Transportes & Mudanças / Transportes & Mudanças [teatro]

Transportes & Mudanças

 

(…)

Um dia, hei-de fazer uma viagem a Cabo Verde, àquelas ilhas de montanhas nuas, cinzentas e castanhas, sem uma única folha verde. Vou até lá e deixo-me vaguear nessas terras sem vida, deixo-me possuir pela morte delas, uma morte que é funda, está muito lá dentro e vem de muito longe, dos princípios dos tempos. Deito-me nessa terra longamente, até a sua morte me secar também por dentro, deixo que me passe a sua rasura, a sua ausência de tudo. Levanto-me lentamente, abro os braços e a boca e deixo que o vento morno remova os últimos vestígios de vida dentro de mim. Depois, quando me sentir confiante da minha candura interior, parto em direcção ao mar, sento-me numa rocha voltada para Sul e espero todo o tempo do mundo para que me nasça qualquer coisa minha, dolorosamente minha: uma ideia breve, duas unidas palavras límpidas, como uma flor solitária no cume da montanha cinzenta que consegue brotar das cinzas da morte (pausa mais longa; ensanguenta as agulhas e asperge os livros à sua volta). As palavras renascidas (pausa).

Como é que se diz “saudades” em dinamarquês? E “terras revoltas da minha meninice”? A que horas parte o avião para o Sal? Já são oito horas? Oh, senhores, esperem aí, ainda me falta tanto para arrumar… Que é lá isso? Não vê que nessa caixa vai o meu amor? Qual amor? O que é que isso lhe interessa? São todos iguais, pois são, sabe-se logo, basta que vacilem numa altura certa qualquer… Não te preocupes, mamã, quando lá chegar escrevo-te, diz ao papá que não se preocupe, pois, é estranho é, esta terra de gelo e palmeiras e com um solo tão vermelho… (desfalece, toca o telefone; ouve-se primeiro a gravação típica, com a voz de Maria; depois, a de Vera):

“Maria, sou eu, a Vera (silêncio). Eu sei que estás em casa, atende, vá lá. Não estás para isso, é? Está bem, deixa estar. É só para te dizer que faço uma pequena pausa nas minhas férias para te dar uma mãozinha aí na mudança. É amanhã, não é? Se houve alguma alteração, diz-me, estás a ouvir minha tonta? (silêncio). Bom. Estou aí amanhã, por volta das oito. Um grande beijo. Descansa. Beijos. Gosto muito de ti. Ciao.”

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