Posts tagged ‘Metáfora’

08/01/2012

NEMÉSIO vs MAGALHÃES #02

por cam

Joaquim Manuel Magalhães

Cerca de 18 anos depois da primeira incursão na obra de Nemésio, Joaquim Manuel Magalhães (JMM) volta em Rima Pobre. Poesia Portuguesa de Agora (Presença, 1999) ao autor de Festa Redonda.

No texto em referência (pp.31-40), Magalhães sugere “uma leitura poética de Vitorino Nemésio enquanto lugar verbal onde surgem processos que, embora por vias distintas, acabam por ser semelháveis a posições processuais que poetas mais novos, pela altura da sua morte [1978], vinham a encontrar como terreno de vontade e de possibilidade.” (p.32) Convém dizer, antes de se perceber como Magalhães define esses pontos semelháveis, que ele considera que a “qualidade da poesia portuguesa recente assenta na recusa de uma dependência intergeracionalista.” (p.31) E diz “que não será prudente procurar encontrar continuidades e influências onde elas não existem. Porquanto apenas existe a justaposição que certas poéticas entre si fomentam, depois de terem demandado a originalidade criativa própria.” (pp.31-32)

Vitorino Nemésio

O breve apreço que Joaquim Manuel Magalhães faz da obra de Nemésio ancora-se na sua eleição de Festa Redonda e Andamento Holandês como “as suas duas obras culminantes” (p.33). Magalhães anota hipóteses de ler as “linhas de tradicionalidade” em Nemésio, entendida tradicionalidade como “um processo de sedimentação do distinto”, tanto no semelhante como nos “radicais actos de rompimento” (p-32). Assim, pode enumerar JMM de Nemésio a “tradição oral novilatina”, a “poesia em francês na esteira de Gautier ou Verlaine”, de “cantadores tradicionais portugueses” e o “simbolismo de Nobre”. (id.) Em Nemésio considera JMM marcas distintivas como o “enlouquecimento processual (em Festa Redonda) só equiparável a Cesariny – modo radical do uso da métrica, sabotada em ambos pela “manutenção de uma rima, de uma toada, de um espelhamento qualquer que atira ao leitor um surpreendente estilhaço”, e dá um exemplo

Deixa à ida uma pluma

Que eu distraído escolha

Como na onda uma

Rolha.

(p.33)

Nuno Júdice

Entrando na aproximação a Júdice, Magalhães evoca raízes e pontes comuns – convém, antes, assinalar que Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, 1949-) publica poesia desde 1971 (A Noção de Poema) e em 1999 já contava com 22 títulos publicados (até 1978, ano do desaparecimento de Nemésio, publicara 7 obras – apenas para citar nomes: Antero, Gomes Leal, Eugénio de Castro, Junqueiro, Pessanha ou Soares dos Passos, e as fontes italiana e francesa: Leopardi, Baudelaire, Mallarmé, Laforgue e Lautrèamont, até chegar a Valéry. E ainda Hölderlin, que considera também associável à poética de ambos. Magalhães gosta de destacar, em termos de processos, a “violência formal que constitui a extremização do uso da quadra (…) para além da demanda popular” (fora do popular, Nemésio percebeu a radicalidade de Eliot e Pound e a “destruição dos preconceitos versilibristas herdados de Whitman por simbolistas e por modernistas” (p.35).

De volta a Júdice, outro campo de cruzamento com Nemésio, o uso do soneto; assinala três vectores no século XX português: o rompimento com a processualidade usual desta forma; variações que fundem a forma original com modelos e intuitos prosódicos mais populares; uso retradicionalizador da forma renascentista. Fora “desta dimensão formal específica do soneto, ambos os poetas se afastam, no que diz respeito ao uso da prosódia” (p.36).

Dentro das diferenças, o que muito aproxima estes e outros poetas (Manuel Gusmão, por exemplo), é a “total adesão ao poema como consciência da sua escrita” (id.) “A partir de 1959, a presença do estético como referencialidade interna do poema surge em vários poemas de Nemésio.” E as referências culturais não deixam de produzir “um seguro efeito de estranhamento” que é mesmo conseguido “dentro de situações verbais típicas da sua poesia desde o primeiro livro, precisamente nisso que diz respeito ao uso da quadra e da redondilha” (p.37). Esta “estúrdia processual” só Cesariny consegue equivaler.

[continua]

25/08/2011

PREDAÇÃO

por cam

Ler os outros, as suas escritas, é um modo de me apoderar do que me falta neles. O processo é predatório na sua essência. Acrescento ao meu corpo de possibilidades as partes dos outros que desejo, e no mesmo passo regenero as idênticas que em mim gosto, nos seus detalhes.

Neste processo, para evitar excessos em mim, desfaço-me de algumas partes, umas declaradamente estranhas – ou assim as sinto – e outras reutilizáveis. Se isto aproveitar aos outros, acrescentando-os, é mero acaso, e apenas assim assemelhado a qualquer lance altruísta.

Um jogo em que a cumplicidade nem sempre é voluntária nem recíproca, luta encarniçada que sai de mim para mim, este acontecimento ocasional de escrever sobre os outros.

