Posts tagged ‘Literatura’

27/08/2012

Portugal Zero, Brasil

por cam

Lido ontem no blogue da editora Oficina Raquel, do Brasil: «A editora Oficina Raquel afirma-se cada vez mais como uma grande divulgadora da literatura portuguesa no Brasil. No contexto do Ano de Portugal no Brasil, que terá início em setembro de 2012, a Oficina editará quatro títulos. (…) Os outros dois títulos são de poesia: Carlos Alberto Machado e João Luís Barreto Guimarães, destacados poetas portugueses, dão continuidade, nos primeiros meses de 2013, à coleção Portugal 0, coordenada pelo editor da Oficina e também professor de literatura portuguesa da UFF Luís Maffei. Desde 2007, Portugal, 0 edita no Brasil nomes destacados da poesia portuguesa recente, e já lançou, desde então, cinco títulos, o último dos quais dedicado à poesia do exitosíssimo valter hugo mãe. A coleção é sinal de que a Oficina Raquel se interessa pela literatura portuguesa há mais tempo que uma moda. Os livros editados no contexto do Ano de Portugal no Brasil pela Oficina têm apoio da DGLB, Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.»

03/08/2012

A solidez da oficina e não só

por cam
Do Cabrita, com a mais do que devida vénia:
« Mais um “quatro estrelas em cinco” foi atribuído a um livro meu, na curta mas bem dominada crítica de Hugo Pinto Santos ao meu livrinho de contos Ficas a Dever-me uma Noite de Arromba. Pode ler-se aqui .

O que importa registar é que com tal acumulação de “quatro em cinco” nos últimos anos eu devia viver na Califórnia e ter dois dobermans no jardim. Prescindo bem da Califórnia. Mas já mói o que Hugo Pinto Santos repara no seu texto: «Poeta, ficcionista, ensaísta, António Cabrita editou (só em 2011) um título em cada uma das áreas, respectivamente Não se Emenda a Chuva, O Branco das Sombras Chinesas (outro “quatro estrelas em cinco”), e Respiro (faltaria aqui o meu romance no Brasil, nomeado para finalista da Telecom, e que vai ser editado pela AbYsmo). Que essa produção tenha sido acolhida com um silêncio quase total, eis o que se pode lamentar ou tentar inverter.» Não há nada a inverter. Não creio que Portugal possa ser um país menos mesquinho, menos desatento, menos cretino, mais justo do que é. Vejo as dificuldades com que o Carlos Alberto Machado vive no Pico, sendo talvez o dramaturgo da sua geração, e com a gaveta cheia de excelentes inéditos de ficção que não consegue colocar, vejo como rebolam todos agora diante do Rentes de Carvalho quando o silenciaram durante décadas e só porque felizmente agora o Rentes agora publica numa editora que conquistou uma boa relação com os media (se os “mesmos livros” do Rentes saíssem, por exemplo, na Afrontamento permaneciam no mais absoluto limbo), vejo como o Grabato Dias, um génio, continua a ser absolutamente desconhecido, sem que ninguém morra de vergonha por isso, vejo como o Manuel da Silva Ramos, uma das maiores imaginações-em -acto que conheci na vida (e já conheci algumas) continua a ser menosprezado, vejo como o Paulo José Miranda, o primeiro Prémio Saramago, e um talento total, tem tido uma carreira absolutamente acidentada apenas porque editou os primeiros livros na Cotovia, editora que nunca acolheu as preferências dos media apesar dos bons livros que editava, vejo como o Henrique Fialho continua sem editora para a sua produção profícua e inteligentíssima – e sei: nada há a esperar de um país cujos azimutes são subterrâneos. Até ao fim de ano tenho mais dois livros para sair, dois em Moçambique: «Para que Servem os Elevadores e outras indagações literárias», ensaios, pela Alcance, e «Inventário de Todos os Passos em Falso», uma antologia poética, também pela Alcance. E preparo, com essa excelência oficinal que o Hugo Pinto Santos me atribui, e cito: «Estas ficções de ambiência moçambicana, com personagens de carne e osso, distinguem-se pela disciplina da frase e pela boa gestão dos recursos à disposição – “O mar é o grampo que segura aquela casa de madeira à duna”. Dir-se que “grampo” é a palavra chave mas a chave deste como de outros achados de António Cabrita está antes na solidez da sua oficina, e não em qualquer truque isolado». Fico contente que ele note, que por detrás da transparência da escrita as articulações sejam sólidas. Ainda que pense que esta mesma solidez seja o que assusta quem prefere silenciar-me. Não tem mal, com a consciência oficinal que adquiri e a certeza de uma grande disciplina no trabalho sei que preparo para o ano que vem uma fornada de “cinco em cinco”, porque quando se persiste e não se deixa o talento à deriva é natural que as coisas cresçam. Vai ser tudo publicado no Brasil. Portugal que se foda. Entretanto, chama-me a Jade da banheira: «Bela Adormecida, chaleira…» (em Moçambique não é líquido que os elevadores ou os termo-acumuladores funcionem), e repisa, visto que não lhe respondo logo, «… então, Bela Adormecida, a chaleira…». Tenho uma filha de cinco anos que me chama – por carinho, não por desrespeito – Bela Adormecida. Melhor coisa não há… é isto e a escrita. »

19/07/2012

LER, SIMPLESMENTE

por cam

Vai chegar, ou já chegou, o tempo dos “livros de férias” (ou “para férias”)… É a praga que nos assalta, vinda nas asinhas e nas peles escamadas de “jornalistas” “culturais” e nos inefáveis “suplementos de férias”. Tudo regado com aquela coisa chamada “vinho” rosé (ou verde 3 Marias & afins, também “vinho”, dizem…). Ou chá. Ou café. Ou…

É uma praga para quem, simplesmente, lê. Os jornais e revistas, habitualmente parcos em trabalho sobre livros, leituras e leitores, ficam reduzidos a absoluto lixo – o novo “género” chamado “de férias”, ou “para férias”.

