Posts tagged ‘Política’

03/08/2012

A solidez da oficina e não só

por cam
Do Cabrita, com a mais do que devida vénia:
« Mais um “quatro estrelas em cinco” foi atribuído a um livro meu, na curta mas bem dominada crítica de Hugo Pinto Santos ao meu livrinho de contos Ficas a Dever-me uma Noite de Arromba. Pode ler-se aqui .

O que importa registar é que com tal acumulação de “quatro em cinco” nos últimos anos eu devia viver na Califórnia e ter dois dobermans no jardim. Prescindo bem da Califórnia. Mas já mói o que Hugo Pinto Santos repara no seu texto: «Poeta, ficcionista, ensaísta, António Cabrita editou (só em 2011) um título em cada uma das áreas, respectivamente Não se Emenda a Chuva, O Branco das Sombras Chinesas (outro “quatro estrelas em cinco”), e Respiro (faltaria aqui o meu romance no Brasil, nomeado para finalista da Telecom, e que vai ser editado pela AbYsmo). Que essa produção tenha sido acolhida com um silêncio quase total, eis o que se pode lamentar ou tentar inverter.» Não há nada a inverter. Não creio que Portugal possa ser um país menos mesquinho, menos desatento, menos cretino, mais justo do que é. Vejo as dificuldades com que o Carlos Alberto Machado vive no Pico, sendo talvez o dramaturgo da sua geração, e com a gaveta cheia de excelentes inéditos de ficção que não consegue colocar, vejo como rebolam todos agora diante do Rentes de Carvalho quando o silenciaram durante décadas e só porque felizmente agora o Rentes agora publica numa editora que conquistou uma boa relação com os media (se os “mesmos livros” do Rentes saíssem, por exemplo, na Afrontamento permaneciam no mais absoluto limbo), vejo como o Grabato Dias, um génio, continua a ser absolutamente desconhecido, sem que ninguém morra de vergonha por isso, vejo como o Manuel da Silva Ramos, uma das maiores imaginações-em -acto que conheci na vida (e já conheci algumas) continua a ser menosprezado, vejo como o Paulo José Miranda, o primeiro Prémio Saramago, e um talento total, tem tido uma carreira absolutamente acidentada apenas porque editou os primeiros livros na Cotovia, editora que nunca acolheu as preferências dos media apesar dos bons livros que editava, vejo como o Henrique Fialho continua sem editora para a sua produção profícua e inteligentíssima – e sei: nada há a esperar de um país cujos azimutes são subterrâneos. Até ao fim de ano tenho mais dois livros para sair, dois em Moçambique: «Para que Servem os Elevadores e outras indagações literárias», ensaios, pela Alcance, e «Inventário de Todos os Passos em Falso», uma antologia poética, também pela Alcance. E preparo, com essa excelência oficinal que o Hugo Pinto Santos me atribui, e cito: «Estas ficções de ambiência moçambicana, com personagens de carne e osso, distinguem-se pela disciplina da frase e pela boa gestão dos recursos à disposição – “O mar é o grampo que segura aquela casa de madeira à duna”. Dir-se que “grampo” é a palavra chave mas a chave deste como de outros achados de António Cabrita está antes na solidez da sua oficina, e não em qualquer truque isolado». Fico contente que ele note, que por detrás da transparência da escrita as articulações sejam sólidas. Ainda que pense que esta mesma solidez seja o que assusta quem prefere silenciar-me. Não tem mal, com a consciência oficinal que adquiri e a certeza de uma grande disciplina no trabalho sei que preparo para o ano que vem uma fornada de “cinco em cinco”, porque quando se persiste e não se deixa o talento à deriva é natural que as coisas cresçam. Vai ser tudo publicado no Brasil. Portugal que se foda. Entretanto, chama-me a Jade da banheira: «Bela Adormecida, chaleira…» (em Moçambique não é líquido que os elevadores ou os termo-acumuladores funcionem), e repisa, visto que não lhe respondo logo, «… então, Bela Adormecida, a chaleira…». Tenho uma filha de cinco anos que me chama – por carinho, não por desrespeito – Bela Adormecida. Melhor coisa não há… é isto e a escrita. »

22/06/2012

EPITÁFIO

por cam

Quem conhece Carlos Mota de Oliveira? Em 1973 editou “Isabelarcoirisdovinho”, edição de autor – livro esgotado. Seguiram-se mais de 30 obras de poesia – sim, de poesia –, algumas delas sob os nomes literários de Ana de Sá e José Bebiano. Muitas delas esgotadas.

Eu, mea culpa, também não conhecia a poesia de Carlos Mota de Oliveira – até há poucos dias. Por um acaso, chegaram até mim 5 obras: “Uma chávena de café que saiu do Tejo na manhã do dia sete de Julho de mil oitocentos e setenta e oito e nunca mais voltou”, “Os poetas adoram massagens”, “Ao cair subtil da tua saia”, “O mar português não sabe ler”, “Os portugueses são imbatíveis no terço” (todos edição de autor, 2011, produção milideias.pt). Cinco pequenos livros. No formato – 11×15 centímetros – e no número de páginas – de um mínimo de 14 a um máximo de 96. Se procurarem na net, poderão ficar a saber que Mota de Oliveira nasceu na cidade de Lisboa em 1951. Chega, digo eu, que isto de biografias pouco contará para o mérito ou demérito do poeta, deste ou de qualquer outro.

