Posts tagged ‘Eduardo Prado Coelho’

19/07/2012

LER, SIMPLESMENTE

por cam

Vai chegar, ou já chegou, o tempo dos “livros de férias” (ou “para férias”)… É a praga que nos assalta, vinda nas asinhas e nas peles escamadas de “jornalistas” “culturais” e nos inefáveis “suplementos de férias”. Tudo regado com aquela coisa chamada “vinho” rosé (ou verde 3 Marias & afins, também “vinho”, dizem…). Ou chá. Ou café. Ou…

É uma praga para quem, simplesmente, lê. Os jornais e revistas, habitualmente parcos em trabalho sobre livros, leituras e leitores, ficam reduzidos a absoluto lixo – o novo “género” chamado “de férias”, ou “para férias”.

Quem é sensível a estes conselhos, em férias na praia (no campo, onde se queira), não continua as suas leituras que já vêm de trás, do tempo de não-férias, não, armam-se essas pessoas de livros “de férias”, ou “para férias”, comprados em super-mercados, por conselho dos tais “jornalistas” ou de vedetas televisivas. Vivemos em democracia, apregoa-se, e só temos de nos convencer disso, não há outro remédio.

Nestes meses, eu que não tenho férias “normais”, continuarei a dedicar-me aos livros amontoados na secretária de trabalho, na mesa-de-cabeceira e em outros locais domésticos. Tenho feito um esforço para não cruzar muitas leituras e, assim, por agora agarro-me com imenso prazer, ao Danúbio, do italiano Cláudio Magris, uma escrita delicada, culta e de uma enorme sensibilidade sobre a área a que os alemães no final do século XIX chamaram de Mitteleuropa, e que cobriria, toda a Europa Central, parte do Império Russo, zona dos Balcãs, etc. O conceito tem uma actualidade extrema, diga-se. No seu deambular pelo Danúbio – que só foi azul na valsa do Strauss, e que é cinzento-amarelo-lama – Magris fala da história (muito), de grandes nomes da literatura, da filosofia, do pensamento (mas também do quotidiano), com uma sensibilidade e um cuidado literário de excelência. O modo como muitas figuras são evocadas dá-nos visões de uma singularidade inteligente, a obrigar por vezes a deixar a leitura e a ir folhear as páginas desses autores, à luz de outros pontos de vista, quase sempre originais. Vou a pouco mais de meio mas sei que quando o terminar terei de voltar e voltar. Ah, a edição que tenho veio com uma revista semanal, ao “preço da uva mijona” – é de aproveitar, num jornaleiro perto de si!

Antes deste, li duas obras portuguesas, bem diferentes entre si e nos seus propósitos literários, mas ambas de uma grande qualidade: Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China) e Autismo, de Valério Romão (Abysmo).

Embora saiba que muito provavelmente não cumprirei o que estabeleci para próximas leituras, eis o que poderá interessar quem leia estas linhas: HHH, de Laurent Binet (Livre de Poche), Caríssimas 40 Canções, de Sérgio Godinho (Abysmo), Elegia de Cronos, de Nuno Dempster (Artefacto), revista Criatura, Ensinar o Caminho ao Diabo, de Miguel-Manso (ed. autor), Corpo, Arquitectura, Poema, de João Borges da Cunha e Jorge Fazenda Lourenço (Assírio & Alvim), A Poesia Ensina a Cair, de Eduardo Prado Coelho (IN-CM).

30/12/2011

O PÊNDULO DE MICHELSTAEDTER

por cam

Finalmente vou ler Carlo Michelstaedter, o jovem filósofo italiano autor de A Persuasão e a Retórica, livro que me chegou hoje de Espanha. Michelstaedter era para mim um desconhecido até ler, há muitos anos, o texto de Eduardo Prado Coelho “O ensaio em geral”, inserto n’O Cálculo das Sombras (ASA, 1997). Prado Coelho refere-se a ele quando aborda o “lugar do ensaio num mundo que surge como que alienado pelo predomínio de uma cultura estética em que a exigência de verdade e o peso das motivações profundas se foram progressivamente dissolvendo.” (p. 30).

Para o autor de A Mecânica dos Fluídos e O Universo da Crítica, Michelstaedter descreveu como ninguém “com tanta veemência (por palavras e actos trágicos) esta situação.” (p. 31). Sigo EPC (pp. 31-32): Carlo Michelstaedter, nasceu em 1887 em Gorizia e estudou em Florença. Suicidou-se a 16 de Outubro de 1910, no dia seguinte àquele em que redigiu os apêndices críticos da sua tese intitulada La persuasione e la retórica. O seu trabalho abre com uma imagem que tem vindo a tornar-se famosa: o pêndulo. Para Michelstaedter, um pêndulo que esteja suspenso de um gancho move-se por um desejo intenso de tocar o ponto mais baixo: que seria aquele em que viria a coincidir consigo mesmo, definitiva e solarmente persuadido da sua própria verdade. É esta a «sua fome de mais baixo». Mas entregue a si mesmo o pêndulo oscila, balança, agita-se numa interminável circularidade de movimentos, em que cada ponto que ele atinge é um ponto em que falha o ponto mais baixo que pretendia atingir. Deste modo, «sempre o domina uma igual fome do mais baixo e infinita lhe resta para sempre a vontade de descer.» Mas se alguma vez pudesse atingir esse ponto (o ponto em que, persuadido de uma verdade única, deixaria de estar submetido à oscilação do processo de persuasão, isto é, ao movimento incessante da retórica), ele deixaria de ser o que é: um peso – «quando mais nada lhe faltasse – mas fosse finito, perfeito: se se possuísse a si próprio, ele teria deixado de existir». A verdade absoluta como limite inevitável da persuasão é não apenas a morte da linguagem (ou a morte de uma linguagem dominada pela retórica) como a morte da existência humana. Mas a sua vida enquanto vida é também insatisfação absoluta, vazio radical: «la sua vita é questa mancanza della sua vita». Donde, o pêndulo está condenado à oscilação (ou, se quiserem, à cultura estética dominada pelo oscilação retórica): «O peso é para si próprio impedimento de possuir a sua própria vida e não depende de mais ninguém senão de si na sua impossibilidade de se satisfazer. O peso não poderá nunca ser persuadido.» O seu destino é abandonar-se ao eterno jogo das aparências e das sombras, colorido pelas manchas vagabundas da pintura impressionista, fragilizado pela derivação psicológica, impulsionado pela orgia dionisíaca de raiz nietzschiana. (o Eduardo Prado Coelho morreu há quatro anos e sempre que leio um dos seus textos não quero aceitar que tenha morrido).

