias.” Há em Habermas uma “denúncia” de “um caminho pós-democrático” “seguido por Angela Merkel e Nicolas Sarkozi.”

Por seu lado, Enzensberger ataca com “fúria crítica e muita verve cómica a obstinação de Bruxelas (…) em elaborar regulamentos e directivas, em controlar tudo e «colocar tudo sob tutela», impondo um sem número de regras que determinam a vida quotidiana dos cidadãos europeus.” Enzensberger denuncia a elite, supostamente esclarecida, que nos diz o que é certo ou errado, nos diz o que é melhor para todos nós. «A simples ideia de um referendo desencadeia imediatamente o pânico na eurocracia.» «A tríade Parlamento-Conselho-Comissão produz um buraco negro onde desaparece o que nós entendíamos por democracia.». A U.E., deste ponto de vista, representa uma tentativa de extermínio da “velha invenção europeia que é a democracia.” Aquilo que a Europa está actualmente a promover (“modelo técnico de governamentabilidade”) “abole a política e a ideia de representação e mediação em que esta se baseia.” A Europa, assim, “está a passar por derivas que significam pura e simplesmente a morte do modelo democrático ocidental.” A referência pode deixar de ser a cidade (a polis), mas sim a empresa – a pós-democracia.

Entretidos a discutir a baixa política no atropelo do quotidiano, despimo-nos da nossa capacidade de pensar, categorizada já como luxo ou coisa supérflua. Resta saber se isso acontece por ser uma consequência inevitável da abolição simbólica da Cidade ou se, por razões complexas, foi essa desistência que facilitou o caminho à invasão dos “bárbaros” de fato cinzento.

31/12/2011

12 LIVROS

por cam

Desde Outubro de 2007 anoto os livros que leio. Este ano, registei 60, de diferentes dimensões e tempos de leitura – e de diferentes anos de edição (alguns deles em releitura). Deixo aqui a lista das 12 preferências, por ordem alfabética do nome do autor/organizador:

» António Cabrita e João Paulo Cotrim, O Branco das Sombras Chinesas, Abysmo (2011)

» Armando Silva Carvalho, Anthero, a Areia e a Água, Assírio & Alvim (2010)

» Ascêncio de Freitas, A Paz Adormecida, Caminho (2003)

» Ernst Gellner, Linguagem e Solidão. Uma interpretação do Pensamento de Wittgenstein e Malinowski, Edições 70 (2001)

» Fernando Rosas e Maria Fernanda Rolo, (orgs.), História da Primeira República, Tinta da China (2010)

» José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política, Temas e Debates (3 vols: 1999, 2001 e 2005)

» Manuel de Freitas, A Perspectiva da Morte. 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, Assírio & Alvim (2009)

» Miguel Morgado, Autoridade, Fundação Francisco Manuel dos Santos (2010)

» Natália Correia (org.), Antologia de Poesia Erótica e Satírica, frenesi/Antígona (1999, 1ª ed: 1965)

» Rui Ramos (coord.), Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal, A Esfera dos Livros (2010, 4ª ed.)

» Thomas Pynchon, Vício Intrínseco, Dom Quixote (2010)

» Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, IN-CM (1998)

"Respiro", ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011

30/12/2011

O PÊNDULO DE MICHELSTAEDTER

por cam

Finalmente vou ler Carlo Michelstaedter, o jovem filósofo italiano autor de A Persuasão e a Retórica, livro que me chegou hoje de Espanha. Michelstaedter era para mim um desconhecido até ler, há muitos anos, o texto de Eduardo Prado Coelho “O ensaio em geral”, inserto n’O Cálculo das Sombras (ASA, 1997). Prado Coelho refere-se a ele quando aborda o “lugar do ensaio num mundo que surge como que alienado pelo predomínio de uma cultura estética em que a exigência de verdade e o peso das motivações profundas se foram progressivamente dissolvendo.” (p. 30).

