Posts tagged ‘António Mega Ferreira’

15/01/2012

UM NOME INDIZÍVEL NUM AQUÁRIO VERDE

por cam

As Coisas, edição limitada

«Saudar o aparecimento de um novo livro é sempre motivo de alegria. Saudar o aparecimento de um primeiro livro de poesia é uma felicidade imensa. Mas, como festejar As Coisas, que se apresenta como obra de estreia de Inês Fonseca Santos, e cujo lançamento hoje aqui celebramos? Obra de estreia? Mas como, se a própria autora nos diz que houve outra obra antes desta? Tomemos o primeiro dos 32 poemas que constituem este título de Inês. Chama-se “Intróito” e diz assim:

 Era um poeta que só escrevia primeiras obras

condenado por ter um dia escrito um poema

feito com palavras conhecidas apenas pelos deuses.

Queria usar agora palavras como: lírios. Ou: Eva.

Considerá-las com ênfase, como lhe tinha ensinado uma amiga

poeta com um amigo poeta. Fechou-se em casa.

Encheu páginas de silêncio.

Passados dias, os deuses devolveram-no

às coisas. Com elas escreveu a segunda obra.

 As Coisas é essa segunda obra de Inês Fonseca Santos. O seu corpus poético começa portanto no Opus 2, e não no Opus 1, o que, sendo original, não deixa de ser adequado ao livro que aqui nos dá. Porque, mais do que uma recolha poética, uma primeira obra, com tudo o que isso comporta de terreno ensaiado pé ante pé, feita de impressões diversas e de diversas instâncias do real sobre os quais se exerce o ministério do poeta, As Coisas é um livro – com princípio, meio e fim. E é-o também porque rompe na cena poética portuguesa com um vigor, uma respiração e uma maturidade raras em obra inicial. Há em As Coisas uma espécie de fio narrativo, que é feito de buscas e perdas, de tentativas e erros, de ensaios e aproximações, de fragmentações e de colagens, fio que nos prende ao mistério essencial que qualquer leitor procura num livro: qual é o nome? De quem é o nome? A poesia procura “das erlösende Wort”, a palavra perdida de que fala Wittgenstein. E é nessa ânsia de uma remota palavra primordial que nos reconciliasse no mundo, mais do que com o mundo, que se encontram a busca do poeta e a expectativa do leitor.

Nessa busca, o livro, mais que o poeta, constrói um mundo, um mundo feito de coisas dispersas, entre as quais o único nexo possível é o de um nome indizível – realmente, um nome não-dito -, mundo que se arquitecta em poesia. A poesia é o logos, a palavra capaz de organizar um mundo que se apresenta à memória como uma colecção de disjecta membra, de coisas soltas, arrancadas a um corpo ideal, uno e compreensível: o mundo, tal como é, é obsceno; cabe à poesia torná-lo apresentável. Para já, fiquemos com o programa deste livro: descobrir o nome que dá um sentido às coisas, a todas as coisas. É claro que, neste mundo povoado de coisas e de reminiscências de coisas, e da recordação de um nome perdido, há pontos de amarração, coisas que são mais coisas que as outras: do meu ponto de vista (e o leitor é, à sua maneira, um re-criador do livro que o poeta escreveu), o aquário verde, figura recorrente neste livro tão sedutor, é o que pontua a deriva poética da autora (arrisco-me a dizer que é a melhor imagem a cores deste livro, elegantemente tintado em tons de sépia).  O aquário verde é silenciosa testemunha e sinal da persistente memória de um espaço, de uma casa, de um mundo. Lá ao alto, no cimo da estante, o aquário verde acolhe e alimenta os “peixes-palavras”, assiste e resiste à passagem do tempo e ao esquecimento das coisas em nós. Ele é que permanece, num território poético em que todas as coisas se movem e quebram, se colam e voltam a partir, porque o nome do desejo não encontra a expressão da sua mágoa. Porque o nome não encontra a expressão. E, no entanto, o poeta chama por ele, ousa dizê-lo como nome, ousa chamá-lo como coisa:

Havia várias formas de chamar-te.

Chamar-te não era apenas dizer o teu nome.

Muito menos fazer-te virar a cabeça na direcção da casa.

Era conhecer-te o rosto – dedicado, disponível, raro.

 

As coisas livres ficaram escritas no chão.

Dizer o nome seria iluminar toda a cena, e eternamente. Dizer o nome seria a glória da poesia e a sua condenação, o seu cumprimento e a sua exaustão, porque “as coisas/são feitas de vidro./Partem-se quando digo em voz alta/o teu nome. Nome de todas as coisas.” Este curtíssimo poema, inserido na parte inicial do livro, é uma das mais felizes expressões que aqui se encontram para dizer esse êxtase e agonia de toda a expressão poética. Se fosse possível dizer o nome que é em si todas as coisas, estas estariam condenadas a desaparecer. Mas o poema não é elegíaco, é o enunciado de uma verdade poética que nos devia levar sempre a seguir pelo caminho que já Novalis apontava: “quanto mais poético, mais verdadeiro”. Chamo agora a atenção para o facto de que, nesse curto poema, aquilo que vos li como primeiro verso é, realmente, o título do poema. E essa particularidade deste livro – a de os títulos não serem circunstanciais ou descritivos, mas constituírem em si uma parte do discurso que se integra no todo do poema – é o que torna este poema tão paradigmático de tudo o que Inês aqui escreve. É uma arte poética que se enuncia, com a brevidade de uma norma que será seguida sem falhas ao longo do livro: “as coisas/são feitas de vidro./Partem-se quando digo em voz alta/o teu nome. Nome de todas as coisas.” O poema, o longo poema que este livro é, declina todas as possibilidades desta ruína das coisas e da exaltação do nome desejado. E o incessante labor de reconstituir as coisas, à espera de poder voltar a dizer o nome que as estilhaça: “com sílabas/ de palavras caídas em desuso/ o teu nome volta a formar-se.” Tornam-se então indistintas as coisas e o nome que lhes dá sentido, a poesia resolve-se num movimento de construção/desconstrução, que é a dialéctica que faz o poema avançar, e que arquitecta a narrativa. Coisas recuperadas, irreparáveis, diferentes, semelhantes, materiais, sobreviventes. Coisas partidas, insignificantes, frágeis e difíceis. E as “mais difíceis”:

As coisas mais difíceis começaram por ser do corpo.

