Posts tagged ‘Morte’

01/03/2012

A GUERRA

por cam

«É fácil, e vulgar, que se induza no homem normal o estado de homicídio: basta mandá-lo para a guerra. O bêbado procede como um louco, e o soldado procede como um assassino. (…) Porque mata o soldado? Por uma imposição de um impulso externo que lhe oblitera por completo todas as suas noções normais de respeito pela vida e pela lei; esse impulso externo pode ser a Pátria, o dever, ou a simples submissão a uma convenção, mas o facto é que é como o álcool que converteu o outro em louco, uma coisa vinda de fora. A guerra é um estado de loucura colectiva, mas, nos seus resultados sobre o indivíduo, difere da bebedeira: a bebedeira dissolve-o, a guerra torna-o anormalmente lúcido, por uma abolição das inibições morais. O soldado é um possesso: funciona nele, e através dele, uma personalidade diferente, sem lei nem moral. O soldado é um possesso ou um intoxicado com uma daquelas drogas que dão uma clareza factícia ao espírito, uma lucidez que não deve haver perante a profusão da realidade. (…) Um respeito emotivo pela vida, eis o que evita que se mate. Tem-no o budismo; tê-lo-ia o cristão, se efectivamente o fosse. (…) Quem não é capaz de matar um homem também não é capaz de matar um frango. E, conversamente, quem é capaz de matar um frango é capaz de matar um homem; o caso é fornecerem-lhe as circunstâncias externas que lhe tornem frangos os outros homens, ou determinado homem – isto é, as circunstâncias externas em que se obnubile, não a noção da existência (essa está obnubilada em quem pode matar), mas a noção da identidade de outra vida humana como a própria (que é o que está obnubilado em quem efectivamente mata).»

[Fernando Pessoa, Quaresma, Decifrador, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008, edição de Ana Maria Freitas: pp. 93-98]

06/01/2012

AS QUALIDADES DO MANUEL DE FREITAS

por cam

Conhecemo-nos no bairro lisboeta de Campolide, nos princípios de 2001, tinha eu já publicado os meus primeiros livros de poesia “Mundo de Aventuras” (1999) e “Ventilador” (2000) e o Manuel o, também de poesia, “Todos Contentes e Eu Também (2000). Sem o sabermos, éramos vizinhos. Descoberta a vizinhança, veio a amizade. Partilhámos nesses anos o que é comum dois amigos partilharem, com os gostos comuns da poesia e da boa conversa à mesa vinicamente regada. Sempre, ou quase sempre, com a Inês (que em 2002 publicaria na Colóquio-Letras da Gulbenkian uma recensão sobre o “Ventilador” que ainda hoje me emociona). Tive a felicidade de ser um dos antologiados em “Poetas Sem Qualidades” (Averno, 2002 – a sua editora que publicou também em 2004, o meu “A Realidade Inclinada”) antologia que tanto celeuma provocou (e hoje continua a ser uma obra de referência quando se discute a poesia contemporânea portuguesa & etc… – cf. a minha crónica sobre o último livro do Pedro Eiras: “Um certo pudor tardio. Ensaio sobre os «poetas sem qualidades»”, Porto, Outubro de 2011). Depois, anos mais tarde, as nossas vidas descruzaram-se, com mágoa minha. Tudo isto para dizer (lembrar) que a minha escrita sobre livros está inevitavelmente ligada ao modo como me relaciono com os autores por quem nutro amizade. Não pretendo esconder isso, antes pelo contrário. É assim e ainda bem que é.