Para o autor de A Mecânica dos Fluídos e O Universo da Crítica, Michelstaedter descreveu como ninguém “com tanta veemência (por palavras e actos trágicos) esta situação.” (p. 31). Sigo EPC (pp. 31-32): Carlo Michelstaedter, nasceu em 1887 em Gorizia e estudou em Florença. Suicidou-se a 16 de Outubro de 1910, no dia seguinte àquele em que redigiu os apêndices críticos da sua tese intitulada La persuasione e la retórica. O seu trabalho abre com uma imagem que tem vindo a tornar-se famosa: o pêndulo. Para Michelstaedter, um pêndulo que esteja suspenso de um gancho move-se por um desejo intenso de tocar o ponto mais baixo: que seria aquele em que viria a coincidir consigo mesmo, definitiva e solarmente persuadido da sua própria verdade. É esta a «sua fome de mais baixo». Mas entregue a si mesmo o pêndulo oscila, balança, agita-se numa interminável circularidade de movimentos, em que cada ponto que ele atinge é um ponto em que falha o ponto mais baixo que pretendia atingir. Deste modo, «sempre o domina uma igual fome do mais baixo e infinita lhe resta para sempre a vontade de descer.» Mas se alguma vez pudesse atingir esse ponto (o ponto em que, persuadido de uma verdade única, deixaria de estar submetido à oscilação do processo de persuasão, isto é, ao movimento incessante da retórica), ele deixaria de ser o que é: um peso – «quando mais nada lhe faltasse – mas fosse finito, perfeito: se se possuísse a si próprio, ele teria deixado de existir». A verdade absoluta como limite inevitável da persuasão é não apenas a morte da linguagem (ou a morte de uma linguagem dominada pela retórica) como a morte da existência humana. Mas a sua vida enquanto vida é também insatisfação absoluta, vazio radical: «la sua vita é questa mancanza della sua vita». Donde, o pêndulo está condenado à oscilação (ou, se quiserem, à cultura estética dominada pelo oscilação retórica): «O peso é para si próprio impedimento de possuir a sua própria vida e não depende de mais ninguém senão de si na sua impossibilidade de se satisfazer. O peso não poderá nunca ser persuadido.» O seu destino é abandonar-se ao eterno jogo das aparências e das sombras, colorido pelas manchas vagabundas da pintura impressionista, fragilizado pela derivação psicológica, impulsionado pela orgia dionisíaca de raiz nietzschiana. (o Eduardo Prado Coelho morreu há quatro anos e sempre que leio um dos seus textos não quero aceitar que tenha morrido).

O livro que vou ler é uma edição de 2009 da sextopiso (Espanha/México), com apresentação de Miguel Morey e prólogo e notas de Sergio Campailla. Textos complementares de Claudio Magris, Massimo Cacciari e Paolo Magris.

08/05/2011

AOS INDIFERENTES

por cam

Num tempo de descrença, desmobilização e desconfiança – nas instituições e talvez em nós própios – deixo aqui esta reflexão de Antonio Gramsci (comunista italiano: 1891-1937, nesta página está alguma informação a ler com reservas), que retirei da página do FB do meu amigo Domingos Morais. A fonte original está aqui. O português é o do Brasil.

«Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que “viver significa tomar partido”. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.»

07/05/2011

À ATENÇÃO DE SÓCRATES…

por cam

…E DE OUTROS SALVADORES DA PÁTRIA PORTUGUESA, DA PARTE DO SENHOR ARISTÓTELES:

«Por conseguinte, quem se dispuser a dar conselhos sobre finanças deverá conhecer os recursos que tem a cidade e qual o seu valor, fim de, se algum for omitido, o repor, e se algum for insuficiente, o aumentar. Deve também conhecer todas as despesas da cidade, a fim de eliminar o que for supérfluo e reduzir o que for excessivo. Pois não só enriquecem os que aumentam os bens que já possuem, como também os que reduzem os gastos. E não é só pela experiência interna que se alcança uma visão geral destas coisas, é também necessário estar informado do que os outros povos descobriram para aconselhar sobre o assunto.»

Aristóteles, Retórica, 1.359b (que na edição portuguesa da IN-CM, Obras Completas de Aristóteles, coordenação de António Pedro Mesquita, Lisboa, 2005, está na página 107).

12/04/2011

“O ACASO CANSA-ME. DEUS”

por cam

A noite filtra pensamentos, mas por vezes é um filtro tão apertado que a manhã surge como o fim de um caminho que não sei onde se iniciou. Farrapos, estilhaços.