Pouco se pensava no tempo. Nenhuma consciência dele, menos ainda

do modo de contá-lo. Não pela falta de relógio

(o encarnado mostrava os números por debaixo de um arco-íris de cinco cores).

Era a falta de: as palavras. Pareciam-se com

o teu nome. O jogo – a guerra de procurá-las,

quanto mais dizê-las, fazia-nos de tempo (na pele, nos ossos).

Invencíveis, as coisas mais difíceis. Sobretudo

nos dias de sol:

com o som audível dos peixes no aquário verde,

a estante prestes a cair.

 

Dentro da casa, instalava-se a tempestade.             

Por casualidade, cruzei a leitura do livro da Inês com a de um romance do grande escritor espanhol Javier Marías. Chama-se Todas as almas. E aí, como que seguindo uma dinâmica de aproximações que se impõe quando menos a esperamos, encontrei este parágrafo: “Não posso dar-me ao luxo de dispor de todo o meu tempo e não ter em quem pensar, porque, se o faço, se não penso em alguém mas apenas em coisas, se não vivo a minha estada e a minha vida em conflito com alguém ou na sua previsão ou na sua antecipação, acabarei por não pensar em nada, desinteressado de tudo o que me rodeia e também de tudo o que possa nascer de mim.” O escritor precisa de um nome que o faça pensar, que o arranque à ditadura das coisas e o devolva à condição de ser-em-si-por-outro. Que nome é esse é o que a poesia – a de Inês como a de qualquer outro poeta – não diz. Como nota lapidarmente Manuel António Pina, “a poesia, se calhar, é uma porta que nos permite reconhecer que não há porta nenhuma”.

Vamos então ao último poema, “As coisas inquebráveis”: “Não me lembro de outras/que não as palavras”, diz a poeta. Permita-me que acrescente outra coisa, igualmente inquebrável, igualmente inútil, igualmente gloriosa: a vontade de escrever. Mesmo que dela apenas brote um nome indizível num aquário verde. »

António Mega Ferreira, Lisboa, 13 de Janeiro de 2012 [apresentação de  AS COISAS, de Inês Fonseca Santos, Lisboa, Abysmo, 2012 ]

[com um obrigado ao João Paulo Cotrim)

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05/01/2012

AS COISAS DA INÊS FONSECA SANTOS

por cam

Lançamento do livro da Inês Fonseca Santos, com ilustrações de João Fazenda, adição abysmo, no Lux Frágil, dia 13 de Janeiro de 2012, pelas 22 horas. Apresentação de António Mega Ferreira, leitura de poemas por Filipa Leal e Pedro Lamares.

 

19/09/2011

BOAS SURPRESAS

por cam

Foi uma agradável surpresa ver ontem no CCB a sala esgotada (mais de 150 pessoas), para o Dia Vitorino Nemésio, em que tive o prazer de participar como “leitor”. Aproveito para agradecer publicamente ao A. Mega Ferreira, ao J.P. Cotrim e dar um abraço aos meus companheiros de mesa, além do Mega: António Machado Pires, Fátima de Freitas Morna, Luiz Fagundes Duarte e ao actor (excelente) Pedro Lamares.

15/09/2011

NEMÉSIO, CCB

por cam

29/08/2011

NEMÉSIO, CCB

por cam

DIA VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)

ÚLTIMA LIÇÃO


18 Set 2011 – 15:00

SALA ALMADA NEGREIROS

ENTRADA LIVRE

Entre 1969 e 1975, a RTP apresentou um programa semanal, que em 1974 passou a quinzenal, com o título Se bem me lembro. Durante cerca de meia hora, em horário nobre, os portugueses deixavam, encantados, o Professor. Vitorino Nemésio abrir-lhes as fronteiras da Cultura e do Conhecimento.Sabiam que era açoriano, professor universitário e escritor, e alguns talvez soubessem que tinha escrito o romance Mau Tempo no Canal. Pouco mais. Vitorino Nemésio tinha o mundo dentro de si e era de todo o mundo. Mas, isolado de qualquer grupo, o mundo não o chegou a conhecer.Vinte anos depois da sua morte, o documentário Vitorino Nemésio – VIAGEM aborda a personalidade única que foi  Vitorino Nemésio, dentro da cultura portuguesa: escritor, professor, ensaísta, jornalista, comunicador. Mas, acima de tudo, poeta. E Homem.
PROGRAMA
Participação de:
Fátima de Freitas Morna
Luiz Fagundes Duarte
Carlos Alberto Machado
António Machado Pires
António Mega Ferreira

16h30 | Pedro Lamares lê “Última Lição” (9 de dezembro 1971)

17h15 | Intervalo

17h30 | “Vitorino Nemésio – Viagem” (1999)
Documentário de Maria João Rocha (50 minutos)

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