NEMÉSIO vs MAGALHÃES #01

por cam

Em Os Dois Crepúsculos (Lisboa, A Regra do Jogo, 1981) Joaquim Manuel Magalhães (Peso da Régua, 1945-) conta como se encontrou, admirado, com a poesia de Vitorino Nemésio (Terceira, 1901-Lisboa, 1978), a partir da leitura de Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (Lisboa, Arcádia, 1976) – e diz, coisa curiosa, que leu “às arrecuas toda a poesia de Nemésio, entusiasmado pelos catorze poemas de Andamento Holandês.” (p.18)

Joaquim Manuel Magalhães

O texto de Magalhães edita-se em livro em 1981, mas presumo que o original, publicado em jornal, terá sido escrito pouco tempo depois da morte de Nemésio, que ocorreu em 1978. Magalhães confessa que “não gostava da figura humana Vitorino Nemésio.” (p.16) “Quando um homem morre o que vamos fazer?” O autor de Uma Luz com um Toldo Vermelho demarca-se daqueles que “tratam de arranjar um pássaro necrófilo que cantelacrimeje sobre o pobre morto em nome da perpetuação.” (id.) Porém, “Há uma coisa (…) que começa a salvar-mo: nunca foi o laureado da maioria para nobel nenhum. Nunca publicitou marcas de vinho. Nunca dirigiu associações de escritores portugueses. Nunca andou a escrever cartas zangadas sobre os pobrezinhos escritores portugueses. Nunca pertenceu a nenhum movimento literário, desses que em meias-dúzias se juntam para dizer como a literatura deve ser, mais ou menos modernaça nas suas cópias da última geração que os antecedeu lá fora. Pode ter feito coisas piores, mas estas, tão feias, nunca fez, que eu saiba.

É um grande alívio ter-se uma literatura em que há um poeta que se sente diferente dos outros e sem o fazer por rabujice fechada em aldeias, ou por atavismo provinciano de reaça moral. Um poeta que é regional por cosmopolitismo (e não por neo-realice), católico por formalismo (e não por beatice), erudito por modernidade (e não por alfarrabice). É deste poeta que eu sinto a falta de não ir escrever mais poemas, por muito que pertença o homem que o trazia consigo a um desejo de vida que me incomoda a mim.” (p.17)

Vitorino Nemésio

“Não deixem que este poeta se vá embora. Não se preocupem com a fúnebre comemoração. Leiam-no. Assim ajudam a «matar a morte».” (p.19).

Este texto foi publicado em livro há 30 anos, não sei se repararam bem.

 [continua]
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