Archive for ‘LIVROS, EDIÇÃO, NOTÍCIAS’

10/04/2014

Coração quase branco

por cam

É no que dá um iogurte estragado: náusea repentina, vómitos disfarçados de arrotos, cólicas intestinais. Sanita comigo. E logo logo para a cama – a prevenir achaques maiores com a ajuda de uma infusão de macela e cidreira.
Aproveito a frouxidão inesperada do corpo e o repouso de meio da tarde para ler. Entre compras e ofertas recentes, decido-me pelo “Coração Quase Branco”, do António Cabrita – livro da 50 Kg (como habitualmente composta em caracteres móveis e com impressão a condizer), que o seu editor, o poeta Rui Azevedo Ribeiro, me tinha dado em Coimbra, no Mal Dito, meia dúzia de dias antes.
Cabrita Coração quase branco

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16/10/2013

Antologia brasileira

por cam
CarlosA_Machado__CAPA2.inddUma antologia de poemas meus sairá por estes dias no Brasil, na colecção Portugal 0, dirigida pelo poeta e professor Luis Maffei, com edição da Oficina Raquel, do Rio de Janeiro. O livro, que tem prefácio de Maurício Vasconcelos (Universidade de S. Paulo), será apresentado durante o XXIV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, que vai decorrer entre 20 e 25 deste mês, na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, e em que participarei.
04/10/2013

Hugo Pinto Santos e o meu Gato

por cam

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25/06/2013

Hipopótamos: não ceder à tentação de desviar o olhar

por cam
Alguma boa vontade poderá fazer-nos aceitar que o nível qualitativo médio da ficção portuguesa tem vindo a crescer de forma sustentada ao longo da última década. Este crescimento é suportado pelo aumento significativo do número de autores, a par com a aquisição de estratégias narrativas e de edição capazes de evitar erros básicos de construção ou de escrita. O problema é que este nível médio (onde poderíamos colocar como autores mais notórios Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Dulce Maria Cardoso ou João Tordo, mas que se estende por um sem número de legítimos pretendentes) mantém-se mediano, se não baixo, sem ser capaz de gerar (ou de tornar visíveis) autores de excepção.
Esta, a excepção, se nasce quase sempre da quantidade, tem muitas vezes dificuldade em se fazer notar no interior da proliferação e da quantidade.
Por sua vez, a crítica literária, nos poucos espaços institucionais onde subsiste, raramente ajuda, tendendo a colar-se a estratégias voluntaristas que não se distinguem muito do registo de promoção editorial. Vemos sucederem-se livros “belíssimos”, mas literariamente inócuos, e quando acontece alguma coisa de relevante editoras e crítica fazem-se distraídas.
Num momento de multiplicação de autores, num momento de uma permissividade cultural quase sem entraves, a edição, o mercado e a crítica (a ordem não é aleatória) promovem uma intimidatória neutralização criativa. O autor ameaça transformar-se ele próprio na personagem de um ghost-writer de cara descoberta.
25/06/2013

O gato visitador…

por cam

…chegou ontem, vindo da Nazaré. Abraço forte, Luís Meireles, obrigado, volta d’mar.

O-GATO-VISITADOR

11/06/2013

Nuno Ramos de Almeida sobre o Hipopótamos

por cam

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02/11/2012

COMO CALAR? COMO DIZER?

