NEMÉSIO vs MAGALHÃES #03

por cam
J.M. Magalhães

O outro poeta que Magalhães conjuga com Nemésio (ver NEMÉSIO vs MAGALHÃES #02) é João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1943-) – que, tal como Júdice, também iniciou cedo a produção poética (publicou o primeiro livro de poesia em 1971). Tanto em 1978 como em 1999 tinha várias obras publicadas. Para além de outros sinais, Magalhães faz acentuar o terem ambos uma “obsessiva vocação de real” (p37), no caso específico de Nemésio, a “imersão hiper-real na banalidade e no concreto do quotidiano”, é também uma “linha motora (talvez pela sua estreita ligação com a representação pictórica) da obra de Fernandes Jorge”.

J.M. Fernandes Jorge

Para além das “consequências processuais paralelizáveis entre Andamento Holandês, de Nemésio e «Castelos de Holanda», de O Barco Vazio, de Fernandes Jorge” (p.38) e de permeio os Açores, o primeiro por ser a sua terra natal, o segundo por lhe dedicar mais de um livro, Magalhães lembra outras coisas, duas, que “contribuem fortemente para aproximar estes dois poetas na busca da amplidão temática e na consciência da imersão numa cultura particular.”

“Uma, o recurso à profundidade histórica nacional para dela fazer irromper a novidade dos versos.” (id.) “Outra, a reformulação da herança de António Nobre nos dois poetas, sobretudo nos seus poemas mais longos.” “A ligação à terra pessoal, as memórias do passado vivido, a complexidade metonímica das imagens, a associação do mito pessoal ao mito colectivo, o urdir de uma discursividade carregada de pequenas sequências quer emocionadas quer comprometidas quer auto-irónicas configuram aquilo a que poderia chamar a reinvenção da lição de Nobre.” (p.39)

Nem tudo fica dito, segundo JMM, que também crê que a obra de Nemésio representou muito “para a ultrapassagem das convenções modernistas e para a acentuação renovada do valor dos ritmos mais antigos da língua e das suas tradições orais.” (id.)

Vitorino Nemésio

Os blogues têm, com maior ou menor capacidade, uma função ampliadora e, sobretudo, de fazer chegar discussões e acontecimentos, tantas vezes como fruto do acaso, a leitores que por sua iniciativa talvez deles nunca tivessem conhecimento. As leituras de Joaquim Manuel Magalhães que aqui resumidamente trago de novo à liça vêm com essa convicção – ou esperança; perseguem, portanto, um objectivo, digamos, didáctico. Por outro lado, e concomitantemente, para outros leitores mais interessados (e supostamente informados e “lidos”), pretendem lembrar certas coisas, estimular leituras novas, reacender trocas de ideias. Os livros vivem bem com o tempo, que sempre os renova, tal como os grandes poetas, como Joaquim Manuel Magalhães, que tão bem sabe dialogar com os seus pares, criadores de pontos de contacto (ou de passagem), para outros mundos. Fazer mundos.

[continua]

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