Manuel de Freitas (Vale de Santarém, 1972) é, além de poeta, ensaísta, tradutor, antologiador e crítico; dirige, com a Inês Dias, a revista Telhados de Vidro e a editora Averno. Esta crónica surge agora a propósito da antologia por ele organizada, e publicada em 2009 mas que só agora tive oportunidade de ler: “A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX” (Assírio & Alvim). O Manuel usou um critério temporal: poetas nascidos antes de 1950. Os -2 são Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge que “preferiram não ser incluídos” (p. 12). “Esta antologia (…) está-se nas tintas para a posteridade. Trata-se de uma viagem estritamente pessoal (…)” (p.10). Li-a – com imenso prazer, embora com as inevitáveis discordâncias –, mas o que me leva a escrever agora são outros aspectos: esta antologia (creio que outras se seguirão), completa, de certo modo, a escrita do Manuel de Freitas – de modo nenhum se trata de um gesto de autoridade ou de sobranceria, como por vezes acontece com certos antologiadores. Não, de todo. Por outro lado, reforça a sua visão do lugar poético, dos seus “fazeres” e da sua relação com o “real”. Não se trata apenas de uma “perspectiva da morte”, mas, de certa maneira radical, olhar para trás e trazer à liça os poetas e as poesias de, digamos, uma linhagem. Antologiar, é, no caso do Manuel de Freitas, cimentar um percurso: as “vozes que tanto me marcaram”, “marca-as” ele retroactivamente. Ambição gratuita? Não.

O Manuel de Freitas é uma das personalidades fortes da poesia e do pensar da poesia hoje em Portugal e creio que o tempo só reforçará junto de quem o lê essa evidência. Uns gostam, outros não. Eu gosto.

O Manuel tem dois ensaios sobre dois poetas maiores (Al Berto, 1999, Herberto Helder, 2001); há quase uma década vem publicando no jornal Expresso (suplemento Actual) as suas recensões críticas: creio que todos ganharíamos em (re)lê-las organizadas em livro. Fica a deixa.

23/08/2011

TOLERÂNCIA OU GUERRA

por cam

O culto do local, apoiada em declarações do estilo “o que é nosso é que é bom” (do nosso povo, da nossa terra, etc.), é, em muitas circunstâncias, uma face da xenofobia, a caminho do racismo – e da guerra, a situação por excelência de recusa do Outro. Para além de ser uma demonstração de estreiteza de espírito e de mediocridade intelectual e humana.

26/03/2011

ELE QUIS MORRER E VOLTAR

por cam

Capa de O Nome do Mundo (pormenor)

«Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar. Pensa: «No meu corpo depositei o mais e o menos, há porém ainda lugares onde salpicar o riso de água.» Sabia que estava no caminho da vocação do homem – romper, e o seu tumulto transporta uma memória já contida. De encontro aos olhos dele o mar teve medo e recuou. Lembra-se do amigo vestido de preto que chora agarrado às grades da cela. Ninguém põe as mãos no seu casco. É um exemplo. O homem jura que pode dizer hoje a qualquer mulher da cidade: fica calada e recosta-te. O sexo é a última violência, e tens o ventre dilatado. Devo servir-me de ti porque me purifico e os meus amigos renascem. O cabelo cai na testa do homem como certas hienas se enrodilham nas árvores. Tem algas dentro da boca, os membros são cardumes. Durante meses experimentou sentar-se no chão e soterrar o inferno no pó. Agora volta, e a sua pele brilha. Amou vorazmente, mas nada percebe do que amou. Foi uma bola batida. Assim partiu, e se hoje regressa do outro lado das campas para reabsorver Lisboa é porque quer dar início ao seu derradeiro trabalho. À beira da estrada pára o cansaço e queima-o.»

(José Amaro Dionísio, Bardo, Lisboa, Salamandra, 1986: 11-12)

12/04/2010

O NÃO DITO…

por cam

(…) apenas ressoava no que não foi dito somente onde já não chega a língua, onde ela ultrapassa os seus próprios limites terrenamente mortais e penetra no indizível e abandona a expressão da palavra e – cantando-se apenas a si própria na estrutura dos versos – rasga entre as palavras o abismo angustiante e sufocante dos segundos, para, em pressentimento da morte e abarcando ao vida, nessas mudas profundidades, mostrar, ela própria emudecida, a totalidade do universo, a simultaneidade fluente, em que repousa o eterno; oh meta de toda a poesia, esplendor da língua, quando ela, por sobre toda a informação e toda a descrição, se anula a si própria, oh, os momentos da língua em que ela mergulha na simultaneidade, de tal maneira que permanece incerto se é a memória que brota da língua, ou se é a língua que brota da memória.

Hermann Broch, A Morte de Virgílio

12/04/2010

CONHECIMENTO DA MORTE…

por cam

(…) Poesia (…) a mais estranha de todas as actividades humanas, a única consagrada ao conhecimento da morte.

Hermann Broch, A Morte de Virgílio

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