por cam

Nos idos de 1987 R. Lino foi antologiada na Sião – organizada por Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, e editada pela frenesi – quatro poemas entre as páginas 178 e 180. A encabeçar os poemas, uma breve nota onde se informa os leitores que a poeta nasceu em Évora, em 1952, e tinha até então publicado três livros de poemas. Há dias, um amigo enviou-me : Predação : Urânia, nós e as musas, edição da autora, 2012. Pouco mais se diz dela na nota biográfica: um livro acrescentado aos outros, participações em revistas e antologias e uma meia dúzia de conjuntos de poemas por publicar. E que vive em Lisboa. Muitos dos antologiados em Sião não chegaram a ter poemas em livro, uns “desapareceram” de circulação” (mortos ou vivos) outros andam arredados das editoras mainstream de poesia (que las hay) e até das de “margem”. Na escrita portuguesa (poesia, ficção, ensaio & etc.) cavam-se permanentemente fossos entre os “velhos” e os “novos”, ao mesmo tempo que se montam panegíricos dos novos heróis, os novos génios que rapidamente são substituídos por outros. É uma espécie de “besteselerização” “pronta-a-deitar-fora”. Os mortos ou ignorados (ou ambas as coisas) amontoam-se em camadas de esquecimento. Na praça pública, o povo, unido, grita por cultura, que a não há e devia haver. Pois.

Venho dizendo por aqui que crítico é que não sou, embora lá vá descabelando palavras sobre os outros de quem gosto – espero que me perdoem, ou melhor, como não sou cristão, que esqueçam o que escrevo.

Em : Predação : “cruzam-se vozes dramáticas” – é a poeta que o diz nas “breves palavras” no final do livro. É verdade: no dialogismo (“jogos de réplicas”), no esboçar de figuras teatrais, nos “movimentos de esbatidas ou sobrepostas alteridades”, também na introdução de um coro. E há igualmente uma determinada performatividade, no sentido em que as palavras não estão lá “em vez de”, pelo contrário, o seu “sentido” constrói-se nas acções que elas mesmas implicam, no “actuar” mais do que no “representar”. Não é somente assim, claro, mas muito do que está escrito parece-me assim.

Cada poeta desenha um mundo próprio, com arcos, túneis, horizontes e hipóteses de luz para que dele nos abeiremos, não digo entrar, mas permanecer o maior tempo possível no instável espaço liminar que nos faz simultaneamente ser e não ser (ele, nós, o poema). Também poderia dizer: cada poeta se curva sobre si mesmo na igual medida em que desafia o outro supostamente dialogante. Ou ainda: que o poeta é a modulação do outro em si e o arco reflexo que vai de si para o outro. Como seja. A verdade é que é apenas com palavras que conseguimos aproximar-nos (predadores?) do outro, que é feito de palavras, o poeta – como se ele as pudesse escrever em nós, para nós. Podemos ficar aqui, nesta ilusão?

A poesia de R. Lino é de uma intensidade pouco habitual entre nós: provoca a queda, a perda, a falha. Por isso, não será de espantar que termine exactamente assim: “olhemos, agora, à nossa volta / e perguntemos:”

Aceito o desafio.

07/09/2012

SE AO MENOS A POESIA

por cam

Nuno Dempster (Ponta Delgada, 1944) é um poeta com quem faço caminho. Dele li Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (2011), K3 (2011), Uma Flor de Chuva (2011) e este Elegias de Cronos (Lisboa, Artefacto, 2012), a que agora me dedico. Tenho para ler ainda Londres (2010) e o volume maior Dispersão – Poesia Reunida (2008), que reúne tudo o que até essa data escreveu e não, como seria de esperar, o que editou, pois foi apenas nesse ano que publicou poemas em livro (mas originais seus apareceram antes em jornais e revistas e na Net). É um “poeta tardio” e disso ele não se arrepende, como diz na “Nota Final” de Dispersos: “(…) as escolhas que fiz foram aquelas que então me surgiram como apetecíveis e que ainda hoje me brilham na memória.” Não trago à liça este tópico por preciosismo biográfico, mas porque ele me parece bem pertinente neste último livro (mais do que nos outros lidos): a questão do passado, da memória e da necessidade que arrasta de um certo dizer, e da sua impossibilidade, e, naturalmente, a morte.