Deveria ter começado por escrever que me consolei a lê-lo (esta é para os açorianos, em particular os lajenses, que tão saborosamente usam o verbo “consolar”!). Este senhor poeta Mota de Oliveira tem uma peculiar maneira de usar as palavras. Nestes pequenos livros, impressos em papéis de cor forte, a gosto do autor, fica a louça toda partida. Mas não por um elefante desajeitado em loja atafulhada, mas sim por delicadas mãos (e o resto), meticulosamente, notam-se umas pequenas hesitações, nada de especial, e depois, tumba! (não, não é pimba!). A ironia (cáustica, logo corrosiva, inteligente, logo cáustica) atravessa estes livros do poeta: “O teu candeeiro ladra como ladram / todos os candeeiros do mundo / e como ladram os cães em Portugal. Na realidade, posso ver poesia / em quase tudo / e nunca ninguém me impediu / de ficar nos teus lençóis / sem ter onde dormir.” (“F”). Ou este “EM LOUVOR DE CAVACO SILVA” (que irresistivelmente lembra o Cesariny de “Os anos felizes” ou de “Investigação semântica”): “Eu boliqueimo-me / Tu boliqueimas-te / Ele boliqueima-se / Nós boliqueimamo-nos / Vós boliqueimai-vos / Eles incendeiam-se!” Em JANTARES, longo poema de quase 70 páginas, Carlos Mota de Oliveira implode a baboseira dos “barões” da política. Um cheirinho: “Camaradas / e / amigos  // acaba de entrar / na sala / o Doutor Soares // sempre real / cheio / de casta // de boa / raça // sem erupções / cutâneas  // pulquérrimo / pulquérrimo // e português / português / e português! / Pois é, pois é, / camaradas, / acaba de entrar // sem virar  / a / cabeça  // sem virar / uma esquina / sem virar-se / no leito / sem virar / um copo de vinho / e português / português / e português!” O verso curto, saltitante, ondeante, com uma sobrevalorização que lhe advém também das repetições, como ficaria bem ele na voz de um grande actor ou numa música à rés do corpo de um Caetano Veloso.

Diz o próprio, na sua página web, que “faleceu a 06/06/2011 barbaramente trucidado por uma automotora na estação de Alcântara”. Daí o que, ainda vivo, escreveu na última página do seu “Os poetas adoram massagens”:

INSCRIÇÃO TUMULAR

Carlos Mota de Oliveira

Protegido pela Securitas

23/04/2012

ILHAS…

por cam

E-mail recebido pelo meu amigo Urbano Bettencourt, que quis partilhar:

«Una isla es un punto de conciencia en el mar»
Lawrence Durrell
“El Viernes pasado di una charla en la Sala Manuel Padorno sobre la importancia de la literatura insular y su espacio en el mundo literario actual. Pude presentar los siguientes proyectos en los que he trabajado y colaborado estos años para la difusión de la literatura insular:
De izquierda a derecha la antología Poetas canarios en Buenos Aires (Ed La Máquina del Tiempo, Argentina), la antología Poetas de Islas Canarias (Ed La Otra, México), Las islas de los Secretos/ Ilhas dos Segredos (Ed Anroart, Canarias), la Revista Neo (Universidad de Azores), mi ensayo La isla Inventada (Ed Universidad Nacional de Irlanda) y la revista Magma (Isla de Pico, Azores).
Sigo pensando que es el momento de las islas en el mundo: en las islas trabajamos la poética de la relación, la creolidad, el mestizaje cultural, la universalidad… En esta época de globalización y uniformidad del pensamiento el concepto isla, ese punto de conciencia en el mar, puede ser una nueva de forma de proponer nuevos paradigmas culturales. Los archipiélagos somos conjuntos de territorios unidos por aquello que nos separa. Unidos por «aquello» que nos separa es nuestro estilo. Tenemos que seguir indagando. Quizá esté en las islas el secreto que hay que desvelar…
abrazos
Juan Carlos”

10/04/2012

DIMAS SIMAS LOPES

por cam

O prestigiado médico e galerista Dimas Simas Lopes lançou o romance Sonata para um viajante, uma edição Calendário de Letras,  no passado dia 31 de Março, na sua Carmina  Galeria (Angra do Heroísmo), com apresentação do poeta e crítico literário do jornal Expresso Carlos Bessa. No dia 1 de Abril foi a vez do escritor Álamo Oliveira fazer a apresentação na Freguesia dos Biscoitos, e no dia seguinte, na Livraria Solmar (Ponta Delgada), com apresentação a cargo do escritor Vasco Pereira da Costa (que antecedeu na Direcção Regional de Cultura dos Açores a pianista Gabriela Canavilhas e presentemente Jorge Paulus Bruno, ex-directo do IAC e do Museu de Angra do Heroísmo). 

Estou curioso.

02/03/2012

MILITARES

por cam

«Os militares não foram educados para pensar, mas para obedecer. Supor que um governo de militares pode ser eficiente é tão absurdo como supor que pode ser eficaz um governo de mergulhadores.»

Jorge Luis Borges, citado por Volodia Teitelboim, em Os Dois Borges. Vida, Sonhos e Enigmas, Porto, Campo das Letras, 2001: 450.

01/03/2012

A GUERRA

por cam

«É fácil, e vulgar, que se induza no homem normal o estado de homicídio: basta mandá-lo para a guerra. O bêbado procede como um louco, e o soldado procede como um assassino. (…) Porque mata o soldado? Por uma imposição de um impulso externo que lhe oblitera por completo todas as suas noções normais de respeito pela vida e pela lei; esse impulso externo pode ser a Pátria, o dever, ou a simples submissão a uma convenção, mas o facto é que é como o álcool que converteu o outro em louco, uma coisa vinda de fora. A guerra é um estado de loucura colectiva, mas, nos seus resultados sobre o indivíduo, difere da bebedeira: a bebedeira dissolve-o, a guerra torna-o anormalmente lúcido, por uma abolição das inibições morais. O soldado é um possesso: funciona nele, e através dele, uma personalidade diferente, sem lei nem moral. O soldado é um possesso ou um intoxicado com uma daquelas drogas que dão uma clareza factícia ao espírito, uma lucidez que não deve haver perante a profusão da realidade. (…) Um respeito emotivo pela vida, eis o que evita que se mate. Tem-no o budismo; tê-lo-ia o cristão, se efectivamente o fosse. (…) Quem não é capaz de matar um homem também não é capaz de matar um frango. E, conversamente, quem é capaz de matar um frango é capaz de matar um homem; o caso é fornecerem-lhe as circunstâncias externas que lhe tornem frangos os outros homens, ou determinado homem – isto é, as circunstâncias externas em que se obnubile, não a noção da existência (essa está obnubilada em quem pode matar), mas a noção da identidade de outra vida humana como a própria (que é o que está obnubilado em quem efectivamente mata).»

