Posts tagged ‘Livros’

13/03/2012

MÁ RAÇA, 2

por cam

O livro Má Raça (poemas de João Paulo Cotrim para ilustrações de Alex Gozlau), será lançado hoje, dia 13, às 22 horas, na 4A Fábrica (Rua João Anastácio Rosa, 4A, Lisboa – pode ver mais detalhes da edição aqui). Desta edição especial serão apenas publicados 25 exemplares de cada giclée (pássaro ou cão, em baixo), assinado e numerado.

09/03/2012

MÁ RAÇA

por cam

06/03/2012

EDIÇÕES DE ESTAMPA

por cam

A Editorial Estampa vai apresentar o seu programa editorial no próximo dia 14, na Sala Sophia de Mello Breyner do Oceanário de Lisboa.

23/01/2012

DEDICATÓRIA

por cam

                                     I shall never get you put together entirely,

                                     Pieced, glued, and properly jointed.

                                      Sylvia Plath, The Colossus

Escovar bem as palavras, libertá-las do sarro do uso.

Devolver às palavras a sua natureza de pedra, a sua intensidade, a sua natureza da corrente de rio a fluir de si para o ainda-por-conhecer.

O espanto e o maravilhamento refugiados sob as nossas peles.

No princípio era as palavras “lírios”, ou “Eva”. Ou outras. Depois o remanso do silêncio. E só depois as palavras. “Coisas”. Não em lugar de.

Sobrevieram tempestades de lixo, destemperos divinos. Despedaçaram as palavras-pedra, as palavras-em-movimento.

Miríades de estilhaços para recompor um nome ainda desconhecido.

Repetições. O silêncio não é falha de palavras, é o prenhe de tudo, mas não sabemos como.

“Demasiadas palavras armadas em metáforas. “Vazios” – precisar de “uma pele capaz de os alojar.”

Um corpo é um pedaço de tempo, irrecuperável.

«Flectindo o dorso estendo a mão cega até à palavra que te procura (…) / que mistérios ocultará essa palavra tão longe e tão perto desta mão? / (ou é apenas o lado errado da noite?).»

As coisas não envelhecem, morrem de um golpe só. A morte é passar o tempo a tentar limpá-las com restos moribundos, as palavras.

As coisas ferem. É da sua natureza. E depois riem.

O tempo implode. Sonhamos com outra dimensão espaço-tempo.

Os nomes são remendos. Ou a derradeira hipótese de colar os fragmentos.

Pode haver um Nome, mesmo assim. Mas terá de ser Coisa.

Com a memória ajustamos medos e renovamos segredos. Coisas caladas.

O coração é um imenso buraco aberto no peito de onde olhamos o que não foi. “As coisas conhecidas são pedras e poemas. E o teu nome / sempre infiltrado nos versos.” «a tua pedra negra regressa à minha mão fechada / e ilumina como um sol a minha noite em claro».

«Longe, junto a um rio, há uma casa feita de palavras. Um castor velho ocupa-se a suprimir-lhe as excrescências.» 

Um nome branco bordado em branco a apagar os pecados. “papel químico encostado ao tempo.”

As palavras, «sucessivas camadas de palavras por dizer», ardem sob o teu nome, sempre o teu nome. Por dizer.

As palavras nunca dão “resultado certo”.

“As coisas mais difíceis começaram por ser do corpo.” Para o contar é preciso sacudir «a escama estéril das palavras».

Morro todos os dias com uma recordação na pele e “o som atenuado de uma canção.”

Nas coisas não se vaza memória, o escorrimento obstinado do tempo.

Os nomes são repetições, sujeitos a defeito de fabrico.

Os espelhos reverberam ausências. O excesso de cristalino elide a memória.

Conhecer um rosto sem o atrito de um nome.

Sob a pele um mapa de nomes.

Há uma infância onde os nomes respeitam as coisas. Depois vem a memória.

Chegar às coisas, torná-las inanimadas, é isto a morte.

Também a morte tem uma arqueologia.

As coisas são o que são, resistentes à desordem do universo.

Por ti, «esconde a palavra-talismã»

Palavras pagam-se com palavras.

Dedicatória. 

