Posts tagged ‘Edição de livros’

27/08/2012

Portugal Zero, Brasil

por cam

Lido ontem no blogue da editora Oficina Raquel, do Brasil: «A editora Oficina Raquel afirma-se cada vez mais como uma grande divulgadora da literatura portuguesa no Brasil. No contexto do Ano de Portugal no Brasil, que terá início em setembro de 2012, a Oficina editará quatro títulos. (…) Os outros dois títulos são de poesia: Carlos Alberto Machado e João Luís Barreto Guimarães, destacados poetas portugueses, dão continuidade, nos primeiros meses de 2013, à coleção Portugal 0, coordenada pelo editor da Oficina e também professor de literatura portuguesa da UFF Luís Maffei. Desde 2007, Portugal, 0 edita no Brasil nomes destacados da poesia portuguesa recente, e já lançou, desde então, cinco títulos, o último dos quais dedicado à poesia do exitosíssimo valter hugo mãe. A coleção é sinal de que a Oficina Raquel se interessa pela literatura portuguesa há mais tempo que uma moda. Os livros editados no contexto do Ano de Portugal no Brasil pela Oficina têm apoio da DGLB, Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.»

03/08/2012

A solidez da oficina e não só

por cam
Do Cabrita, com a mais do que devida vénia:
« Mais um “quatro estrelas em cinco” foi atribuído a um livro meu, na curta mas bem dominada crítica de Hugo Pinto Santos ao meu livrinho de contos Ficas a Dever-me uma Noite de Arromba. Pode ler-se aqui .

O que importa registar é que com tal acumulação de “quatro em cinco” nos últimos anos eu devia viver na Califórnia e ter dois dobermans no jardim. Prescindo bem da Califórnia. Mas já mói o que Hugo Pinto Santos repara no seu texto: «Poeta, ficcionista, ensaísta, António Cabrita editou (só em 2011) um título em cada uma das áreas, respectivamente Não se Emenda a Chuva, O Branco das Sombras Chinesas (outro “quatro estrelas em cinco”), e Respiro (faltaria aqui o meu romance no Brasil, nomeado para finalista da Telecom, e que vai ser editado pela AbYsmo). Que essa produção tenha sido acolhida com um silêncio quase total, eis o que se pode lamentar ou tentar inverter.» Não há nada a inverter. Não creio que Portugal possa ser um país menos mesquinho, menos desatento, menos cretino, mais justo do que é. Vejo as dificuldades com que o Carlos Alberto Machado vive no Pico, sendo talvez o dramaturgo da sua geração, e com a gaveta cheia de excelentes inéditos de ficção que não consegue colocar, vejo como rebolam todos agora diante do Rentes de Carvalho quando o silenciaram durante décadas e só porque felizmente agora o Rentes agora publica numa editora que conquistou uma boa relação com os media (se os “mesmos livros” do Rentes saíssem, por exemplo, na Afrontamento permaneciam no mais absoluto limbo), vejo como o Grabato Dias, um génio, continua a ser absolutamente desconhecido, sem que ninguém morra de vergonha por isso, vejo como o Manuel da Silva Ramos, uma das maiores imaginações-em -acto que conheci na vida (e já conheci algumas) continua a ser menosprezado, vejo como o Paulo José Miranda, o primeiro Prémio Saramago, e um talento total, tem tido uma carreira absolutamente acidentada apenas porque editou os primeiros livros na Cotovia, editora que nunca acolheu as preferências dos media apesar dos bons livros que editava, vejo como o Henrique Fialho continua sem editora para a sua produção profícua e inteligentíssima – e sei: nada há a esperar de um país cujos azimutes são subterrâneos. Até ao fim de ano tenho mais dois livros para sair, dois em Moçambique: «Para que Servem os Elevadores e outras indagações literárias», ensaios, pela Alcance, e «Inventário de Todos os Passos em Falso», uma antologia poética, também pela Alcance. E preparo, com essa excelência oficinal que o Hugo Pinto Santos me atribui, e cito: «Estas ficções de ambiência moçambicana, com personagens de carne e osso, distinguem-se pela disciplina da frase e pela boa gestão dos recursos à disposição – “O mar é o grampo que segura aquela casa de madeira à duna”. Dir-se que “grampo” é a palavra chave mas a chave deste como de outros achados de António Cabrita está antes na solidez da sua oficina, e não em qualquer truque isolado». Fico contente que ele note, que por detrás da transparência da escrita as articulações sejam sólidas. Ainda que pense que esta mesma solidez seja o que assusta quem prefere silenciar-me. Não tem mal, com a consciência oficinal que adquiri e a certeza de uma grande disciplina no trabalho sei que preparo para o ano que vem uma fornada de “cinco em cinco”, porque quando se persiste e não se deixa o talento à deriva é natural que as coisas cresçam. Vai ser tudo publicado no Brasil. Portugal que se foda. Entretanto, chama-me a Jade da banheira: «Bela Adormecida, chaleira…» (em Moçambique não é líquido que os elevadores ou os termo-acumuladores funcionem), e repisa, visto que não lhe respondo logo, «… então, Bela Adormecida, a chaleira…». Tenho uma filha de cinco anos que me chama – por carinho, não por desrespeito – Bela Adormecida. Melhor coisa não há… é isto e a escrita. »

11/05/2012

VIAJAR DE SI PARA SI

por cam

O senhor Vasco Teixeira, “patrão” da Porto Editora, afirmou numa entrevista (ao jornal Público, em Novembro de 2010, salvo erro): “Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, eu dir-lhe-ei que não. Quando muito teremos algumas edições artesanais. (…) E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares, que os amantes de poesia comprarão.” Deve ter sido para “acabar de vez” com a poesia que o sôr Teixeira comprou, entre outras editoras, a Assírio & Alvim. Também deve ter sido por estas e por outras malandrices que surgem cada vez mais “edições artesanais” de poesia. Boas. Não sei se todas fazem edições de apenas “30 ou 50 exemplares”, mas o sôr Teixeira terá razão quando diz que “que os amantes de poesia [os] comprarão”. Longa vida ao camarada Teixeira! (sem poesia vive-se mais tempo, pensará ele e os que o apoiam…). Viva! Pum!

“Capitais”, livro de poemas de Paulo Tavares, foi editado este ano pela Artefacto (não está impresso o nome mas foi mesmo assim que eles quiseram), pequena editora sediada na Guilherme Cossoul, em Lisboa, antiga e veneranda sociedade recreativa de bairro que muito e bom teatro nela fez nascer. A tiragem é de 200 exemplares (‘tá a ver, sôr Teixeira, ainda está longe a sua metazinha de apenas “30 ou 50 exemplares”…) Para “os amantes de poesia”, já se vê (seremos assim tão poucos?).

O viajante por capitais da velha Europa tem “guardada num / minúsculo compartimento, a terra natal, / o país onde o mar se transformou / num mausoléu para adoração à distância / e as margens em ancoradouros balneares.” Na viagem, mesmo que ela esteja longe de ser a romântica viagem de educação (sentimental e outra, mas sempre iniciática, como todas as viagens são, e as que se fazem ao interior de nós mesmos não são excepção), há uma “sobreposição dos elementos: / história, ficção e tudo o que lá cabe.” Numa das paragens, o viajante abre “o quarto a um obsessivo foco / de luz cartesiano: estou vivo, existo, / e a realidade surge, tantas vezes, como / um aspecto secundário a essa constatação.” Mas pode hesitar nesta constatação: “quem nos dá, / afinal, classificação negativa / na competência de estar vivo?” Na exposição à viagem (viajar é algo a que nos expomos, saber até onde aguentamos a fuga – de nós e dos outros – em simulacros de aproximação ao outro, ao outro de nós), sob o efeito de um “copo cheio / de álcool nórdico” acontece também ao viajante apanhar um soco “sem defesa e logo um pontapé / se vem alojar entre as vértebras”; “a dor mais funda, porém, /será sempre de outra ordem: / rasurar da memória o motivo / da porrada e a face oculta de / quem nos apanha desprevenidos.”

Viaja-se entre “estruturas de penumbra”, as ruas a servir “os referenciais do esquecimento / que crescem nos poros / das grandes estruturas vivas.” – as Cidades. E nós nelas.

A poesia é (também) isto: viajar por entre as palavras, tão inseguros como numa viagem para o desconhecido. Que é sempre.

(coisa que o sôr Teixeira nunca descobrirá – também não lhe interessa).