Quem é sensível a estes conselhos, em férias na praia (no campo, onde se queira), não continua as suas leituras que já vêm de trás, do tempo de não-férias, não, armam-se essas pessoas de livros “de férias”, ou “para férias”, comprados em super-mercados, por conselho dos tais “jornalistas” ou de vedetas televisivas. Vivemos em democracia, apregoa-se, e só temos de nos convencer disso, não há outro remédio.

Nestes meses, eu que não tenho férias “normais”, continuarei a dedicar-me aos livros amontoados na secretária de trabalho, na mesa-de-cabeceira e em outros locais domésticos. Tenho feito um esforço para não cruzar muitas leituras e, assim, por agora agarro-me com imenso prazer, ao Danúbio, do italiano Cláudio Magris, uma escrita delicada, culta e de uma enorme sensibilidade sobre a área a que os alemães no final do século XIX chamaram de Mitteleuropa, e que cobriria, toda a Europa Central, parte do Império Russo, zona dos Balcãs, etc. O conceito tem uma actualidade extrema, diga-se. No seu deambular pelo Danúbio – que só foi azul na valsa do Strauss, e que é cinzento-amarelo-lama – Magris fala da história (muito), de grandes nomes da literatura, da filosofia, do pensamento (mas também do quotidiano), com uma sensibilidade e um cuidado literário de excelência. O modo como muitas figuras são evocadas dá-nos visões de uma singularidade inteligente, a obrigar por vezes a deixar a leitura e a ir folhear as páginas desses autores, à luz de outros pontos de vista, quase sempre originais. Vou a pouco mais de meio mas sei que quando o terminar terei de voltar e voltar. Ah, a edição que tenho veio com uma revista semanal, ao “preço da uva mijona” – é de aproveitar, num jornaleiro perto de si!

Antes deste, li duas obras portuguesas, bem diferentes entre si e nos seus propósitos literários, mas ambas de uma grande qualidade: Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China) e Autismo, de Valério Romão (Abysmo).

Embora saiba que muito provavelmente não cumprirei o que estabeleci para próximas leituras, eis o que poderá interessar quem leia estas linhas: HHH, de Laurent Binet (Livre de Poche), Caríssimas 40 Canções, de Sérgio Godinho (Abysmo), Elegia de Cronos, de Nuno Dempster (Artefacto), revista Criatura, Ensinar o Caminho ao Diabo, de Miguel-Manso (ed. autor), Corpo, Arquitectura, Poema, de João Borges da Cunha e Jorge Fazenda Lourenço (Assírio & Alvim), A Poesia Ensina a Cair, de Eduardo Prado Coelho (IN-CM).

06/07/2012

PORTUGAL, A SÉRIO

por cam

Em 2010 tive a oportunidade de conhecer a Escola Portuguesa de Moçambique/Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM/CELP), em Maputo. É, a vários títulos, uma escola exemplar. Instalações amplas, arejadas e plenamente adequadas à sua missão de acolher e ensinar crianças e jovens na língua e cultura dos seus pais (ou daqueles que a elegeram com sua ou desejam que seja a dos seus descendentes). Portuguesa e moçambicana, sem sótãos de preconceitos – defendendo-se deles, que teimam em nunca acabar. Por lá fiz uma oficina de escrita do texto teatral, com um tema quente: a recente greve geral de 1 de Setembro contra o aumento do custo dos bens essenciais, com vários mortos e feridos entre o povo do “caniço”. Mas isto é outra estória, agora vou à dos livros.

Desta Escola têm saído, desde 2007, salvo erro, as caixas Acácia: em cada uma delas, quatro pequenos livros, com10,5x15cm, umas quarenta páginas, por vezes menos, por vezes um pouco mais, agrafados e colocados na caixa de cartolina. A Acácia tem direcção editorial do António Cabrita e coordenação da Teresa Noronha (EPM/CELP). É um projecto editorial deveras singular, desde logo por vir de uma instituição oficial (que em regra são pouco receptivas à erupção da literatura que não consta dos manuais do Ministério). O casal António/Teresa aposta na diversidade linguística, cultural, geracional. Vale a pena espreitar alguns exemplos: da pátria moçambicana, Armando Artur (nascido em 1962), Guilherme Ismael (1949-1994), João Paulo Borges Coelho (1955), Virgílio de Lemos (1929), Fernando Chiluvane (1982-2005); da pátria lusa, Carlos Alberto Machado, João Manuel Ribeiro, Matilde Ferreira Neves, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Vergílio Alberto Vieira; do Brasil, Hilda Hilst, Nicodemos Sena, Renato Suttana; e ainda uma antologia de poesia de Charles Baudelaire, Pierre Reverdy, Giuseppe Ungaretti e Roberto Juarroz (refiro-me apenas às 4 caixas que tenho, das 7 publicadas).  

O diálogo intercultural e a lusofonia, que empapam tantas gargantas e quase nada concretizam, têm aqui um belíssimo exemplo a seguir. Fazer “lá”, mas também “cá”, transverter, miscigenar mas também singularizar, misturar mas também saber distinguir, porque, justamente, não somos todos iguais (ainda bem), somos diferentes e criamos os espaços de tolerância e generosidade que podem (ou não, nada obriga) criar, alargar espaços de mesmidade – que não servem, aliás, se não para fortalecer a alteridade.