[Fernando Pessoa, Quaresma, Decifrador, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008, edição de Ana Maria Freitas: pp. 93-98]

24/02/2012

RENDIMENTO MÍNIMO

por cam

O poema é o lugar da imperfeição, da rudeza, do não-dito a tentar irromper. A poesia é uma teima infindável, sabedoria da impossibilidade. Mas o poema é isso, a poesia é isto, de outro modo, se se alcança o inalcançável, a coisa deixa de ser poema, deixa a poesia de existir – acontecerá outra coisa, com outro nome. E não sei se valerá a pena aí chegar. Prefiro a demanda. De modo que devemos deixar para os encartados a poesia imaculada e as poéticas tal-qual. Elas petiscam, porque não arriscam. Engalfinhadas na luta pelo poder – o que dá prebendas mediáticas e outras em euros crocantes, mas também os pequenos poderes domésticos, das pequenas tribos domesticadas em tascas e bares esconsos – fazem dos poemas e da poesia um negócio vil e venal.

Nunca sabemos onde estamos – eis também o que deve ser dito. Já vimos muitos dos arremessadores de pedras da calçada acabarem, verdes-rubros, nos parlamentos dos poderosos; outros, em certos momentos da vida publicam antologias dos melhores poemas, seus, se a tão longe se atreveu o despudor, dos outros, quando é longa a lista de dívidas sujas a pagar. É quando a poesia faz trasfega e se traveste em tráfico de influências.

As Edições 50Kg, Porto, do Rui Azevedo Ribeiro, faz livros em caracteres móveis, em pequenas tiragens (150 a 300 exemplares, creio que não mais). Está lá tudo o que um livro de poesia é: o tempo lento da incerteza. A tipografia de caracteres móveis, para quem não saiba, é um longo e paciente trabalho oficinal de juntar com uma pinça letra a letra, sinal a sinal, para ter uma palavra, uma linha e depois outra e outra e outra até que um pequeno livro começa a surgir; e a prensagem de cada página, imperfeita, onde se adivinha uma sabedoria dos materiais quando fazem sobressair uma palavra ou uma sequência, ou, pelo contrário, a tinta a menos quase elide uma outra. Cada pequeno livro guarda o cheiro, a rugosidade, é lugar de imperfeição, de rudeza.

Li na Terça-Feira de Carnaval três livros da 50Kg recebidos no dia anterior: “A metafísica das t-shirts brancas”, de Miguel Martins, “Rendimento mínimo”, de A. Dasilva O. e Rui Azevedo Ribeiro, e “Palinopsia”, de Pedro S. Martins.

O termo “palinopsia”, do grego “palin” (de novo) e “opsis” (ver, visão), significa literalmente “ver de novo”; “palinopsia” é, pois, um distúrbio visual que faz com que as imagens persistam mesmo depois do seu estímulo ter desaparecido. Não sei como o Pedro S. Martins “inventa” os seus poemas, por mim, voltei a ter ontem, mais uma vez, a experiência de, com os olhos fechados, reter-me numa imagem mental, fixamente, até chegar às palavras (incoincidentes, já se sabe). Acho que são “pós-imagens” estas figuras de S. Martins: “Visitam-me as netas. / / Trazem / os olhos em vida / a ferver (…)”, ou: “Sobressaltado / fuma cachimbo como / se tivesse / uma seara / de fogo à frente / dos olhos”.

A. Dasilva O. abre a sua parte do “Rendimento mínimo” assim: “Um poema é já a morte / abençoada sem qualquer / valor ou angústia (…)” Por isso, sem “estado, teoria / ou discurso” espera pela “chegada / do carteiro / com o vale da morte” onde está escrito tudo o que não quis escrever. A cada poeta a sua verdade, mas eu, como leitor interessado no ofício, assinaria por baixo esta “morte” sem “valor” ou “angústia” como um modo de fazer do poema. O “rendimento mínimo” do Rui Ribeiro obriga-o a expor-se “ao canto em vergonha / À espera da quantia exacta”. Rendido “Entre ser ligeiro no desapego / E a imobilidade de estar atravessado / Por uma armação em poema”. Para além das valorações políticas e do jogo referencial, adiro ao fazer do poema onde o poeta procura assegurar o seu “rendimento mínimo” de palavras.

O poeta foi devidamente industriado “nas artes e ciências de estar vivo, / excepto a respiração, que é oferecida: // comer, roubar, fugir, / ser intramuros e existir na gleba / e desistir / silenciosamente.”; queimaram-lhe “reiteradamente os nervos, o bem-estar, o amor com ferros / em brasa trazidos dos fogos descontrolados dos [n]vossos egos.”: Miguel Martins não traz “paz; só, talvez, menos guerra / connosco, dia a dia, torturados.”, é poeta de “espada (…) de dois gumes” Cabe-nos a escolha, diz.

Depois, veio a “Quarta-Feira de Cinzas”.