04/05/2012

ANJO DE EMPRÉSTIMO

por cam

Digam o que disserem sobre os poemas em órfãs folhas A4 ou na frente fria de um ecrã de computador, um livro, as folhas presas e uma capa que as envolve, essa coisa tão simples e despretensiosa continua a ser a casa perfeita dos poemas. E agora (finalmente!) que vejo os do Fernando Machado Silva, querido amigo, encadeados em livro, a sua “primeira viagem”, não escondo o sentimento: é um belo livro, por tantas e tão várias razões que não me chegará, tenho a certeza, a arte e o engenho para as dizer (a partir daqui, a quem não gostar de escolhas do coração e de adjectivações do belo aconselha-se a interrupção da leitura – poupamo-nos).

De um lado e do outro da palavra, os gostos variam, não raramente envolvem-se em escaramuças. No meu caso, seguramente por severas razões autobiográficas, tenho muitos gostos na poesia, até aparentemente opostos. Se me deixa sem palavras a secura de um poema, certas rasuras que parecem vir de outro patamar de conhecimento ou existência e a ele inevitavelmente hão-de regressar, também facilmente me deixo levar nas águas doces de uma boa “canção”, daquelas que tolamente se trauteiam, quer em noites de embriaguez (vínicas, amorosas ou outras), quer por toda a vida fora. Alguns dos poemas do Fernando são destas “canções de trautear” (mas não de trottoir), dolorosamente simples, já perto daquela simplicidade que namora outros voos – quem sou eu para saber se os alcançou!

O núcleo forte dos poemas deste primeiro livro do Fernando (porque me parece que ele poderia ter retirado alguns, poucos, sobretudo do início), são aqueles, a grande maioria, em que os versos, com uma sintaxe ao “ritmo do coração”, se estendem em aparente prosa, com sobressaltos como o da mulher “com olhos de horizontes distorcidos” que, não fossem os “ataques epilépticos da cadela” e mais umas tantas infelicidades, “por pouco era feliz”. Há nestes poemas o quotidiano melancolicamente observado, mas há sobretudo o seu de ficar só, com o horizonte cortado pela ausência da amante, ausência real ou imaginária, mas sempre e só dele, como quando “enforcava os meus dias entrançando os cabelos” e a única saída que vislumbra para começar de novo é “talvez deixar a porta aberta” – embora ele bem saiba que “a dor é uma propriedade privada”.

O poeta precisa de “um anjo de empréstimo”, mas ele surge apenas uma vez, embora se busque, ou se espere, sempre – depende das portas que fecham e abrem.   

Há muito corpo nesta poesia. Os corpos dos amantes que se enlaçam ou se abandonam, mas também o corpo idealizado como metáfora de uma felicidade que, paradoxalmente, parece não se desejar atingir. “Partiram-me uma vez o coração / e deliberadamente desci a escadaria da pouca saúde / para perceber no fim / que o que separa um remédio de um veneno / é somente a dosagem / agora / se mo partirem de novo / depois de colado / peço apenas que o façam rápido / e me deixem em paz / então / poderei assistir a uma última sessão /e chorar pela primeira vez / se não houver bilhetes / eu cá me arranjo / e me entendo com a morte”   

Nesta poesia – como em toda a poesia – “ficou aqui uma vez mais / tudo por dizer”: não é uma desistência, é o caminho que não tem, não pode ter, fim.

[ primeira viagem, de Fernando Machado Silva, edição Orfeu, Bruxelas, 2010 [2012], 74 páginas, 8 € (+ portes de envio), pedidos para: fernandomachadosilva79@gmail.com ou orfeu@skynet.be ]

27/03/2012

LIVROS & COMPANHIA

por cam

Estive em Lisboa, onde participei no Dia da Poesia do CCB (leitura e exposição de manuscritos).  Voltei com livros de poesia: Poemas de despedida, vol. VII, seguido de 7 poemas, plaquette “doméstica” do Fernando Machado Silva, Resumo, a poesia em 2011, antologia (oferecida…) dos melhores de 2011 FNAC/Assírio, aliás, Documenta, de que gosto muito pois dela sou sistematicamente excluído, Rui Noronha (poemas gravados em CD), Má Raça, do Alex Gozblau e do João Paulo Cotrim, e 5 pequenos livros de Carlos Mota de Oliveira (edição de autor).

Na casa do correio tinha à minha espera as ofertas Câmara Escura. Uma antologia, da Inês Lourenço, e Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo e K3, ambos do Nuno Dempster.  Boas companhias, portanto.

01/03/2012

QUARESMA DECIFRADOR (01)

por cam

Como se sabe, a arca de Pessoa não tem fim. A dita tem um encantamento mágico que faz com que os seres que lhe tocam se desdobrem noutros seres, e sempre assim, até ao fim dos tempos. A arca existiu mesmo antes de Pessoa e a heteronomia deste é tão só um produto, exuberante, do encantamento.

Cada pesquisador da obra de Pessoa & Cia. queda vítima do processo mágico. Conhecem-se mal os resultados do encantamento nos pesquisadores, apenas podemos deduzi-los dos inumeráveis duplos que se produzem em torno e a partir de Pessoa lui-même, ao ponto de ser razoável questionarmo-nos se este na verdade existiu ou se é apenas uma imagem fantasmática de um qualquer ser original que nunca conheceremos. Duplos de duplos de duplos, sobreposições quânticas de universos possíveis.

Ana Maria Freitas é mais uma “vítima” do encantamento da arca. Para nós, ingénuos leitores afastados da arca-mãe, é uma dádiva o que ela nos traz nesta variação heteronímica, nada mais, nada menos do que um Pessoa escritor de novelas policiárias. Freitas chama-lhe “Quaresma Decifrador. As Novelas Policiárias” (volume de quase 500 páginas publicado em 2008 pela Assírio & Alvim). Estas novelas, 13, foram escritas durante décadas, terminaram com morte de Fernando Pessoa e ficaram todas incompletas. Freitas dá-nos conta desta particularidade historiográfica: “Em Durban começou a escrever histórias policiais, primeiro «Detective Stories» e, depois, «Tales of a Reasoner». “Como figura central criou um detective infalível, de acordo com as regras do policial: o ex-Sargeant Byng, alcoólico, raciocinador, incompetente para a vida quotidiana.” (sublinhado meu). As novelas agora reunidas giram em torno do decifrador e raciocinador infalível Abílio Fernandes Quaresma, solteiro, maior de idade e médico sem clínica. É o “próprio” Pessoa que nos diz dele: “Morava num 3º andar da Rua dos Fanqueiros, num pequeno quarto, desarrumado, com uma janela aberta para os telhados, por onde entrava a luz de Lisboa. Considerava-se um decifrador de charadas. Vivia no seu quarto, num estado de semi-doença indefinida, vegetando embrulhado numa manta e lendo. Deixava perceber, por um ligeiro tremor e pelos dedos amarelados, as marcas dos seus dois vícios, o alcoolismo e o tabaco.” Um “incompetente para a vida. Sonhador, fechado num alcoolismo impenitente e num raciocínio automatizado, Quaresma vagueia pela Lisboa de Bernardo Soares, ao sabor de um devaneio lógico. Um tipo indeciso de asceta da Baixa. A clareza mental atingiu nele o delírio.”

[continua

15/01/2012

POESIA 61 HOJE

por cam

Recebi do Brasil, na Sexta-Feira 13, o livro colectivo, organizado por Jorge Fernandes da Silveira e Luís Maffei, Poesia 61 Hoje, da Oficina Raquel (Rio de Janeiro, 2011). Obrigado, Raquel. Obrigado, Luís.

Eis o Prefácio e Sumário:

30/12/2011

O PÊNDULO DE MICHELSTAEDTER

por cam

Finalmente vou ler Carlo Michelstaedter, o jovem filósofo italiano autor de A Persuasão e a Retórica, livro que me chegou hoje de Espanha. Michelstaedter era para mim um desconhecido até ler, há muitos anos, o texto de Eduardo Prado Coelho “O ensaio em geral”, inserto n’O Cálculo das Sombras (ASA, 1997). Prado Coelho refere-se a ele quando aborda o “lugar do ensaio num mundo que surge como que alienado pelo predomínio de uma cultura estética em que a exigência de verdade e o peso das motivações profundas se foram progressivamente dissolvendo.” (p. 30).