Seja como for, estas precárias caixas Acácia brilham no “cimento” de Maputo, por vezes explodem, criam embaraços e engulhos, mas também acetinam mãos ásperas, limpam olhos com as águas tépidas do Índico. Eh pá, só dizes isso por amizade. É verdade – mas não é a verdade toda.

Saudades de Maputo…

29/06/2012

PATERNIDADE FALHADA

por cam

Autismo é um perturbante romance de Valério Romão (nascido “em França, nos idos de 1974.”). A edição é da Abysmo (Abril de 2012, ilustrações de Alex Gozblau).

O autismo de uma criança faz deflagrar uma violência – relacional, comportamental – numa família (com referências reais) e o romance tece-se numa estrutura que procura dar(-nos) conta dessa violência e do que ela arrasta, procurando evitar, contudo, que o leitor não seja de todo submergido na teia de morte que atravessa a narrativa, tanto mais forte quando muitos dos leitores sabem (ou adivinham) que por detrás da literatura medra (ainda?) a poderosa teia do sofrimento e da culpa.

A fragmentação das vidas expostas é-nos dada pela diversificação dos narradores, pela polifonia de vozes e pelos diversos modos de dizer. Tomando o filho autista (Henrique) como elemento central, temos as vozes de Abílio (avô), Rogério (pai), mais presentes, e de Marta (mãe) e de Amélia (avó) – pais de Marta. Todavia, se estes narradores se apresentam na tradicional descrição de acontecimentos, ou, mais frequentemente, sobre os seus sentimentos e os dos outros, Marta surge, através de discurso directo, em pequenos capítulos intercalados, nas suas (patéticas) tentativas de comunicação com o filho, na sua persistência em ter com ele uma “comunicação de qualidade”. Marta, através do mesmo dispositivo dialogante, entabula conversas com terceiros (incluindo o marido, Rogério). O narrador impessoal surge igualmente, intercalando-se as suas intervenções, tal como os outros, com peças de diálogos.

Por outro lado, o romance estrutura-se em pequenos capítulos centrados em momentos ou situações-chave: as referidas tentativas de comunicação da mãe com o filho autista (“Um ano, sozinhos” – que vai de I a VI) e “Urgê cias” (sem o “n”, reproduzindo a placa falhada no hospital), que vai de I a VII: estes capítulos referem-se à situação de espera angustiosa que pais, e depois avós, fazem nas urgências de um hospital onde entrou acidentado o Henrique, e ainda, próximo do final do livro, “Entradas” de um blogue escrito pelo Rogério (1 a 5). Pelo meio, várias situações dos pais com pediatras e outros especialistas – capítulos que, entre outras funções, não negam a necessidade de o autor deixar elementos de natureza didáctica sobre o autismo e alguns modos de o encarar ou procurar resolver (atenuar consequências). Se o essencial das relações humanas está no trio mãe-pai-filho, a relação (desgastada e conflituosa, a raiar o abjecto) dos pais de Marta tem uma certa relevância.

Nesta estrutura, Romão dá-nos momentos de grande intensidade – dor, abandono, morte – que de algum modo são “compensados” com outros de algum humor (o Fabuloso Dr. Miguel Relvas, a alemã homeopática, o charlatão brasileiro), a par de uma linguagem repleta de imagens, mesmo para coisas ou situações de menor importância narrativa. Estes expedientes “aligeiram” a carga emocional, e o suspense, que vai quase do princípio ao fim do romance, que se baseia na ausência de informação sobre a situação hospitalar de Henrique. Pessoalmente, gostaria mais que Valério Romão tivesse optado por uma estratégia que deixasse ainda mais visível o estilhaçamento das vidas e tudo o mais. Aliás, o final (inesperado?) parece deitar por terra todo o cuidado posto pelo autor em evitar “dor a mais”. Seja como for, este é um romance raro, perturbador. É, pois, de aguardar com as melhores expectativas os dois que se seguirão – Autismo é o Volume I da trilogia Paternidades falhadas.

22/06/2012

EPITÁFIO

por cam

Quem conhece Carlos Mota de Oliveira? Em 1973 editou “Isabelarcoirisdovinho”, edição de autor – livro esgotado. Seguiram-se mais de 30 obras de poesia – sim, de poesia –, algumas delas sob os nomes literários de Ana de Sá e José Bebiano. Muitas delas esgotadas.

Eu, mea culpa, também não conhecia a poesia de Carlos Mota de Oliveira – até há poucos dias. Por um acaso, chegaram até mim 5 obras: “Uma chávena de café que saiu do Tejo na manhã do dia sete de Julho de mil oitocentos e setenta e oito e nunca mais voltou”, “Os poetas adoram massagens”, “Ao cair subtil da tua saia”, “O mar português não sabe ler”, “Os portugueses são imbatíveis no terço” (todos edição de autor, 2011, produção milideias.pt). Cinco pequenos livros. No formato – 11×15 centímetros – e no número de páginas – de um mínimo de 14 a um máximo de 96. Se procurarem na net, poderão ficar a saber que Mota de Oliveira nasceu na cidade de Lisboa em 1951. Chega, digo eu, que isto de biografias pouco contará para o mérito ou demérito do poeta, deste ou de qualquer outro.