04/02/2012

ELOQUENTE SINTOMA

por cam

António Guerreiro, «Ao Pé da Letra», Actual/Expresso, 4 de Fevereiro de 2012

27/01/2012

ATÉ À VITÓRIA FINAL!

por cam

Em 1999, José Pacheco Pereira iniciou a publicação de uma biografia política de Álvaro Cunhal. Continuou, em 2001 e em 2005. Os três volumes totalizam 2.117 páginas. Cronologicamente, o volume terceiro terminou no ano de 1960, e Pacheco Pereira já anunciou que este ano publicará o quarto e último volume, dedicado, depreende-se, ao período que decorre desde a saída da prisão até ao final da vida do dirigente comunista, que ocorreu em 13 de Junho de 2005.

Só nestas últimas semanas me dediquei a ler a obra. Já outros o disseram: o trabalho de Pacheco Pereira é monumental, rigoroso, minucioso, sério, etc., etc. Toma como centro vital o militante e dirigente comunista Álvaro Cunhal, nas suas diferentes facetas, mas é sobretudo uma história do PCP e da oposição política ao regime de Salazar (o que está publicado, o que vier, será, naturalmente, da oposição ao regime liderado por Caetano). Não apenas a história do PCP mas de todos – indivíduos e grupos – os que tiveram presença e voz na maior parte da nossa vida no século XX. Um panorama impressivo e impressionante deste tempo. Isto que digo não é novidade, mas creio que nunca será demais repeti-lo.

A biografia política de Álvaro Cunhal feita por Pacheco Pereira tem tido a companhia de inúmeras investigações históricas (e não só) que revisitam o nosso passado desde, principalmente, a revolução liberal de oitocentos até aos nossos dias, a par de outras que abrangem outros períodos, mesmo de maior amplitude, como são as várias histórias de Portugal recentemente publicadas ou em vias disso. Significa isto que temos cada vez menos desculpas para continuarmos levianamente acomodados sobre ideias feitas acerca de nós – Portugueses coisa e tal, a maioria das vezes vilipendiados. São pontos de vista historiograficamente distintos, por diversas razões, mas une-os a necessidade de olhar para nós como povo, nação, o que quer que seja, sem pontos de partida condicionados ou, sendo-o, mostrados às claras. Com a frontalidade de estudar a vida e obra de um Salazar ou de um Cunhal por pessoas que declaradamente não estão do lado da simpatia, ou se estão nas tintas para isso.

Hoje, ler e estudar de novo a nossa história sem ideias preconcebidas é, creio, um exercício fundamental de cidadania.

Mas eu queria era falar do livro do Pacheco Pereira. Há nele muitas, muitas coisas sobre que reflectir, mas, por agora, limito-me a uma delas: na vida do PCP, e dos seus principais dirigentes, foi predominante, a par de um genuíno espírito de missão em defesa dos mais desprotegidos socialmente, um desfasamento essencial com a realidade e, por coerência, sucessivos e repentinos volte-faces, uma estratégia para fazer das derrotas vitórias, das inimizades amizades, etc. Quando não era a realidade que se enganava, dizia-se que afinal “nós já o tínhamos dito, feito”, etc. Num período mais próximo de nós, Álvaro Cunhal transformou um golpe militar bem sucedido numa “revolução democrática e nacional”. E o pior é que isto não se pode colocar sob o chapéu do tacticismo, não, tem raízes profundas, é uma maneira de ser, um estado de espírito, conceitos ideológicos arreigados até ao apodrecimento. E o livro de Pacheco Pereira tem, entre muitos outros méritos, o de nos fornecer farto material de reflexão sobre isto.   

27/01/2012

MAGMA EXPULSA E LEMBRADA

por cam

POR VAMBERTO FREITAS

“Cada texto foi inscrito com o seu valor próprio e com os decorrentes de cumplicidades, atracções e repulsas – tensões próprias de uma revista com identidade irrepetível.”

Carlos Alberto Machado, Coordenador da extinta revista Magma

«As palavras de Carlos Alberto Machado, um dos fundadores e coordenadores da (extinta) revista literária Magma, referem-se ao número zero de lançamento publicado pouco antes, e havia já chamado a si um diversificado grupo de escritores, uns mais conhecidos do que outros, residentes nos Açores e no Continente. Depressa esse rol de colaboradores aumentaria consideravelmente, Magma abriria as suas páginas à nossa diáspora, desde os Estados Unidos e Canadá ao Brasil, assim como a participantes de outros de países, alguns deles naturalmente em tradução. A edição inaugural incluía ainda uma separata de poesia, que se publicaria com outros dos seguintes sete números, cada uma coordenada por um escritor ou poeta convidado/a, tal como a revista no seu todo até ao seu abrupto desaparecimento em 2008. Estava assim lançada em 2005, a partir da Câmara Municipal das Lajes do Pico, sob a direcção também de Sara Santos, uma das melhores publicações de “criação literária” nos Açores, tendo como única companhia no arquipélago a NEO dirigida por John Starkey e com a chancela do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, mas mantendo uma autonomia editorial absoluta.

É certo que revistas ligadas aos nossos institutos culturais na Horta, em Angra do Heroísmo e Ponta Delgada sempre serviram como outras “universidades” da nossa classe culta, privilegiando a investigação história, sociológica e literária, mas só nestes últimos anos publicações como a Magma e a NEO davam continuidade ao que muito anos antes iniciara A Memória da Água-Viva, sob a direcção de José Henrique Santos Barros e Urbano Bettencourt a partir de Lisboa nos anos 70. Todos estes projectos tiveram ou têm características editoriais muito próprias: o diálogo literário implícito inter-geracional, colocando escritores de nome feito ao lado dos mais novos, estes sempre em busca de meios para chegarem a um público leitor na sua sociedade e, quando possível, para além dos horizontes regionais e nacionais. Ainda hoje as little magazines, assim chamadas nos EUA pelo seu formato livresco em que a criatividade visual quase sempre faz parte da sua originalidade e distinção, constituem (sem que a net as ameace, por enquanto) as mais procuradas publicações pelos que buscam sistematicamente a inovação ou as novas tendências literárias em qualquer língua. A Orpheu em Lisboa (Fernando Pessoa) e depois a Presença (José Régio, Casais Monteiro e João Gaspar Simões) em Coimbra foram para a nossa literatura o que The Paris Review ainda hoje representa para os norte-americanos: estar presente em qualquer uma das suas edições é ficar consagrado ou, no mínimo, apresentado a leitores de maior exigência literária e cultural.