Açougue de palavras, pedaços de carne roubados e atirados às feras.

27/03/2011

A BOCA NA CINZA

por cam

«Nós encobrimos o que é feio, o que é dissonante, o que é áspero – andamos sempre a limpar o mundo de tudo isso. Uns de uma maneira menos violenta, outros violentamente – foi isso que fez Hitler, limpou o mundo. Quando ouço fazer a apologia da beleza e da saúde, fico muito perturbado. Porque é a apologia da “limpeza”, e isso é terrífico. A apologia do poema bonito, a apologia da frase harmoniosa… estremeço. No fundo, atrás disso vêm todas as outras coisas, e vem também a violência. O terrorismo da beleza.
Quase todas as pessoas que praticam isso fazem a apologia disso, e estão sempre a confrontar o que os outros fazem, ou escrevem, com isso, ou o que os outros são com o padrão colectivo. Quem não faz isso é afastado. É segregado, como os anões são segregados, como os surdos, como os mudos são segregados. E o que fica é um mundo que se quer sem mácula. Eu tenho horror à ausência de mácula. (…) A escrita, para mim, não é uma forma de atenuar, é um gesto, e eu queria que cada palavra fosse um gesto e não mais do que um gesto, com a violência do gesto, a rudeza. (…) O outro tipo de violência é quando a própria palavra é a violência do discurso, a palavra não diz a violência: e é ela própria violência. Aí, as pessoas afastam-se, repugnadas.»

(Rui Nunes em entrevista a Tereza Coelho no suplemento Mil Folhas do Público, em 5 de Julho de 2003)

13/03/2011

“CHEFE” POLÍTICO – USAR E DEITAR FORA

por cam

No célebre “O Relatório de Brodie” (1970), o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), apresenta, pela suposta pena de um fictivo Brodie, a descrição de um povo existente numa região infestada por homens-macacos, os chamado Mlch, a que Brodie chama os Yahoos – não é ironia, é bom lembrar que estávamos no início da década de setenta do século XX…

Borges ironiza com vários aspectos destes Yahoos. Por agora, cinjo-me ao modo como ele apresenta a concepção de rei desta tribo. Curiosamente, a antropologia americana, sobretudo (Marshal Sahlins, e outros) andava por essa altura a descrever as consideradas “chefaturas” africanas e o seu “sem-poder” no seio das organizações políticas dos povos ditos “primitivos” (erro grosseiro do etnocentrismo). Voltemos aos reis Yahoos: “cada criança que nasce está sujeita a um minucioso exame; se apresenta certos estigmas (…), é elevado a rei dos Yahoos. Acto contínuo, mutilam-no, queimam-lhe os olhos e cortam-lhe as mãos e os pés, para que o mundo o não distraia da sabedoria. Vive enclausurado numa caverna (…). Se há uma guerra (…) exibem-no à tribo para estimular a sua coragem e levam-no, carregado aos ombros, ao mais aceso do combate, à guisa de bandeira ou talismã. Em tais casos, o comum é que morra imediatamente, debaixo das pedras que lhe atiram os homens-macacos.” O texto de Borges, no seu conjunto, é uma deliciosa parábola sobre as sociedades contemporâneas. Neste aspecto parcial do poder político, a parábola remete irresistivelmente para a constituição de um poder político, a sua utilidade e o modo dele se exercer, em função dos objectivos que a colectividade previamente  definiu como os mais adequados à sua, chamemos-lhe assim, felicidade. Infere-se, creio, desta asserção, e de uma forma mais prosaica: para que queremos nós um “chefe” político? Como havemos de o escolher e de que modo devemos usá-lo? Em algumas das “chefaturas” acima referidas, certos povos escolhem, de maneira bem diferente da nossa, um chefe (rei, muitas vezes), sem poder (segundo os padrões ocidentais, entenda-se) e usam-no para que ele realize belos discursos – as “boas palavras” – que encantam quem as ouve, cumprindo, assim, o seu (pequeno) papel na performance social. Já agora, não se julgue que tal acção de falar nos nossos dias é despicienda: “conversas em família”, discursos de sete horas seguidas na praça da revolução, etc.

No nosso ocidente, mais ou menos cristão e civilizado, damos demasiada importância aos “chefes” políticos, esquecendo (ou ignorando, o que é mais grave) que o Poder não tem somente essa “representação”.  Os “chefes” políticos servem sobretudo para nos entreter. Como a sua existência é algo dispendiosa – e além do mais a sua retribuição nem sempre cumpre a reciprocidade de forma equilibrada – organizamos um moroso e complexo processo para a sua escolha (partidos, eleições, etc.), que assim justifica o dispêndio, e, quando nos aborrecemos ou ele deixa de funcionar a nosso gosto, deitamo-lo fora e arranjamos outro.

Não?

27/03/2010

O MEU ALTER EGO…

por cam

«O meu alter ego acreditava na invenção ou descoberta de novas metáforas; eu nas que correspondem a afinidades íntimas e notórias e que a nossa imaginação já aceitou. A velhice dos homens e o ocaso, os sonhos e a vida, o correr do tempo e a água. »

Jorge Luis Borges,  “O Outro” (O LIVRO DE AREIA, 1975)

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