PALAVRAS SOBRADAS

por cam

Uma das verdades dos nossos dias, que poucos contestarão, creio, é a aceleração do tempo. “O tempo já não sobra como dantes!” Pois não. E o pior não é isso; em cada parcela do pouco tempo posto à disposição de cada um de nós temos de cumprir pelo menos o dobro do que antes fazíamos no mesmo tempo contado de relógio: temos mais máquinas, mais sofisticação tecnológica, temos mais habilidade e, sobretudo, temos o que não gostamos: sempre alguém a exigir-nos pressa e até a colocar à nossa disposição os meios adequados a tal, desde a milagrosa máquina de cozinha doméstica até às mais velozes vias de comunicação universal virtuais. Fazer rápido, light, micro, jovem, superficial – mais depressa mais depressa que o tempo urge! Para quê? – perguntarão, algo distraídos, os mais ingénuos; para nos fazer sobrar tempo para o prazer ou para o mais requintado ócio? Não senhor, não: para nos fazer sobrar mais tempo a fornecer à máquina devoradora do capitalismo – liberal e selvagem.

Nos meus primeiros dias de “ilhéu emprestado”, conheci aqui na ilha do Pico um senhor que nunca mais esquecerei. Tem um nome, tem, já lá iremos, não tenham pressa, primeiro, a história. Foi para os lados da Ponta da Ilha. Entrei numa taberna, acompanhado da Sara e de um casal de amigos, estes e eu absolutamente desconhecidos para o homem que nos olhava com a precisão lenta da sabedoria. Os seus licores e aguardentes já tinham feito crescer águas nas nossas bocas mesmo antes de lhes sentirmos o cheiro e o sabor e por isso pedimos, logo, “um cálice daquele, como se chama?” Entre este pedido desajeitado e o nome pronunciado decorreu um tempo incomensurável (não apenas porque não se poderia medir mas porque foi um tempo de outra natureza). O nosso anfitrião olhou-nos com os seus olhos claros, lavou um cálice bojudo na água corrente, deixou escorrer a água em demasia e depois encheu-o de uma bebida rosada, ardente. Pousou o cálice no balcão. “Bebam!” Bebeu o meu amigo, depois a sua esposa e depois eu. Para a Sara fez questão de ser ele a dar-lhe o cálice à mão. O sorriso inicial nunca ele o desfez. Sobraram tantas palavras naquele tempo fora do tempo! Mentira: trocámos umas palavras de ocasião, porque o essencial já tinha sido dito.

Sobraram palavras, é verdade também, para cada um de nós poder continuar calmamente a não ter pressa de as gastar todas de uma só vez – ou a reduzi-las a uma espécie de linguagem primeva e atávica, monossilábica e unidireccional. Sobraram palavras para não nos esquecermos que uma palavra gritada não vale necessariamente mais que uma palavra adornada pelo silêncio. Sobraram palavras para nelas atentarmos bem e percebermos o valor que têm para se pensar – e nunca para agredir.

Pensar calmamente. Os filósofos gregos (e outros) tomaram o seu tempo com sageza. Talvez, coitados, nunca tenham enxergado que as suas palavras feitas pensamentos chegariam a um tempo em que a palavra e o pensamento são desprezados, com pouca ou nenhuma cotação nas Bolsas. A Justiça interessa a quem? A quem a ministra ou a quem ela se aplica? Resposta fácil e imediata: não sei. Platão pôs Sócrates (o do século V a.C. e que também não sabia de engenharia) a falar com quem não estava de acordo com ele e, sobre este e outros assuntos, escreveu, pelo menos, uma obra de algumas centenas de páginas. E a nossa opção agora, é, creio: darmo-nos tempo para ler calmamente essas e outras muitas centenas de páginas e ficarmos um pouquinho mais apetrechados para lidar com as asperezas e truques nojentos do injusto mundo em que todos vivemos; ou: procuramos já já na wikipedia uma definição rápida de justiça segundo Platão na sua República e ficamos…; ou:…

Se me permitirem, ficarei então por aqui, por estas páginas… ah… quase me esquecia!: muito obrigado, senhor Manel Alves, pela divinal aguardente de amora, que Deus o tenha para sempre no seu seio acolhedor!

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