Para o autor de A Mecânica dos Fluídos e O Universo da Crítica, Michelstaedter descreveu como ninguém “com tanta veemência (por palavras e actos trágicos) esta situação.” (p. 31). Sigo EPC (pp. 31-32): Carlo Michelstaedter, nasceu em 1887 em Gorizia e estudou em Florença. Suicidou-se a 16 de Outubro de 1910, no dia seguinte àquele em que redigiu os apêndices críticos da sua tese intitulada La persuasione e la retórica. O seu trabalho abre com uma imagem que tem vindo a tornar-se famosa: o pêndulo. Para Michelstaedter, um pêndulo que esteja suspenso de um gancho move-se por um desejo intenso de tocar o ponto mais baixo: que seria aquele em que viria a coincidir consigo mesmo, definitiva e solarmente persuadido da sua própria verdade. É esta a «sua fome de mais baixo». Mas entregue a si mesmo o pêndulo oscila, balança, agita-se numa interminável circularidade de movimentos, em que cada ponto que ele atinge é um ponto em que falha o ponto mais baixo que pretendia atingir. Deste modo, «sempre o domina uma igual fome do mais baixo e infinita lhe resta para sempre a vontade de descer.» Mas se alguma vez pudesse atingir esse ponto (o ponto em que, persuadido de uma verdade única, deixaria de estar submetido à oscilação do processo de persuasão, isto é, ao movimento incessante da retórica), ele deixaria de ser o que é: um peso – «quando mais nada lhe faltasse – mas fosse finito, perfeito: se se possuísse a si próprio, ele teria deixado de existir». A verdade absoluta como limite inevitável da persuasão é não apenas a morte da linguagem (ou a morte de uma linguagem dominada pela retórica) como a morte da existência humana. Mas a sua vida enquanto vida é também insatisfação absoluta, vazio radical: «la sua vita é questa mancanza della sua vita». Donde, o pêndulo está condenado à oscilação (ou, se quiserem, à cultura estética dominada pelo oscilação retórica): «O peso é para si próprio impedimento de possuir a sua própria vida e não depende de mais ninguém senão de si na sua impossibilidade de se satisfazer. O peso não poderá nunca ser persuadido.» O seu destino é abandonar-se ao eterno jogo das aparências e das sombras, colorido pelas manchas vagabundas da pintura impressionista, fragilizado pela derivação psicológica, impulsionado pela orgia dionisíaca de raiz nietzschiana. (o Eduardo Prado Coelho morreu há quatro anos e sempre que leio um dos seus textos não quero aceitar que tenha morrido).

O livro que vou ler é uma edição de 2009 da sextopiso (Espanha/México), com apresentação de Miguel Morey e prólogo e notas de Sergio Campailla. Textos complementares de Claudio Magris, Massimo Cacciari e Paolo Magris.

27/12/2011

4 A FÁBRICA

por cam

«4 A Fábrica – é um novo espaço, em Lisboa, onde se cruzam a promoção e comercialização de ilustração e desenho, livros de artista, e de um modo geral obras de arte e edições de autor originais ou com tiragem limitadas. E convive, no mesmo espaço, com o atelier de pintura de Teresa Dias Coelho. Ponto de encontro de exposições, livraria dedicada à ilustração, lançamento de livros e workshops. Ao fim do dia misturam-se dois dedos de conversa, tertúlias ao sabor do vento, o aroma do café acabado de fazer, convivências e outras artes e aventuras. 4A Fábrica localiza-se no 4A da Rua João Anastácio Rosa, junto ao Jardim da Estrela, com a estátua de Pedro Álvares Cabral à vista.»

Inaugurou dia 13 deste mês com a «exposição de Ilustração que reúne as 40 ilustrações, de 40 ilustradores portugueses, que ilustram as 40 letras que Sérgio Godinho escolheu no seu percurso de 40 anos de canções. 40 Ilustrações mais 1 – a que Luís Afonso criou para dar nome à Abysmo, a editora dirigida por João Paulo Cotrim, responsável pela edição do livro «Sérgio Godinho e as 40 Ilustrações» Com esta exposição inaugura um novo espaço, em Lisboa, vocacionado para promoção e comercialização de ilustração e desenho, livros de artista, e de um modo geral obras de arte e edições de autor originais ou com tiragem limitadas. Com espaço de exposições, livraria dedicada à ilustração e lançamento de livros, dispondo de um acervo de trabalhos de vários artistas, 4A Fábrica é também um espaço onde ao fim do dia se misturam dois dedos de conversa, tertúlias ao sabor do vento, convivências e outras artes e aventuras.»

26/12/2011

O TEMPO DOS ASSASSINOS

por cam

Outro projecto que a miopia política assassinou: a revista Magma. Com direcção de Sara Santos e minha coordenação editorial, a revista era editada em regime de “carta branca”. Além de mim, coordenaram números: António Cabrita, Lélia Nunes e Luiz Antonio de Assis Brasil, Judite Jorge e Mário Cabral, Urbano Bettencourt.

Publicaram-se 7+1 números: do zero (Maio de 2005), ao 7 (Dezembro de 2008), com Separatas do zero ao 4.

Participaram nos 7+1 números, dezenas de autores, repartidos pela poesia, conto, teatro, ensaio e tradução, de Portugal (mainland, Açores e Madeira), Brasil, Cabo Verde, Espanha (Canárias) e Moçambique.

Na fotografia aqui à vista, estão as capas dos números zero e 1, com as respectivas Separatas, a do zero com Avulsos por Causa (poesia), de Renata Correia Botelho, e a do 1 À Flor do Mar (crónicas sobre livros), de Inês Dias.

Eis a lista dos participantes da Magma, para “memória futura”:

Abel Neves, Albano Martins, Alberto Pimenta, Alexandre Borges, Alexandre Dale, Altair Martins, Amilcar Neves, Ana Francisco, Ana Hatherly, Ana Maria Fagundo, Antidio Cabal González, Ana Marques Gastão, Ana Paula Inácio, Andes Chivangue, Ângela Correia, António Cabrita, António Godinho, António Olinto, Armando Artur, Carlos Alberto Machado, Carlos Bessa, Carlos Henrique Schroeder, Carlos Nogueira Fino, Carlos Tomé, Carlos Urbim, Carol Bensimon, Celso Gutfreind, CEPiA, Charles Kiefer, Christina Dias, Claudia Gelb, Claudio Daniel, Cleci Silveira, Daniel de Sá, Diego Grando, Dilan D’Ornellas Camargo, Dom Midó das Dores, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Nasi, Elis Cruz, Fernando Guerreiro, Fernando Neubarth, Fernando Paixão, Fernando Rozano, Fernando Silva, Ferreira Gullar, Flávio José Cardozo, Francisco Cota Fagundes, Frank X. Gaspar, Gabriela Funk, Gabriela Silva, Gilberto Perin, Gonçalo M. Tavares, Helder Moura Pereira, Hoyêdo de Gouvêa Lins, Inês Dias, Inês Lourenço, Ítalo Ogliari, Ivette Brandalise, Ivo Machado, J. Michael Yates, Jacinto Lucas Pires, Jaime Rocha, Jaime Vaz Brasil, Jane Tutikian, João Almeida, João-Luís de Medeiros, Joel Neto, Jorge Adelar Finatto, Jorge Fazenda Lourenço, Jorge Gomes Miranda, Jorge Louraço Figueira, José Agostinho Baptista, José de Sainz-Trueva, José Eduardo Degrazia, José Luís Hopffer Almada, José Luís Tavares, José Maria Carreiro, José Miguel Silva, José Viale Moutinho, Juan Carlos de Sancho, Judite Jorge, Júlio de Queiroz, Laerte Silva, Laís Chaffe, Leatrice Moellmann, Lélia Nunes, Leonardo Brasiliense, Lúcia Helena Marques Ribeiro, Luciana Veiga, Luis Carlos Patraquim, Luís Dill, Luís Filipe Borges, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Paulo Faccioli, Maicon Tenfen, Manuel de Freitas, Marcela Costa, Marcelo Passamai, Marcelo Spalding, Maria Aurora Carvalho Homem, Maria João Cantinho, Maria José Marques Figueiredo, Mariana Matos, Marie-Amélie Robilliard, Mário Cabral, Mário Lúcio Sousa, Mario Pirata, Marô (Maria Eunice) G. Barbieri, Monique Revillion, Nelson Saúte, Nuno Costa Santos, Nuno Moura, Olsen Jr., Onésimo Teotónio Almeida, Osmar Pisani, Paulo da Costa Domingos, Pedro Eiras, Pedro Fevereiro, Pedro Javier C. Garcia, Pedro Stiehl, Renata Correia Botelho, Renato Tapado, Ricardo Silvestrin, Rodrigo de Haro, Roger Cardús Juvé, Rogerio Manjate, Rogério Sousa, Rubem Penz, Rubens da Cunha, Rui Pires Cabral, Rui Sousa, Salomão Ribas Jr, Semy Braga, Sergio da Costa Ramos, Sidónio Bettencourt, Silveira de Souza, Sílvia Pinto Ferreira, Silvina Rodrigues Lopes, Sónia Bettencourt, Sulivan Bressan, Suzana Mafra, Tiago de Faria, Tiago Prenda Rodrigues, Tiago Rodrigues, Urbano Bettencourt, Valério Romão, Valesca de Assis, Vamberto Freitas, Victor Rui Dores, Vinícius Alves, Vítor Nogueira, Volnyr Santos, Walter Galvani e Zenilda Nunes Lins.

