Posts tagged ‘Fernando Machado Silva’

04/05/2012

ANJO DE EMPRÉSTIMO

por cam

Digam o que disserem sobre os poemas em órfãs folhas A4 ou na frente fria de um ecrã de computador, um livro, as folhas presas e uma capa que as envolve, essa coisa tão simples e despretensiosa continua a ser a casa perfeita dos poemas. E agora (finalmente!) que vejo os do Fernando Machado Silva, querido amigo, encadeados em livro, a sua “primeira viagem”, não escondo o sentimento: é um belo livro, por tantas e tão várias razões que não me chegará, tenho a certeza, a arte e o engenho para as dizer (a partir daqui, a quem não gostar de escolhas do coração e de adjectivações do belo aconselha-se a interrupção da leitura – poupamo-nos).

De um lado e do outro da palavra, os gostos variam, não raramente envolvem-se em escaramuças. No meu caso, seguramente por severas razões autobiográficas, tenho muitos gostos na poesia, até aparentemente opostos. Se me deixa sem palavras a secura de um poema, certas rasuras que parecem vir de outro patamar de conhecimento ou existência e a ele inevitavelmente hão-de regressar, também facilmente me deixo levar nas águas doces de uma boa “canção”, daquelas que tolamente se trauteiam, quer em noites de embriaguez (vínicas, amorosas ou outras), quer por toda a vida fora. Alguns dos poemas do Fernando são destas “canções de trautear” (mas não de trottoir), dolorosamente simples, já perto daquela simplicidade que namora outros voos – quem sou eu para saber se os alcançou!

O núcleo forte dos poemas deste primeiro livro do Fernando (porque me parece que ele poderia ter retirado alguns, poucos, sobretudo do início), são aqueles, a grande maioria, em que os versos, com uma sintaxe ao “ritmo do coração”, se estendem em aparente prosa, com sobressaltos como o da mulher “com olhos de horizontes distorcidos” que, não fossem os “ataques epilépticos da cadela” e mais umas tantas infelicidades, “por pouco era feliz”. Há nestes poemas o quotidiano melancolicamente observado, mas há sobretudo o seu de ficar só, com o horizonte cortado pela ausência da amante, ausência real ou imaginária, mas sempre e só dele, como quando “enforcava os meus dias entrançando os cabelos” e a única saída que vislumbra para começar de novo é “talvez deixar a porta aberta” – embora ele bem saiba que “a dor é uma propriedade privada”.

O poeta precisa de “um anjo de empréstimo”, mas ele surge apenas uma vez, embora se busque, ou se espere, sempre – depende das portas que fecham e abrem.   

Há muito corpo nesta poesia. Os corpos dos amantes que se enlaçam ou se abandonam, mas também o corpo idealizado como metáfora de uma felicidade que, paradoxalmente, parece não se desejar atingir. “Partiram-me uma vez o coração / e deliberadamente desci a escadaria da pouca saúde / para perceber no fim / que o que separa um remédio de um veneno / é somente a dosagem / agora / se mo partirem de novo / depois de colado / peço apenas que o façam rápido / e me deixem em paz / então / poderei assistir a uma última sessão /e chorar pela primeira vez / se não houver bilhetes / eu cá me arranjo / e me entendo com a morte”   

Nesta poesia – como em toda a poesia – “ficou aqui uma vez mais / tudo por dizer”: não é uma desistência, é o caminho que não tem, não pode ter, fim.

[ primeira viagem, de Fernando Machado Silva, edição Orfeu, Bruxelas, 2010 [2012], 74 páginas, 8 € (+ portes de envio), pedidos para: fernandomachadosilva79@gmail.com ou orfeu@skynet.be ]

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28/04/2012

AUSÊNCIAS, PRESENÇAS

por cam

Vivemos uma ausência, em Portugal – escrevo isto e de repente já estou a pensar que há outras, tantas, ausências na nossa pátria e eu que quero falar de uma apenas… – dizia: vivemos uma ausência em Portugal que é a de escassearem os lugares de presença da poesia e da ficção (portuguesas e outras), delas mesmas e da sua discussão. É certo que existem os blogues (como este…) – mas não é manifestamente a mesma coisa que os jornais ou as revistas em papel. Aqui, neste espaço que alterou a noção de espaço (e tempo), vivemos a voragem que lhe é própria: passamos demasiado depressa, nivelamos tudo sem critérios, etc. Estou nele, também. Pois vamos lá.