Em K3, Pedro e Inês, e Londres há, no todo de cada um deles, uma estrutura com indisfarçáveis contactos com a ficção narrativa – embora, claro, sem prescindir dos mecanismos próprios da poesia, em particular do seu ritmo e da sua sonoridade. Nestas Elegias de Cronos, embora de modo que é mais próprio a cada poema e não ao todo, essa característica não é de todo iludida, a que acresce outra, também presente nas obras citadas, que é o diálogo com o real envolvente, mesmo quando se procuram outros sentidos.

O passado (como tema), ou, precisando, o seu resgate, de que atrás falei, está bem sinalizado logo no primeiro poema (“Acaso”), afiliado com outra “presença temática”, a do desencontro amoroso, da falha: “(…) era tarde demais para eu saber / (…) e hoje penso no acaso sem remédio de cada um de nós guardar / o passado em gavetas separadas.” O poder da rememoração (de uma invenção de nós – a escrita), é porque “(…) é da brevidade que vivemos / da alegria que o instante gera / e deixa na memória”; no entanto, é longo “o hiato / em que nada regressa / e a memória se ausenta / e nos faz escrever sem objecto.” (“Chuva”) Num dos poemas mais fortes, “Imagem”, quase no fim do livro, num diálogo que o poeta aqui e ali mantém com uma não nomeada mulher, diz-lhe “Decerto não recordas que os poemas / emanam da memória: / é daí que a luz nasce / e as palavras se mudam em imagens / como na do teu rosto agora (…) // como é belo o teu rosto (…) // Já morríamos, quando um dia / me respondeste: «Não é isso / que o espelho me revela.» / E agora, que farei com essa imagem / a brilhar-me nos olhos? Elegias?” Sim, estas, provavelmente. Mas, no poema seguinte (“Quando os dias são acenos”), se possa desdizer (ou talvez não…): “Se ao menos a poesia fosse feita / de imagens tácteis, / se os meus olhos pudessem afagar / com a ponta dos dedos / a copa do pinheiro manso / como se fosses tu (…).

A morte, como veste bem à poesia, não por morbidez, mas porque, afinal, de que outra coisa é possível falar?, está em muitas destas elegias do tempo, como nesta, lapidar (“Defesa”): “Apetece-me só dizer / a morte afinal / virá como é costume dela. / Mas sendo isso verdade, / penso na hipocrisia de querer / ignorar as escadas / por onde descerei / para a cripta dos mortos.”

27/08/2012

Portugal Zero, Brasil

por cam

Lido ontem no blogue da editora Oficina Raquel, do Brasil: «A editora Oficina Raquel afirma-se cada vez mais como uma grande divulgadora da literatura portuguesa no Brasil. No contexto do Ano de Portugal no Brasil, que terá início em setembro de 2012, a Oficina editará quatro títulos. (…) Os outros dois títulos são de poesia: Carlos Alberto Machado e João Luís Barreto Guimarães, destacados poetas portugueses, dão continuidade, nos primeiros meses de 2013, à coleção Portugal 0, coordenada pelo editor da Oficina e também professor de literatura portuguesa da UFF Luís Maffei. Desde 2007, Portugal, 0 edita no Brasil nomes destacados da poesia portuguesa recente, e já lançou, desde então, cinco títulos, o último dos quais dedicado à poesia do exitosíssimo valter hugo mãe. A coleção é sinal de que a Oficina Raquel se interessa pela literatura portuguesa há mais tempo que uma moda. Os livros editados no contexto do Ano de Portugal no Brasil pela Oficina têm apoio da DGLB, Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.»

06/07/2012

PORTUGAL, A SÉRIO

por cam

Em 2010 tive a oportunidade de conhecer a Escola Portuguesa de Moçambique/Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM/CELP), em Maputo. É, a vários títulos, uma escola exemplar. Instalações amplas, arejadas e plenamente adequadas à sua missão de acolher e ensinar crianças e jovens na língua e cultura dos seus pais (ou daqueles que a elegeram com sua ou desejam que seja a dos seus descendentes). Portuguesa e moçambicana, sem sótãos de preconceitos – defendendo-se deles, que teimam em nunca acabar. Por lá fiz uma oficina de escrita do texto teatral, com um tema quente: a recente greve geral de 1 de Setembro contra o aumento do custo dos bens essenciais, com vários mortos e feridos entre o povo do “caniço”. Mas isto é outra estória, agora vou à dos livros.