 

23/12/2011

QUE O NATAL VOS SEJA DOCE…

por cam

Leio O Branco das Sombras Chinesas, de João Paulo Cotrim e do António Cabrita, das novíssimas edições Abysmo (Setembro de 2011). Foi o livro inicialmente um “folhetim a meelas (…) servido em outro diário, este nosso Diário de Notícias, à razão de duas doses semanais, durante o Verão quente de 2001 (de 2 de Julho a 28 de Agosto), faz agora uma década de misérias (…)”. Agora, esta edição, toda impressa em azul forte, tem 78 páginas – incluindo as 16 das ilustrações de João Fazenda – as folhas em dobra simples e cozidas como se fosse um único “caderno” e sem aparas no sobrante da dobra.

Cotrim e Cabrita agarram pelas ventas o boi da língua, e talvez o inverso, e fazem com a literatura umas belas tripas à moda… deles. Mas também não deixa de ser verdade, porque os leitores precisam de “bengalas”, que tem sim senhor uma estória: o protagonista – de início não tem nome, mas páginas andadas será nomeado por João David – que “detestava coincidências, simetrias, concordâncias”, desagrada-lhe ter de ir visitar o pai da sua “cara-metade”, a bela Mariana, coisa que agora ainda lhe custa mais depois que “Verónica, um belíssimo transexual, assentara arraiais no quarto 33 da pensão” (pensão que viremos a saber chamar-se Bizâncio, pertence a David e tem como empregado o impávido Negruras, angolano). Ficamos também a saber que o nosso herói a páginas tantas da sua história pessoal perdeu a consciência, coisa que não seria rara nele, já que a sacrifica com o “método de uísques sobre uísques”, e que então teria acordado no Hospital de Cascais “com um enorme remendo no lado esquerdo da cabeça”: uma orelha que se foi, não sabe, ou não se lembra, ele como. Ainda neste vertiginoso Capítulo 1, David entra no Pavilhão Chinês e atira uma pergunta espantada: “ – O senhor explica-me como é que tem ali a minha orelha?” Depois, Cotrim e Cabrita cavalgam capítulo sobre capítulo a estalo de língua: sucedem-se “episódios” rocambolescos onde não faltam citações literárias, filosóficas e existenciais, sempre a jogar em simultâneo nos cortes de uma espada de afiado duplo fio. E safam-se. Vamos com eles nos jogos de linguagem, no permanente non sense, na transgressão linguística, no arrepio de lógicas e de valores. Vale tudo: sacar orelhas, traficar em arte, corromper vereadores de câmara, matar papagaios, entrar em jogos cabalísticos, ouvir lengalengas de cegos, mortes provocadas por foices e martelos, Estaline e Lenine. Não digo mais – apenas que o nosso David sempre terá de se haver com “coincidências, simetrias, concordâncias”…

Que o Natal vos seja doce, caríssimos irmãos.

19/12/2011

CABRITA

por cam

Louca entrevista feita por Marcelo Ariel ao meu amigo António Cabrita (não resisto a reproduzi-la, com a devida vénia para a Revista Pausa (Brasil), que pode ser acessada por aqui):

 

«Fale um pouco da sua trajectória como escritor e roteirista.

Tive a primeira ejaculação prematura aos 17 anos, quando editei um deprimente livrinho de poesia social. Numa colecção que, em 1977, representava o movimento beat em Portugal. Com muitos copos, fumos, boémia e o culto dos surrealistas e de Ginsberg e companhia, procurávamos contrariar o sufocante militantismo marxista do país, nessa altura. Aí conheci um poeta mais velho, o Levi Condinho, uma gema libertária, que me educou na música erudita e no jazz e, com uma generosidade rara, me pôs a ler filosofia e a grande poesia europeia. O Levi foi o verdadeiro saca-rolhas da ebriedade poética que me tomou. O segundo grande encontro da minha vida foi o Al Berto, que conheci aos 18 ou 19 anos. Era dez anos mais velho que eu, e parecia um músico dos Yes ou dos Led Zepellin. O Al Berto chegava da Bruxelas, onde vivia exilado e trocou os pincéis (era um excelente pintor mas destruiu quase toda a sua produção) pela escrita. E insensatamente propôs-se gastar o pecúlio de uma herança fazendo livros. Editou 8 livros, antes de se aperceber do beco em que se metera, um deles o meu segundo livro, um poema de 18 páginas num caudal rimbauldiano e numa associação tão livre como a do pára-quedista que se descobre em queda livre.

Depois entrei na Escola de Cinema, onde durante o primeiro ano apanhei bonés. Aí fui aluno do poeta João Miguel Fernandes Jorge, um dos grandes do século XX em Portugal, com quem privei uns anos, e do encenador Ricardo Pais com quem viria a colaborar em vários projectos. A dado momento repararam que me safava a escrever diálogos e comecei a ser usado para as aulas e a ser disputado pelos cineastas para “negro” dos filmes deles. Um deles, o cineasta e encenador de teatro Jorge Silva Melo, dirigia uma colecção de teatro na Imprensa Nacional e perguntou-me se não teria uma peça de teatro. Aquilo cheirou-me a dinheirito e disse imediatamente que sim. Depois tive de escrever a peça em poucos dias. Ao mesmo tempo, também para a Imprensa Nacional, fui convidado para lá colocar um livro de poesia, um livro mais dominado que o anterior. Nessa altura a Imprensa Nacional fazia 3000 exemplares e pagava os direitos de autor por inteiro à cabeça. Como tive a sorte de publicar dois livros quase ao mesmo tempo, casei logo e a embriaguez, as lecas e o casamento duraram um ano. E tenho a certeza de que o sucesso me fez muito mal.

Acabado o curso, participei de algumas rodagens de filmes, mas rapidamente me dei conta de que preferia a solidão, um queijito, vinhito e um livro de poesia, ao frenesim de andar aos molhos a tentar papar a nova assistente do guarda-roupa ou de não falhar a linha de coca à saída do plateau. E em 83 passei-me para os jornais e revistas – JL (Jornal de Letras), O Jornal, Elle, Expresso – onde escrevia crítica de filmes e livros. Rapidamente, fui de novo convidado para fazer roteiros para filmes e séries documentais. A dado momento fiz parceria em vários roteiros com a escritora Maria Velho da Costa, Prémio Camões em 2000; mantendo paralelamente a minha actividade de jornalista cultural.

Depois de escrever inúmeros filmes, e de ficar invariavelmente em curto-circuito quando via o resultado final, resolvi ensaiar a ficção e em 1995 publiquei o meu primeiro livro de contos, Cegueira de Rios. Só em 1997 voltei à poesia, depois de uma situação de falência técnica que me obrigou a concorrer a um Concurso Literário, o Prémio Cesário Verde, que ganhei barbaramente e me aliviou de dívidas. Este livro, Carta de Ventos e Naufrágios é o primeiro livro de poemas que agora coloco na minha tábua bibliográfica, que omite os anteriores.

No ano seguinte publiquei As Cinzas de Maria Callas, 2º livro de ficção, que foi considerado pelo ensaísta António Guerreiro como um dos dez melhores livros portugueses do ano. Em 2000 editei Arte Negra, uma antologia de poesia, e envolvi-me nas edições como sócio e director editorial. Tive duas editoras – Fim de Século e Íman Edições – com as quais produzi e editei acerca de setenta livros, tendo experimentado o aveludado gosto de empobrecer feliz.