Deveria ter começado por escrever que me consolei a lê-lo (esta é para os açorianos, em particular os lajenses, que tão saborosamente usam o verbo “consolar”!). Este senhor poeta Mota de Oliveira tem uma peculiar maneira de usar as palavras. Nestes pequenos livros, impressos em papéis de cor forte, a gosto do autor, fica a louça toda partida. Mas não por um elefante desajeitado em loja atafulhada, mas sim por delicadas mãos (e o resto), meticulosamente, notam-se umas pequenas hesitações, nada de especial, e depois, tumba! (não, não é pimba!). A ironia (cáustica, logo corrosiva, inteligente, logo cáustica) atravessa estes livros do poeta: “O teu candeeiro ladra como ladram / todos os candeeiros do mundo / e como ladram os cães em Portugal. Na realidade, posso ver poesia / em quase tudo / e nunca ninguém me impediu / de ficar nos teus lençóis / sem ter onde dormir.” (“F”). Ou este “EM LOUVOR DE CAVACO SILVA” (que irresistivelmente lembra o Cesariny de “Os anos felizes” ou de “Investigação semântica”): “Eu boliqueimo-me / Tu boliqueimas-te / Ele boliqueima-se / Nós boliqueimamo-nos / Vós boliqueimai-vos / Eles incendeiam-se!” Em JANTARES, longo poema de quase 70 páginas, Carlos Mota de Oliveira implode a baboseira dos “barões” da política. Um cheirinho: “Camaradas / e / amigos  // acaba de entrar / na sala / o Doutor Soares // sempre real / cheio / de casta // de boa / raça // sem erupções / cutâneas  // pulquérrimo / pulquérrimo // e português / português / e português! / Pois é, pois é, / camaradas, / acaba de entrar // sem virar  / a / cabeça  // sem virar / uma esquina / sem virar-se / no leito / sem virar / um copo de vinho / e português / português / e português!” O verso curto, saltitante, ondeante, com uma sobrevalorização que lhe advém também das repetições, como ficaria bem ele na voz de um grande actor ou numa música à rés do corpo de um Caetano Veloso.

Diz o próprio, na sua página web, que “faleceu a 06/06/2011 barbaramente trucidado por uma automotora na estação de Alcântara”. Daí o que, ainda vivo, escreveu na última página do seu “Os poetas adoram massagens”:

INSCRIÇÃO TUMULAR

Carlos Mota de Oliveira

Protegido pela Securitas

15/06/2012

AGOSTO

por cam

Entre o primeiro verso de “Caderno de Milfontes”, de Rui Almeida (edição volta d’mar, 2012 [depósito legal]) “Como será limpar o rosto depois de Agosto?”, e o último, “Como seria limpar o rosto / Depois de cada Agosto?” intromete-se um condicional, um se, que remete para um incumprimento e um indício de ciclicidade (“cada”). “limpar o rosto” poderá ser uma tentativa de fazer coincidir as coisas com o seu dizer, no lugar de Milfontes “O sopro amplia a permanência / Do mais compacto gesto” – “subisse o mundo até à visão”, deseja, procura, o poeta.

A permanência na estância balnear (cujo nome e história recente evocam em nós mais que um simples tempo de férias à beira-mar), oferece-se-nos o detalhe, num jogo de relações que o poeta talvez pressinta, de um outro real, ou o mesmo visto com órgãos que não habitam na matéria do corpo vulgar: “o quase silêncio / Da ondulação”, “A cadência do mar / Amplia o golpe na sombra, / Sobreleva o reflexo.” “Assim, aqui / Onde nada repete outro tempo, / O sopro amplia a permanência / Do mais compacto gesto.” O poeta instaura um lugar físico e um tempo outros, de uma qualidade inexistente, de uma sem-espessura: “Agora é o tempo todo desde sempre”.

Este olhar limpo (no sentido em que um olhar ao cobrir uma coisa marca o princípio da sua narrativa), é da ordem do sagrado: “A limpidez de tudo / Delimita o mundo à sensação, / Traz as coisas ao contacto com a pele, / Experiência do tremor / Na demora que concentra.”, ou, deste modo: “Envolta de nitidez / A vigilância expande até ao sonho / A realidade fixa.” – “limpar o rosto”?

A insistência de Rui Almeida num nada, numa intemporalidade, é radical: “Salva-se agora / O que um dia será impossível.” Por isso, o lugar-mesmo é efabulado: “Aqui se podem dizer coisas que magoam, / Palavras limpas que deixam / O ar circular / depois de serem ouvidas. // E a comoção sustenta / A delicadeza da música.”

Rescreveria continuadamente este poema (não vejo este livro como uma sequência de poemas, mas feito de andamentos descontinuados de uma peça musical). A leitura é uma forma de apropriação, e uma das mais radicais é a que arrisca a cumplicidade sob a forma de bricolage (outra, mais radical ainda, será a de cópia integral apondo-lhe nova assinatura…). Quando voltar a ler este “Caderno de Milfontes” ele pertencer-me-á ainda mais e um dia poderá acontecer que um dos seus versos venha a cair inadvertidamente no meio das palavras como que me ordeno com o mundo. Inútil, portanto, a ilusão do apoderamento. A poesia (a vida, o mundo…) é assim mesmo e a nossa relação com ela talvez não possa mais do que ter a ilusão da reinvenção.

O mundo que o Rui Almeida quis inventar (inventou?) em Milfontes será um dos passos da sua procura – interior, de sentido de si, “construir um nome” (todavia permanece, não nos esqueçamos, o desencontro entre o questionamento e a sua possibilidade de realização). Pela poesia – ou por outra coisa qualquer. “Nesta costa foi o que é agora / Sonhado, silencioso, / Tenso, rumoroso / E fraco, como ainda / Custa ser. Se ser é isto, / Como seria não ser?”

 Sem cessar “limpar o rosto / Depois de cada Agosto”.

08/06/2012

“HERMENÁUTICA”

por cam

Este novo livro do Miguel-Manso (“ribatejano no sentido Alberto Caeiro do termo”) pode ser muitas coisas: uma arte poética, um exorcismo da paisagem, “livro-paisagem com autor a escorregar – locus horrendus – nas tendências perigosas da autobibliografia”, livro de magia, uma “hermenáutica”, um desagravo de jovem poeta, rol de palavras de uso raro. De qualquer modo é um livro sério, com bom humor – “A ornitologia é uma ontologia que ri”.