A arenga acima é para dizer a quem por aqui passa (espero que não demasiado apressados…), que neste bocado de terra cercado por mar tenho alguns livros recentes, dos quais procurarei aqui falar. São eles:

– “África. Frente e Verso”, crónica, conto, poesia, de Urbano Bettencourt (2012, Letras Lavadas).

– “Antero de Quental, a life and a morning/a vida e uma manhã”, de Emanuel Jorge Botelho, poemas, e Urbano, pinturas (2010, Publiçor).

– “Antologia Açoriana”, poesia, de João Miguel Fernandes Jorge, com desenhos de Urbano (2011, Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada).

– “Caderno de Milfontes”, poesia, de Rui Almeida (2011, volta d’mar).

– “Capitais”, poesia, de Paulo Tavares (2012, sem indicação de edição, mas vendida pela Artefacto, Lisboa, Sociedade Guilherme Cossoul).    

– “Dispersão. Poesia Reunida”, de Nuno Dempster (2008, Sempre em Pé).

– “Dois poetas e um pintor”, António Teves e Emanuel Jorge Botelho, poemas, Urbano, desenhos (2010, Artes e Letras).

– “Imaginários Luso-Americanos e Açorianos. Do Outro Lado do Espelho”, ensaio literário, de Vamberto de Freitas (2010, edições Macaronésia).

– “Lagoeiros”, poesia, de João Miguel Fernandes Jorge (2011, Relógio D’Água).

– “Pedra de afiar”, poesia, de Jorge Fazenda Lourenço (1983, IN-CM).

– “Primeira viagem”, poesia, de Fernando Machado Silva (2010, Orfeu, Bruxelas).

– “Uma chávena de café que saiu do Tejo na manhã do dia sete de Julho de mil oitocentos e setenta e oito e nunca mais voltou”, “Os poetas adoram massagens”, “Ao cair subtil da tua saia”, “O mar português não sabe ler”, “Os portugueses são imbatíveis no terço”, poesia, todos de Carlos Mota de Oliveira, ed. de autor (2011, produção www.milideias.pt).

02/04/2012

RESPOSTA ATRASADA A WALT WHITMAN

por cam

 os teus poemas chegaram

finalmente

sim

sãos e salvos

mas

infelizmente

o sentido da tua explicação

sobre este enigma do Novo Mundo

E que definiria a América

e a sua atlética Democracia

deve ter-se perdido

algures no oceano

ou junto do teu coração

quando te enterraram.

Poema de Fernando Machado Silva, do livro primeira viagem, que será apresentado na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa (Rua da Fábrica de Material de Guerra), sábado 7, pelas 21.30 hs.  O livro é uma edição Orfeu – livraria portuguesa e galega, espaço de acção cultural em Bruxelas. Custa €8, reservas pelo e-mail orfeu@skynet.be.

02/04/2012

PRIMEIRA VIAGEM

por cam

Primeira Viagem, livro de poemas do Fernando Machado Silva (edição Orfeu, Bruxelas), é apresentado Sábado 7 de Abril, pelas 21.30 horas, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa.  

(abraço forte, Fernando)

27/03/2012

LIVROS & COMPANHIA

por cam

Estive em Lisboa, onde participei no Dia da Poesia do CCB (leitura e exposição de manuscritos).  Voltei com livros de poesia: Poemas de despedida, vol. VII, seguido de 7 poemas, plaquette “doméstica” do Fernando Machado Silva, Resumo, a poesia em 2011, antologia (oferecida…) dos melhores de 2011 FNAC/Assírio, aliás, Documenta, de que gosto muito pois dela sou sistematicamente excluído, Rui Noronha (poemas gravados em CD), Má Raça, do Alex Gozblau e do João Paulo Cotrim, e 5 pequenos livros de Carlos Mota de Oliveira (edição de autor).

Na casa do correio tinha à minha espera as ofertas Câmara Escura. Uma antologia, da Inês Lourenço, e Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo e K3, ambos do Nuno Dempster.  Boas companhias, portanto.

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