Magma cumpria por inteiro a missão literária inerente a estes projectos. Olhando a vasta lista de participantes na suas páginas, nota-se de imediato a presença da maior parte dos nomes açorianos associados à nossa nova geração de escritores em convivência de igualdade sem apologias com alguns dos autores mais conhecidos e prestigiados em Portugal, desde Alberto Pimenta, Ana Hatherly, Ana Martins Marques, Manuel de Freitas e Gonçalo M. Tavares a outros de língua portuguesa como Luiz António de Assis Brasil e Lélia da Silva Pereira Nunes (que coordenaram um dos números da revista, levando alguns escritores brasileiros a ficcionarem os “seus” Açores, alguns deles nunca tendo cá estado). Da diáspora, uma vez mais, para além dos emblemáticos Onésimo T. Almeida e Francisco Cota Fagundes, aí está Frank X. Gaspar cuja obra em parte comemora a sua ancestralidade picoense, tendo merecido uma separata por mim traduzida sob o título de um dos seus poemas, A Noite dos Mil Rebentos. Não serão, no entanto, os nomes, por mais famosos que sejam na literatura nacional (nacional aqui inclui os Açores e os açorianos, naturalmente) ou estrangeira, mas sim porque a Magma passou a constituir, na sua relativamente curta existência, outro grande repositório da nossa memória colectiva, o que mais interessa sempre na escrita em qualquer uma das suas formas criativas ou ensaísticas, já para não falar no estímulo ao trabalho entre os que, apesar do seu inegável talento intelectual, raramente encontram um meio de divulgação da sua obra incipiente ou já legitimada quer pela comunidade quer institucionalmente. Para uma região que sempre se demarcou a nível nacional pela sua criação ou produção literária, mas sofre do provincianismo reinante e da lonjura das sectárias máquinas editoriais e de favores sem fim da nossa capital, só iniciativas como esta garantem a dignidade cultural do nosso povo, asseguram para as gerações vindouras os arquivos artísticos da sua própria ancestralidade geográfica, histórica, intelectual. Quem acha que isto tem importância menor, como parece ser o caso entre nós neste momento, esquece-se que a desmemória colectiva é bem-vinda e essencial à já reinante ditadura pós-moderna, ao novo fascismo engravatado que se auto-denomina de Mercados e nos corrói a todos. Um povo sem a sua voz fica coisificado e apto a ser manobrado por todos que o querem na condição de escravo. Por outro lado, a descentralização da cultura é também já um facto notável em muitos países avançados, os centros estão a virar margens ou a evoluir para comunidades de interesses outrora totalmente dominantes a partir dos grandes espaços ou cidades. Cada sociedade terá agora de garantir os seus próprios meios para se afirmar e se auto-afirmar perante os outros que partilham ou não o nosso destino. No que se refere a publicações deste género e ao diálogo a um nível superior sem nunca deixar de incluir quem deseje participar, não poderemos colocar no fim das prioridades dominadas por supostas manifestações de “cultura” no que entre nós passaram a ser festas instantâneas, com muita perna pimba e vozes sem talento em palcos estupidamente improvisados á beira-mar – a um custo, para os nossos cada vez mais limitados recursos, avassalador e cuja destruição maior tem sido também a marginalização e amordaçamento dos tradicionais rituais festivos nas freguesias rurais de todas ilhas.

“A NEO — escreveu Urbano Bettencourt no número três (2006) da Magma, por ele coordenado — publica-se em Ponta Delgada e fica muito bem aí mesmo; A Magma publica-se nas Lajes do Pico, que não são a capital ou ex-capital de coisa alguma, não têm uma ilha em frente, embora sejam o lugar de onde é possível ver a Montanha nascer das águas, como Vénus. Quer dizer, a Magma também fica muito bem onde está, sem complexos de lugar, pois, como afirmava o escritor cabo-verdiano Manuel Lopes, a partir da Horta e em meados do século passado, o pior que pode acontecer a um lugar pequeno é ser, simultaneamente, tacanho”.

Magma, pois, pela sua inquestionável qualidade em cada número publicado e pela sua abrangência de temas, geografias dos nossos afectos e estilos, prestigiava como poucas outras publicações nossas a literatura dos e nos Açores. Que partia de uma pequena vila açoriana fora do triângulo do poder político regional só lhe trazia um estatuto que em Portugal será difícil de encontrar, habituados que estamos às falsas e moribundas grandezas dos “grandes” centros. Não deveríamos esquecer que a grande tradição intelectual e criativa das nossas ilhas – não sou o único a afirmá-lo — tem a sua primeira base na página impressa, quer se trate de livros, jornais ou revistas, precisamente os meios mais ignorados cá nos tempos que correm.

Magma ficará arquivada e citada por muitos outros como testemunha do trabalho intelectual sério e universalmente identitário. O resto e os autores do nada irão cair irremediavelmente no muito merecido esquecimento.»

________________________

Magma (2005-2008), fundada e dirigida por Sara Santos e coordenada por Carlos Alberto Machado, Câmara Municipal das Lajes do Pico, Pico, Açores.