Começar pelo princípio ou pelo fim? Tanto faz –

no princípio – primeira de “53 presenças” –, abre-se o alçapão, um buraco, uma ausência, um nada. Não interessa, “pões o braço lá dentro.” É simples: nada há a retirar, mas sim a preencher – pensas, mas pensas errado, o que acontece é que ficas com “um lugar a menos”, ou seja, aquilo que entra no nada torna-se presença, ela mesmo de natureza de ser alçapão, buraco… Confuso? Nem por isso, “Lógica e mística dar-te-ão a logística com que atravessarás os entraves todos” –

“Desaparecem fim, meio e começo, e da construção restará, sem penas, o empenho deambular de não edificar: Escreve-se o livro como quem cita um texto obsceno.” –

no fim (quase), mas também presente por todo o livro em diferentes formulações, a ontologia da poesia, sem anagramas, a busca, a impossibilidade mas também a crença: “Só um remoto dizer, ainda que pré-gutural, ressume no vento da potência. O tempo que demora percorrer a ideia de começo é já muito tarde. Enquanto na origem se prepara e atavia o mundo, já tudo resultou daí em não poder. Escrever é viver entre os mortos. Porque só entre os mortos poderás aproximar a mão do berço.” –

o que poderá haver de mais pasmoso num livro do que o prazer da deambulação entre coisas e os seus contrários? “Diagnóstico: sofres de Hermes labial”.

“Poesia em estado bravio há.” Mas o poema “terá de encontrar a voltagem exacta” para encontrar a pequena parcela que o redima do “corrupto agregado literário”. “O primeiro problema dos poetas começa por ser uma dificuldade de artesanato, de técnica, de oficina. E os cantos mais belos estão ainda à espera de ser cantados” – cita Walt Whitman (apenas com as iniciais WW). O poeta “Aquieta o coração para fluviar à bolina do dia”, acho que é o que ele faz melhor – e nós também –

resta “XIV” [“Retiradas”], a “Umbra et Cataracta”. “Lugar ameno” – uma fotografia (não identificada) de um homem velho, deitado numa cama, com os olhos vendados, repete-se por 7 vezes, cada uma delas com a legenda numa língua diferente. Antes, no fragmento 48: “Eloquente ablepsia [cegueira] olhadora em estado de vazio, a leitura progride sempre no sentido de deslembrar” –

este livro que pode ser muitas coisas, digamos, de poesia, é, diz o Miguel, um livro pop, que “não é sinónimo inflexível de regalo, logro e comércio”, “Bardos de medíocre obscuridade já temos barda.” Um “jovem autor” sobre quem se entoaram “excessivas loas aos resultado dos seus primeiros trabalhos”, deve passar “por isso inalterado”, recorrendo a sangrias, onde, para além da lanceta, “é habitual recorrer-se a sanguessugas. O autor deixa à mostra um pedaço de si que acumulou mais matéria e elas vêm alimentar-se”.

E fico-me por aqui, e peço-te, Miguel, “perdoa (…) a quem te tem, oh, fendido; e livra-te [me] do bem”.

(ah: o livro chama-se “Um lugar a menos” e é edição de autor, da série pessoal “Os carimbos de Gent”, Lisboa, 2012, encomendas para oscarimbosdegent@gmail.com).

01/06/2012

CADERNO DE ARTISTA(S)

por cam

Tenho entre mãos um livro que se assemelha a um pequeno caderno de artista – a ausência de um título na capa – onde apenas se esboçam dois corpos verticalmente unidos –, o papel, os versos em estrofes curtas aninhadas a um canto e de vez em quando as quase mulheres desnudas, sexos, seios, mas sempre em sombra, em imprecisão (“andar por aí / dentro da tua sombra / enxuto.” – E.J. Botelho), um certo pudor mas que não deixa de ser sensual – ou por isso mesmo – tudo num papel creme, suave, espraiante. E como são bonitas as guardas em cartolina amarela, garrida! Capas duras, a resguardar “Dois poetas e um pintor”, eles António Teves (Ponta Delgada, 1954-) e Emanuel Jorge Botelho (Ponta Delgada, 1950-), e no singular o pintor Urbano (ilha de São Miguel, 1959-). Honra dada à Artes e Letras /Solmar (Ponta Delgada), sabiamente dirigida pelo José Carlos Faria (edição de 2010, que teve uma tiragem especial de 50 exemplares, com caixa, numerados e assinados pelos autores e acompanhados de uma gravura – a inveja que eu tenho de apenas ter o livro e a caixa…).

A obra de Urbano parece ter uma relação íntima com a escrita (já aqui abordei um exemplo, o do seu trabalho, mais uma vez, com o poeta Emanuel Jorge Botelho tendo Antero como leit motiv). Conheço mal o seu trabalho, mas aqui o que aqui ressoa é uma sensibilidade muito delicada, que eu identifico com uma espécie de sageza do incerto – estas mulheres são de agora mas também de um tempo outro, inscritas por mãos hábeis em grutas escuras e baixas, com a paciência da devoção. Mas sem aquela coisa horrorosa da idealização da mulher, do tipo “a mulher eterna”, etc., que faz as delícias dos “sopeiros” (e das “sopeiras”).

Os outros “artistas” domam a palavra, adoçam-na, burilam-na, sopesam-na antes de a inscrever na superfície macia, mas traiçoeira, da folha. Há, de maneira mais evidente em Botelho, não apenas a adoração de uma (dada) mulher, o seu louvor, mas também um certo sentimento de perda, ou de solidão forçada, “na memória, / a serenidade dos teus dedos, / o tempo, lento, das heras”, “vinhas ao longe e eu já sabia dos teus passos; // todos os dias eu roubava o silêncio à solidão, / matava a morte”. “sempre foi de silêncio / cada manhã dos teus olhos // e eu deixei-me ficar”. Gosto da secura deste poeta, do que tenta, tenso, que intui certa impossibilidade, “riscar a pele e ver o teu nome / seguro sobre a linha”.