Ao mesmo tempo, meti-me no teatro e tive três peças em cena em Lisboa, uma delas, Nada do Outro Mundo, com digressões pelo país.

Em 2005, zangado com o descalabro comercial da Ímã, (apesar do excelente dossier de imprensa conseguido, o nervo comercial – as distribuidoras – não acompanhava o passo), resolvi abandonar o jornalismo e mudar de vida, e ir para Moçambique, terra de origem da minha mulher. Aqui tenho escrito filmes e séries televisivas, dado aulas na universidade, e escrito, com método e gana.

E desde então publiquei seis livros em Portugal, de poesia e prosa, com destaque para o Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo, contos, que teve uma excelente fortunata crítica, e de Não se Emenda a Chuva, de poesia. Há um mês publiquei uma novela policial, O Branco das Sombras Chinesas, escrita em parceria com o escritor João Paulo Cotrim, que acabou de ser destacado na última edição do Expresso, com 4 estrelas em cinco (suponho que o 5 irá para o Proust e o Lobo Antunes) e, nesta última semana, o ensaio poético Respiro. E mantenho um blogue há um ano, raposasasul.blogspot.com, onde só trato de literaturas.

Você vê algum entrelaçamento ou simbiose entre a imagem no poema e a imagem no filme?

O Pierre Reverdy já ensinou tudo o que havia a dizer sobre isso: «A imagem é uma criação do homem. Ela não pode nascer duma comparação mas duma aproximação de duas realidades mais ou menos afastadas. Quanto mais justas e afastadas forem as relações de duas realidades em aproximação tanto mais a imagem será forte – tanto maior realidade poética e poder emotivo conterá…»

Como se vê neste quadro de Chirico:

 

 Creio que para a poesia e o cinema isto continua a ser válido.

O que você pode dizer sobre a situação da cultura em Portugal, em Moçambique, e no mundo actual.

Nem no Xipamanine, o maior mercado informal de Maputo, encontraríamos lenha para tanta combustão. Bom, mas como na minha rua fica o quartel de bombeiros, tentemos. Acho que Portugal tem um painel de excelentes criadores neste momento – na literatura, no teatro e nas artes plásticas – mas que o quadro institucional é deprimente. Tenho curiosidade em saber como vai reagir o mundo do teatro aos cortes draconianos nos subsídios pois, historicamente, as crises geraram sempre movimentos relevantes no teatro, e espero que o estado de penúria incite ao aparecimento de uma nova geração que saiba esbofotear com qualidade. O movimento editorial está um caos e dominado por gente que não gosta de ler nem de livros, mas há muita gente a escrever e a qualidade média subiu. E os brasileiros tinham vantagem em perceber que o estereótipo do portuguesinho sisudo e muito sério não passa de um cliché, que há coisas muitas vivas a passarem-se na literatura portuguesa. O cinema está a ser desmantelado e a ser substituído por audiovisuais pouco estimulantes, i.é, iguais a todo o fastvídeo.

Em Moçambique o período é de hibernação na cultura, pois não é prioritário para os políticos. Mas há bolsas de teimosos que resistem e uma dúzia de escritores que não largam o osso e se obstinam. Emerge neste momento uma nova geração de qualidade na poesia, depois de 20 anos de marasmo que corresponderam ao igual período de tempo em que não chegou a Moçambique um livro. Literalmente. As artes-plásticas é a expressão mais forte, sendo, neste sector, uma das mais importantes de África.

Nomes absolutamente a reter, na literatura, e só falo dos vivos: João Paulo Borges Coelho, Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane, Luís Carlos Patraquim e Tânia Tomé. São as minhas escolhas.

A Maldição de Ondina, o teu primeiro romance, é um livro onde o amor é maior que a política, parece-me. Você concorda com isso, e porquê? Faço esta pergunta porque também eu sou vítima de um recorte reducionista que faz o recorte sociológico do que escrevo e penso que o mesmo acontece contigo.

E agradeço que o digas porque o sinto também: o amor é, nele, o primeiro motor. Em segundo plano gostaria que o livro fosse lido como uma homenagem à literatura, claríssima, desde o momento em que falo do incrível incêndio que devastou a biblioteca de Octavio Paz, a dois anos da morte, e que constitui o meu pesadelo desde sempre, até ao sonho delirante do protagonista com Jeanne Duval, a mulata que foi amante de Baudelaire. Só por último gostaria que as pessoas reparassem que o livro é também um thriller político – o que é apenas o pretexto. Mas sou obrigado a reconhecer, que como o livro oferece uma visão menos esperada sobre “a África dourada” que enxameia os imaginários românticos de meio mundo, talvez a dimensão política ressalte. Também eu, eivado por uma mentalidade de esquerda, aterrei aqui prenhe de paternalismo e em ruptura com “os racionalismos europeus”, para dar rapidamente conta de que afinal tinha lido mal O Pensamento Selvagem,do Lévy-Strauss. Como ele explica, o que se passa é que existem diferentes tipos de racionalismo e diferentes protocolos para a canalhice. Porque, assegura, o Ocidente não tem o exclusivo do mal.

Mas se o livro, o meu, tiver que sobreviver será pelos dois primeiros aspectos, I hope.

Você conviveu durante muito tempo com os maiores escritores-poetas de Portugal. Fale um pouco sobre esta convivência, em especial sobre a tua convivência com Herberto Helder e Al Berto.

O Al Berto era um poeta na vida e na escrita, uma criatura de uma alegria, duma intensidade humana e dum humor ímpares. Quem lidou de perto com ele, nos primeiros anos, antes da consagração unânime, não deixa de recordar a imaginação que punha no mais pequeno gesto, duma fantasia esfuziante. Contaram-me vários episódios com o Murilo Mendes que me faz pensar que seria do mesmo tipo. Uma vez o Al Berto foi a França a um encontro de escritores com a Agustina Bessa Luís, uma escritora mais velha que atraía o fascínio de todos mas cuja inteligência ferina causava um certo temor. E toda a gente a rodeava com paninhos quentes, com muito cuidado e reserva, pondo os lábios em bico e fazendo uso só de palavras elevadas. O Al Berto que estava na mesa com ela numa sessão pública deu conta de que o arranjo de rosas com que a organização havia decorado a mesa a incomodava porque a Agustina era baixinha e não via bem o público para quem lia. E então, espontaneamente, pegou no microfone e perguntou para o ar, no seu melhor francês, “alguém pode tirar daqui estas couves?”. Ficaram imediatamente amigos. Noutra ocasião, numa entrevista televisiva, perguntaram-lhe porque era ele homossexual, e ele respondeu, olhando o espectador nos olhos: «É um problema de hipotálamo, estou apaixonado pelo meu hipotálamo.» Por isso se tornou um ícone gay em Portugal, era absolutamente descontraído e natural na manifestação da sua sexualidade. E, ao contrário do que depois se tornou moda em Portugal, não associava à sua escolha sexual uma necessidade de proselitismo… Também a forma como morreu, as sua últimas entrevistas públicas, antes de o cancro o matar, foram um exemplo de dignidade e de coragem. Foi um homem tocado pela Graça, daqueles poucos de uma vida em quem reconhecemos uma pessoa plena. Aliás, era de tal forma irradiante a sua presença que nós, os amigos mais próximos, sentíamos às vezes ligeiramente aquém a sua poesia, que ganhou em densidade e fulgor com os anos. 

O Herberto é diferente. Frequentámos durante dez anos a mesma tertúlia e tivemos alguma comunhão e partilhas de livros e leituras. Havia um carinho mútuo, que ele quis “legitimar” quando espontaneamente aceitou colaborar na minha revista literária,Construções Portuárias, ele que sempre foi tão selectivo e cuidadoso. Mas era necessariamente uma intimidade muito diferente, um pouco mais contida, sobretudo por causa do seu temperamento que, embora caloroso, é mais intermitente e menos expansivo que o Al Berto.

Um aspecto curioso é que, apesar da alquimia profunda da sua linguagem, o Herberto alterna com grande à vontade a conversa sobre temas “nobres” e “espirituais” com o papo sobre coisas mundanas e quando está bem disposto e se solta o Herberto é capaz de grandes informalidades e adora uma boa conversa “entre homens” sobre sexo e mulheres.