Estive até bastante tarde a ler o Baudrillard (Estratégias fatais). “O acaso cansa-me.” Deus. Terá dito isto um teólogo, a propósito da proibição de um certo lançar de dados. Baudrillard coloca duas hipóteses sobre o que é o acaso: a primeira, fraca, é a de que “todas as coisas são impelidas a encontrarem-se, só o acaso faz com que elas não se encontrem.” O próprio Deus deixou de conseguir lutar contra o acaso, e irrompeu um mundo louco. Mas “Deus não está escandalizado, lesado, ferido ou ameaçado pelo acaso: está cansado. É maravilhoso.” Outra hipótese, é que Deus está cansado de produzir o mundo, eternamente, pois a verdade é que não existe acaso, é preciso criá-lo, entre outras coisas para que os homens possam acreditar na boa-fé ou na má sorte. “Porque nada é mais fácil para as coisas do que encadearem-se, metamorfosearem-se umas nas outras. Para conseguir isso, um mundo puramente acidental, é preciso pressupor uma vontade e uma energia infinitas.” Deus não conseguiu manter o reino absoluto do acaso. Morreu, “deixando atrás de si um mundo perfeitamente livre e aleatório e a uma divindade cega chamado Acaso, o cuidado de regular as coisas.” “Deste modo, Deus não cumpriu, de forma alguma, o seu contrato. Ele que estava lá para ser a causa das coisas, acabou por conseguir que aquilo que se produz sem causa, aquilo que acontece por uma conjugação extremamente rara e pouco provável, fosse muito mais carregado de sentido do que aquilo que acontece segundo a sua causa.” Mas talvez isto seja conjuntural, o prazer irónico e diabólico das conjunções acidentais apenas tem semelhança com o “prazer que teve o primeiro espírito capaz de inventar, num mundo caótico, o primeiro encadeamento causal. Esse foi, no seu tempo, o Diabo e teve de ser queimado vivo.”

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25/03/2011

«É UMA ESPÉCIE DE SONHO ADOLESCENTE…»

por cam

«É uma espécie de sonho adolescente: reunir todos os textos, poemas, ensaios, versos, frases, palavras, sons (acrescento em segredo: os gestos) que um dia me tocaram. Uma espécie de antologia interminável, caprichosa e feroz, desalinhada e desigual, em que a última palavra, luminosa, seria sempre a palavra em falta. Depois, haveria o momento da partilha: estes textos, estas inscrições, estas marcas gráficas ou sonoras deveriam pertencer a um círculo em expansão, o círculo daqueles que as sabiam (ou prometiam aprender) amar.»

(Eduardo Prado Coelho, “A Sabedoria de Olhos Cheios de Lágrimas”, jornal Público, Mil Folhas, 26 de Julho de 2003)

14/03/2011

O INCRÍVEL PIERRE

por cam
Pierre Rivière, ed. port.

Pierre Rivière, ed. port.

 

Pierre Rivière, ed. fr.

Pierre Rivière, o filme de Allio

Leio Moi, Pierre Rivière, ayant égorgé ma Mère, ma Soeur et mon Frère… un cas de parricide au XIXème siècle, apresentado por Michel Foucault, na versão portuguesa de Maria Filomena Duarte (edições Terramar, 1997). Quando conheci a edição francesa (de 1973), comecei a alimentar uma ideia de escrever um texto teatral, projecto que fui adiando, em especial pela dificuldade do texto francês. O livro inclui várias peças do processo judicial, testemunhos, etc, mas sobretudo o incrível “memorial” do jovem Pierre, de 20 anos, onde confessa os crimes (de uma extrema violência) mas em especial as suas motivações – em síntese, os maus tratos que segundo ele a mãe infligiu ao pai durante quase duas dezenas de anos, e uma auto-análise do seu próprio comportamento. Talvez seja desta que sai teatro… (o pior – ou melhor, quem sabe – é se isto se mistura com o século anterior e Moçambique…).

Nunca vi o filme de René Allio (1976), tenho de o procurar.

01/03/2011

VENHA O DIABO…

por cam

Há quem inveje as pessoas que se retiram dos grandes centros urbanos e se fixam, por exemplo, numa ilha no meio do oceano Atlântico – como eu, aqui na ilha do Pico.

E há quem possa ter o prazer de participar, por exemplo, em eventos como o que abaixo ajudo a divulgar. E…

Venha o diabo…

Colóquio Internacional Jacques Rancière, que vai decorrer nos dias 15 e 16 deste mês, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (por onde andei entre 1984 e 1990, nas antropologias). Organizam cientificamente o evento Golgona Anghel, Vanessa Brito e Silvina Rodrigues Lopes.