O amor, claro, “o amor não rima, porque não cabe, / no eco”. “pouco se diz para meu amor dizer. // a fala precisa magoar / os espelhos”.

Com ecos mais evidentes de outros poetas, António Teves, que é músico/professor, procura igualmente a precisão dos versos, nada a mais, nada a menos. Todavia, se as suas mãos estão “geometricamente sós”, elas têm a magoá-las “as arestas penetrantes do silêncio”; ou cisnes que regressam ao “delta branco / do dia”.

Um livro é também um objecto. Lamento não poder colocar aqui, partilhável, este precioso livro de artistas.

25/05/2012

O TERROR

por cam

A natureza do terror abre uma espécie de fenda no pensamento: “escrever um poema após Auschwitz é um acto bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento daquilo que tornou impossível escrever poemas.” (Theodor Adorno). Celan, com o seu poema “Todesfuge” [“Fuga da morte”], versos nos quais evoca o horror da Shoah [Holocausto], levou muitos a questionarem o veredicto adorniano.

Entre nós, a guerra colonial calou muitas vozes – não apenas as dos homens que física e mentalmente tombaram na guerra real, mas também as dos outros, as dos sobreviventes, quer a tenham directamente sofrido, quer não. É claro que há a excepção de Manuel Alegre, na poesia, e de Lobo Antunes, na ficção, ou os esforços antológicos de João de Melo, mas não muito mais (parece existir agora, muito recentemente, um movimento em sentido contrário). Falamos disto como se fosse uma necessidade – será mesmo? O problema é que não sabemos se a ausência se deve a uma espécie de recusa ética e, digamos, ontológica, ou se a outras razões menos compreensíveis (aceitáveis?). Ninguém saberá – mas a questão – porque se corta das nossas experiências estéticas o terror – existe, como as bruxas (que las hay, las hay).

O novo livro de Urbano Bettencourt (Piedade, Pico, Açores, 1949-), “África Frente e Verso” (Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2012) mergulha na guerra (já o tinha feito antes, e alguns dos poemas e textos deste livro apareceram justamente em livros anteriores). A sua experiência da guerra colonial (Guiné) acompanha-o (homem e poeta) até hoje – o último poema deste livro, “Agostos”, vem datado de 2011. Nos melhores momentos deste livro, como em “Da ilha carn(av)al”, de 1973, esbatem-se as fronteiras entre géneros e ficam as palavras na eterna luta do dizer o inominável (não apenas a guerra, ou o terror…). E delas ressalta, quem sabe se pela intensidade do vivido, outra intensidade, outra beleza (porque não?), porque a palavra é justa (ali), porque faz embater em nós ritmos, conjugações inesperadas, mas sempre com a força do retorno ao espaço e ao tempo do terror, espécie de ética de que Urbano parece não querer abdicar (e que, aqui e ali, parece tolher-lhe o impulso do dizer – questão controversa e longa de debater).

O plural de Agosto, trazido à liça lá em cima, é um modo do Urbano religar tempos, o do tempo em que uma “metralha e fogo e luz / e um homem deixou no adobe da parede / o seu retrato de cinza.”, o tempo em que “sobre uma esteira podia morrer-se de loucura / num corpo a corpo de vencidos, / desafiando a sombra da outra morte. A que vem / por detrás e por diante, da direita e da esquerda, / e deixa os seus dentes de chumbo na carne destroçada.” – e o tempo, o nosso de agora, o dos “pares que se devoram / nos jardins de cimento” “Não há chuvas neste Agosto. A calma / vibra nos telhados, as guerras trazem outros nomes, / outros donos. E talvez seja assim que tudo tem de ser. / E talvez seja este o melhor dos mundos.”

 É mesmo preciso religar coisas. Ou não.

18/05/2012

ANTERO REVISITADO

por cam

Antero é uma figura que continua a ter alguma presença entre nós – não a que mereceria, convenhamos, mas, mesmo assim, certos sinais continuam a chamar a nossa atenção para o homem genial e atormentado que ele foi. Li, com um imenso agrado, o livro que Armando Silva Carvalho escreveu em torno da sua figura (“Anthero Areia & Água”, Assírio & Alvim, 2010), poemas escritos em simultâneo com a leitura das cartas do poeta açoriano, publicadas por Ana Maria Almeida Martins na IN-CM). Agora, uma singular edição que junta poemas de Emanuel Jorge Botelho (Ponta Delgada, 1950–) e reproduções de arte de Urbano (Ilha de S. Miguel, 1959–), numa pequena edição da Publiçor, Ponta Delgada, saída em 2010: “Antero de Quental, a vida e uma manhã” (com versões em inglês dos poemas – “A life and a morning”).

Trata-se de uma homenagem, e, tal como em certa medida em Armando Silva Carvalho, o que agora parece despertar em particular o interesse do poeta e do pintor seja o peculiar suicídio de Antero – na epígrafe, o excerto de um poema de Couto Viana: “À porta do Convento da Esperança, / Rezo ao banco de Antero. / A sua alma, em paz, ali descansa, / depois do tiro do desespero.” Botelho, nos seus cinco breves poemas, adere à razão de Antero no seu desacerto com a vida, nocturna, como um peso de alma, “duas lâminas embutidas / no pulso, calado, da morte.” De um mesmo lance, o seu contrário: “vou-me embora, disseste, olhando a manhã nos olhos / cansado do embuste da noite. Os opostos “noite” e “dia” funcionam aqui como motor da retórica poética de Emanuel Jorge Botelho. Antero, para ele, foi um ser incomunicativo, à espera de uma libertação, um ser que falava “para dentro do silêncio, / esse lugar enxuto de palavras / onde deus Guarda papel branco” – forte imagem que vai para além da relação de um poeta que fala de outro poeta, mas da criação poética tout court. Todas as suas palavras neste livro poderão, aliás, ser lidas nesta perspectiva – e não me parece abusivo lê-las assim, um sentido preito ao poeta e à poesia.