Desta Escola têm saído, desde 2007, salvo erro, as caixas Acácia: em cada uma delas, quatro pequenos livros, com10,5x15cm, umas quarenta páginas, por vezes menos, por vezes um pouco mais, agrafados e colocados na caixa de cartolina. A Acácia tem direcção editorial do António Cabrita e coordenação da Teresa Noronha (EPM/CELP). É um projecto editorial deveras singular, desde logo por vir de uma instituição oficial (que em regra são pouco receptivas à erupção da literatura que não consta dos manuais do Ministério). O casal António/Teresa aposta na diversidade linguística, cultural, geracional. Vale a pena espreitar alguns exemplos: da pátria moçambicana, Armando Artur (nascido em 1962), Guilherme Ismael (1949-1994), João Paulo Borges Coelho (1955), Virgílio de Lemos (1929), Fernando Chiluvane (1982-2005); da pátria lusa, Carlos Alberto Machado, João Manuel Ribeiro, Matilde Ferreira Neves, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Vergílio Alberto Vieira; do Brasil, Hilda Hilst, Nicodemos Sena, Renato Suttana; e ainda uma antologia de poesia de Charles Baudelaire, Pierre Reverdy, Giuseppe Ungaretti e Roberto Juarroz (refiro-me apenas às 4 caixas que tenho, das 7 publicadas).  

O diálogo intercultural e a lusofonia, que empapam tantas gargantas e quase nada concretizam, têm aqui um belíssimo exemplo a seguir. Fazer “lá”, mas também “cá”, transverter, miscigenar mas também singularizar, misturar mas também saber distinguir, porque, justamente, não somos todos iguais (ainda bem), somos diferentes e criamos os espaços de tolerância e generosidade que podem (ou não, nada obriga) criar, alargar espaços de mesmidade – que não servem, aliás, se não para fortalecer a alteridade.

Seja como for, estas precárias caixas Acácia brilham no “cimento” de Maputo, por vezes explodem, criam embaraços e engulhos, mas também acetinam mãos ásperas, limpam olhos com as águas tépidas do Índico. Eh pá, só dizes isso por amizade. É verdade – mas não é a verdade toda.

Saudades de Maputo…

22/06/2012

EPITÁFIO

por cam

Quem conhece Carlos Mota de Oliveira? Em 1973 editou “Isabelarcoirisdovinho”, edição de autor – livro esgotado. Seguiram-se mais de 30 obras de poesia – sim, de poesia –, algumas delas sob os nomes literários de Ana de Sá e José Bebiano. Muitas delas esgotadas.

Eu, mea culpa, também não conhecia a poesia de Carlos Mota de Oliveira – até há poucos dias. Por um acaso, chegaram até mim 5 obras: “Uma chávena de café que saiu do Tejo na manhã do dia sete de Julho de mil oitocentos e setenta e oito e nunca mais voltou”, “Os poetas adoram massagens”, “Ao cair subtil da tua saia”, “O mar português não sabe ler”, “Os portugueses são imbatíveis no terço” (todos edição de autor, 2011, produção milideias.pt). Cinco pequenos livros. No formato – 11×15 centímetros – e no número de páginas – de um mínimo de 14 a um máximo de 96. Se procurarem na net, poderão ficar a saber que Mota de Oliveira nasceu na cidade de Lisboa em 1951. Chega, digo eu, que isto de biografias pouco contará para o mérito ou demérito do poeta, deste ou de qualquer outro.