Aqui fica o texto de apresentação:

“Abrir um espaço entre nós e as palavras, criar dissensos, é, para Rancière, o próprio coração da política e a condição do pensamento. Pretendemos neste Colóquio tomar essa tese como incitação a uma reflexão que não se limite a explicitar as relações poder/saber e os dispositivos de legitimação e institucionalização que as concretizam. A escrita enquanto pensar/agir – capaz de evidenciar e de deslocar as operações de unificação do mundo constituídas por ficções consensuais que procedem à naturalização das relações tecidas em palavras e imagens – será, pois, o tema orientador. Partir-se-á da leitura de livros e textos de Jacques Rancière, insistindo em conceitos neles decisivos, como os de igualdade, de emancipação, de partilha do sensível e de história, que estão na base da conceptualização da possibilidade de incessantes reconfigurações do mundo, segundo as quais, poesia, literatura e filosofia partilham a capacidade de dar existência ao que era imperceptível apesar da sua operatividade. Essa é a possibilidade de conceber a história em termos não-deterministas e de escapar aos mecanismos identitários: experiência de afirmação da igualdade que implica uma atenção às palavras da literatura que não as reinscreva nos circuitos do estabelecido e às palavras anónimas com que se fez história e ficaram ignoradas pelo ruído de modelos narrativos que impuseram uma lógica de exclusão.”

12/04/2010

A CONDIÇÃO CRÍTICA

por cam

Num pequeno texto da década de cinquenta (Maurice Blanchot, «La condition critique», Trafic, Revue de Cinéma, Paris, nº 2, Printemps 1992: 140-142. O texto foi originalmente publicado em L’Observateur, nº 6, de 18 de Maio de 1950), Blanchot reflecte sobre a necessária impureza da crítica e em como nessa impureza se revela justamente a sua razão de ser.
Blanchot coloca uma questão essencial que importa desde já nomear: a relação conflitual entre a obra de arte e a crítica, um antagonismo entre a obra como fechamento e a crítica como desvendamento.
Se as obras são de uma infinita solidão, como dizia Rilke, nada há pior para elas do que a crítica ao chamar a atenção sobre as obras, ao fazê-las sair desse ponto de fascinante discrição onde elas se formaram e onde gostariam de se fechar, ao abrigo de toda a curiosidade pública. Mas a crítica é uma força que passa rápida e na força da sua soberania introduz sem precauções as obras nas mãos do mundo.
A essência do crítico moderno é ele estar ligado ao instante, à acção, ao quotidiano fugitivo, à instantaneidade. O crítico não deve ter arte própria nem talento pessoal, ele não deve ser o centro. É certamente um olhar, mas um olhar anónimo, impessoal, vagabundo.
A obra, na sua intimidade fechada, é ciumenta, desejosa de negar o exterior: a tarefa da crítica não pode deixar de ser a de seu antagonista. Mas para contrariar a obra de arte a crítica deve ao mesmo tempo aproximar-se dela, de a compreender, de a trair, não porque não a compreenda, mas exactamente porque ela é um esforço muito grande de compreensão. Mas a interpretação mais fiel é também a mais infiel, porque ele expõe completamente a obra à verdade do dia banal quando a natureza da obra é a de escapar à verdade. O crítico que se devote excessivamente à intimidade da arte acaba por mergulhar na sua obscuridade e por negar-se a si próprio. Deixa de existir a vontade maldosa ou caprichosa momentânea que ilumina por breves instantes um livro (ou o negligencia) e dele tira o que quer. Torna-se numa boa vontade assídua que ama a cultura, que ama os livros, os respeita e os salva, uma submissão sem limites à compreensão, uma espécie de generosidade insípida, uma vida inteira fechada nos limites dos livros e completamente consagrada a estudá-los, a louvá-los, a enriquecê-los, a fazê-los durar e, finalmente, a elevá-los ao céu sublime do intemporal: estranho encantamento. Esta relação, contudo, só alcança a sua verdade no momento em que crítico e arte se confundem, quando o que chamamos consciência criativa aceita perder-se no olhar superficial do quotidiano e se afirma cúmplice da preocupação que antes desprezava. Se daqui resulta uma infeliz confusão ou um consentimento estéril não importa. O importante é que o criador abandone a grande vanidade para onde a criação o lança e se declare solidário do presente transitório que a crítica sem futuro lhe assegura.

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