O livro que vou ler é uma edição de 2009 da sextopiso (Espanha/México), com apresentação de Miguel Morey e prólogo e notas de Sergio Campailla. Textos complementares de Claudio Magris, Massimo Cacciari e Paolo Magris.

06/04/2011

CHOVE

por cam

Chove.

O romance que procuro escrever encalha na enseada das dúvidas (muitas). Esta crónica, aliás, as dezenas de tentativas de a escrever, não passam disso, de tentativas frustres e frustrantes.

Nestes dias lembro-me sempre do Eduardo Prado Coelho que durante alguns anos escreveu uma crónica diária para o jornal Público. É com admiração e uma inveja incalculável que o recordo nestas circunstâncias de ser obrigado a escrever e a vontade assobia para o lado. Eduardo Prado Coelho – de quem a IN-CM acaba de publicar o primeiro volume da sua nova colecção Biblioteca Eduardo Prado Coelho, com o título A Poesia Ensina… a Cair; trata-se, leio na wook.pt, de “46 textos, havendo no final um índice remissivo de autores e as referências bibliográficas. Os textos têm a marca da qualidade, cultura e inteligência de EPC, desaparecido prematuramente com apenas 63 anos.” (em 25 de Agosto de 2007) – EPC, designação vulgarizada que encerra alguma ironia à sua remota filiação no PC… Era um homem corajoso: e a sua exposição diária no Público causou-lhe não poucos dissabores. Muitos se lembrarão, por exemplo, da risível polémica que levantou a sua crónica do “orgasmo vertical”…

Nestes dias em que chove (mas não apenas nestes…), gostava de poder ser capaz de mostrar aos leitores (em geral, e não apenas aos poucos que lêem o que escrevo), como por vezes se sofre neste ofício; a impotência perante a ideia que não passa a coisa escrita, dói. Talvez mais do que isto não se possa dizer a quem não tenha essa experiência, sobretudo quando isso acontece nas circunstâncias em que há prazos e compromissos para se cumprirem. E, sobretudo, quando o escriba quer fazer coisa séria, inovadora, consistente, e o que mais é legítimo desejar. E, depois, é tão fácil desse lado dizer “não presta!”… Dói, não julguem que não. E deixa marcas. E não existe “ginásio” ou “health center” para tratar deste mal. Como dizia uma jovem amiga da minha filha, “nunca se recupera”…

Vem-me à memória a curta novela de Italo Svevo, Um embuste perfeito. É uma história que nos apresenta um homem que publicou há cerca de quarenta anos um romance, o único da sua vida. Pagou a edição do seu bolso. O livro não teve qualquer reconhecimento, nem de leitores, nem da crítica. Nunca mais escreveu fosse o que fosse – além de umas cartas comerciais, o que não deixa de evocar o nosso Fernando Pessoa… Ultimamente, antes de adormecer, inventa fábulas de pássaros, como resposta às suas inquietações. No quarto ao lado, o seu irmão sofre com a gota, e por isso precisa de calor e da voz do irmão, que então lhe lê, até ele adormecer em boa paz, páginas do velho e ignorado romance.

Continuo sentado em frente do monitor do computador. Chove. Irremediavelmente.

A minha gata mia na rua por comida e afecto. Os gatos da vizinhança chegam-se, com propósitos reprodutivos. Ou para lhe roubarem a comida.

Nas casas, sofre-se em frente da televisão.

A ilha entristece.

Chove.

Como um castigo.

25/03/2011

«É UMA ESPÉCIE DE SONHO ADOLESCENTE…»

por cam

«É uma espécie de sonho adolescente: reunir todos os textos, poemas, ensaios, versos, frases, palavras, sons (acrescento em segredo: os gestos) que um dia me tocaram. Uma espécie de antologia interminável, caprichosa e feroz, desalinhada e desigual, em que a última palavra, luminosa, seria sempre a palavra em falta. Depois, haveria o momento da partilha: estes textos, estas inscrições, estas marcas gráficas ou sonoras deveriam pertencer a um círculo em expansão, o círculo daqueles que as sabiam (ou prometiam aprender) amar.»

(Eduardo Prado Coelho, “A Sabedoria de Olhos Cheios de Lágrimas”, jornal Público, Mil Folhas, 26 de Julho de 2003)

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