A participação do pintor Urbano é a reprodução do seu “Caderno de Antero”, de 1991 (técnica mista sobre papel) e “Antero” (óleo e colagem sobre tela), de 1992, ”não existindo, portanto, coincidência temporal entre a arte de Urbano e a escrita dos poemas por Botelho (em 2009). No “Caderno”, o rosto de Antero é o motivo central. Surge ora contrastado quase a negro-branco, ora matizado, ora apenas esboçado – como se desaparecesse diante dos nossos olhos inquiridores ou tão pouco chegasse a existir, uma espécie de limbo, in betwween. Num dos “retratos” oferece-se um rosto ensanguentado, melhor dizendo, um rosto sem rosto em que o sangue é a sua única identidade. O corpo (adormecido, morto?) não parece pacificado – ou uma possibilidade de Antero continuar entre nós, sobreviventes. Com o mesmo sinal parece o pormenor do banco (do suicídio) – antes ou depois da morte, com uma nuvem que derrama uma água que (já lavou) o sangue derramado (pelo inacreditável tiro duas vezes repetido).

Precioso livro para nos acompanhar na leitura de Antero e na reflexão sobre a (sua) vida.

16/05/2012

ESPELHOS, LABIRINTOS E ESPADAS

por cam

«A 24 de Junho de 1969, numa casa de Bue­nos Aires, um escri­tor cego acaba de redi­gir o pró­logo para o seu quinto livro de ver­sos. Eram, com toda a pro­ba­bi­li­dade, as 4 horas da tarde. Tinham-lhe pedido que, nesse pró­logo *, a ante­ce­der um livro de “espe­lhos, labi­rin­tos e espa­das” fizesse uma decla­ra­ção sobre a sua esté­tica. Bor­ges, o escri­tor cego, decla­rou não ter nenhuma, mas atreveu-se a con­fes­sar as suas astúcias. Resumo esses oito hábi­tos humil­des que rejei­tam a arro­gân­cia bar­roca dos jovens.

1.Evi­tar os sinó­ni­mos que têm a des­van­ta­gem de suge­rir dife­ren­ças imaginárias.

2.Evi­tar his­pa­nis­mos, argen­ti­nis­mos, arcaís­mos e neologismos.

3.Pre­fe­rir as as pala­vras habi­tu­ais às pala­vras assombrosas.

4.Inter­ca­lar num relato des­cri­ções cir­cuns­tan­ci­ais que o lei­tor actual exige.

5.Simu­lar peque­nas incer­te­zas já que se a rea­li­dade é pre­cisa, a memó­ria não o é.

6.Nar­rar os fac­tos como se não fosse capaz de os compreender.

7.Recor­dar que as nor­mas ante­ri­o­res não são obrigações.

8.Recor­dar que o tempo se encar­re­gará de as abolir. Lê-se e só ape­tece envelhecer.

* Pg. 975 da minha velhi­nha edi­ção da Emecé Edi­to­res, Bue­nos Aires, 1974»

As astúcias de Borges, por Manuel S. Fonseca, retirado daqui, com a devida vénia [só a foto é da minha responsabilidade].

11/05/2012

VIAJAR DE SI PARA SI

por cam

O senhor Vasco Teixeira, “patrão” da Porto Editora, afirmou numa entrevista (ao jornal Público, em Novembro de 2010, salvo erro): “Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, eu dir-lhe-ei que não. Quando muito teremos algumas edições artesanais. (…) E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares, que os amantes de poesia comprarão.” Deve ter sido para “acabar de vez” com a poesia que o sôr Teixeira comprou, entre outras editoras, a Assírio & Alvim. Também deve ter sido por estas e por outras malandrices que surgem cada vez mais “edições artesanais” de poesia. Boas. Não sei se todas fazem edições de apenas “30 ou 50 exemplares”, mas o sôr Teixeira terá razão quando diz que “que os amantes de poesia [os] comprarão”. Longa vida ao camarada Teixeira! (sem poesia vive-se mais tempo, pensará ele e os que o apoiam…). Viva! Pum!

“Capitais”, livro de poemas de Paulo Tavares, foi editado este ano pela Artefacto (não está impresso o nome mas foi mesmo assim que eles quiseram), pequena editora sediada na Guilherme Cossoul, em Lisboa, antiga e veneranda sociedade recreativa de bairro que muito e bom teatro nela fez nascer. A tiragem é de 200 exemplares (‘tá a ver, sôr Teixeira, ainda está longe a sua metazinha de apenas “30 ou 50 exemplares”…) Para “os amantes de poesia”, já se vê (seremos assim tão poucos?).