{ lendo As Coisas, da Inês Fonseca Santos, edição abysmo, Janeiro de 2012 }

“!As Coisas”, Inês Fonseca Santos

21/01/2012

A REALIDADE TAL QUAL ELA NÃO É

por cam

ou

SUA EXCELÊNCIA, O LEITOR

Retomo o que escrevi em post anterior (“artigo”, lhe chama o WordPress, quanto a mim mais apropriadamente): “Gosta-se de livros pelos seus “conteúdos”: pois. E o “resto, não é livro? Estas e outras dúvidas mais ou menos idiotas desvanecem-se quando temos entre mãos livros editados pela abysmo”, como “(…) «Uma História de Amor no Casal da Eira Branca», de Tomás Vasques, com ilustrações de Susa Monteiro – e pronto, vão as tais dúvidas a ganir alto e forte para longe.” O texto de Tomás Vasques, as ilustrações de Sua Monteiro, o design do livro da responsabilidade de Luís Mendonça casam-se na perfeição. Todos sabemos que, por definição, não há casamentos felizes, e que neste caso, além disso, o casamento se assemelha a uma relação com três vértices, o que na língua dos valentes gauleses se conhece como ménage à trois. Felizmente que os livros não se colhem na realidade como as margaridas e que a sua natureza é outra, digamos, mais apetecível para matutinos despertares de sonho – ou para noites pesadas de chumbo.

Perfeições à parte, já perceberam que o livro me motiva. Como ando ainda a aprender a falar de outras artes que não a da escrita, vou-me só a esta, onde escorrego menos.

Este «Uma História de Amor…» é o primeiro texto ficcional de Tomás Vasques que leio – e a ausência de referências é sempre, para mim, um desafio suplementar, o da “leitura sem rede.” De uma primeira leitura do curto texto – 30 páginas, incluindo ilustrações – ficou-me a impressão de estar perante um guião de um romance, uma intriga minimal para aguentar as figuras e situações desenhadas a traço grosso. Como se lhe faltasse qualquer coisa que a substantivasse, lhe concedesse densidade. Pensei ainda mais em guião, em estrutura performativa. Fruto de alguma bulimia, li logo de seguida o «Short Movies» do Gonçalo M. Tavares que, embora objecto de outra estratégia narrativa (deverei escrever sobre ele), assume um registo telegráfico, despido, onde se vê que a “mão do autor” desespera para não se deixar ver (para não estar demasiado presente, aliás) e equilibrar uma objectividade (impossível) algures entre a polaroid, a narrativa etnográfica (pretensamente “distanciada”), etc., de forma a despoletar o “espanto”, o “absurdo”. Creio que um pouco de tudo isto está presente, na pequena narrativa de Tomás Vasques. Não vou contar a fábula, mas desde a primeira à última linha – foi isso que melhor “descobri” em segunda leitura –, a “estranheza” e o “absurdo” produzem-se, não pela substância da narrativa e dos seus jogos, mas pela expectativa que gera em cada passo e que de modo algum se concretiza. O texto joga com os conhecimentos “literários” do leitor médio, com a sua indispensável adesão a um modelo romanesco, com a potencial tensão que resultaria de ele ter de escolher, ou contribuir para, no seu papel de “leitor activo”, um desenvolvimento de cada nó narrativo, de cada solução e, finalmente, para o seu tipo de “final ideal.” É isto que o livro de Tomás Vasques não é – não quer ser. Uma análise mais minuciosa, que não saberei fazer, talvez possa detectar os quase indetectáveis passos em que o autor avança de mais, isto é, cede ao leitor: ou talvez não, e ele tenha antes pretendido contar uma história banal, que todos reconhecemos dos nossos quotidianos mas que, inchados de ficção, nos recusemos a ver. Não é haver aliens que estranhamos, o que estranhamos é não emparceirarmos com eles confortavelmente sentados no sofá quente e macio da nossa “realidade” inventada. A história simples, sem a panóplia redundante de peripécias das “missões impossíveis”, é talvez isto a recusa do nosso autor. Eu precisei desta realidade simples. Precisamos, acredito, desta realidade simples onde cada palavra deve ser julgada em todas as suas consequências, no seu peso específico e no seu jogo relacional. A crueza e a crueldade (ninguém diria…) de Tomás Vasques, perdão, de «Uma História de Amor no Casal da Eira Branca», fazem-nos falta.

Há mais de um ano, fiz este desafio a um amigo: “escreve numa folha A4 o teu percurso, numa manhã igual a tantas outras, desde o quarto de dormir até ao quarto de banho da tua casa – mas sem adjectivações.” “É simples!, é só isso que é escrever?”, respondeu-me imediatamente.

Continuo à espera.

31/12/2011

12 LIVROS

por cam

Desde Outubro de 2007 anoto os livros que leio. Este ano, registei 60, de diferentes dimensões e tempos de leitura – e de diferentes anos de edição (alguns deles em releitura). Deixo aqui a lista das 12 preferências, por ordem alfabética do nome do autor/organizador:

» António Cabrita e João Paulo Cotrim, O Branco das Sombras Chinesas, Abysmo (2011)

» Armando Silva Carvalho, Anthero, a Areia e a Água, Assírio & Alvim (2010)

» Ascêncio de Freitas, A Paz Adormecida, Caminho (2003)

» Ernst Gellner, Linguagem e Solidão. Uma interpretação do Pensamento de Wittgenstein e Malinowski, Edições 70 (2001)

» Fernando Rosas e Maria Fernanda Rolo, (orgs.), História da Primeira República, Tinta da China (2010)

» José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política, Temas e Debates (3 vols: 1999, 2001 e 2005)

» Manuel de Freitas, A Perspectiva da Morte. 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, Assírio & Alvim (2009)

» Miguel Morgado, Autoridade, Fundação Francisco Manuel dos Santos (2010)

» Natália Correia (org.), Antologia de Poesia Erótica e Satírica, frenesi/Antígona (1999, 1ª ed: 1965)

» Rui Ramos (coord.), Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal, A Esfera dos Livros (2010, 4ª ed.)

» Thomas Pynchon, Vício Intrínseco, Dom Quixote (2010)

» Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, IN-CM (1998)

"Respiro", ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011

23/12/2011

CHEGOU O CARTEIRO

por cam

No supermercado, Cristo verga-se ao peso das compras e da hipocrisia. Aguenta, Homem, está quase a acabar, a bem dizer só terás de suportar mais um empanturramento e mais uma homília, depois voltam todos a pecar gloriosamente – para usufruto deles, agora é apenas em Tua Glória.

Chegou o carteiro – com uma espécie de salvação: o último livro do meu amigo António Cabrita, Respiro, edições Língua Morta, deste final de ano. Que repiquem sinos para os lados de Maputo.

Respiro, ensaio de António Cabrita, nas edições Língua Morta, Novembro de 2011

23/12/2011

QUE O NATAL VOS SEJA DOCE…

por cam

Leio O Branco das Sombras Chinesas, de João Paulo Cotrim e do António Cabrita, das novíssimas edições Abysmo (Setembro de 2011). Foi o livro inicialmente um “folhetim a meelas (…) servido em outro diário, este nosso Diário de Notícias, à razão de duas doses semanais, durante o Verão quente de 2001 (de 2 de Julho a 28 de Agosto), faz agora uma década de misérias (…)”. Agora, esta edição, toda impressa em azul forte, tem 78 páginas – incluindo as 16 das ilustrações de João Fazenda – as folhas em dobra simples e cozidas como se fosse um único “caderno” e sem aparas no sobrante da dobra.

Cotrim e Cabrita agarram pelas ventas o boi da língua, e talvez o inverso, e fazem com a literatura umas belas tripas à moda… deles. Mas também não deixa de ser verdade, porque os leitores precisam de “bengalas”, que tem sim senhor uma estória: o protagonista – de início não tem nome, mas páginas andadas será nomeado por João David – que “detestava coincidências, simetrias, concordâncias”, desagrada-lhe ter de ir visitar o pai da sua “cara-metade”, a bela Mariana, coisa que agora ainda lhe custa mais depois que “Verónica, um belíssimo transexual, assentara arraiais no quarto 33 da pensão” (pensão que viremos a saber chamar-se Bizâncio, pertence a David e tem como empregado o impávido Negruras, angolano). Ficamos também a saber que o nosso herói a páginas tantas da sua história pessoal perdeu a consciência, coisa que não seria rara nele, já que a sacrifica com o “método de uísques sobre uísques”, e que então teria acordado no Hospital de Cascais “com um enorme remendo no lado esquerdo da cabeça”: uma orelha que se foi, não sabe, ou não se lembra, ele como. Ainda neste vertiginoso Capítulo 1, David entra no Pavilhão Chinês e atira uma pergunta espantada: “ – O senhor explica-me como é que tem ali a minha orelha?” Depois, Cotrim e Cabrita cavalgam capítulo sobre capítulo a estalo de língua: sucedem-se “episódios” rocambolescos onde não faltam citações literárias, filosóficas e existenciais, sempre a jogar em simultâneo nos cortes de uma espada de afiado duplo fio. E safam-se. Vamos com eles nos jogos de linguagem, no permanente non sense, na transgressão linguística, no arrepio de lógicas e de valores. Vale tudo: sacar orelhas, traficar em arte, corromper vereadores de câmara, matar papagaios, entrar em jogos cabalísticos, ouvir lengalengas de cegos, mortes provocadas por foices e martelos, Estaline e Lenine. Não digo mais – apenas que o nosso David sempre terá de se haver com “coincidências, simetrias, concordâncias”…

Que o Natal vos seja doce, caríssimos irmãos.

27/11/2011

LIVROS, LIVROS

por cam

Esta fotografia (o fotógrafo não é grande coisa!), é de parte da nossa nova biblioteca caseira. Lembrei-me de a colocar aqui apenas para suavizar a raiva com que fiquei depois de ver coisas tão bonitas aqui.

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24/05/2011

ÍNDICAS, JORNADA 9

por cam

Pelo chão da cidade vende-se livros. Directamente sobre a calçada empoeirada, ou sobre um simples tecido ou até um pedaço de cartão velho, mostram-se os livros, regularmente encostados uns aos outros ou em desalinho. A todos cobre uma película mais ou menos densa de poeira, mas é poeira urbana, do passeio e das ruas que não se limpam há uma ou duas dezenas de anos, dos lixos acumulados, de toda a química expelida das viaturas novas e das muito velhas. Talvez se possam contabilizar umas dezenas destes pontos de venda em toda a cidade, sobretudo nas zonas onde vivem ou circulam estudantes dos liceus e da universidade e portugueses (turistas ou não). Clientes eventuais serão também os moçambicanos que ainda não exploraram, por desinteresse ou desconhecimento, estes filões. Porque aqui há de tudo: fotocópias encadernadas de livros de estudo (línguas, matemática, filosofia, etc.), relíquias das vulgatas marxistas-leninistas (há séculos que não passava os olhos pelas capas dos livros ortodoxos da chilena Marta Hanecker!), obras nacionalistas de todo o tipo, mas também outras, importantes, da literatura moçambicana ou sobre a sua história (J.P. Borges Coelho, Junod, Mia Couto, A. Lobato, J. Capela, entre muitos outros), livros portugueses raros (primeiras edições de Cesariny, H. Helder, Sena, Grabato Dias, Ernesto Sampaio, etc.). Diz-se que muitos deles foram roubados de livrarias, bibliotecas e arquivos oficiais, universidade, casas particulares. Diz-se também que existem armazéns repletos de milhares e milhares de livros e documentos ao abandono, muitos deles oficiais, onde se abastecem muitos destes vendedores de rua, absolutamente desconhecedores de estarem em posse de algumas raridades bibliográficas (não raríssimas ou de luxo, mas raridades, em qualquer caso). O Governo não liga a estas coisas, seja qual for o ponto de vista sob o qual se queira encarar esta realidade, a não ser os “cinzentinhos” que procuram extorquir dinheiro aos vendedores… A incúria é evidente: no Ministério da Educação, em vésperas de reabilitação do prédio, deitaram fora tudo o que lá havia: livros e toda a documentação administrativa. Um vendedor de rua, um dos mais antigos e conhecedores, diz conseguir por mês um lucro de cerca de 5.000 meticais (menos de 100 euros), mas há quem diga que os lucros são superiores. Percorremos várias vezes as bem recheadas avenidas Lenine (do cruzamento com a 24 de Julho até à zona da Coop) e a 24 de Julho toda, e ainda a Eduardo Mondlane, a Mao Tse Tung, parte da Baixa, e uma ou outra mais escondida. Quando começámos a andar mais de carro, escassearam estas visitas.

Por curiosidade e por necessidade, procurámos conhecer todas as livrarias e espaços públicos onde fosse possível tomar contacto com os livros e comprar o que fosse possível com o conteúdo da nossa magra bolsa. Estivemos na loja do Centro Franco-Moçambicano, na galeria de arte da CFM, na editora Kapikua, e em várias livrarias: a Minerva, na Baixa (uma das mais antigas e conceituadas e, creio, a única que ficou do tempo colonial, rendida agora ao “estilo FNAC”), a Universitária, na avenida Karl Marx (com poucos livros mas com mais poeira do que a rua, e com umas empregadas desconfiadíssimas!), a das Publicações Europa-América na 24 de Julho, também nesta avenida a da Plural (ramo da portuguesa Porto Editora vocacionada para o espaço africano lusófono), a Mabuko, na Julius Nyerere e as do grupo português Escolar Editora: a Livros & Etc (no novel Maputo Shopping Center), e, com o nome do grupo, mais duas, ambas na 24 de Julho, uma no interior do Centro Comercial Polana, outra mais perto das perpendiculares de acesso ao centro da Baixa. Numa transversal da Lenine, de que não anotei o nome, um pequeno estabelecimento de muçulmanos tem uns livros perdidos num meio de uma barafunda de tudo-e-mais-alguma-coisa. O que acontece, tenho a certeza, um pouco noutras áreas da cidade. Em torno do “cimento”, nos bairros miseráveis que vão encostando ao “caniço”, duvido que os livros tenham resistido ao fogo necessário para o frio das noites ou para aquecer a panela familiar.

GLOSSÁRIO

11/04/2011

LOJA

por cam

Coloquei aqui uma “loja” dos meus livros (pode também clicar no separador “LIVROS”, acima, antes das laranjas azuis, ou à direita, abaixo de “CORPOS”).

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