Deveria ter começado por escrever que me consolei a lê-lo (esta é para os açorianos, em particular os lajenses, que tão saborosamente usam o verbo “consolar”!). Este senhor poeta Mota de Oliveira tem uma peculiar maneira de usar as palavras. Nestes pequenos livros, impressos em papéis de cor forte, a gosto do autor, fica a louça toda partida. Mas não por um elefante desajeitado em loja atafulhada, mas sim por delicadas mãos (e o resto), meticulosamente, notam-se umas pequenas hesitações, nada de especial, e depois, tumba! (não, não é pimba!). A ironia (cáustica, logo corrosiva, inteligente, logo cáustica) atravessa estes livros do poeta: “O teu candeeiro ladra como ladram / todos os candeeiros do mundo / e como ladram os cães em Portugal. Na realidade, posso ver poesia / em quase tudo / e nunca ninguém me impediu / de ficar nos teus lençóis / sem ter onde dormir.” (“F”). Ou este “EM LOUVOR DE CAVACO SILVA” (que irresistivelmente lembra o Cesariny de “Os anos felizes” ou de “Investigação semântica”): “Eu boliqueimo-me / Tu boliqueimas-te / Ele boliqueima-se / Nós boliqueimamo-nos / Vós boliqueimai-vos / Eles incendeiam-se!” Em JANTARES, longo poema de quase 70 páginas, Carlos Mota de Oliveira implode a baboseira dos “barões” da política. Um cheirinho: “Camaradas / e / amigos  // acaba de entrar / na sala / o Doutor Soares // sempre real / cheio / de casta // de boa / raça // sem erupções / cutâneas  // pulquérrimo / pulquérrimo // e português / português / e português! / Pois é, pois é, / camaradas, / acaba de entrar // sem virar  / a / cabeça  // sem virar / uma esquina / sem virar-se / no leito / sem virar / um copo de vinho / e português / português / e português!” O verso curto, saltitante, ondeante, com uma sobrevalorização que lhe advém também das repetições, como ficaria bem ele na voz de um grande actor ou numa música à rés do corpo de um Caetano Veloso.

Diz o próprio, na sua página web, que “faleceu a 06/06/2011 barbaramente trucidado por uma automotora na estação de Alcântara”. Daí o que, ainda vivo, escreveu na última página do seu “Os poetas adoram massagens”:

INSCRIÇÃO TUMULAR

Carlos Mota de Oliveira

Protegido pela Securitas

18/05/2012

ANTERO REVISITADO

por cam

Antero é uma figura que continua a ter alguma presença entre nós – não a que mereceria, convenhamos, mas, mesmo assim, certos sinais continuam a chamar a nossa atenção para o homem genial e atormentado que ele foi. Li, com um imenso agrado, o livro que Armando Silva Carvalho escreveu em torno da sua figura (“Anthero Areia & Água”, Assírio & Alvim, 2010), poemas escritos em simultâneo com a leitura das cartas do poeta açoriano, publicadas por Ana Maria Almeida Martins na IN-CM). Agora, uma singular edição que junta poemas de Emanuel Jorge Botelho (Ponta Delgada, 1950–) e reproduções de arte de Urbano (Ilha de S. Miguel, 1959–), numa pequena edição da Publiçor, Ponta Delgada, saída em 2010: “Antero de Quental, a vida e uma manhã” (com versões em inglês dos poemas – “A life and a morning”).