O viajante por capitais da velha Europa tem “guardada num / minúsculo compartimento, a terra natal, / o país onde o mar se transformou / num mausoléu para adoração à distância / e as margens em ancoradouros balneares.” Na viagem, mesmo que ela esteja longe de ser a romântica viagem de educação (sentimental e outra, mas sempre iniciática, como todas as viagens são, e as que se fazem ao interior de nós mesmos não são excepção), há uma “sobreposição dos elementos: / história, ficção e tudo o que lá cabe.” Numa das paragens, o viajante abre “o quarto a um obsessivo foco / de luz cartesiano: estou vivo, existo, / e a realidade surge, tantas vezes, como / um aspecto secundário a essa constatação.” Mas pode hesitar nesta constatação: “quem nos dá, / afinal, classificação negativa / na competência de estar vivo?” Na exposição à viagem (viajar é algo a que nos expomos, saber até onde aguentamos a fuga – de nós e dos outros – em simulacros de aproximação ao outro, ao outro de nós), sob o efeito de um “copo cheio / de álcool nórdico” acontece também ao viajante apanhar um soco “sem defesa e logo um pontapé / se vem alojar entre as vértebras”; “a dor mais funda, porém, /será sempre de outra ordem: / rasurar da memória o motivo / da porrada e a face oculta de / quem nos apanha desprevenidos.”

Viaja-se entre “estruturas de penumbra”, as ruas a servir “os referenciais do esquecimento / que crescem nos poros / das grandes estruturas vivas.” – as Cidades. E nós nelas.

A poesia é (também) isto: viajar por entre as palavras, tão inseguros como numa viagem para o desconhecido. Que é sempre.

(coisa que o sôr Teixeira nunca descobrirá – também não lhe interessa).

10/05/2012

ACONCHEGOS

por cam

Em ilhas que são desertos de livrarias, e em tempo chuvoso, sabe bem receber livros de amigos.

Ontem e hoje, foram: cerca de 20 obras da editora Sempre-em-Pé, de que deixo aqui a foto de Instrumentos de Sopro, de Ruy Ventura. De outros amigos: Ensinar Caminho ao Diabo e Um Lugar a Menos, do Miguel-Manso (ed. autor). E de João Borges da Cunha e Jorge Fazenda Lourenço: Corpo Arquitectura Poema. Leituras inter-artes na poesia de Jorge de Sena (Assírio & Alvim).

Junto o Já Não Vem Ninguém, do Sidónio Bettencourt (Veraçor), que veio em outra leva de ofertas mas que ainda não tive oportunidade de ler, e por isso se junta a estes.

O monte cresce…

04/05/2012

ANJO DE EMPRÉSTIMO

por cam

Digam o que disserem sobre os poemas em órfãs folhas A4 ou na frente fria de um ecrã de computador, um livro, as folhas presas e uma capa que as envolve, essa coisa tão simples e despretensiosa continua a ser a casa perfeita dos poemas. E agora (finalmente!) que vejo os do Fernando Machado Silva, querido amigo, encadeados em livro, a sua “primeira viagem”, não escondo o sentimento: é um belo livro, por tantas e tão várias razões que não me chegará, tenho a certeza, a arte e o engenho para as dizer (a partir daqui, a quem não gostar de escolhas do coração e de adjectivações do belo aconselha-se a interrupção da leitura – poupamo-nos).

De um lado e do outro da palavra, os gostos variam, não raramente envolvem-se em escaramuças. No meu caso, seguramente por severas razões autobiográficas, tenho muitos gostos na poesia, até aparentemente opostos. Se me deixa sem palavras a secura de um poema, certas rasuras que parecem vir de outro patamar de conhecimento ou existência e a ele inevitavelmente hão-de regressar, também facilmente me deixo levar nas águas doces de uma boa “canção”, daquelas que tolamente se trauteiam, quer em noites de embriaguez (vínicas, amorosas ou outras), quer por toda a vida fora. Alguns dos poemas do Fernando são destas “canções de trautear” (mas não de trottoir), dolorosamente simples, já perto daquela simplicidade que namora outros voos – quem sou eu para saber se os alcançou!

O núcleo forte dos poemas deste primeiro livro do Fernando (porque me parece que ele poderia ter retirado alguns, poucos, sobretudo do início), são aqueles, a grande maioria, em que os versos, com uma sintaxe ao “ritmo do coração”, se estendem em aparente prosa, com sobressaltos como o da mulher “com olhos de horizontes distorcidos” que, não fossem os “ataques epilépticos da cadela” e mais umas tantas infelicidades, “por pouco era feliz”. Há nestes poemas o quotidiano melancolicamente observado, mas há sobretudo o seu de ficar só, com o horizonte cortado pela ausência da amante, ausência real ou imaginária, mas sempre e só dele, como quando “enforcava os meus dias entrançando os cabelos” e a única saída que vislumbra para começar de novo é “talvez deixar a porta aberta” – embora ele bem saiba que “a dor é uma propriedade privada”.

O poeta precisa de “um anjo de empréstimo”, mas ele surge apenas uma vez, embora se busque, ou se espere, sempre – depende das portas que fecham e abrem.   

Há muito corpo nesta poesia. Os corpos dos amantes que se enlaçam ou se abandonam, mas também o corpo idealizado como metáfora de uma felicidade que, paradoxalmente, parece não se desejar atingir. “Partiram-me uma vez o coração / e deliberadamente desci a escadaria da pouca saúde / para perceber no fim / que o que separa um remédio de um veneno / é somente a dosagem / agora / se mo partirem de novo / depois de colado / peço apenas que o façam rápido / e me deixem em paz / então / poderei assistir a uma última sessão /e chorar pela primeira vez / se não houver bilhetes / eu cá me arranjo / e me entendo com a morte”   

Nesta poesia – como em toda a poesia – “ficou aqui uma vez mais / tudo por dizer”: não é uma desistência, é o caminho que não tem, não pode ter, fim.

[ primeira viagem, de Fernando Machado Silva, edição Orfeu, Bruxelas, 2010 [2012], 74 páginas, 8 € (+ portes de envio), pedidos para: fernandomachadosilva79@gmail.com ou orfeu@skynet.be ]

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