Texto publicado hoje, Sexta-Feira 27 de Janeiro, no Açoriano Oriental e também no blogue de Vamberto Freitas.

 

15/01/2012

DESACORDO ORTOGRÁFICO

por cam

Pedro Mexia assina este Sábado no suplemento A(c)tual do Expresso uma excelente crónica sobre o Acordo Ortográfico: coloca as questões pertinentes, de forma lúcida e inteligente. Com a devida vénia, posto:

ANTIGA ORTOGRAFIA

13/01/2012

PÓS-DEMOCRACIA

por cam

Na imprensa generalista, António Guerreiro (AG), no jornal Expresso (suplemento Atual), é uma das vozes mais persistentes na actualização de um pensamento sobre o mundo em que vivemos, quer na reflexão sobre a literatura, quer no âmbito de largo espectro do pensamento filosófico. Recentemente, abordou a actual crise europeia com o conceito de pós-democracia (O Rapto da Europa (versão em 3D), edição de 19 de Novembro de 2011, pp.34-36).

Falar de pós-democracia, ou estado pós-democrático na Europa, não é o mesmo que défice democrático. A ideia, outra, “significa a entrada num outro modelo que ainda não sabemos designar senão como inflexão, historicamente determinada, da democracia.” AG aborda esta ideia com o concurso de dois livros recentemente publicados: de Jürgen Habermas, Zur Verfassung Europas, e de Hans Magnus Enzensberger, Le doux monstre de Bruxelles ou l’Europe sous tutelle, na versão francesa. Habermas, segundo AG, “reflecte sobre uma constituição europeia que possa consagrar uma forma particular de «democracia transnacional» sem sacrificar a autonomia democrática dos povos e nações europeias.” Há em Habermas uma “denúncia” de “um caminho pós-democrático” “seguido por Angela Merkel e Nicolas Sarkozi.”

Por seu lado, Enzensberger ataca com “fúria crítica e muita verve cómica a obstinação de Bruxelas (…) em elaborar regulamentos e directivas, em controlar tudo e «colocar tudo sob tutela», impondo um sem número de regras que determinam a vida quotidiana dos cidadãos europeus.” Enzensberger denuncia a elite, supostamente esclarecida, que nos diz o que é certo ou errado, nos diz o que é melhor para todos nós. «A simples ideia de um referendo desencadeia imediatamente o pânico na eurocracia.» «A tríade Parlamento-Conselho-Comissão produz um buraco negro onde desaparece o que nós entendíamos por democracia.». A U.E., deste ponto de vista, representa uma tentativa de extermínio da “velha invenção europeia que é a democracia.” Aquilo que a Europa está actualmente a promover (“modelo técnico de governamentabilidade”) “abole a política e a ideia de representação e mediação em que esta se baseia.” A Europa, assim, “está a passar por derivas que significam pura e simplesmente a morte do modelo democrático ocidental.” A referência pode deixar de ser a cidade (a polis), mas sim a empresa – a pós-democracia.

Entretidos a discutir a baixa política no atropelo do quotidiano, despimo-nos da nossa capacidade de pensar, categorizada já como luxo ou coisa supérflua. Resta saber se isso acontece por ser uma consequência inevitável da abolição simbólica da Cidade ou se, por razões complexas, foi essa desistência que facilitou o caminho à invasão dos “bárbaros” de fato cinzento.

12/01/2012

BOTEM OS HOLOFOTES SOBRE O GAJO

por cam

Já tentei chegar à coisa de várias maneiras, a menos má é esta: Botem os holofotes todos sobre o gajo que dá pelo nome de António Cabrita e está no Alto Maé, Maputo, Moçambique, mais a Teresa e as suas três meninas! Um gajo agarrado ao tutano da terra e a viver noutro espaço-tempo. E faz disso escritura como pouca se faz no mundo que eu conheço. Pronto, está dito.

Ando às voltas com o Respiro dele (edição Língua Morta, Lisboa, Novembro de 2011 – não saiu em nenhum Top Ten, estejam descansados!). São trinta páginas de texto que pesam como um milhão de anjos (talvez caídos).

Num repente, pode ser assim: o Cabrita convocou Plotino, Koestler, Bosquet, Octavio Paz, Ken Wilber e Shayegan (exemplos maiores) para servirem de pilares e traves mestras para uma casa que ele próprio constrói. Até aqui, tudo bem. Ora, acontece que a casa que o Cabrita quer construir com eles é uma casa que desconcertaria qualquer arquitecto, dos idos e dos vindouros, parece-me, pois tem como principal traço distintivo o de ser uma casa e o seus desdobramentos sem fim. As cobertas não são o que parecem, nem o chão, e molda-se aos pensamentos de cada habitante ou visitante. Mais ou menos, que as palavras parecem estar a ser contaminadas pelas flutuantes terras moçambicanas.

Cabrita evoca o “clamor das contradições” (Plotino), os hólons (Koestler), o “terceiro incluído” (Nicolescu, Lupasco)… para dar umas valentes voltas ao real e à realidade, à referencialidade, ao uso da metáfora e da metonímia, ou não fosse o poeta, na iluminação de Jean Carteret, “o homem mais esburacado do mundo”.

(quando acabei a primeira leitura, só me apeteceu copiar todo o livro, como fez segundo Borges, o Pierre Menard, que “tinha a admirável ambição de vir a produzir umas páginas que coincidissem, palavra por palavra, linha por linha, com as de Miguel de Cervantes” no seu Quixote. Pois.)

Sobre a metáfora, nas palavras do poeta libanês Adonis: «Quando a metáfora encosta à ordem do dizer é porque está degradada e estampa unicamente uma réplica rançosa de um território que a retórica já mapeou – o que hoje, na realidade, acontece à maior parte da escrita e escolas, sem excepção.»