Uma diferença separa estes dois poetas: o Al Alberto era um homem mais da vida, enquanto o Herberto é mais mallarmeniano, mais atravessado pelo livro; o Al Berto talvez fosse interiormente mais sereno que o poeta mais velho que é, surpreendentemente, mais inseguro. Mas há uma coisa em que o Herberto supera todos os poetas que conheci: é um homem permanentemente curioso, sempre em busca da perplexidade, que ama e não teme o novo e que quer ler tudo sobre tudo. Claro que como toda a gente também relê, mas ao Herberto galvaniza sobretudo o diálogo com a exterioridade e é nele que procura o seu lugar. Neste aspecto, o Herberto morrerá absolutamente novo.  

Você conhece o trabalho do cantor de rap Azagaia, em Moçambique, e o do cineasta Pedro Costa? O que acha da obra destes dois artistas, que de alguma forma utilizam a arte como um elemento de oposição política.

O Azagaia é um jovem corajoso mas que tem andado discreto nos últimos tempos, talvez por pressão política, como tem acontecido a muitos moçambicanos que começam como críticos intrépidos e depois ou são cooptados pelo partido do poder ou são vítimas de um ostracismo social e profissional terríveis. Ele já foi interrogado duas vezes pela Polícia Política e há poucos meses estenderam-lhe uma armadilha com droga para o desautorizarem. Penso que o seu sucesso é sobretudo urbano, pois é um jovem muito acarinhado pela imprensa da oposição, mas tem menor penetração nas camadas populares que têm uma mentalidade muito condicionada pelo mimetismo ou a coacção social. Como artista é muito ingénuo e tem muito a crescer, do mesmo modo que as suas letras, muito directas, ganhariam se ele fosse um leitor mais assíduo de poesia.

O Pedro Costa é de uma outra solidez. Fizemos juntos a Escola de Cinema, e sempre foi um tipo com uma visão e uma obstinação em persegui-la. O seu percurso, estético, político, ético, é exemplar e merece-me toda a estima. Neste momento será um dos faróis de referência de um cinema de autor que a frivolidade dos tempos e a ditadura dos mercados tende a sufocar e a denegrir na Europa. Mas como ele é um intransigente, quem vai ceder é o mercado, é uma questão de tempo. Veja-se o que se passou com o Manuel de Oliveira, que esteve 30 anos sem filmar. Devo ao Pedro três autores: Ramuz, Soupault e Elio Vitorini, e ele deve-me duas entrevistas aguerridas que lhe fiz nos jornais, e um poema que lhe dediquei, saído no Arte Negra:

 GINGAL, A MEIO CAMINHO DA SUA VIDA

                                     para o Pedro Costa

Entre eu e as luzes há um rio preto.

Imitação dos que extraviaram Ulisses

pela galhofa de deuses

cegos. Um rio preto.

Escrever é uma coisa tão pouca.

De umas vezes garantir fiado,

de outras amanhecer a medo

no rasgão que imprime a cidade

ao longe. Infindável rebentação.

Falo de uma insónia, claro,

dos olhos que desabrigam

lá dentro toda a memória,

quando se fica a roer um os-

so sob um céu de sépia

O Gingal é o longo cais que fica do outro lado do Tejo em Lisboa, e que está pejado de tabernas que eu e o Pedro gostávamos de frequentar.

Fale um pouco sobre a génese de A Maldição de Ondina e sobre o imbróglio burocrático que impediu a tua participação no Congresso Brasileiro de Escritores, realizado recentemente no Brasil.

A Maldição de Ondina nasceu como um conto largo que se foi apoderando de mim e espalhando as suas metástases. O romance assentou na sua quinta versão, depois de dois anos de reescrita. O editor, o escritor Nicodemos Sena, teve a paciência de as conhecer a todas. O livro rompe com os meus livros de contos anteriores que falavam dos ritos de passagem da infância e da adolescência. E passei dos cenários urbanos de Lisboa e arredores para a realidade moçambicana. Levei três a autorizar-me escrever alguma coisa, na ficção, sobre a realidade local, e a apanhar alguma coisa do linguajar local. Não foi fácil, há cristalizações difíceis de dissolver. O livro surgiu de um sonho. Adormeci um dia a reler o D. Quixote e sonhei que ele e o Sancho voltavam à terra, após cinco anos de não serem lidos no mundo, e andavam em peregrinação pelo mundo esventravando os não-leitores. Ao pequeno-almoço escrevi uma nota sobre uma invasão da Terra por personagens de ficção que se sentiam abandonados, como se fossem espíritos a quem se deixara de prestar o tributo. Levei depois um ano a congeminar como traduzir isto numa estrutura funcional de uma ficção passada em África.

Devo dizer que durante muito tempo hesitei atirar-me à novela porque o ritmo e o fôlego exigidos são muito distintos dos de um conto, género que domino. E espero não ter desacertado muito, o Hemingway por exemplo é muito superior como contista ao romancista que também foi.

O que me impediu a ida ao Brasil? Houve uma mudança tecnológica nos serviços de Migração de Moçambique e nessa altura “extraviaram-se” muitos processos de renovação do Dire (o BI para estrangeiros) e outros registos, o que nem sempre é admitido pela instituição. Eu fui um dos prejudicados com esta situação. E quem não colabora com “o esquema” pode ver a vida dificultada. De repente, por perda de processos, não há registos do passado do estrangeiro no país e da sua situação legalizada e desloca-se para este o ónus de provar que já teve documentos. E o estrangeiro vê-se assim empurrado para a irregularidade pela instituição que devia zelar pela sua legalização – é kafkiano. Eu tinha uma advogada há três meses a tratar do meu caso, e mercê dos documentos que tinha em meu poder que comprovavam que eu tinha razão no caso, o processo estava a correr na Migração sem atritos, embora as burocracias sejam sempre morosas nestas paragens, e, até à véspera da ida para o Brasil, a advogada dizia-me que a minha autorização de saída estava garantida. Acontece que uns dias antes mudou o Director Geral da Migração e como desconhecia os meandros do meu caso e que estava a ser tratado, ao ver o meu pedido de Autorização de Saída para assinar simplesmente indeferiu. Como isto aconteceu de forma inesperada e em cima da hora não foi possível recorrer a outra solução como pedir a intercedência do Ministro da Cultura, com quem trabalhei uns anos numa revista institucional, ou pedir uma audiência ao Director para lhe mostrar os meus documentos. Por isso pedi que travassem uma petição que andava a circular pela Net e que insinuava razões políticas para o meu impedimento de sair de Moçambique, pois isso, sim, podia acarretar-me represálias políticas. Pela mesma altura, o escritor moçambicano Mia Couto deu uma entrevista em Portugal em que afirmou simpatizar com o movimento de rebeldia dos jovens que sob o lema Indignai-vos tem corrido na Europa. Quando chegou a Moçambique tinha a ala radical da Frelimo (o Partido no poder há 38 anos) ofendida com ele, porque havia incitado à sublevação popular no país (o poder abaixo do Saahara anda preocupado com um possível efeito dominó provocado pelas revoltas populares no Norte de África) e o Mia teve de multiplicar-se em penosos e absurdos desmentidos. Este é um país onde a democracia dá os primeiros passos, titubeantes; no ano passado, no Orçamento Geral do Estado reservava-se à agricultura uma fatia menor da que era atribuída à polícia política. Não esqueçamos que aqui a taxa de corrupção é altíssima e que isso resulta em muitas deficiências nos serviços; com os esquemas que isso acarreta nas mais vulgares questões burocráticas. Conto para terminar o que aconteceu há uns meses a um amigo brasileiro, cineasta, que vivem em Moçambique há 28 anos. Um dia, ele entregou o processo para pedido de nacionalidade nos serviços respectivos. Quase um ano depois resolveu ir saber da sua situação. Chegou ao Ministério do Interior, apresentou o recibo que dava prova da entrada do seu processo e pediu um esclarecimento sobre o andamento do mesmo. Ao fim de uma hora de espera vieram informá-lo de que o processo se havia extraviado. Era melhor pedir uma segunda via, aconselharam. O que ele fez, e deram-lhe novo recibo. Um ano depois como estava sem notícias, voltou lá. Esteve de novo uma hora à espera enquanto o funcionário tentava em vão localizar o processo. E como via que ele não estava disposto a sair sem notícias, encolheu os ombros, e admitiu, apontando para um armário nas costas: “só se estiver neste armário!”. Quando abriu o armário, este parecia a gruta do Ali Babá abarrotada de processos. Vasculhou, vasculhou e lá encontrou uma pasta com o nome dele. E vitorioso veio mostrar ao meu amigo. Começaram a verificar os papéis e rapidamente conclui o meu amigo, “ah, mas este é o primeiro processo, o que estava perdido…e não o da segunda via, deste recibo!”. Não se desmancha o funcionário: “E não tinha dado entrada, não sei porquê. Vamos aproveitar e damos entrada a este…”. Daqui a um ano o meu amigo brasileiro voltará ao ataque… Seria tudo muito diferente se ele aceitasse pagar qualquer coisinha… É isto que se passa, grave, mas do simples foro da incompetência e do relaxe.     

