Posts tagged ‘Espanha’

23/04/2012

ILHAS…

por cam

E-mail recebido pelo meu amigo Urbano Bettencourt, que quis partilhar:

«Una isla es un punto de conciencia en el mar»
Lawrence Durrell
“El Viernes pasado di una charla en la Sala Manuel Padorno sobre la importancia de la literatura insular y su espacio en el mundo literario actual. Pude presentar los siguientes proyectos en los que he trabajado y colaborado estos años para la difusión de la literatura insular:
De izquierda a derecha la antología Poetas canarios en Buenos Aires (Ed La Máquina del Tiempo, Argentina), la antología Poetas de Islas Canarias (Ed La Otra, México), Las islas de los Secretos/ Ilhas dos Segredos (Ed Anroart, Canarias), la Revista Neo (Universidad de Azores), mi ensayo La isla Inventada (Ed Universidad Nacional de Irlanda) y la revista Magma (Isla de Pico, Azores).
Sigo pensando que es el momento de las islas en el mundo: en las islas trabajamos la poética de la relación, la creolidad, el mestizaje cultural, la universalidad… En esta época de globalización y uniformidad del pensamiento el concepto isla, ese punto de conciencia en el mar, puede ser una nueva de forma de proponer nuevos paradigmas culturales. Los archipiélagos somos conjuntos de territorios unidos por aquello que nos separa. Unidos por «aquello» que nos separa es nuestro estilo. Tenemos que seguir indagando. Quizá esté en las islas el secreto que hay que desvelar…
abrazos
Juan Carlos”

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17/02/2012

POE-ÉTICA (02)

por cam

[continuado daqui]

Frente à morte e pela morte. Em cada um de nós (potenciais assassinos), ficam impedidas as duas possibilidades, a de ser vítima e a de ser verdugo, por obra da morte: um (a vítima), deixa de ser; o outro, será já igual a si mesmo, ficará identificado e coisificado pela morte que escolheu, convertido num estereótipo penal, o assassino. Esta primeira vertente simbólica que deriva da análise do romance policial, diz-nos que a vontade de um indivíduo mantém sempre aberta a possibilidade do injustificável – entre todos nós, há alguém que decide ser o criminoso, e esta decisão que o condena confirma-o, também, como sujeito livre. Já se disse que todos os crimes se cometem em nome da liberdade: em termos de uma determinada consciência ética, assim é: não há liberdade sem crime. Porém, o mesmo romance detectivesco clássico reproduz no seu próprio mecanismo a garantia de que a responsabilidade moral não deve chegar a ser imputabilidade arbitrária. No romance procura-se o culpado, não um culpado. O nervo próprio do género é a negação do ordálio, o capricho ou bode expiatório. A coacção social pretende recompor a ordem social quebrada; mas o detective não alinha na procura do rasto da vontade do mal. O que faz grande um detective é a sua intuição de uma autêntica objectividade. Os mais originais e aparentemente caprichosos formaram o seu génio na luta contra a generalização apressada e contra os juízos apriorísticos. O velho detective atreve-se à descoberta do singular, do irrepetível. Contra os ditames do senso comum, da simples doxa, o grande detective reclama-se da lógica pura, a instância menos sujeita à superstição popularucha e ao referendo. Ou seja, defende Savater, o género detectivesco clássico consiste na simbolização dramática da liberdade moral do homem e da imparcial objectividade da justiça.

Ao romance detectivesco clássico chamou-se romance de mistério e Savater defende que o mistério é a sua razão de ser, o seu traço fundamental. Gabriel Marcel, lembra Savater, distingue entre «problema» e «mistério»: os «problemas», são aquilo que a nossa intervenção activa pode resolver, como a fome ou o analfabetismo; os «mistérios», apenas podem ser apresentados e vividos, mas não resolvidos, como o sagrado, a morte ou o amor. Poder-se-ia então aceitar que o romance detectivesco seria melhor qualificado como «romance-problema»; mas não, contraria Savater: para além do problema tem de haver um mistério. Poder ser, como se disse, o injustificável e a liberdade. Porque é mistério o que pressentimos dentro de cada homem, a capacidade enigmática do sublime; ou, então, um dos diferentes “eus” que cada um esconde em si e que se decide romper o velho pacto que nos une contra a fera. O detective, então, avança por entre a névoa em direcção a um rosto desconhecido do qual apenas sabemos que se assemelha a nós. E depois o calafrio delicioso ao sentirmos a sua mão firme que nos arrasta, enquanto uma voz nos diz ao ouvido: «Vamos, Watson, a aventura está a começar!»

10/02/2012

POE-ÉTICA (01)

por cam

Aconchego na minha mesa de trabalho Pessoa, Borges e, agora, Savater. Tudo, todos, por causa própria, mas que ambiciona ser pública: um romance, à falta de melhor termo, que joga (brinca) com a sucessão dos acontecimentos, a ordem das causas e das consequências, a natureza do real e da ficção, o lugar da escrita e da leitura, a revolta do tempo, espelhos, um ou mais assassinos num edifício de três andares…

Este romance ainda sem nome está a ser escrito desde 2007 e só a meio do ano passado deixei nele entrar o Pessoa, o das novelas policiárias (Quaresma, Decifrador), e o Borges (sobretudo quando ele reflecte sobre a literatura policial), em parte pela mão do seu biógrafo Volodia Teitelboim – e ainda virá o Pessoa dos Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal (edição de Richard Zenith), o dos Escritos sobre Génio e Loucura (edição de Jerónimo Pizarro), e o sempre presente Bernardo Soares e… chega, se não, não há romance; e o filósofo espanhol Fernando Savater. Este veio de uma releitura de Los Cuadernos del Norte (Revista Cultural de la Caja de Ahorros de Asturias), e, no número de 1983, dedicado à “Novela Criminal”, entre as páginas 8 e 11 lá está o artigo do filósofo: “Novela detectivesca y conciencia moral (ensayo de poe-etica)”. Metade do artigo é preenchido com uma discussão sobre os chamados romance detectivesco e romance negro – e Savater inclina-se para o primeiro. Lembra também, que o primeiro tem como arquétipo clássico o “Rei Édipo” e o segundo “Orestes” ou mesmo “Filoctetes”. Mas ele, no fundo, crê – e eu alinho – que a questão não é de géneros mas de individualidades.

A segunda parte do breve ensaio coloca as questões que mais me interessam neste contexto da minha escrita. Diz ele, que o romance detectivesco parte de uma perplexidade para chegar a uma culpabilidade: da esfinge ao descobrimento do crime, tal como em Édipo. Desde sempre – e para sempre – os indivíduos têm de escolher entre o mal e o bem, entre a virtude e o crime, indiferentes às épocas e aos regimes políticos, como se se tratasse do primeiro dia da história. Para conservar a independência e liberdade do indivíduo, é preciso reconhecer-lhe a capacidade de cometer o indesculpável, o injustificável. O detective começa a sua investigação pela mais terrível e transcendente verdade: qualquer homem tem bons motivos para matar um seu semelhante. A morte do próximo, essa expedita solução a que renunciámos socialmente para formar a comunidade, não deixa nunca de lançar-nos o seu apelo. O romance é tanto melhor, pois, quantas mais personagens estão em condições e com disposição de matar. Há sempre uma vontade que se decide e dá o grande salto. A investigação procura juntar a decisão e o gesto que a cumpre num único agente livre, identificado perante a morte.

[continua]

03/07/2011

ERNESTO SUÁREZ

por cam

Na semana passada recebi do Ernesto Suárez dois dos seus livros de poemas – El Relato del Cartógrafo (1997) e La Casa Transparente (2007). Não tendo ofício de crítico (não tenho nesse campo de gerir qualquer “lugar”), procuro ler poesia como quem sai a passear por caminhos aleatórios e sem destino certo. Nas primeiras páginas de El Relato del Cartógrafo parei na pedra do caminho onde Suárez deixou à vista el ángulo exacto de nuestra derrota. Fui com isto até ao fim do livro e voltei, Los días se vuelven eternamente / lluviosos en este viaje hacia lo incierto / como el vuelo sin sueño de la aves / seguimos una ruta que lleva al abandono. O poeta interroga-se ¿cómo cifrar las regiones del desamparo? Talvez se descubram otras geografias (…) tenaz caligrafia / para el acabamento.

Em La Casa Transparente, o poema epígrafe diz que en la tierra de sal / yace mi cuerpo (…) sobre esta tierra de sal / sobre este redimido cuerpo de sal.

Seja. Voltarei a fazer o caminho, sabendo que está el poema en las hendiduras de la palavra.

11/05/2011

BONS VIZINHOS

por cam

No fim de Abril, como aqui deixei registado, recebi o número 1 da “revista de literaturas ibéricas” SUROESTE, editada pela Junta de Extremadura e Diputación de Badajoz (Espanha), com direcção de Antonio Sáez Delgado. Como faço de vez em quando – porque por cá os editores se organizam por capelinhas a que não pertenço, nem às deles nem a outras – como por vezes faço, dizia, enviei alguns dos meus últimos livros para a Suroeste. Ontem, fiquei espantado com o “retorno”: parte de uma belíssima colecção de livros de poesia, conto e crítica.

Eis os títulos e autores dessa obras, sem mais:

» Pequena Antología de Poetas Portugueses, de Enrique Díez Canedo, uma caixa que contém um exemplar facsimilado da edição da Excelsior, Paris, publicada entre 1909 e 1911, dedicatória manuscrita a Teixeira de Pascoaes (este livrinho tem as dimensões de 8×11 centímetros), com 176 páginas. Espero que a fotografia aqui dê para ficar com uma ideia. Na mesma caixa, um estudo de Antonio Sáez Delgado: Enrique Díez Canedo Y la Literatura Portuguesa. Edição de 2010.

» Ada salas y Jesús Plancencia: Ashes to ashes. Catorce poemas a partir de catorce dibujos a partir de T.S. Eliot (Colección Vincapervinca), 2010

» Alonso de la Torre: La frontera que nunca existió (crónicas), Editora de Bolsillo, 2007

» Andrés Trapiello: Oficio parvo (Antología poética), 2006

» Eduardo Pitta: Y si todo, de repente? (Antología Poética 1974-2004), Colección Letras Portuguesas, 2011 [Pitta integra, com outros portugueses, o Conselho Assesor da Suroeste]

» Luiz Sáez Delgado: Un duelo privado. Notas sobre el exílio como literatura de viajes, Colección Ensayos Literarios, 12, 2004

» Manuel Abacá: La mesa puesta (contos), Colección La Gaveta, 2010

» Manuel Vicente González: Flaco landuchi (poesia), 2010

» Urbano Pérez Sánchez: Del tiempo, los cambios (poesia), 2010

 

Todas estas obras são editadas pela Editora Regional de Extremadura, Junta de Extremadura, Consejeria de Cultura y Turismo.

Os grafismos são excelentes – capas e paginações, de um extremo bom gosto e tecnicamente muitíssimo cuidadas. Um excelente cartão de apresentação. Vou ler – leitura para vários dias… Aproveito para o agradecimento público.

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28/04/2011

SUROESTE: BONS VENTOS DE ESPANHA

por cam

Recebi ontem o número 1 da “revista de literaturas ibéricas” SUROESTE, editada pela Junta de Extremadura e Diputación de Badajoz (Espanha), com direcção de Antonio Sáez Delgado. O conselho de redacção e o conselho editorial têm em saudável equilíbrio entre portugueses e espanhóis.  

Vou ler. Para já, destaco a excelente “lâmina” (hors-texte) do Luís Manuel Gaspar, poeta e artista plástico responsável por uma obra (notável) que recusa (digo eu) os escaparates do novo-riquismo, onde diariamente se constroem génios, especialmente dessa coisa chamada literatura. Um abraço, Luís.

Destaco também o grafismo geral. E, finalmente, mas não menos importante, a edição, propriamente dita. O poder político pode, às vezes, fazer bem à cultura. Este é um bom exemplo, que as nossas câmaras e governos regionais poderiam seguir. Durante 5 anos, dirigi, com a Sara Santos, nas Lajes do Pico, a revista Magma (graficamente bem mais modesta do que esta), veio um novo poder político, pimba e analfabeto, e a coisa finou-se. Espero que não suceda coisa semelhante a esta bonita SUROESTE.

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