Trata-se de uma homenagem, e, tal como em certa medida em Armando Silva Carvalho, o que agora parece despertar em particular o interesse do poeta e do pintor seja o peculiar suicídio de Antero – na epígrafe, o excerto de um poema de Couto Viana: “À porta do Convento da Esperança, / Rezo ao banco de Antero. / A sua alma, em paz, ali descansa, / depois do tiro do desespero.” Botelho, nos seus cinco breves poemas, adere à razão de Antero no seu desacerto com a vida, nocturna, como um peso de alma, “duas lâminas embutidas / no pulso, calado, da morte.” De um mesmo lance, o seu contrário: “vou-me embora, disseste, olhando a manhã nos olhos / cansado do embuste da noite. Os opostos “noite” e “dia” funcionam aqui como motor da retórica poética de Emanuel Jorge Botelho. Antero, para ele, foi um ser incomunicativo, à espera de uma libertação, um ser que falava “para dentro do silêncio, / esse lugar enxuto de palavras / onde deus Guarda papel branco” – forte imagem que vai para além da relação de um poeta que fala de outro poeta, mas da criação poética tout court. Todas as suas palavras neste livro poderão, aliás, ser lidas nesta perspectiva – e não me parece abusivo lê-las assim, um sentido preito ao poeta e à poesia.

A participação do pintor Urbano é a reprodução do seu “Caderno de Antero”, de 1991 (técnica mista sobre papel) e “Antero” (óleo e colagem sobre tela), de 1992, ”não existindo, portanto, coincidência temporal entre a arte de Urbano e a escrita dos poemas por Botelho (em 2009). No “Caderno”, o rosto de Antero é o motivo central. Surge ora contrastado quase a negro-branco, ora matizado, ora apenas esboçado – como se desaparecesse diante dos nossos olhos inquiridores ou tão pouco chegasse a existir, uma espécie de limbo, in betwween. Num dos “retratos” oferece-se um rosto ensanguentado, melhor dizendo, um rosto sem rosto em que o sangue é a sua única identidade. O corpo (adormecido, morto?) não parece pacificado – ou uma possibilidade de Antero continuar entre nós, sobreviventes. Com o mesmo sinal parece o pormenor do banco (do suicídio) – antes ou depois da morte, com uma nuvem que derrama uma água que (já lavou) o sangue derramado (pelo inacreditável tiro duas vezes repetido).

Precioso livro para nos acompanhar na leitura de Antero e na reflexão sobre a (sua) vida.

10/05/2012

ACONCHEGOS

por cam

Em ilhas que são desertos de livrarias, e em tempo chuvoso, sabe bem receber livros de amigos.

Ontem e hoje, foram: cerca de 20 obras da editora Sempre-em-Pé, de que deixo aqui a foto de Instrumentos de Sopro, de Ruy Ventura. De outros amigos: Ensinar Caminho ao Diabo e Um Lugar a Menos, do Miguel-Manso (ed. autor). E de João Borges da Cunha e Jorge Fazenda Lourenço: Corpo Arquitectura Poema. Leituras inter-artes na poesia de Jorge de Sena (Assírio & Alvim).

Junto o Já Não Vem Ninguém, do Sidónio Bettencourt (Veraçor), que veio em outra leva de ofertas mas que ainda não tive oportunidade de ler, e por isso se junta a estes.

O monte cresce…

10/04/2012

DIMAS SIMAS LOPES

por cam

O prestigiado médico e galerista Dimas Simas Lopes lançou o romance Sonata para um viajante, uma edição Calendário de Letras,  no passado dia 31 de Março, na sua Carmina  Galeria (Angra do Heroísmo), com apresentação do poeta e crítico literário do jornal Expresso Carlos Bessa. No dia 1 de Abril foi a vez do escritor Álamo Oliveira fazer a apresentação na Freguesia dos Biscoitos, e no dia seguinte, na Livraria Solmar (Ponta Delgada), com apresentação a cargo do escritor Vasco Pereira da Costa (que antecedeu na Direcção Regional de Cultura dos Açores a pianista Gabriela Canavilhas e presentemente Jorge Paulus Bruno, ex-directo do IAC e do Museu de Angra do Heroísmo). 

Estou curioso.

02/04/2012

PRIMEIRA VIAGEM

por cam

Primeira Viagem, livro de poemas do Fernando Machado Silva (edição Orfeu, Bruxelas), é apresentado Sábado 7 de Abril, pelas 21.30 horas, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa.  

(abraço forte, Fernando)

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