O que você acha do acordo ortográfico e da chamada lusofonia.

O acordo não me ofende nem me arrefece. Como dizia o Deleuze há que gaguejar na língua para que a língua no seu próprio interior se torne bilingue, isto é, cito-o, o multilinguismo não é apenas a posse de vários sistemas mas antes de tudo a linha de fuga ou de variação que afecta cada sistema impedindo-o de ser homogéneo. Isto que sublinho é o que me importa no manejo de uma língua, é o que sempre foi feito por alguns e é o que continuará a ser feito, e isto não há acordo que o impeça. Agora, há o aspecto político da questão e aí é claro que o acordo existe para favorecer a indústria do livro brasileira, o resto são balelas.

Quanto à lusofonia manifesto reservas. Não sei como é no Brasil mas em Portugal fala-se em lusofonia como um efeito hipnótico que levaria logo a uma bacalhauzada entre os falantes de português. Para Moçambique é um termo controverso, associado ao neo-colonialismo. E de facto é preciso perguntar que sentido faz falar em «lusofonia» num país em que só oito por cento dos seus habitantes é que tem o português como língua mãe. Mesmo que o português seja a língua oficial, os códigos e as performances da língua aqui são distintas, verificando-se um crescendo de contaminações das línguas nativas e do inglês na textura do português, assim como a presença de deslizes semânticos que introduzem variações quer de significado, quer sintácticas, que tornam a sua tradução uma história de diferimento e não um rastro contínuo. Aparentemente falamos a mesma língua, mas os códigos e protocolos da língua e os valores dos seus significados são tão díspares que nos sentimos num perpétuo território estrangeiro, o qual está minado pelos equívocos e mal-entendidos com que a aparência de uma língua comum, transparente, tornou bélico o terreno.

A lusofonia é uma cortina de fumo para que as embaixadas possam não falar entre si de coisas concretas, urgentes e necessárias. Com o álibi dessa suposta base identitária faz-se de conta que está tudo bem para não se investir em nenhum tipo de comprometimento sério.

É como Prémio Camões. Em 2001 fui ao Brasil, tinha acabado de lançar Inferno, que escrevi em parceria com a Maria Velho da Costa, a quem fora atribuído o prémio há 2 anos atrás. Fui a várias editoras brasileiras tentar vender esse e outros livros dela. Ninguém sabia quem ela era. O eco do Prémio Camões não tinha saído das embaixadas. É patético. Não entender a inocuidade disto é grave, desajustado e redutor. Por isso a lusofonia lembra-me a deselegância de estar a martirizar uma noiva, na véspera do casamento, falando-lhe obsessivamente do antigo namorado que ela faz tudo para esquecer.

O imaginário lusófono é como o sentimento da queda no Paraíso bíblico: há um misto de culpa, de rejeição e de tremenda atracção pela Eva. O aparente decoro da Eva não nos deve deixar impotentes, e convém voltar a fecundá-la, com a diferença de que agora pode ser ela a tomar as rédeas do jogo, tendo o papel activo na função. É preciso aceitar a troca das posições no leito para que a coisa volte a animar. Enquanto não se entender esta coisa primária, a lusofonia não passa da simulação das erecções de um anão ao espelho. O Eduardo Lourenço já disse tudo sobre esta matéria no seu devido tempo, mas como os políticos portugueses não têm mais nada a oferecer senão retórica agarram-se à miragem.

Cite cinco filmes e cinco livros essenciais para a sua formação e diga porquê.

Vou-me cingir à prosa. Orlando, de Virgínia Woolf: fascina-me a metamorfose como tema e processo e a escrita de madame Woolf é avassaladora. Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry: foi uma das heranças do Al Berto, deixou-me esta semente lunar no sangue. Trópico de Capricórnio, de Henri Miller: um dos livros que salvou a minha adolescência desvalida, de pobre sem esperança. A Música do Acaso, de Paul Auster: gosto de todo o Auster, e da sua fantástica imaginação, mas este deixou-me em levitação. Heróis e Túmulos, de Ernesto Sabato: bastaria o Relatório de Cegos para ser para mim um dos romances do século XX. E não posso esquecer todo o Cortázar, todo o Nabokov, todo o Kadaré, toda a Clarice Lispector, todo o Gombrowicz.

Filmes: Amarcord, de Fellini. O Fellini é mais um daqueles que me imita em tudo, até na tentativa de não ser eu. Viridiana, de Buñuel: que me decidiu a nunca ter cartão de nenhum Partido porque me fez perceber que os pobres não são assim tão bonzinhos; Irma, La Douce, de Billy Wilder, e Some Come Running, de Vincent Minelli: a Shirley MacLaine bastar-me-ia, mas depois já os guiões, a elegância, o ritmo, o humor. Táxi Driver, de Scorcese: porque desafortunadamente não o escrevi, o que é uma das provas da inexistência de Deus.

Junte-se todo o John Cassavetes, metade do Godard, todo o Tarkovski, o Woody Allen, o Lawrence Kasdan, o Bergaman, o Clint Eastwood, sei lá…

Fale um pouco sobre Respiro, o seu último livro lançado em Moçambique e sobre os seus planos para o futuro recente, no terreno da criação artística.   

O Respiro não foi lançado em Moçambique mas sim em Portugal. É um ensaio onde procuro explicar que vivemos todos em níveis de realidade e em graus de percepção da mesma muito distintos pelo que não há uma realidade unidimensional euma ou a poesia, mas antes diferentes manifestações expressivas de modos de penetração em diferentes tipos de realidade. Corolariamente, tento insinuar que há poesia do imaginário, e poesia do imaginal, consoante os tedodolitos. Enfim, nada de muito importante. Um pequeno excerto:

«Lembremos a hipótese que convoquei num prefácio a uma tradução de Juan Luís Panero: há, no que toca ao modo como se relacionam com a linguagem, duas linhagens de poetas. Para uma família de poetas a linguagem é um instrumento auxiliar para criar objectos verbais que se manifestam em declarações espirituais, psicológicas ou políticas. Este tipo de poetas serve-se das palavras para expressar ou digladiar os seus conflitos e visões.

Existe por outro lado uma outra prática da poesia onde a linguagem é em si mesma, um problema, um conflito já existente, uma dobra: «Suscitar a forma do pensamento,/ recortá-la segundo uma medida./ Penso num alfaiate/ que seja o seu próprio pano.», escreve o italiano Valerio Magreli. Ou atentemos noutro poema, de Herberto Helder: « (…) E é tão compacta a malha/ da carne tão/ rude, O fluxo que se/ desenreda, Como se o corpo todo fosse uma veia,/ Uma traqueia de onde irrompesse um som/ – árduo árduo/ e agudo,/ E a boca respirando se tornasse/ numa bolha, O rosto como uma víscera,/ Que brilhasse varada pelo sangue: alta/ e ríspida: e brilhasse ainda/ quando o dia transparente transpusesse: / porta/ a porta:/ tudo, As mãos: a cabeça/ entre as mãos: a voz/ entre fôlego e escrita, Nas cavernas/ do mundo».

Neste tipo de poesia o poder da palavra germina a partir do seu próprio fulcro, não traduz outra coisa; o poeta não se serve das palavras para traduzir uma “realidade” pré-existente, antes intui, como diz Octávio Paz, o autor da hipótese em presença, que elas são o referente e são tão reais como as árvores, as casas, os aviões e as paixões. As palavras aqui não são signos que representam mas o concreto das coisas tal e qual de uma “outra” realidade.

Um poeta desta linhagem, Valère Novarina, chega ao extremo de afiançar que a palavra nos é mais interior que todos os órgãos internos. E relata: o Bucha e o Estica estão sentados num banco de um jardim, de costas para um arbusto. Um carteirista introduz a mão por entre a ramagem e tenta tirar a carteira do bolso interior do casaco do Estica. Só que este, entretido com as suas mãos num devaneio patético, toma a mão do ladrão por uma das suas, com todas as implicações que se enredam numa multiplicação das mãos.

A genialidade do gag advém do dilema de que é tomado o Estica na escolha obrigatória de uma das mãos – visto que aparentemente tem três e só se lembra de ter tido duas. Qual das duas são as suas e qual é a que terá de dispensar, é a sua primeira interrogação, mas depois vem-lhe outra dúvida mais fecunda: e porque não ter três mãos? E começa a olhar para a terceira mão com delícia, como algo que sempre lhe pertenceu naturalmente, ao ponto de ter tirado uma lima do bolso do casaco para lhe arranjar as unhas, para essa mão ficar como as outras. E está a limar a unha quando o Bucha lhe bate na mão que se entrega a essa tarefa e lhe faz entender – porque o Gordo também não acha estranho que o Estica de repente tenha três mãos – que o mais rico dessa mão nova é ser diferente das outras. E o Estica fica todo contente por poder ter uma terceira mão tão diferente. Aceitar a Graça desta terceira mão, equivale, para mim – porque é uma Graça aceitar oestranho como parte de nós – ao trajecto que o poeta russo Mandelstam sinalizou nesta fórmula: Como Orfeu, o poeta é aquele que percorreu toda a distância do profano ao sagrado e cuja memória é vidência.»

Quanto a projectos futuros, em 2012 vou realizar um documentário de 50 minutos sobre a arte moçambicana, isto está certo. Vou começar a rodar em Março. Espero voltar finalmente ao Brasil e tenciono fechar-me a escrever um dos dois romances que me agitam o escuro esplendor das gavetas. Não sei ainda qual deles terá um maior ímpeto para o parto.

Quais podem ser os pontos de contacto entre o Brasil e Moçambique, se é que eles existem. Você poderia falar um pouco sobre isso e o que o levou a trocar Portugal por Moçambique?

Bom, o que me trouxe para Moçambique resume-se a dois motivos.

Na altura estava muito desapontado pois tinha feito um enorme esforço para montar um projecto editorial que foi reconhecido como de bastante qualidade mas que caiu por absoluta falta de ética das distribuidoras em Portugal, sem que eu conseguisse que nenhum jornal fosse sensível ao problema grave que já se desenhava no sector e denunciasse a situação que descambou no absoluto marasmo e carnificina que é o mundo da edição neste momento em Portugal. Tive de ganhar mais um prémio literário para pagar as últimas dívidas à tipografia, despedi-me do Expresso e vim-me embora. O segundo motivo é pessoal: tenho o destino de amar uma moçambicana. A vida ser-me-ia facilitada se tivesse derivado na geografia afectiva para o norte e para a Noruega por exemplo, ou talvez para a Escócia, onde alternaria o golfe e o alpinismo. Calhou-me uma indiana de Moçambique, eis-me conformado, e moderadamente feliz na minha conformação, ainda que tenha descoberto que detesto palmeiras e coqueiros – coisinha mais monótona não há. Uma palmeira, cuja sombra nem consegue acoitar um encontro clandestino, não chega a ser uma árvore: é um pêlo púbico agrafado numa folha azul.

Quantos aos pontos de contacto, há uma coisa surpreendente e que entra pelos olhos dentro para quem conhece: Maputo é uma cidade extremamente parecida com Belém do Pará. Em tudo, do urbanismo ao ambiente social. Só falta aqui a inteligência do Benedito Nunes. Depois há uma inassumida cultura de mestiçagens, um cosmopolitismo apesar da descrença em si mesmo, uma mecânica gingada do “deixa-andar” que penso serem afins em Moçambique e no Brasil. Assim como um semelhante gosto pela dança e a música. Mas claro que em termos de desenvolvimento será o Brasil dos anos 40, depois de rasgado por uma guerra civil que tivesse destruído metade das infra-estruturas.»

16/11/2011

AMYGOS DO ABYSMO

por cam

Divulgo, com gosto e esperança (coisas que se vão perdendo, aliás), o texto do meu amigo João Paulo Cotrim para que se tornem amygos do abysmo. Façam favor: 

«Não vale a pena desperdiçar palavras, que “sopram ventos adversos”. Este livro [O Branco das Sombras Chinesas, de João Paulo Cotrim e António Cabrita] que vos ofereço inicia a abysmo, um projecto de edição, distinto mas não solitário. Acredito que ainda há muitos textos por descobrir, por comentar, por traduzir, enfim, por escrever. E que há leitores interessados em entrar no jogo da partilha, apenas porque sim ou apenas porque os ajuda a viver. Também acredito que o objecto nos continua a falar, que o e-book será apenas mais um modo de dizer, mas que o papel e a tinta, vertidos na forma extraordinária do livro, ainda não perderam a energia que nos interpela. Acredito que a relação entre a imagem e o texto vibra ainda de potencialidades; pelo que a poesia ganhará algo em ser ilustrada. Cada projecto terá um cuidado especial, as edições serão exclusivas e de baixa tiragem, aqui e ali proporemos livros de artistas. Ensaios teremos, por necessidade de pensar como quem respira. Acredito que é possível, sem saber ainda o como ou o quê. Acredito ainda que se pode estabelecer uma comunidade, ligeira e sem esforço, de interessados em território comum a desbravar ou assentar. Pelo que teremos disponíveis edições (mais ou menos) antigas dos nossos autores e de outros de quem gostamos; teremos preços de amygo em edições de outros; e o que mais nos aprouver. Este projecto tentará formas mais directas de fazer chegar o livro ao seu leitor, usando para tanto a internet e o correio. Do modo mais simples possível, a ideia é criar um grupo de amygos do abysmo que acompanhe o projecto, que o alimente e o estimule. Sem com isso perder, nem pitada nem tusto. Ora em tempo de recuos, pedimos um avanço: 50 euros, valor que receberás de volta em livros à escolha de entre os disponibilizados.

JP Cotrim

Para te tornares

amygo do abysmo

basta transferires para a conta BES 0007 0000 0006222249423

o tal avanço de 50,00 euros e mandar os seguintes dados

ou para o email

info@abysmo.pt

ou por via postal para

abysmo

Av. Almirante Reis, 201, 2º

1000-048 Lisboa

Nome Morada (para uma recepção segura dos livros)  |  Email  | Telefone NIF (para facturação quando solicitada).

26/05/2011

NÃO SE EMENDA A CHUVA

por cam

«Amanhã, sexta-feira, às 18 horas, na Livraria Minerva [Maputo], o António Cabrita faz o lançamento público do seu último livro de poesia “Não se Emenda, a Chuva“. Como bónus apresentará dois dos seus livros de ficção que a Minerva importou, o “Cegueira de Rios” e o “Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo“. A este propósito o Cabrita faz no seu Raposas a Sul uma breve memória das suas aventuras e desventuras de autor – onde não se esquece de referir as aldrabices já sofridas por renomados editores e o roubo que (n)os correios de Moçambique fizeram aos seus exemplares de “Não se emenda, a chuva” – o Cabrita aqui a confirmar-nos o estereótipo do poeta como ingénuo desligado do real, pois só um “poeta” (desses) é que ainda confia nos Correios de Moçambique. Enfim, ao fim do dia, amanhã, na Minerva. Espero que as chamussas sejam agradáveis.»

Retirei daqui, foto e tudo, com a devida vénia.

Abraço, António.

24/03/2011

CLUBE DO LIVRO SIC

por cam

Segundo o Diário Digital, a editora Guerra & Paz e a estação de televisão SIC criaram o Clube do Livro SIC, uma aliança que, mensalmente, vai abordar os vários temas de uma obra.

Segundo o director-geral da SIC, Luís Marques, «a aproximação destes dois universos tem um imenso potencial de crescimento. A televisão pode dar ao mundo do livro a visibilidade de que ele precisa e a presença do livro nas programações vai ser uma forma de enriquecimento dos nossos telespectadores». Uma opinião partilhada pelo editor da Guerra & Paz, Manuel Fonseca: «O Clube do Livro SIC é um projecto dinâmico que responde a uma necessidade real de alargamento do universo de leitores em Portugal. É um projecto que vai mexer com o consumo.»

O Clube do Livro SIC terá mensalmente um livro cujo tema estará relacionado com conteúdos televisivos da SIC ou com temas e ideias que podem inspirar novos conteúdos.

%d bloggers like this: