Posts tagged ‘Inês Dias’

15/03/2012

POETAS DE SÁBADO

por cam

O jornal Público (suplemento P2) publicou desde 9 de Abril de 2011 Um Poema ao Sábado (poemas portugueses inéditos), com selecção do jornalista Luís Miguel Queirós.

Esta é a lista dos 42 poetas incluídos, por sequência de publicação, até 3 de Março (parece ter terminado aqui):

Manuel António Pina, José Miguel Silva, Gastão Cruz, Manuel Gusmão, Manuel de Freitas, Herberto Helder, Adília Lopes, Rosa Maria Martelo, Miguel-Manso, Jaime Rocha, Vítor Nogueira, Fiama Hasse Pais Brandão, Rui Lage, Rui Pires Cabral, Armando Silva Carvalho, António Barahona, Inês Lourenço, Ana Luísa Amaral, Fernando Luís Sampaio, José Alberto Oliveira, Diogo Vaz Pinto, José Tolentino Mendonça, Jorge Sousa Braga, José Carlos Soares, Abel Neves, Miguel Martins, Inês Dias, Rui Caeiro, Rui Caeiro (rectificado), Carlos Poças Falcão, Golgona Anghel, Alexandre Sarrazola, Renata Correia Botelho, Tiago Araújo, Emanuel Jorge Botelho, David Teixeira, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, João Luís Barreto Guimarães, Hélia Correia, Daniel Jonas, Paulo Tavares, Fernando Castro Branco e António Ramos Rosa.

(e ainda a polaca Wislawa Xzymborska, falecida no dia 1 de Março, numa versão portuguesa de Manuel António Pina)

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16/01/2012

A VIDA DEIXA MARCAS NA ESCRITA

por cam

Recordo com gosto um jantar no restaurante D. Luís, em Campolide, quando o Manuel e a Inês juntaram os escribas dos primeiros livros da sua novíssima editora Averno: o Rui Pires Cabral (Praças e Quintais), o Rui Caeiro (Olhar o Nada, Ver a Deus) e eu (A Realidade Inclinada). Isto foi em 2003.

Na Averno seguiram-se muitos mais livros e escribas.

Entretanto, eu deixei o bairro e o convívio com alguns amigos.

E a Inês publica agora o seu primeiro livro de poemas: Em Caso de Tempestade Este Jardim Será Encerrado (Tea For One, 2011).

Escrever sobre um livro – coisa que faço poucas vezes e apenas sobre autores com quem tenho afinidades de alguma natureza –, resulta de uma vontade que tem semelhanças com a que me leva a criar as minhas próprias coisas. São diálogos, declarações de gosto, cumplicidades (embora deva admitir que algumas possam não ter retorno). Não são críticas – muito menos este texto –, embora eu não tenha por princípio nada contra a crítica (os contextos e os modos como se exerce são outras questões, que não vêm agora a preito).

Na minha primeira leitura deste livro da Inês fiquei com a impressão (essa coisa boa que tantos desprezam em público e cultivam em privado) de ser uma jornada de vida em que a sua voz poética, serena e contida, pontua momentos de vida da mulher Inês, mas, igualmente, a da poeta Inês, coisa, aliás, que reciprocamente se contaminam, ora de forma pacífica, ora em justas dolorosas. Creio que todos os livros de poemas são isso e apenas isso, uma maneira singular de cada um se inventar, nunca a partir de um nada impossível, mas num jogo de intermináveis passagens entre estados, naturezas, visões, desejos.

Uma primeira obra nunca é a primeira, pois resulta de sucessivos livros primeiros que se escrevem noutras zonas do ser (e sem essa escrita, essa sim primeira, não haveria “primeiras obras”). Por “razões” que nem imagino, a “primeira obra”, aquela de que saboreia as palavras impressas – visualmente, pelo tacto, pelo cheiro, pela manipulação das suas folhas – poderá ser o primeiro e único livro da vida do poeta, por vislumbrar que nunca mais poderá vir a escrever outro – porque nesse primeiro se esgotou, ou porque é preciso que a vida aí termine (o poeta nada mais tem a dizer, aquilo que ele é está nesse último – embora aparentemente primeiro – Livro.) Se o poeta atinge aquilo que quis alcançar, possuir-se a si mesmo na obra que termina, para quê continuar? Se não se possui, deve, então, saber esperar.

Continuar – a escrever – é viver no futuro, com um presente indesejado, incompleto. Poucos poetas conseguiram parar. Continuam(os), diz-se, a escrever sempre o mesmo livro. Prova de incompletude, será. Nunca coincidindo com o Outro que sabemos ter em nós. Divididos. Separados.

Porque digo estas coisas quando dialogo com o livro da Inês? Não sei, mas devo aceitá-lo (e quero partilhá-lo), porque sei que o sinto e o escrevo pelo livro dela – e pela mescla insondável de outras coisas que momento a momento nos fazem, infelizmente (ou talvez não). Nem os poetas sabem bem como separar os ingredientes da vida. Pois seja.

A Inês é uma pessoa amável e gentil. Mas isso não a impede de saber como perscrutar os escaninhos da sua, da nossa, via dolorosa – e de os expor à luz, que a uns acicata desejos, a outros o júbilo do fim. A jornada neste Jardim da Inês começa, canonicamente, pela Rua da Infância. Nela, há uma “rua estreita” que lhe “parecia só acabar no mar / no mar.” Mas, “se olhar / mais demoradamente” já sentirá o “sol a queimar o futuro”. Cinco anos é uma boa de idade para aprender que as palavras nunca se hão-de separar de nós: “Quando ela me cravou um lápis / sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita, / grafite fria à flor do sangue, / deixaria marcas para sempre.” – “ela” foi a Ágata, “cabelo em forma de pássaro – negro / asa de corvo.”

A vida deixa marcas na escrita. Nesta escrita, o desencantamento, uma melancolia, associada à noção de perda, vai ganhando corpo. A falha é muitas vezes encarada como um espinho que acirra a desistência, mas também pode levar a uma exposição serena da dor. Espera fria e rigorosa. A escrita da Inês não apela ao sobressalto existencial – se, “em caso de tempestade o “jardim” tiver de ser “encerrado”, creio que ela olhará uma vez mais a pena branca da “colomba ferita” entre a vegetação e caminhará, serena e firmemente para a saída mais próxima.

Um “morto fica mais só”, mas “Os mais sós, afinal, são sempre os sobreviventes.” – “pago para fugir / à morte, escolhendo trajectos que me façam doer / todos os músculos, excepto o do coração.” Num “dia / em forma de pássaro morto”, a uma “indiferença cansada” prefere “a do outro pássaro que, lá muito em cima / (…) refaz a traços negros / a vida. É por esses instantes / de voo que aceito continuar a perder.”

“No fundo, é isto: espera-se.” / Escrevemos incuravelmente / a história dessa espera, mas / nunca se chega ao fim da rua, / mais escura do passado, / nem se despe por completo o luto, / sempre outros os mortos, sempre igual a si / a morte. A espera, // essa continua.”

O tipo singular de desencanto que atravessa a escrita da Inês pode ter este paradigma (de “Cemitério dos Prazeres”): “E o amor / [é] um casaco que nos pousam / sobre os ombros, como se isso bastasse / para reanimar o coração / quando tocamos às portas / e ninguém responde.” Mas desencanto não significa necessariamente desistência ou prostração: “Sobreviveremos à demasiada solidão, / mesmo que nenhuma outra porta / se venha a abrir para nós.” (do mesmo poema).

O antepenúltimo poema – dedicado a António Barahona – intitula-se “La Colomba Ferita”. Se ainda se puder usar o adjectivo “belo”, direi que sim, que é o poema mais belo do livro, e também o mais poderoso na sua luz. Na minha leitura, impressionista, direi, então, que é o poema-emblema do livro. É um daqueles poemas de que se pode dizer que “inventa na língua uma nova língua”.

Creio que é melhor transcrevê-lo integralmente:

Quando me cansar de voar ou

a ferida estiver finalmente visível,

promete-me que a faca

será afiada e silenciosa.

Que eu não a veja chegar,

como se não tivesse passado

uma vida a pressenti-la nas dobras

do lençol, mortalha de tantas noites.

 

 E antes, dá-me de beber

entre as mãos, conta-me

de céus azuis, sem garras

e sem abismos. Espera que

o meu coração de novo pequenino

se aninhe no calor das tuas veias

e se torne apenas a memória de

um sobressalto contra a tua pele.

Por este livro, por este poema, regresso a Campolide.

06/01/2012

EM CASO DE TEMPESTADE

por cam

Recebi hoje o livro de estreia da Inês Dias [ exemplar numerado e assinado nº 62/150 ]  “Em caso de tempestade este jardim será encerrado” (Tea for one, 2011). Leitura para este fim-de-semana.

Deixo o primeiro poema do livro:

06/01/2012

AS QUALIDADES DO MANUEL DE FREITAS

por cam

Conhecemo-nos no bairro lisboeta de Campolide, nos princípios de 2001, tinha eu já publicado os meus primeiros livros de poesia “Mundo de Aventuras” (1999) e “Ventilador” (2000) e o Manuel o, também de poesia, “Todos Contentes e Eu Também (2000). Sem o sabermos, éramos vizinhos. Descoberta a vizinhança, veio a amizade. Partilhámos nesses anos o que é comum dois amigos partilharem, com os gostos comuns da poesia e da boa conversa à mesa vinicamente regada. Sempre, ou quase sempre, com a Inês (que em 2002 publicaria na Colóquio-Letras da Gulbenkian uma recensão sobre o “Ventilador” que ainda hoje me emociona). Tive a felicidade de ser um dos antologiados em “Poetas Sem Qualidades” (Averno, 2002 – a sua editora que publicou também em 2004, o meu “A Realidade Inclinada”) antologia que tanto celeuma provocou (e hoje continua a ser uma obra de referência quando se discute a poesia contemporânea portuguesa & etc… – cf. a minha crónica sobre o último livro do Pedro Eiras: “Um certo pudor tardio. Ensaio sobre os «poetas sem qualidades»”, Porto, Outubro de 2011). Depois, anos mais tarde, as nossas vidas descruzaram-se, com mágoa minha. Tudo isto para dizer (lembrar) que a minha escrita sobre livros está inevitavelmente ligada ao modo como me relaciono com os autores por quem nutro amizade. Não pretendo esconder isso, antes pelo contrário. É assim e ainda bem que é.

Manuel de Freitas (Vale de Santarém, 1972) é, além de poeta, ensaísta, tradutor, antologiador e crítico; dirige, com a Inês Dias, a revista Telhados de Vidro e a editora Averno. Esta crónica surge agora a propósito da antologia por ele organizada, e publicada em 2009 mas que só agora tive oportunidade de ler: “A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX” (Assírio & Alvim). O Manuel usou um critério temporal: poetas nascidos antes de 1950. Os -2 são Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge que “preferiram não ser incluídos” (p. 12). “Esta antologia (…) está-se nas tintas para a posteridade. Trata-se de uma viagem estritamente pessoal (…)” (p.10). Li-a – com imenso prazer, embora com as inevitáveis discordâncias –, mas o que me leva a escrever agora são outros aspectos: esta antologia (creio que outras se seguirão), completa, de certo modo, a escrita do Manuel de Freitas – de modo nenhum se trata de um gesto de autoridade ou de sobranceria, como por vezes acontece com certos antologiadores. Não, de todo. Por outro lado, reforça a sua visão do lugar poético, dos seus “fazeres” e da sua relação com o “real”. Não se trata apenas de uma “perspectiva da morte”, mas, de certa maneira radical, olhar para trás e trazer à liça os poetas e as poesias de, digamos, uma linhagem. Antologiar, é, no caso do Manuel de Freitas, cimentar um percurso: as “vozes que tanto me marcaram”, “marca-as” ele retroactivamente. Ambição gratuita? Não.

O Manuel de Freitas é uma das personalidades fortes da poesia e do pensar da poesia hoje em Portugal e creio que o tempo só reforçará junto de quem o lê essa evidência. Uns gostam, outros não. Eu gosto.

O Manuel tem dois ensaios sobre dois poetas maiores (Al Berto, 1999, Herberto Helder, 2001); há quase uma década vem publicando no jornal Expresso (suplemento Actual) as suas recensões críticas: creio que todos ganharíamos em (re)lê-las organizadas em livro. Fica a deixa.

04/01/2012

BELAS E TERRÍVEIS CRIATURAS

por cam

Viver com a(s) “crise(s)” e a(s) “insularidade(s)” produz nas minhas leituras singulares fenómenos de distanciamento.

Leio agora a revista de poesia Criatura, nos3, 4 e 5 (Abril de 2009, Dezembro de 2009, Outubro de 2010, respectivamente). Poetas que escrevem há pouco tempo, outros há muito. Presenças espanholas.

As revistas de poesia têm quase sempre vida curta (excluo deste apontamento as ditas institucionais). Recordo experiências: as luso-espanholas Canal e Falar/Hablar de Poesia, a luso-brasileira Inimigo. Rumor; só portuguesas: a Hífen (Inês Lourenço), a As Escadas Não Têm Degraus (AM Feijó, JM Magalhães, JMF Jorge), a Construções Portuárias (António Cabrita), a Apeadeiro (Jorge Reis Sá, Valter Hugo Mãe), a Magma (Sara Santos e eu), ou a A Phala (a revista, não o “boletim” livreiro – José Alberto Oliveira). Persistem a Bumerangue (não tenho a certeza), a DiVersos (Jorge Vilhena Mesquita e José Carlos Marques), a Piolho (Edições Mortas/A. Dasilva O.), a Relâmpago e a Telhados de Vidro (Inês Dias, Manuel de Freitas). Outras terão morrido na última década e meia, outras há que ainda persistem, não sei (esta resenha é aproximativa). E ainda há as que apenas têm existência on-line.

Aquilo que quero realçar é que a poesia, destes e de outros modos, continua a resistir às tentativas de certos críticos e de certa imprensa, seja pelo aberto ataque cerrado que fazem a tudo quanto é novo e inovador, seja pela imposição do silêncio (e não é de descartar igualmente as estratégias de algumas editoras e grupos editoriais).

Bom, estava a falar da Criatura. Nela, gosto de muita coisa: do projecto original que sem ser de “grupo” tem espinha dorsal e pelo menos sabe por onde não ir, de muitos dos poemas, do design, da presença de alguns dos poetas (poemas) no limite do risco. É (também) para isso que se faz uma revista de poesia.

[direcção de Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto – os 2 últimos assinam sempre vários poemas na revista. Organização do Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, com o apoio da Associação Académica]

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