Os hólons, “cabeça de Janus: podem ser vistos como um todo em si mesmo e, simultaneamente, como uma parte do todo maior”, marcam o caminho do Cabrita na primeira parte do ensaio, mas ele faz questão de dizer que não há “hologarquias”, pois há uma diluição de categorias e não um esforço da legitimidade das mesmas – um não à autoridade. A água que sob fervura sobe no alguidar é o território da imanência, seguida de extraterritorialização, e dessa dobra nasce um novo plano imanente e assim sucessivamente. Por outro, lado, sem contradizer isto, mas seguindo-se-lhe, socorre-se ele de Bosquet : «avant l’arbre, il y a le besoin de dire arbre. Donc, la poésie va vers un renversement des hiérarchies.» A escrita vem de fora (Christian Bobin), o aqui e agora que tem no Efeito de Moebius (Pierre Levy) um recurso de uma consciência, corresponderá à Dobra de Fora de Deleuze.

E (simultaneamente), a “intuição de Paracelso: “em cada nível é a mente quem faz ver os olhos” – “e viva a reversão do Efeito de Moebius”.

Na segunda parte, Cabrita ataca a linguagem. Talvez as palavras que pede emprestadas a Octavio Paz digam o essencial: as palavras são elas o “o referente e são tão reais como as árvores, as casas, os aviões as paixões”. Isto porque o Cabrita se deita a falar de “linhagens de poetas”, uma, daqueles que se servem da linguagem como instrumento auxiliar; outra, daqueles para quem a “linguagem é em si mesma um problema, um conflito já existente, uma dobra” – e depois traz à liça o Herberto Helder. De um gag do Bucha & Estica, salta o cinéfilo Cabrita da “terceira mão” do gag para uma “terceira palavra”, a Graça de ser capaz de “aceitar o estranho como parte de nós. A “terceira palavra” é o poeta aceitar uma palavra que não lhe pertence – a instauração do sagrado.

Entro na terceira parte, em que o Cabrita diz que no mundo às camadas – os hólons – quando “ocorre uma passagem de uma para outra camada ocorre uma conversão semiótica”. No interior da linguagem, “a lógica deixa de operar segundo um esquema linear, gramatical, que se duplica na representação do espaço-tempo sucessivo, para actuar segundo intersecções, vizinhanças, constelações, fractalidades.” E diz ele julgar que se localiza “aqui a origem das disparidades que retalham o tecido da poesia contemporânea”

(isto está na página 26, não me apetece fazer ecoar aqui os nomes que povoam o texto).

Interessa-me, isso sim, abrir o peito a balas como estas: o poeta “habita” o “susto da linguagem”, “é uma coisa que se «sofre», e que não se pede ou de que se faça posse”. Esta parte termina com uma citação de Llansol, de Um Falcão no Punho, que talvez pudesse estar como epígrafe geral do ensaio: “Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.”

(agora devir ficar um ano a reler os livros da Llansol, mas nã’ posso)

Da quarta e última parte quero reter a reafirmação do duplo contra o uno, das simultaneidades contra o plano rasante, dos paralelismos simultâneos contra as univocidades, e assim (percebam que estes “contra” não são bem contra seja oque for…).

Outros “contras”: contra “o patchwork que é a regra que enganosamente nivela o mar das consciências”; contra o “sabor único”.

(agora devir ir trocar as partes todas e reescrever o texto, mas nã’ tenho forças)

Em 2007, a propósito da celebração de mais um Dia Mundial da Poesia, editei uma plaquette com um texto do Cabrita intitulado Que histórias conta o ouriço à baleia? – Travessias no imaginário. Começa assim: “Na Índia, Deus pode criar uma pedra que lhe seja impossível deslocar, e sonhar um sonho do qual não desperte. O que seria uma impossibilidade lógica para o pensamento ocidental. Na filosofia, chama-se a esta impossibilidade lógica uma aporia. Mas não existem aporias na literatura.”

Não sei quantas vezes mais voltarei a este livro do Cabrita, tenho de confessar que sofro de outras perturbações: agora, é com o Carlo Michelstaedter – La Persuasión y la Retórica, edição espanhola – e com o Quaresma, Decifrador, do Pessoa (mas o monte na realidade é maior e a confissão passaria a ser vergonhosa).

Ao fim da terceira leitura, impuseram-se-me os sobressaltos que se seguem:

1 . Um texto também serve para aprender

2 . Um texto também serve para cair num poço

3 . Um texto não serve para saber se o poço tem fundo

4 . Um texto pode ser um poço

5 . Um texto pode (deve?) ser Dois

6 . Um texto vai a meio

7 . Um texto flui como vida

8 . Um texto não existe porque é sempre a vontade de outro texto

9 . Um texto não se possui

10 . Um texto é ponte e travessia.

Respiro, ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011
31/12/2011

12 LIVROS

por cam

Desde Outubro de 2007 anoto os livros que leio. Este ano, registei 60, de diferentes dimensões e tempos de leitura – e de diferentes anos de edição (alguns deles em releitura). Deixo aqui a lista das 12 preferências, por ordem alfabética do nome do autor/organizador:

» António Cabrita e João Paulo Cotrim, O Branco das Sombras Chinesas, Abysmo (2011)

» Armando Silva Carvalho, Anthero, a Areia e a Água, Assírio & Alvim (2010)

» Ascêncio de Freitas, A Paz Adormecida, Caminho (2003)

» Ernst Gellner, Linguagem e Solidão. Uma interpretação do Pensamento de Wittgenstein e Malinowski, Edições 70 (2001)

» Fernando Rosas e Maria Fernanda Rolo, (orgs.), História da Primeira República, Tinta da China (2010)

» José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política, Temas e Debates (3 vols: 1999, 2001 e 2005)

» Manuel de Freitas, A Perspectiva da Morte. 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, Assírio & Alvim (2009)

» Miguel Morgado, Autoridade, Fundação Francisco Manuel dos Santos (2010)

» Natália Correia (org.), Antologia de Poesia Erótica e Satírica, frenesi/Antígona (1999, 1ª ed: 1965)

» Rui Ramos (coord.), Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal, A Esfera dos Livros (2010, 4ª ed.)

» Thomas Pynchon, Vício Intrínseco, Dom Quixote (2010)

» Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, IN-CM (1998)

"Respiro", ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011

26/12/2011

O TEMPO DOS ASSASSINOS

por cam

Outro projecto que a miopia política assassinou: a revista Magma. Com direcção de Sara Santos e minha coordenação editorial, a revista era editada em regime de “carta branca”. Além de mim, coordenaram números: António Cabrita, Lélia Nunes e Luiz Antonio de Assis Brasil, Judite Jorge e Mário Cabral, Urbano Bettencourt.

Publicaram-se 7+1 números: do zero (Maio de 2005), ao 7 (Dezembro de 2008), com Separatas do zero ao 4.

Participaram nos 7+1 números, dezenas de autores, repartidos pela poesia, conto, teatro, ensaio e tradução, de Portugal (mainland, Açores e Madeira), Brasil, Cabo Verde, Espanha (Canárias) e Moçambique.

Na fotografia aqui à vista, estão as capas dos números zero e 1, com as respectivas Separatas, a do zero com Avulsos por Causa (poesia), de Renata Correia Botelho, e a do 1 À Flor do Mar (crónicas sobre livros), de Inês Dias.

Eis a lista dos participantes da Magma, para “memória futura”:

Abel Neves, Albano Martins, Alberto Pimenta, Alexandre Borges, Alexandre Dale, Altair Martins, Amilcar Neves, Ana Francisco, Ana Hatherly, Ana Maria Fagundo, Antidio Cabal González, Ana Marques Gastão, Ana Paula Inácio, Andes Chivangue, Ângela Correia, António Cabrita, António Godinho, António Olinto, Armando Artur, Carlos Alberto Machado, Carlos Bessa, Carlos Henrique Schroeder, Carlos Nogueira Fino, Carlos Tomé, Carlos Urbim, Carol Bensimon, Celso Gutfreind, CEPiA, Charles Kiefer, Christina Dias, Claudia Gelb, Claudio Daniel, Cleci Silveira, Daniel de Sá, Diego Grando, Dilan D’Ornellas Camargo, Dom Midó das Dores, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Nasi, Elis Cruz, Fernando Guerreiro, Fernando Neubarth, Fernando Paixão, Fernando Rozano, Fernando Silva, Ferreira Gullar, Flávio José Cardozo, Francisco Cota Fagundes, Frank X. Gaspar, Gabriela Funk, Gabriela Silva, Gilberto Perin, Gonçalo M. Tavares, Helder Moura Pereira, Hoyêdo de Gouvêa Lins, Inês Dias, Inês Lourenço, Ítalo Ogliari, Ivette Brandalise, Ivo Machado, J. Michael Yates, Jacinto Lucas Pires, Jaime Rocha, Jaime Vaz Brasil, Jane Tutikian, João Almeida, João-Luís de Medeiros, Joel Neto, Jorge Adelar Finatto, Jorge Fazenda Lourenço, Jorge Gomes Miranda, Jorge Louraço Figueira, José Agostinho Baptista, José de Sainz-Trueva, José Eduardo Degrazia, José Luís Hopffer Almada, José Luís Tavares, José Maria Carreiro, José Miguel Silva, José Viale Moutinho, Juan Carlos de Sancho, Judite Jorge, Júlio de Queiroz, Laerte Silva, Laís Chaffe, Leatrice Moellmann, Lélia Nunes, Leonardo Brasiliense, Lúcia Helena Marques Ribeiro, Luciana Veiga, Luis Carlos Patraquim, Luís Dill, Luís Filipe Borges, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Paulo Faccioli, Maicon Tenfen, Manuel de Freitas, Marcela Costa, Marcelo Passamai, Marcelo Spalding, Maria Aurora Carvalho Homem, Maria João Cantinho, Maria José Marques Figueiredo, Mariana Matos, Marie-Amélie Robilliard, Mário Cabral, Mário Lúcio Sousa, Mario Pirata, Marô (Maria Eunice) G. Barbieri, Monique Revillion, Nelson Saúte, Nuno Costa Santos, Nuno Moura, Olsen Jr., Onésimo Teotónio Almeida, Osmar Pisani, Paulo da Costa Domingos, Pedro Eiras, Pedro Fevereiro, Pedro Javier C. Garcia, Pedro Stiehl, Renata Correia Botelho, Renato Tapado, Ricardo Silvestrin, Rodrigo de Haro, Roger Cardús Juvé, Rogerio Manjate, Rogério Sousa, Rubem Penz, Rubens da Cunha, Rui Pires Cabral, Rui Sousa, Salomão Ribas Jr, Semy Braga, Sergio da Costa Ramos, Sidónio Bettencourt, Silveira de Souza, Sílvia Pinto Ferreira, Silvina Rodrigues Lopes, Sónia Bettencourt, Sulivan Bressan, Suzana Mafra, Tiago de Faria, Tiago Prenda Rodrigues, Tiago Rodrigues, Urbano Bettencourt, Valério Romão, Valesca de Assis, Vamberto Freitas, Victor Rui Dores, Vinícius Alves, Vítor Nogueira, Volnyr Santos, Walter Galvani e Zenilda Nunes Lins.

 

%d bloggers like this: